Olááá!

Antes de mais nada, obrigada pelas reviews, e cá está o terceiro capítulo da fic. Esse era o último que eu tinha manuscrito, então, daqui pra frente as atualizações vão demorar um pouco mais. Mas vou continuar atualizando!

Beijos, read & review please!

Capítulo 3

Estava sentada na última carteira, com Flippy ao seu lado, na aula de Biologia. Estavam dissecando sapos. Flaky abriu a caixa e tirou o bicho de lá, um enorme sapo marrom-esverdeado de olhos saltados.

- Flippy, me passa o bisturi?

- Claro.

Ela olhou para o colega, e ficou paralisada de choque. Flippy lhe estendia sua faca de caça, a lâmina manchada de sangue seco (meu sangue, pensou ela, amedrontada), e seus olhos tinham aquele brilho maníaco cor de ouro. Ele abriu um sorriso de orelha a orelha, exibindo dentes anormalmente pontiagudos, rindo de um jeito diabólico.

- Essa é bem mais afiada, queridinha... quer experimentar?

Ela fez menção de se levantar, mas Flippy foi mais rápido: agarrou-a pela cintura, colando seu corpo no dela. Flaky gritou quando a ponta afiada da faca começou a traçar uma reta lenta e dolorosa por baixo de sua blusa, acompanhando o cós de sua minissaia.

- Senhorita Furrow, está atrapalhando a aula – disse o professor Pop, sem sequer olhá-la. – continue seu dever. Senhor Finch, ajude-a, sim?

– Pode deixar, professor... – ele disse, olhando para a garota como se ela fosse uma suculenta fatia de pizza que ele estivesse prestes a devorar.

A ruivinha engoliu em seco, lágrimas descendo por seu rosto. Nenhum deles estava vendo aquilo? Olhou para Flippy, que ainda a segurava com uma das mãos, tão próximo dela que estava quase sentada no colo dele. O garoto lambeu o sangue fresco na faca, sempre olhando-a nos olhos, sempre sorrindo como um demônio.

- Grite mais, sua vadiazinha. Quero ouvir você gritando!

Cravou a faca na coxa de Flaky, que não conseguiu se conter e fez o que ele queria.

- MAIS ALTO!

Flippy girou a faca, provocando uma dor excruciante na menina, que gritava e chorava. O sangue escorria como uma cachoeira, encharcando os dois.

- Isso, amorzinho – ele riu – chore mais. Grite bem alto. Sua dor é o meu tesão. De novo!

Empurrou a faca tão fundo que a ponta raspou no osso, e Flaky gritou alto o suficiente para acordar todo o quarteirão. Agarrou o travesseiro, chorando. Tinha acordado com seu próprio grito. A porta do quarto se abriu e seus pais entraram.

- Flaky!

Ela se jogou nos braços deles, soluçando como uma criança. Estava com falta de ar, a segunda crise de síndrome do pânico em uma semana.

Estava lidando bem com a situação na escola. Flippy se mantinha à distância, cumprimentando-a educadamente e raramente falando com ela. Petunia e Giggles já tinham, para desespero de Flaky, tentado flertar com ele, mas o garoto não lhes dava muita bola. Já fazia cinco dias que ele tinha se mudado para lá, e quatro períodos letivos ao lado dele tinham estraçalhado os nervos da ruiva. E pensar que ainda era sexta-feira...

Acalmou-se devagar, e quando parou de chorar os pais saíram. Não conseguiria mais dormir, sem chance depois daquele pesadelo. Por mais que Flippy não fizesse nada contra ela desde a trombada de bicicleta (e não tinha mais surtado desde a aula de Geografia na segunda-feira) ela ainda tinha um medo irracional do rapaz.

Sentou-se na cama e abraçou os joelhos. Tentou se consolar, pensando consigo mesma que já era sexta. Só mais um dia, e já seria fim de semana. Dois dias inteiros livre daquele maníaco!

Tomou café e pegou carona com o pai como de costume. Chegou cedo na escola e foi para a sala de aula, onde encontrou, sobre sua carteira, um papel dobrado em forma de um passarinho, com seu nome escrito em uma das asas. Desdobrou-o e viu uma caligrafia simples e angulosa.

"Não fique com raiva de mim. Precisamos conversar. F."

"F". De Flippy. Só podia ser. Ela coçou a cabeça, confusa. Primeiro ele tentava matá-la, e agora queria falar com ela? Pro inferno com aquele retardado! Não queria nada com ele!

- O que é isso?

O papel foi arrancado da mão dela com violência.

- Hum, então a senhorita piolhenta está com raiva do namoradinho?

Flaky olhou com raiva para o garoto. Shifty era um dos motivos pelos quais tivera inúmeros ataques de pânico quando criança. Era, junto com seu gêmeo Lifty, um contrabandista de quase tudo na escola: CDs e DVDs piratas, bebidas, cigarros e, acima de tudo, informações. Pelo que ela sabia, Sniffles, o editor do jornal da escola, fazia parte do dever de casa deles em troca de furos de reportagem. Faziam qualquer coisa para ganhar dinheiro ou se livrar dos trabalhos escolares, mas atormentar Flaky era como um esporte para os dois. Lifty e Shifty Stoll eram idênticos, franzinos e magros, com cabelos pretos até os ombros e olheiras profundas que faziam com que parecessem dois guaxinins. A única forma de diferenciá-los era um boné verde que Lifty usava o tempo todo.

Os dois tinham aterrorizado a infância dela, espalhando boatos, pregando peças e dando sustos na menina. Tinham até mesmo "deixado escapar" para mais da metade da escola que ela tinha piolhos, quando na verdade era só um problema sério de caspa. Giggles e Petunia sempre a protegiam, mas nesse momento estava sozinha na classe com Shifty. Não fazia ideia de que tipo de histórias ele e o irmão iam espalhar a respeito dela e de Flippy...

Nesse momento lembrou-se, pela bilionésima vez, do acidente de bicicleta há quatro dias. Do corte na garganta. Dos olhos amarelos e assassinos de Flippy.

Ora bolas, tenho problemas muito maiores do que esses dois ladrõezinhos de meia pataca!

Arrancou o papel da mão de Shifty e o empurrou.

- Não me enche o saco, seu panaca!

- Ui, estamos bem nervosinhos, hein? Que foi? Seu soldadinho não fez o serviço direito essa noite?

- Em primeiro lugar, eu não estou namorando com ele! Em segundo, se estivesse, não seria da sua conta! E em terceiro, eu prefiro namorar o lunático do Flippy a passar dez segundos do seu lado!

Saiu da sala, com raiva.

Ainda faltava mais de meia hora para começarem as aulas, e por ser o último dia da primeira semana de aula boa parte dos alunos tinha faltado. Flaky sabia que muito provavelmente suas amigas não iriam, o que a deixava sozinha com ele. E agora, como se não bastasse isso, Shifty espalharia boatos pela escola toda de que ela estava namorando com aquele garoto psicótico!

Flippy não era normal. Qualquer um que andasse por aí com uma farda do exército e uma faca ameaçando as pessoas não poderia ser normal. Um cara capaz de cortá-la e depois agir como se nada tivesse acontecido não era nem um pouco normal. Céus, uma pessoa com a capacidade de tingir os cabelos de verde não tinha os parafusos no lugar!

Ela se sentou, desolada, no pátio. Viu alguns alunos mais velhos, do último ano, fazendo um círculo em torno de Lifty. Ele parecia estar vendendo algo ilícito, pelas olhadas que dava por cima do ombro. Flaky não ligou, sabia que mais dia, menos dia aqueles dois iam acabar ultrapassando todos os limites e se dando muito mal, mas não se importava. Eles bem que mereciam.

Subitamente Shifty apareceu no pátio e foi para junto do irmão. Os dois trocaram algumas palavras, o de boné voltou a negociar com os alunos veteranos enquanto o outro ia na direção da secretaria. Isso era, no mínimo, preocupante, pois separados os dois causavam o dobro de problemas!

Ela não quis ficar assistindo às armações dos Stoll, portanto, foi voltando para a sala de aula. No entanto, ao entrar no corredor ouviu alguém chamá-la:

- Oi, Flake!

Virou-se, com raiva, mas não conseguiu manter a expressão carregada ao se deparar com seu pesadelo de carne e osso. Como em todos os outros dias da semana, ele usava jaqueta e calças camufladas, coturnos e a boina verde. Com uma mochila grande demais, todos os dias ele parecia pronto para ir à guerra assim que terminasse a lição de Gramática ou coisa assim. Sentiu um bolo se formar em sua garganta, e mesmo sabendo que seria rude demais virar as costas e correr na direção da classe, foi o que ela fez. Infelizmente, para cada três passos dela bastava um de Flippy, e ele a alcançou antes que percorresse cinco metros, agarrando seu pulso. A menina sentiu que estava prestes a hiperventilar.

De novo. Ótimo. Ele vai me fazer ter mais um ataque!

- Ei, ei, eu não vou machucar você. Só quero conversar.

Flaky não o encarou. Tremia dos pés à cabeça, e as palmas de suas mãos estavam úmidas. Respirava rápido e aos arrancos, olhando em volta como se buscasse uma saída. O corredor estava deserto, e a escola em geral, quase vazia. Ela sentiu o coração falhar uma batida. O Colégio Happy Tree era um desses prédios antigos, feitos de blocos sólidos, e dificilmente ouviriam os gritos se uma pessoa fosse morta dentro de uma daquelas salas. Esse pensamento feliz fez a garota choramingar baixinho ao encarar Flippy. Ele a olhava com uma expressão confusa, quase como se não soubesse o motivo de tanto medo.

– Você tentou me matar! - ela guinchou, levando a mão livre ao pescoço num gesto instintivo de defesa – você me agarrou, me prendeu e tentou me degolar, Finch, não diga que não tentou!

– Chhhh, para de escândalo, Flaky! Tenho que conversar sério com você. Nos vemos depois da aula, vamos sair e comer alguma coisa. Ok?

– Não!

Se não soubesse que ele era louco, diria que a expressão nos olhos dele – nesse momento escuros, cor de musgo – era de tristeza.

Não podia deixar de se sentir curiosa, apesar de aterrorizada. Como ele podia num momento agir como um delinquente e depois ser tão atencioso? E como diabos podia, depois de encostar aquela faca medonha em seu pescoço, esperar que não fugisse dele como um camundongo de um leão?

– Flaky, por favor. Uma chance. Só uma. Mas não podemos conversar aqui dentro da escola!

Inspirando profundamente para se controlar, ela tentou não ser convencida pela expressão do garoto, algo muito próximo a um cãozinho abandonado na chuva. Sentiu um arrepio descendo por sua coluna.

Eu vou me arrepender. Sei que vou me arrepender. Espero que as meninas levem flores bem bonitas no meu enterro.

– Tudo bem. Mas em um lugar público, com bastante gente.

O sinal da primeira aula tocou e ela foi para a classe, com Flippy em seus calcanhares. Ótimo. Agora tinha um encontro com o diabo em pessoa. Ele provavelmente ia matá-la, isso se ela não tivesse um ataque cardíaco antes!


Já era ruim o bastante ter marcado de se encontrar com ele depois da aula, portanto, Flaky fez o impossível para não dar atenção a ele durante os três períodos de matemática. Mesmo assim, se pegou observando o perfil sério do rapaz mais vezes do que a prudência recomendaria, e ele sempre acabava percebendo e devolvendo o olhar, divertido. Parecia achar graça nos guinchos assustados da menina, que desviava o olhar depressa. Na terceira vez em que isso aconteceu ele arrancou uma folha do caderno, escreveu algo e dobrou no formato de um pássaro, como o que deixara em sua carteira mais cedo, e jogou para ela. Flaky o apanhou no ar e desdobrou com dedos trêmulos.

"Não precisa ficar com essa cara. Eu não vou te morder... a não ser que você queira XD"

Olhou para Flippy, a tempo de vê-lo dar um meio-sorriso de tirar o fôlego e passar a língua pelos lábios bem lentamente. A ruiva começou a sentir falta de ar e levou a mão ao peito, arfando.

Não. Uma crise agora não, por favor...

Respirou devagar e fechou os olhos, contando de um até dez. Acalmou-se, e quando viu tinha outro bilhete sobre sua carteira.

"Você fica uma gracinha com medo. Dá até vontade de te assustar mais!"

Ela soltou um ganido tão agudo quanto o apito de uma chaleira e cobriu o rosto com as mãos. Ouviu -o rindo, e encolheu-se na cadeira. Ele estava brincando com seus temores!

Decidiu ignorá-lo, o que era bem difícil levando em conta que estava alerta de tal forma a ouvir o ruído da respiração dele e sentir quando se mexia na cadeira. Os minutos se arrastavam, mas passavam. Flippy não mandou mais recadinhos, talvez por ter percebido que e continuasse assim ela teria um enfarto ou coisa parecida, e a deixou copiar a lição em paz. A garota relaxou devagar, e se concentrou em resolver uma equação extremamente complexa. Estava quebrando a cabeça para descobrir o valor de um maldito "x" quando ouviu risadinhas e cochichos próximos. Espiou com o canto dos olhos e viu os gêmeos Stoll passando um bilhete para Flippy. Este o abriu e leu, o sorriso sarcástico desaparecendo de seu rosto à medida que tomava conhecimento do conteúdo. Ele amassou o papel e o jogou no chão, passou as mãos pela testa úmida de suor e abriu a mochila com violência. Jogou os cadernos lá dentro e tirou um frasco de pílulas, engoliu duas delas a seco e sacudiu a cabeça com força.

Flaky arrastou sua cadeira para longe dele, tremendo, olhos arregalados e coração em disparada. Agarrou a borda da carteira com força, mordendo os lábios, num esforço supremo para não gritar.

– F-Flippy?

Ele sacudiu a cabeça de novo e se virou para a garota com uma expressão furiosa e os olhos fechados.

Que foi?

– Você... você está bem?

O garoto soltou um som estranho e gutural, uma mistura de risada e rosnado. Abriu os olhos devagar, fazendo Flaky quase cair estirada no chão com um enfarto fulminante: eles estavam brilhantes e amarelos como os de um gato selvagem.

– Nunca estive melhor, queridinha.

O sinal do intervalo tocou. Ele agarrou a mochila e saiu correndo, deixando-a atônita e trêmula em sua cadeira.


Eu não deveria ter vindo aqui. Posso voltar agora e fingir que não vi nada, fazer de conta que não li aquilo.

Mas não conseguiria, e sabia disso. Algo nele – seu humor instável, seu sarcasmo ácido, sua ousadia e ao mesmo tempo sua estranha doçura – a atraía e ao mesmo tempo repelia. Sem falar na curiosidade, que apesar do medo não era pouca, que tinha a respeito das súbitas mudanças de personalidade. Talvez fosse exatamente isso que a levara até a escada para o terraço depois de ler o bilhete amassado no chão.

"Sabemos de tudo. Se quiser manter nosso bico fechado, apareça no terraço da escola no intervalo."

Não tinha a menor dúvida de que aquilo era coisa dos gêmeos Lifty e Shifty, e pelo estado de Flippy ao sair da classe, tinham descoberto alguma coisa séria sobre ele. Somente a perspectiva de descobrir o que havia por trás daqueles momentos de insanidade dele (e da volta ao normal e um piscar de olhos) fez Flaky continuar subindo a escada empoeirada e cheia de teias de aranha.

Chegou à porta do terraço, que estava entreaberta. Aproximou-se devagar e espiou para fora, mas só pôde ver as costas dos Stoll e, por cima das cabeças deles, o topo da boina de Flippy.

– … e vai ser o tempo exato, Finch. Pelo teste que fizemos na segunda-feira, você não vai ter problemas. Não é mesmo?

Os gêmeos riram como duas hienas, e o outro soltou um rosnado.

– Faço o que vocês quiserem, mas não digam nada a ninguém.

Antes Flaky suspeitava de que ele era um delinquente da pior espécie, mas agora que o vira fazendo acordos com Lifty e Shifty Stoll, tinha certeza. Ninguém que se envolvesse com aqueles dois era boa pessoa. Ainda assim... quando não estava tendo um surto psicótico ele era tão gentil e doce...

Mas ele tentou me matar!

Coçou a cabeça e bufou, irritada, ao espanar os flocos de caspa da blusa. Lá fora, no terraço, a conversa dos três continuava:

– E nem pense em contar para a sua amiguinha piolhenta, ou vai se arrepender!

– Melhor – o outro gêmeo emendou – ela vai se arrepender!

Eles gargalharam e se viraram para a porta. A garota disparou para longe dali o mais silenciosamente que pôde, e se escondeu embaixo da escada. Ouviu os gêmeos passando por ela, rindo e cochichando, e quando eles sumiram de vista subiu para o terraço novamente.

Flippy estava no mesmo lugar, de costas para ela, segurando no alambrado com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos.

Sentindo-se terrivelmente idiota, ela bateu na porta aberta. O garoto se retesou inteiro, como se tivesse levado um choque elétrico.

– Vá embora!

Flaky quase saltou para fora da própria pele com o grito dele e virou-se para descer correndo, mas estacou quando foi chamada:

– Espere!

Voltou-se para o rapaz. Ele ainda estava de costas, mas tinha soltado o alambrado e segurava os próprios cabelos com força, a boina largada no chão.

– O... o q-que foi?

– Flaky, eu... me desculpa. Mesmo. Sei que deve achar que eu estou brincando com você... me perdoa, por favor.

– Eu... ah... bem... – a menina não sabia ao certo o que dizer, afinal, ele estava certo...

– Mas eu não faço isso por mal... acredite em mim, por favor...

Ela não sabia o que dizer ou fazer, não sabia nem o que pensar daquela situação. Sem perceber, foi se aproximando do garoto, que se abaixou até se sentar no chão. Soluçava e chorava baixinho, fazendo Flaky ficar sem palavras e ações. Chegou perto o bastante para tocá-lo no ombro.

– Fiquei preocupada. Achei que você ia matar os dois.

Sentiu que ele estremecia e parava de chorar.

– Matar? – a voz dele estava oca, inexpressiva, em contraposição ao tom emocionado de agora há pouco, e a ruiva engoliu em seco, assustada. Recuou um passo.

– Flippy? – chamou, incerta.

Ele virou o rosto lentamente para encará-la. Por um momento a menina sorriu de volta para ele, mas seu sorriso pareceu escorrer pelo rosto ao ver-lhe o esgar maldoso e cruel.

– Olá, vadia. Sentiu saudades?