Segundo capítulo, yay! Obrigada pelas reviews, elas são muito importantes para o meu ego *.*

O segundo capítulo está bem maior do que o primeiro, espero que gostem ^^

Leitores não-brasileiros, não tem problema postar reviews em espanhol e/ou inglês

Capítulo 2

Flaky entrou na sala de aula exatos cinco segundos antes do sinal tocar. Jamais soube como tivera a capacidade de se levantar, pegar a bicicleta ligeiramente avariada e pedalar o restante do caminho até a escola. Ainda estava dolorida do tombo, mas o pior já tinha passado: tinha até mesmo limpado o sangue do corte na manga longa de sua blusa vermelha, de forma que o ferimento leve já podia passar despercebido. Só esperava que o pai fosse compreensivo e a deixasse na escola a caminho do trabalho a partir do dia seguinte. Não sabia se deveria chamar a polícia, contar às amigas, guardar para si... Já tinha sido assaltada antes, mas nunca tinha sentido tanto medo!

Ela sempre fora muito apreensiva. Medrosa. Desde pequena tinha medo de sair sozinha à noite, medo de ser assassinada, torturada, sequestrada... e mesmo agora, com 16 anos, não tinha melhorado muito. Escondia o rosto por trás da franja vermelha, os cabelos crespos sempre armados e cheios de caspa, tinha sardas no nariz e olhos grandes, castanhos. Não era uma linda e alta loira com mechas rosadas no cabelo e olhos azuis como Giggles, ou uma morena de longos cachos negro-azulados e olhos escuros no formato de amêndoas como Petunia. Também não tinha o desembaraço das duas com os garotos, o modo como se vestiam e maquiavam com cuidado, iam em festas, baladas e tudo o mais. Já a ideia de "noite animada" para Flaky era um filme e uma caneca de chocolate no seu quarto.

Sentou-se em uma das carteiras do fundo, atrás das amigas. As duas acenaram para ela, e Flaky mal conseguiu sorrir de volta. Pegou os livros e seu caderno, e foi poupada de entrar na conversa das duas pelo professor Lumpy, de Artes, que entrou na classe. Ele colocou suas coisas sobre a mesa e olhou para o relógio de bolso. Suspirou.

- Bom, classe, vamos começar com um... é... desenho. Livre. Isso, desenhem o que quiserem... hum... tirando coisas pornográficas, é claro... hum... estão todos aqui?

Giggles e Petúnia caíram no riso, e mesmo Flaky, que ainda estava pensativa e preocupada, deu um sorriso pálido. Nesse momento a porta se abriu, e a ruivinha sentiu como se tivesse engolido um cubo de gelo. A primeira coisa que viu foi a mão segurando a borda da porta, grande, magra e com uma daquelas luvas de couro usadas para fazer musculação. A jaqueta grande camuflada com mangas enroladas até os cotovelos e a calça combinando. Os coturnos bem engraxados, por fora da calça. Uma boina verde sobre cabelos ainda mais verdes. Aquele pesadelo de olhos amarelos que a tinha agarrado, ameaçado e machucado. Levou a mão ao pescoço, o corte tinha voltado a doer sem razão aparente...

- Ah, é, é, eu já ia esquecendo – Lumpy coçou a cabeça e deu um sorrisinho de dentes tortos – pessoal, esse é o aluno novo da classe de vocês, Flippy. Chegou um pouco tarde, não, mocinho?

O rapaz encarou o professor. Lumpy era mais alto, mas o demônio de verde era mas forte e intimidador com aquelas roupas militares.

- Pois é, me atrasei. Foi mal. Fui atropelado por uma guria retardada no caminho.

Por um breve momento a raiva superou o medo de Flaky. Quem ele pensava que era para chamá-la de "guria retardada"? Não era culpa dela se as calçadas da cidade pareciam queijo suíço! Mas dois segundos depois ela se lembrou da faca em sua garganta e voltou a se esconder atrás de Petúnia.

- Sente-se... hum... deixe-me ver... atrás de Giggles, ao lado de Flaky. É um bom lugar pra você, pode se sentar lá.

Flippy levou a mão à testa numa imitação jocosa de continência e foi até a carteira indicada pelo professor. A menina ruiva soltou um guincho agudo de terror, e Petúnia olhou para trás, preocupação espelhada em seus belos olhos negros:

- Ei, Flaky, tá tudo bem aí?

- S-s-sim. T-tudo ok.

Pensou se não deveria contar às amigas do acidente que sofrera a caminho da escola, mas quando ia começar a falar o assunto sentou-se bem ao seu lado. Ela arrastou a carteira para longe dele o mais discretamente que pôde, soltando um gemido baixo de medo.

- Srta. Flaky?

Foi como se alguém tivesse espetado seu traseiro com um alfinete: ela deu um salto na cadeira, se empertigando.

- Sim, professor!

- Ajude seu novo coleguinha, sim? - a classe gargalhou. Lumpy tinha o costume de tratar os alunos como se tivessem cinco anos de idade. Mas a ruiva não riu: seus olhos se arregalaram até ficarem parecidos com duas enormes moedas de cobre. Não era verdade, não podia ser verdade! Ele era um monstro! – você vai ficar encarregada de mostrar a escola para ele no intervalo e acompanhá-lo nas aulas. Certo?

Flaky arriscou uma olhada para o lado. Flippy até então estava sentado relaxado na cadeira, as pernas abertas e o corpo inclinado para trás, a boina puxada sobre o rosto. Mas quando se sentiu observado, levantou os olhos para ela e por um momento a menina pensou ver um brilho amarelado em seu olhar, quando ele deu um meio sorriso torto e malicioso.

Ele vai me matar. Vai cortar meu pescoço, arrancar minhas tripas e moer meus ossos!

O sinal tocou, e Flaky levantou-se de um salto como se tivesse sido eletrocutada. Enfiou o caderno de Artes e o estojo na mochila de qualquer jeito e já ia saindo em direção à porta, quando uma mão fechou-se em torno de seu pulso. Mais uma vez ela guinchou como um animal assustado, e virou-se para encarar os olhos escuros aterrorizantes daquele demônio de cabelo verde.

Ela estava completamente aterrorizada. Olhou em volta, ninguém os observava. Só Giggles e Petunia que a esperavam na porta, conversando absortas e dando risadinhas maliciosas, de vez em quando laçavam um olhar na direção deles. Enquanto isso, aquele garoto continuava segurando seu pulso trêmulo. Flaky levou a outra mão ao pescoço involuntariamente e se virou devagar para ele.

Flippy sorria. Mas não era aquele sorriso diabólico que a atormentara durante boa parte da manhã, quando se lembrava da cena do acidente. Era um sorriso comum, normal, simples.

- Você é a Flaky, certo?

- C-certo... - ela sentiu os joelhos tremendo e o ar faltando. Uma crise. Que ótimo momento para isso!

- Então, eu estou meio perdido, a próxima aula é de Geografia...

- Professor Russel, sala 15, é a terceira porta do lado direito no corredor. Com licença, preciso ir ao banheiro!

Ela se soltou com um puxão e saiu correndo. Passou pelas amigas e foi direto para o sanitário das meninas. Sentou-se no chão, dentro de um dos boxes e respirou fundo bem devagar. Lágrimas encheram seus olhos, e à medida que chorava baixinho ia se acalmando lentamente. Ouviu uma batida suave na porta do box.

- Flaky?

- Oi, Petunia. A porta está aberta.

A morena entrou no box apertado e sentou-se sobre a tampa do vaso. Giggles vinha logo atrás, e abaixou-se na frente de Flaky.

- O que aconteceu, amiga? - perguntou, segurando-lhe as mãos.

- Não... não foi nada...

- Você teve uma crise, não foi? - perguntou Petunia, e ela recomeçou a chorar.

- Chhhh, calma, já passou...

As duas a consolaram até que ela voltou ao normal. Levantaram-na do chão, fizeram com que lavasse o rosto e respirasse fundo até melhorar. Não era novidade para as duas lidar com a síndrome do pânico de Flaky, que sofria com isso praticamente desde a pré-escola. Mas de uns tempos para cá ela parecia praticamente curada, já fazia quase um ano desde o último ataque de pânico...

- O que aconteceu, Flaky? - perguntou Giggles carinhosamente, enquanto as três voltavam para a classe – você parecia ótima num minuto, e de repente...

Ela coçou a cabeça, fazendo um punhado de caspas cair sobre seus ombros. As amigas estavam com suas bolsas, mas pelo visto a dela tinha ficado na sala de artes...

- Foi aquele maníaco psicótico assassino de ciclistas.

- Quem?

Nesse momento elas chegaram na sala. Russel, o professor de Geografia, tinha começado a falar sobre algum arquipélago do Caribe, mas agora debatia técnicas de pesca em alto-mar com Cuddles e Toothy.

As meninas foram para seus lugares de costume. Flaky viu sua mochila sobre a cadeira... ao lado dele.

Flippy sorriu e acenou para ela. A menina engoliu em seco. Ele parecia bem diferente do monstro assassino que a emboscara no caminho para a escola, apesar de ainda parecer ameaçador naquelas roupas de soldado.

Elas se acomodaram e Giggles deu um sorrisinho para Flippy:

- Obrigada por trazer a mochila da Flaky.

- Às ordens – a voz dele era grave e bonita, não parecia em nada a voz daquele maníaco – como você está, Flaky?

Ela corou e olhou para os próprios tênis.

- T-tudo bem, eu só p-passei mal. Comi uns cookies meio estragados hoje de manhã.

O garoto levantou as sobrancelhas.

- É melhor você se cuidar

- S-sim...

Nesse momento o prof. Russel deu um berro:

- Ora bolas, seus ratinhos do mar! Vocês estão me embromando, suas pestinhas! Página vinte e dois do livro, AGORA! Ou eu vou fervê-los em fondue de queijo!

Todos se apressaram em abrir os livros, e Russel voltou às explicações sobre comércio e política na América Central. Giggles virou-se para Flaky, curiosa:

- Ei, Flake, quem foi o maníaco psicótico que te atacou?

- É, conta mais! - pediu Petunia.

Ela olhou de relance para Flippy. Ele estava rígido na cadeira, olhando fixamente para seu livro-texto. Sabia que ele estava ouvindo. E, por algum motivo, sabia que não devia contar a verdade para as amigas. Pelo menos, não enquanto não tivesse certeza do que acontecia com ele.

- Foi um maluco que tentou me assaltar. Me derrubou da bicicleta e tentou levar minha bolsa. Mas aí chegou um cara, deu uns socos nele e ele correu.

- Ah...

O prof. Russel deu mais alguns gritos e a classe se calou por completo. Flaky ainda olhava para o colega do lado de tempos em tempos. Ele tinha relaxado um pouco, agora riscava algo nas margens do livro de Geografia. Pouco a pouco ele foi voltando ao normal, assim como a ruiva. Por mais que estivesse com medo, por mais que o incidente daquela manhã a tivesse assustado, não tinha como ele matá-la ali, numa sala de aula com outras vinte pessoas. Ou tinha?

Flaky viu Lifty, um dos piores bagunceiros da classe, pedir licença para ir ao banheiro. Ela suspirou, cansada. Sabia o que ele ia fazer: pôr fogo em uma lixeira, tocar o alarme de incêndio e fazer com que todos fossem dispensados mais cedo. Ele e Shifty, seu irmão gêmeo, sempre faziam esse tipo de coisa. E, por algum motivo desconhecido, nunca eram pegos...

Estava certa. Em menos de dois minutos a sirene do alarme soou, causando pânico no professor e em algumas outras classes. Petunia, Giggles, Cuddles, Toothy e todos os outros que conheciam bem os truques de Lifty e Shifty, apenas reviraram os olhos e começaram a arrumar o material para sair. Ela ouviu um barulho alto a seu lado. Flippy tinha derrubado o livro e pressionava o indicador e o polegar sobre os olhos com força. Mordeu o lábio inferior, e gotas de suor surgiram em sua testa. Ele respirava rápido, arfando, e mesmo aterrorizada a ruivinha sentiu pena dele. Devia estar passando mal ou algo do gênero. A mão esquerda dele se contraía e relaxava em espasmos. Flaky agiu antes mesmo que se desse conta: tocou o braço dele e sussurrou seu nome:

- Flippy? Flippy, está tudo bem?

O garoto baixou a mão direita devagar. Seus olhos estavam amarelados, com aquela estranha luz demente, embora não estivessem tão brilhantes como quando ele a atacara. Lentamente aquele brilho maníaco desapareceu. Flippy arfava como se tivesse corrido quilômetros, gotas de suor escorrendo por seu rosto.

- Agora estou. Obrigado.

Read & Review pleeeeease *.*