PARTE II – LATE NIGHT

John demorou-se um pouco mais no banho, para acalmar-se completamente e livrar-se de quaisquer evidências que seu colega pudesse usar contra ele. Para não despertar "preocupações", cantou sem muito entusiasmo Lucy in the Sky with Diamonds. Saindo do chuveiro, enxugou-se com vigor e vestiu uma calça larga de moletom e uma regata, sem intenção nenhuma de deixar Baker Street novamente naquela sexta-feira infernal. Ia pedir uma tele entrega e desligar seu cérebro em frente à televisão por um par de horas. Deixaria para pensar em suas recentes descobertas quando deitasse em seu quarto, sozinho e em silêncio.

- Sherlock? – ele chamou ao sair do banheiro, esfregando os cabelos com uma toalha. – O que acha de comida indiana? – a sala de estar estava vazia, bem como a cozinha. John franziu a testa e dirigiu-se ao quarto do detetive, que estava com a porta entreaberta. Ele bateu e esperou um pouco. Nenhuma resposta. – Sherlock? – chamou novamente. Ao ficar ainda sem réplica, empurrou com leveza a porta do quarto, entrando no cômodo fresco e às escuras.

A janela estava fechada, e o ar condicionado ligado no máximo. Na cama, encolhido em posição fetal e enroscado num lençol, ainda completamente vestido, jazia Sherlock, parecendo profundamente adormecido. John espantou-se que ele pudesse ter pego num sono tão pesado em um intervalo de poucos minutos. Mas, também, os hábitos de sono de Sherlock eram completamente irregulares, e o médico não tinha como saber há quantos dias o colega não dormia direito. John aproximou-se da cama, notando que, apesar da temperatura baixa do quarto, Sherlock estava corado, e cachos suados do cabelo negro colavam-se à testa e à nuca. Preocupado ele estendeu a mão, para ver se o detetive não estava febril. O gesto profissional tornou-se uma carícia terna, enquanto John afastava o cabelo úmido da fronte do outro. Passou a mão de leve sobre uma das maçãs do rosto, sentindo o contraste entre a pele quase glabra de Sherlock e a sua própria, onde a sombra da barba por fazer arranhava constantemente. Com um suspiro, John curvou-se e tirou os sapatos de Sherlock, ajeitando-o melhor na cama. O detetive murmurou no sono, um som grave e satisfeito, que arrancou um sorriso do médico. John ajeitou uma colcha de tartan sobre o corpo do outro e deu uma última olhada antes de sair do quarto.

- Seu grandessíssimo idiota. – ele murmurou, ao deixar o quarto. Só não sabia se falava de Sherlock ou dele próprio.

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Depois de pedir uma quantidade absurda de comida indiana, Watson passou algumas horas sentado, apreciando o silêncio que tomava o 221b da Baker Street.

Ele decidiu que detestava o silêncio.

Depois de relutar um pouco, John tomou uma decisão e pegou seu celular.

Harry, podemos conversar? – JW

Deus, John, o que eu fiz agora? – HW

O mundo não gira em torno do seu umbigo, Harriet. O problema é comigo. – JW

Bom, por que você não conversa com seu detetive de estimação? – HW

Você é insuportavelmente ciumenta. O problema tem a ver com ele. Por favor, Harry. – JW

Harry? – JW

Eu encontro você aí no Speedy's amanhã pela manhã. Tenho que levar Clara ao médico bem cedo, podemos tomar café juntos. 08 horas. – HW

Obrigado. Vejo você lá. – JW

John deu um suspiro, já antecipando as dificuldades da conversa com a irmã teimosa e ciumenta. Começava a se arrepender de ter cogitado conversar com Harry. Mas ele não tinha mais niguém com quem contar, além da irmã... e de Sherlock.

John decidiu tomar uma grande dose de conhaque, para impedir-se de ficar revirando na cama a noite toda.

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Eram duas e meia da manhã quando Sherlock acordou, sentindo-se satisfeito e letárgico como um grande felino. Então, a lembrança do porquê de sentir-se assim tomou conta de sua mente, e ele sentou-se na cama de supetão. Olhou para baixo e viu a prova do que fizera manchando as calças pretas. Enfiou o punho fechado na boca e mordeu-o com força, impedindo que uma gargalhada histérica escapasse de seus lábios. Sentia-se com 15 anos. Definitivamente, agira como um adolescente na tarde anterior: espiara John no banho, experimentara a sua primeira ereção e, por Deus, masturbara-se pela primeira vez em sua vida, enquanto ouvia John cantar Lucy in the Sky no chuveiro.

Outra onda de gargalhadas ameaçou escapar, fazendo com que ele mordesse o punho com mais força, e sentisse o gosto metálico de sangue. Bom, já era. Nunca mais sua mente conseguiria ter o controle perfeito e absoluto de seu corpo novamente. Tinha que admitir, no entanto, que o orgasmo lhe proporcionara uma sensação que nenhuma droga jamais conseguira – e ele experimentara praticamente todos os tipos de entorpecentes em seus anos de viciado. Era uma sensação de poder, de plenitude, que culminara numa explosão tal que o levara a dormir oito horas direto, sem nem se mexer. Só tivera tempo de enrolar-se no lençol e –

Sherlock reparou na colcha de tartan. Ele sabia que a colcha estava, até então, sobre a cadeira ao lado da penteadeira. A Sra. Hudson a deixara ali há mais de uma semana, e ele em nenhum momento a tocara. E seus sapatos. Ele tinha a nítida lembrança de cair no sono de sapatos, pois ainda cogitara, preguiçosamente, tirá-los para não sujar os lençóis, antes de escorregar para a inconsciência. Seus sapatos estavam agora perfeitamente alinhados ao lado da porta.

No que mais será que John mexera, e quanto ele vira e deduzira?

Sherlock espreguiçou-se e pegou o celular, olhando a hora. Pensou por um momento antes de mandar um texto.

Precisamos conversar. – SH

Vá dormir, Sherlock. É o que as pessoas normais estão fazendo a esta hora. – Lestrade

Besteira. Eu sei que Mycroft comprou tíquetes para a ópera. Vocês devem ter chegado em casa há pouco. – SH

Então você também sabe, querido irmão, que está atrapalhando a minha noite. Vá incomodar o bom doutor Watson. – MH

Lestrade, não deixe Mycroft te impedir de ler esta mensagem. Eu preciso conversar sobre John. – SH

Em que tipo de encrenca você se meteu agora, Sherlock? – Lestrade

Uma bem grande. – SH

Vocês, Holmes, foram colocados no mundo com o único propósito de acabar com a minha paz de espírito. E como eu sei que tem um grampo no meu celular, sim, Mycroft, isso inclui você. Amanhã de manhã eu passo aí. – Lestrade

E não se preocupe, não direi uma palavra a John. – Lestrade

Sherlock atirou o celular na mesa de cabeceira e jogou-se de novo na cama, enroscado na colcha. O melhor a fazer era arquivar o problema temporariamente em algum recesso escondido de sua mente, e tentar conciliar o sono de novo.

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Do outro lado de Londres, Lestrade largava o celular no criado-mudo, afrouxando o laço da gravata borboleta do smoking, erguendo o olhar para Mycroft, ainda parado do outro lado da cama. Mycroft tirava as brancas luvas com deliberada calma, sem olhar para o inspetor. Lestrade bufou.

- Vamos lá, fale.

- Não quero acabar com a sua paz de espírito, Gregory. – ele respondeu, com um sorriso de lado, enquanto largava as luvas sobre os travesseiros alvos. Lestrade cruzou o quarto e começou a desatar a gravata do outro.

- A minha paz de espírito foi ameaçada na primeira vez em que prendi Sherlock, e acabou de vez na ocasião do nosso primeiro... sequestro. – ele falou, colocando as mãos nos ombros de Mycroft – Eu já me resignei a uma vida totalmente insana e desprovida de rotina. – Mycroft sorriu, inclinando a cabeça e passando a mão na lapela do smoking de Lestrade.

- E isso não é maravilhoso? – falou, antes de puxar o inspetor para um beijo terno.

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N/A: Mystrade... tem como não amar?

Obviamente dedicado a minha única leitora/reviewer/beta reader Arween Granger, minha sista. Sistas gotta stick togetha!

Eu tive uma crise de riso pavorosa escrevendo esta cena do Sherlock acordando na cama todo gozado, e tendo que morder o punho pra não berrar. Quando eu tenho uma ideia muito boa no meio da madrugada, eu tenho que fazer a mesma coisa, hehehehehe.

Deha mata o/

Eowin