Olá pessoal! Depois de um milhão de anos de espera, publicando o quinto capítulo... minha vida está um pouco corrida, com trabalho, namorado, RPG e outras histórias... além disso, estou traduzindo a fic para o inglês\o/ o segundo capítulo logo mais estará on na língua do Tio Sam (ou da Rainha, se preferirem XD)
Esse capítulo demorou mais porque tenho uma dificuldade enorme para escrever anticlímax... . mas se tudo der certo, o próximo vai sair bem mais rápido. Conto com a paciência de vocês!
Chega de enrolação, vamos ao que interessa.
Capítulo 5
Eu sou louca. Completamente insana. Tenho parafusos a menos. Só assim pra fazer uma coisa dessas.
Flaky olhou nervosamente em volta. Todos os alunos estavam saindo do colégio, conversando absortos. Nenhum deles parecia reparar no volume extra em sua mochila, e não via sinal de Flippy em lugar algum. Saiu também, olhando para trás a todo instante, como se tivesse medo de que ele fosse saltar de uma lata de lixo e matá-la. Não sabia qual hipótese a assustava mais: encontrar o garoto e devolver a jaqueta ou ir para casa com ela na mochila.
Se eu jogar fora ninguém nunca vai desconfiar. Ninguém sabe que fui eu quem pegou. Vou jogar no lixo!
Mas não conseguiu. Cada vez que passava por um beco onde poderia descartar o agasalho havia gente demais em volta, alguns também estudantes voltando pra casa que a conheciam ainda que de vista. Assim foi até chegar em casa, e ao se ver diante do portão a ruivinha praguejou.
Por que esse tipo de coisa tem que acontecer comigo?
Entrou e foi direto para seu quarto. Jogou a mochila sobre a cama e a abriu com raiva. Por que tinha pegado a droga da jaqueta? Tirou-a de lá – estava cuidadosamente dobrada – e a estendeu sobre o colchão. Recendia a desodorante masculino e algo amargo e forte. Ela cheirou o colarinho. Nicotina. Não sabia que ele fumava...
Flaky Furrow, você está ficando louca? Cheirando as roupas dele como se fosse uma mulher ciumenta? Ah, droga, por que raios eu tinha que pegar essa droga de jaqueta?
Sacudiu a cabeça para clarear as ideias e passou as mãos pelo rosto com força. Devia ter algum tipo de ímã para atrair desgraça e prolemas. Só assim para, dentre todas as garotas do colégio, Flippy ter se aproximado justamente dela!
Olhou para a janela, pensativa, e apoiou-se na cama. Sentiu algo rígido como papel cartão sob seus dedos, e viu que tinha a mão direita sobre um dos bolsos dianteiros da blusa dele.
Jamais soube o que a levou a ter aquele impulso. Curiosidade, reflexo, não importa. Flaky só soube que no instante seguinte estava com um maço de papéis na mão. Uma fotografia caiu a seus pés, e ela a pegou. Na parte de trás havia uma data, de quase dois anos atrás, escrita com a caligrafia angulosa que ela já conhecia bem. Logo abaixo havia três autógrafos floreados: "Flippy, o demônio verde", "Sneaky, o camaleão" e "Ka-Boom, o pavio curto". Olhou a imagem e não conseguiu evitar o sorriso. Eram três garotos sentados numa escadaria de mármore, usando uniformes verde-oliva desbotados sem estampa, e o do centro tinha os braços passados pelos ombros dos outros dois. Mesmo mais novo, magrelo e com uma expressão despreocupada e desafiadora no rosto, Flippy era inconfundível devido ao cabelo num abominável tom de verde e aos olhos intensos cor de musgo. Ao seu lado esquerdo estava um menino alto e franzino, de pele morena e olhos claros, os cabelos negros cortados bem curtos, usava uma lanterna de cabeça presa por uma faixa. Do outro lado havia um rapazinho mais baixo com orelhas de abano e os dentes da frente grandes demais, o cabelo castanho curto e arrepiado afastado da testa por um par de óculos de aviador com lentes vermelhas; uma penugem castanha sob seu nariz dava a entender que estava deixando crescer o bigode.
Flaky permaneceu de olhos fixos na foto por longos minutos, examinando a imagem. Era difícil imaginar aquele psicopata tão feliz e... fofo? Sacudiu a cabeça, confusa, e voltou sua atenção para os outros papéis. Achou uma receita médica ilegível, um boletim do Centro St. Brutus Para Meninos Irrecuperáveis no final do semestre anterior, uma nota comunicando a expulsão de Flippy dessa escola datada de uma semana mais tarde e a carta de admissão do garoto no Colégio Happy Tree. Ela passou os olhos por cima desas duas últimas e voltou o olhar para o boletim, o que a fez rir. As notas eram terríveis, com a exceção de Biologia, História e... Artes? Como assim? Não era algo sequer imaginável, Flippy desenhando e pintando... como que para provar isso, o último papel era uma folha de sulfite dobrada em quatro. A garota a abriu e prendeu a respiração.
Não passava de um rascunho, mas podia identificar com clareza que era uma mulher sentada e abraçada aos joelhos, de perfil, o rosto voltado para a frente, vestindo uma camiseta longa e mais nada. Os cabelos longos e volumosos seriam o bastante, mas o rosto estava detalhado o suficiente – pequeno e delicado, olhos grandes, lábios em formato de coração – para que reconhecesse. Para que ela se reconhecesse. Seu rosto ficou quente de vergonha no mesmo instante e seu coração disparou. Enfiou os papéis de qualquer jeito no bolso da jaqueta, que jogou embaixo da cama.
Por que raios Flippy faria um desenho dela? Podia jurar que Giggles, a loira sorridente, ou Petunia, a morena exótica, seriam modelos muito mais interessantes. Por que justo ela?
Deitou-se e ficou olhando para o ventilador de teto que girava preguiçosamente. O movimento das pás era lento e repetitivo, começou a lhe dar sono e a fez bocejar. Estava cansada, como se tivesse corrido por quilômetros, e ainda sentia dores no corpo e no corte da face. Um calafrio percorreu sua espinha ao se lembrar da sensação da língua morna e úmida do garoto recolhendo lágrimas e gotas de sangue em sua bochecha, mas não era apenas um arrepio de medo. Tinha retribuído ao beijo dele, e tinha se sentido... bem nos braços dele. Até se lembrar de que estava sendo abraçada e beijada por um maluco, é claro...
Flaky estava confusa, mas ao adormecer tinha duas certezas. Primeiro, de que Flippy era uma incógnita terrível e assustadora como uma equação geométrica, daquelas capazes de tirar seu sono e apetite por semanas. Segundo, de que jamais tinha experimentado um beijo tão bom...
Ela sonhou. Em seu sonho, corria por uma floresta escura. Precisava fugir! Aquela sensação de perigo entrava pelos poros, aquele miasma sufocante de terror invadia suas narinas quando arfava buscando oxigênio, a escuridão profunda fazia seus olhos lacrimejarem e o chão pedregoso feria seus pés, mas nada disso a impedia de continuar. Sua vida estava em risco!
Tropeçou e caiu no chão, batendo o rosto de encontro a uma raiz. Sentiu seus dentes se espatifando e o sangue enchendo sua boca, a dor se espalhando como um rastilho de pólvora. Ouviu um rosnado rouco atrás de si, e engoliu em seco. Era o fim, seu perseguidor a alcançara. Virou-se e viu, se aproximando na penumbra, um par de olhos amarelos brilhantes. Tentou se levantar, mas seus membros pareciam ser feitos de chumbo. Com horror crescente, viu o vulto se agigantar, os olhos vindo em sua direção como duas chamas vivas do próprio inferno. Conseguiu divisar as formas de um urso, mas parecia ser bem maior do que um urso normal. O bicho se aproximou devagar, farejando ruidosamente. Quando estava a cerca de dois metros dela, a menina percebeu que seu pelo não era marrom ou preto como era de se esperar, e sim... verde? O animal exibiu seus dentes afiados, e continuou chegando mais perto. A menina chorava em silêncio, aterrada, enquanto o monstro aproximava o focinho úmido de seu rosto até tocar com ele a ponta de seu nariz. Do fundo de sua garganta veio um rosnado profundo, que o fez se sacudir todo. Não... não era um rosnado... ele estava rindo! Seus olhos brilharam mais intensamente e os dentes cintilaram de um jeito macabro. Antes tinham parecido ser brancos, mas agora ela via que tinham manchas de sangue.
– Sentiu minha falta?
Flaky abriu os olhos. Estava suando frio e tremendo de susto. Seu celular tocava dentro da mochila no chão, ao lado da cama e ela o pegou, sentando-se ainda tonta para atendê-lo.
– A... alô?
– Oi, Flaky – a garota gemeu ao reconhecer a voz grave dele. Como diabos Flippy tinha conseguido seu número? – onde você está?
– P-por que você quer saber? – não conseguiu evitar o guincho de medo em que sua voz se transformara.
– Bom... talvez porque você tinha um encontro comigo depois da aula, não é?
Ela gelou. Tinha se esquecido completamente do encontro. E mesmo que tivesse se lembrado, o julgaria cancelado depois dos acontecimentos no terraço...
– E-eu... é... bem...
Flippy riu. Era um riso bem diferente de seu sonho, verdadeiramente animado, um pouco infantil até.
– Calma, garota. Eu não vou te engolir.
– Mas... mas...
– É o seguinte, a Giggles me ligou há uma meia hora mais ou menos, já que o cinema melou, amanhã nós vamos ao karaokê. Ela me pediu pra te avisar porque estava com a bateria do celular acabando.
Flaky bufou. Giggles era completamente viciada no celular, andava sempre com uma bateria reserva na bolsa. E agora essa, sabia que Flippy era a "surpresinha" do cinema... Por que essa maluca estava tentando juntar os dois? Não era aparente o bastante o medo que tinha dele? Durante a semana toda ela o evitara a todo custo na escola. Tinha tentado em vão mudar de lugar nas aulas, no que era sempre impedida pelas amigas. Tinha feito caminhos bizarros para voltar para casa sem passar pela rua dele. Ora, bolas! Tinha até mesmo passado por sua primeira crise de pânico em anos só por que ele pegou em sua mão!
– E-eu não vou!
– Mas...
– Tenho lições para terminar! Não vou nesse karaokê estúpido! Vocês podem não ligar a mínima para o futuro, mas eu...
– Flake.
– QUE FOI?
– Nós estudamos na mesma classe. E não temos lição de casa nesse fim de semana.
Ela sentiu que corava. Por que raios Flippy tinha que lembrá-la disso? Ele não podia simplesmente aceitar sua desculpa capenga e deixá-la em paz?
– Olha, eu sei que você não quer me ver. Mas precisamos conversar, estamos enrolados num mal-entendido desde que nos conhecemos. Eu não vou te machucar, Flaky.
– Mas...
– Confie em mim.
Ela quase podia ver os olhos dele brilhando e implorando. Estava assustada, lógico, mas não podia fingir que não sentia pena. Tinha sofrido com uma doença séria, e de todos os colegas somente Giggles e Petunia ficaram ao seu lado. Os outros riam quando ela chorava de medo, faziam piadinhas cruéis quando tinha falta de ar e achavam um show à parte quando desmaiava. Mesmo depois que tinha melhorado e parado com os remédios, continuava sendo a piada da vez no colégio, e odiava isso. Por algum motivo via em Flippy um reflexo seu: entrando e saindo da classe sozinho, não se socializando muito, não se aproximando nem mesmo do grupinho dos populares. Havia algo de estranho com ele...
– Flaky?
– O que?
– O pessoal vai se encontrar no karaokê às quatro. Que horas posso passar na sua casa pra te buscar?
A garota quase engasgou com a própria saliva. Engoliu em seco e respirou fundo.
– Vou com a Petunia direto pra lá.
– Mas eu moro mais perto da sua casa, e...
– O QUÊ? – ela agarrou convulsivamente o travesseiro e olhou pela janela aberta, como se esperasse vê-lo lá embaixo no quintal – Como você sabe onde eu moro?
– Não sei. Mas se você estava descendo a rua da minha casa de bicicleta pra ir à escola, mora perto daqui. Posso passar na sua casa pra te pegar, é mais fácil e fica no caminho, passo aí às...
– Não! Se quiser que eu vá, me deixe ir com a Petúnia, ok?
– Tudo bem, sem problemas.
Espera aí... eu acabei de... MEU DEUS! Como eu sou burra! O queixo de Flaky caiu. Tinha acabado de confirmar que iria ao karaokê. Fantástico!
Antes que pudesse se lamentar, ouviu barulhos na linha, como se houvesse alguém ao lado de Flippy, e logo depois veio a voz dele:
– Flake, vou ter que desligar. Não se esqueça de amanhã.
– Ahn... tá.
– Um beijo.
– Quê?
– Eu disse "um beijo" – por algum motivo havia um tom de riso na voz ele – tchau.
– Tchau...
Flippy desligou, e a menina baixou o celular lentamente. O sol já estava se pondo, tinha dormido a tarde toda. Ótimo. Tinha se livrado de um encontro com o assassino maluco, mas acabara arrumando outro.
Mas vai ser no karaokê. As meninas vão levar mais alguém com certeza. Ele não vai me atacar num lugar público. Eu vou estar em segurança...espero.
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