PARTE III – A LITTTLE LESS CONVERSATION

John acordou cedo, sentindo-se um caco. Tinha que se colocar em ordem antes de descer para encontrar a irmã na cafeteria. Com um grunhido, arrastou-se para fora da cama e desceu até o banheiro. A porta de Sherlock estava escancarada, e o quarto, vazio. John ficou ruminando onde diabos o outro podia ter se metido, enquanto fazia a barba e se vestia.

Encontrou o detetive na sala de estar, enrolado em seu lençol branco, digitando furiosamente no laptop, recostado no grande sofá. Pelo contorno, era capaz de ver que Sherlock estava nu por baixo do lençol. Sentiu o sangue afluir ao rosto – e a outra parte de sua anatomia, também. Pigarreou e desejou bom dia. Sherlock ergueu o olhar, e John viu um rubor leve tomar as bochechas dele.

- Bom dia, John. Sinto muito ter apagado daquele jeito.

- Seja sincero: há quantos dias você não dormia? – Sherlock resmungou, e John apenas ergueu a sobrancelha.

- Dois dias.

- Bom, não faça mais isso, ou eu vou ser obrigado a sedar você. – John parou a meio caminho da porta, e voltou-se – Você dormiu muito rápido, ontem, e por muito tempo. Por favor, Sherlock, me diga que você não tomou nada que não devia.

- Não! – Sherlock respondeu, parecendo ultrajado e embaraçado ao mesmo tempo. – Eu experimentei um... método alternativo de relaxamento, envolvendo automassagem e exercícios. É bastante eficaz. – Não era uma mentira, Sherlock pensou. Apenas uma distorção da realidade. – Pensei, inclusive, em adotar como rotina. – E isso era totalmente verdade.

- Bom. – John respondeu, com um sorriso doce. Ele pareceu reparar, então, no pequeno corte na mão esquerda do detetive. – O que foi isso na sua mão?

- Uma consequência benigna de um experimento. Eu estava medindo a força necessária para uma mordida arrancar sangue sem que houvesse laceração profunda da carne. – John balançou a cabeça em descrença, mas sabendo que Sherlock era bem capaz de uma loucura dessas.

- Eu vou tomar café com a minha irmã aqui no Speedy's, está bem? Qualquer emergência, me mande uma mensagem.

- Me traga um café quando voltar.

- Eu devo demorar um bocado. – John respondeu, descendo as escadas.

- Eu espero! – Sherlock gritou. O detetive largou-se contra as almofadas do sofá ao ouvir a porta bater. – Eu espero o tempo que for preciso.

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John acomodou-se em uma mesa ao lado da janela para esperar a irmã. Ainda aguardava quando viu um veículo preto familiar parar na porta do 221b. Mas, ao contrário do que esperava, quem desceu do veículo não foi Mycroft, e sim Lestrade. Ele ainda inclinou-se e falou algo para o motorista, batendo a porta em seguida. O carro arrancou, enquanto Lestrade entrava no prédio. Ótimo, John pensou. Um bom caso manteria Sherlock distraído enquanto ele tentava resolver o imbróglio em que se metera.

Viu quando Harry saltou de um táxi, atraindo alguns olhares. Sua irmã era uma mulher realmente bela, com os cabelos loiros cascateando pelos ombros e o corpo atlético e esguio; e quando estava junto com Clara, com sua beleza morena e curvilínea, o choque era em dobro. John realmente esperava que a experiência de sua irmã pudesse ser de alguma valia em seu caso.

- Olá, irmãozinho. – Harry beijou-lhe o topo da cabeça, como se ele tivesse 5 anos de idade, e sentou-se diante dele. – Você está com uma cara horrível. – John carranqueou, enquanto a garçonete servia o café e dois pratos de ovos com bacon, salsichas e torradas.

- Obrigado. Você, por outro lado, está linda. Clara está bem? Você comentou que ia leva-la ao médico.

- Tudo bem. É um especialista em fertilização in vitro. – John arregalou os olhos, parando uma garfada de ovos a meio caminho da boca. – Nós duas decidimos dar o grande passo. John Watson, você está a ponto de se tornar titio.

John esqueceu seus problemas por um momento e se lançou feliz nos braços da irmã. Ela e a esposa vinham discutindo há anos a possibilidade de um filho, e agora parecia que finalmente haviam se acertado quanto a quem deveria gerar o bebê – o que era o motivo maior de discussão. Harriet aceitou os parabéns do irmão com os olhos marejados, e tomou um gole de café antes de prosseguir.

- Bem, mas foi você quem me chamou aqui, John. O que aconteceu? Você e Sherlock brigaram? Ou finalmente se acertaram? – ela falou, em tom de mofa. Mas, diante do silêncio embaraçado de John, e ao ver que ele fitava com firmeza o açucareiro, ela recostou-se na cadeira, em choque. – John, o que foi que houve, exatamente?

E tudo estourou para fora de John num jorro. Relatou em voz baixa como a terapeuta o acusara de sabotar seus namoros em favor de sua relação com Sherlock, como ele pegara o outro o espiando no banho, a reação que isso lhe provocara, como acabara por masturbar-se pensando no amigo, como acariciara a face dele enquanto ele dormia, preocupado com sua saúde. Despejou tudo o que o irritava, preocupava e encantava em relação a Sherlock. Quando parou de falar, sentiu como se tivesse acabado de descarregar um piano de cauda de suas costas; estava trêmulo, exausto e muito, muito aliviado.

- Parece que você se meteu numa encrenca e tanto, John. Sherlock é completamente louco. – John ergueu o olhar com uma ponta de irritação. – Você sabe que é verdade. Ele mesmo admite ser um sociopata. Mas você é mais louco ainda, irmão, se está atraído por ele.

- É... mais que isso. Eu nunca senti atração por homens, Harry. Eu gosto, ou pelo menos gostava, de mulheres.

- E eu costumava trepar com qualquer coisa que usasse calças na faculdade, até conhecer a Susan, minha primeira namorada, lembra? Não se prenda a questões de gênero, John. Você gostava daquelas pessoas que, por acaso, eram mulheres. E agora, você gosta de uma pessoa que, por acaso, é um homem. Um belo e completamente insano homem. – o celular de Harry vibrou e ela olhou pela janela, de onde viu Clara acenando de dentro de um táxi. – Eu tenho que ir, John. Meu único conselho pra você é: não minta. Você sabe da mania irritante do seu amigo de descobrir a verdade e jogá-la na nossa cara nos momentos mais inoportunos.

Dando-lhe um beijo suave no rosto, Harry partiu. John gemeu e deixou a cabeça cair com um baque sobre a mesa. Ouviu então seu celular tocar.

Entre no carro. Precisamos conversar. – MH

Ele olhou pela janela e viu o carro preto, o motorista segurando a porta de trás aberta. Com um suspiro, amaldiçoou os irmãos Holmes e foi se encontrar com a sombra da Rainha.

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Lestrade subira ruidosamente as escadas do 221b, esperando não ter nenhuma surpresa desagradável.

- Sherlock? Você está decente?

- Muito engraçado, Lestrade. – a voz de barítono soou aborrecida, e Lestrade seguiu o som até a sala de estar, onde encontrou o detetive prostrado no sofá, enrolado no lençol, com os pés nus apoiados na mesa de café.

- Pelo amor de Deus, Sherlock, coloque umas calças! – ele falou, sentando-se na poltrona de John. Sherlock limitou-se a encará-lo. Lestrade suspirou. - Está bem, está bem. O que foi que aconteceu? – Sherlock ficou em silêncio por um momento, fitando o teto, antes de encarar o inspetor.

- Como você acabou envolvido com Mycroft?

- O que isso tem a ver com o assunto?

- Tudo. Como foi que vocês se envolveram? Como foi que você se deu conta de que sentia atração por ele? Como... como foi que vocês reagiram um ao outro? – ele disparou as perguntas no seu ritmo de interrogatório, aquele que dizia que sua língua não tinha capacidade de acompanhar a velocidade vertiginosa de seu pensamento, ao mesmo tempo em que se sentava na beirada do sofá, enrolando-se com mais firmeza no lençol, as mãos tensas. Lestrade suspirou.

- É realmente difícil de dizer. Quando nós dois passamos a colaborar um com o outro, tentando manter o seu traseiro a salvo, acabamos nos tornando amigos. A culpa é toda sua. – ele falou, apontando um dedo acusador para Sherlock – Quando minha esposa me deixou, ele me ofereceu conforto, e até mesmo me ajudou a evitar algumas... bobagens que eu fiquei prestes a fazer. Então, numa noite, eu acabei bebendo além da conta; e naquela época eu bebia demais, mesmo... e eu estava realmente disposto a deitar na parte mais escura da linha do trem e simplesmente esperar que o comboio fizesse o serviço por mim. Mas Mycroft me encontrou, através da CCTV. Eu estava cambaleando por um beco qualquer no East End, e quando olhei, lá estava ele. Simplesmente parado, com as duas mãos naquele guarda-chuva estúpido, a cabeça inclinada, me observando em silêncio. Eu achei que estava delirando, então fui até ele, bêbado como um gambá, e o abracei, começando a chorar. Ele me pegou pelo braço e simplesmente falou "Vamos para casa, Gregory". Eu desabei no banco de trás do carro, e grunhi que não queria ficar sozinho na porcaria do meu flat. Ele me ajeitou deitado no banco, sentou-se no outro lado e respondeu "E quem falou que era para a sua casa?". Nesse ponto, eu apaguei completamente, e acordei no outro dia, no quarto de hóspedes dele. Todas as minhas roupas estavam no closet, meus artigos de higiene pessoal no banheiro, e até mesmo a foto da minha família estava na mesa de cabeceira. – Lestrade balançou a cabeça, sorrindo com a lembrança. Sherlock apoiara o rosto nas mãos cruzadas, olhando intensamente o policial. – Eu praticamente me arrastei até a sala de jantar, onde seu irmão estava, perfeitamente vestido, lendo o jornal e tomando uma xícara de chá. Eu perguntei pra ele o que diabos significava aquilo, e ele só respondeu, sem nem erguer os olhos do jornal, "É mais fácil do que ter que vigiar seu flat e seu escritório diariamente, só pra me certificar de que você não tentou se matar de novo". E... eu fiquei. Vi que as palavras de conforto dele não eram apenas palavras vazias. Nós começamos a passar um pouco mais de tempo juntos, e um dia, durante uma conversa, eu me dei conta de que, ao invés de prestar atenção no assunto, eu passara o tempo todo olhando a boca de Mycroft e imaginando como seria beijá-lo. E foi o que eu fiz. E devo dizer, foi a primeira vez que vi seu irmão sem saber como reagir de imediato. Claro, isso durou apenas uns dez segundos. Logo ele estava pulando em cima de mim, e...

- Sem tanto detalhes! – Sherlock interrompeu, corando. Lestrade deu uma gargalhada e ficou em silêncio, esperando a reação do cunhado. – Lestrade... meu corpo sempre foi um mero apêndice do meu cérebro. Eu o condicionei a aguentar fome, sede, sono; tudo em prol da minha mente, do meu trabalho. Sempre fui capaz de controlar as necessidades naturais do meu corpo, dentro de limites razoáveis. Meu trabalho sempre me tomou tanto tempo e energia que eu nunca tinha experimentado nenhum tipo de... desejo. Nem mesmo durante meus primeiros anos de adolescência. Eu nunca tive necessidades físicas, ou mesmo sentimentais. – Sherlock respirou fundo, fixando o olhar no tapete da sala. – E agora, parece que eu adquiri o péssimo hábito de tê-las, e todas relacionadas ao meu melhor amigo.

Lestrade não podia dizer que estava surpreso ou chocado com o que Sherlock relatara. Ele já vira vezes demais a dinâmica entre eles, e sabia que era só questão de tempo até que um dos dois se desse conta. Mas sempre colocara suas apostas no bom doutor, sabendo o quão cego Sherlock conseguia ser em questões sentimentais. Perguntou-se quais foram as circunstâncias que haviam levado Sherlock a tais conclusões, mas preferiu ficar em silêncio. Sherlock ergueu o olhar e encarou Lestrade, que ficou espantado ao ver algo que nunca vira nos olhos frios e argutos do detetive: angústia e dúvida.

- Eu... eu admito que não sei o que fazer.

- Ora, é a primeira vez, então! – os dois riram um pouco, aliviando o clima. – Olhe, Sherlock, você é uma das mentes mais brilhantes da Inglaterra, um excelente juiz de caráter e um excepcional analista de comportamento. Por que não observa John durante um tempinho e, se ver que há alguma possibilidade dele se sentir da mesma maneira, não toma alguma atitude mais... proativa?

- Você quer dizer... seduzi-lo? – Sherlock soou aterrorizado.

- Um pouco menos de conversa e um pouco mais de ação, meu amigo. – Lestrade acenou com a cabeça e saiu, deixando Sherlock sozinho com seus pensamentos.

N/A: O que dizer? Ainda vou escrever uma short sobre a noite em que o Greg caiu bêbado chorando em cima do Mycroft. Foi uma promessa que eu fiz pra minha sista.

Próximo capítulo na sexta, pra alegrar o finde da galere.

Deha mata!

Eowin