PARTE IV – CONFESSIONS OVER A CUP OF COFFEE
John entrou no carro oficial, e o motorista bateu a porta. Mycroft observou o doutor com um pequeno sorriso nos lábios.
- Bom dia, John. Congratulações pela futura gravidez de Clara.
- Como...? Deixa pra lá. Bom dia, Mycroft. O que você quer?
- Você brigou com Sherlock?
- Não.
- Tiveram alguma discussão? Há algum ressentimento entre os dois? – John estranhou o interesse do outro.
- Não...
- Bom. – Mycroft sorriu mais largamente, como um gato que visse que a gaiola do canário fora deixada aberta – Bom. Obrigado pelo tempo dispensado a mim, John. Agora, acredito que você tenha ficado de levar um copo de café ao meu irmão, no seu retorno ao flat?
John olhou para o lado e viu o motorista segurando a porta aberta com uma mão, e um copo alto de café com a outra. Ele saiu do carro e inclinou-se para falar com Mycroft antes de ir.
- Isso foi mais estranho que o usual, Mycroft.
- Tenha um bom dia, John.
Watson pegou o café e foi até a porta do 221b, abrindo-a ao mesmo tempo em que Lestrade alcançava o sopé da escada.
- Bom dia, Greg. Trabalhando tão cedo? – Lestrade sorriu e bateu no ombro do amigo.
- Mas esse não é um caso que você vai querer colocar no seu blog, parceiro. Até mais.
John observou o outro sair, com um ar confuso no rosto. O que será que o inspetor quisera dizer?
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- Sherlock, eu trouxe o café! – John gritou ao chegar à sala de estar do flat. Largou o copo na mesinha diante da lareira e acomodou-se em sua poltrona com um suspiro. Ergueu o olhar e viu Sherlock sair da cozinha, despenteado e ainda vestindo apenas o lençol. – Você conversou com Lestrade desse jeito? Por Deus, Sherlock, vá colocar umas calças.
Sherlock ergueu uma sobrancelha com um meio sorriso, e os dois acabaram por cair na gargalhada ao lembrar de sua visita ao Palácio de Buckingham. John relaxou e deixou o olhar vagar pelo rosto do detetive, com o halo bagunçado de cabelos negros e os olhos embaçados de sono. Sherlock cambaleou até a mesa para pegar o copo e deixou-se cair na poltrona diante de John. Tomou um gole de café e soltou um suspiro.
- Obrigado, John. – ele observou sobre o copo, vendo que o outro sorria com suavidade. – Harry está bem?
- Ótima. Ela e Clara decidiram engravidar. – Sherlock assentiu, tomando mais um gole de café, sem saber como continuar a conversa. O clima entre eles parecia travado, indefinido, e o assunto não fluía com naturalidade. – Então? É interessante? – Sherlock sacudiu-se para fora do transe momentâneo em que se colocara.
- O quê?
- O caso que Lestrade lhe trouxe. É interessante? – Sherlock sorriu, recostando-se na poltrona.
- Pode acabar sendo o mais interessante da minha carreira. Tudo vai depender de quão rápido eu consiga atingir o desfecho. – Watson espichou as pernas com um gemido, colocando-as sobre um escabelo. Fechou os olhos com um suspiro. – Qual a história das cicatrizes, John? – Sherlock viu o médico retesar-se, mas insistiu – Eu já havia visto a cicatriz do tiro no seu ombro, mas e as outras? – ele perguntou, em voz baixa. John suspirou e respondeu, sem abrir os olhos.
- Lembra quando nós lutamos, e eu comentei que tivera dias ruins no Afeganistão? Minha unidade foi capturada pelo Taliban. Ficamos presos durante quase duas semanas antes que uma unidade americana nos resgatasse. O carcereiro achava divertido nos amarrar no pelourinho e nos espancar, um de cada vez, enquanto os outros assistiam.
- Dias ruins, realmente.
- Havia uma sargento na minha unidade. Ela era minha enfermeira. Eles a espancavam duas, três vezes mais do que aos outros, por ela ser mulher e se atrever a usar um uniforme do exército e portar uma arma. Ela não gritava, nunca. Mordia a parte interna das bochechas até que o sangue pingasse pelos lábios, mas nunca gritava. À noite, depois de cuidar dos nossos companheiros, eu cuidava das costas dela, e ela chorava em silêncio, no meu colo. Era tão parecida com Harry... a mesma cor de cabelo, o mesmo senso de humor torto, o mesmo orgulho inquebrável. Ela tinha um noivo na Força Aérea, e falava dele o tempo todo enquanto eu tratava das feridas dela. Na noite em que nos resgataram, enquanto cochilávamos, um dos guardas esgueirou-se para a nossa cela e tentou estupra-la. Eu acordei e saltei para cima dele. Ele me cortou com a baioneta; daí a cicatriz que você viu na minha pélvis. Eu quebrei o braço dele e o enforquei, com as mãos nuas, até a morte. – John contara a história inteira na mesma inflexão de voz monótona e desprovida de calor, mas Sherlock viu, com o coração apertado, que lágrimas riscavam o rosto bronzeado de John. – Os americanos invadiram a base para nos resgatar e me encontraram chutando o cadáver no rosto, amaldiçoando Deus e o mundo. – o médico respirou fundo, relaxando visivelmente – E foi assim que comprei minha passagem de volta para Londres.
Sherlock observava John, analisando cada detalhe de seu rosto e sua postura.
- E por que você nunca contou isso para a sua terapeuta?
- E como sabe que eu nunca contei?
- Porque senão ela teria certeza que a sua manqueira era psicossomática, teria caído em cima da sua cabeça e feito você engolir aquela maldita muleta que te fazia parecer ter 50 anos. – John deu uma risada cansada, ainda sem abrir os olhos.
- Eu nunca contei essa história para ninguém. – ele fez uma pausa, ouvindo o roçar do lençol, que indicava que Sherlock se levantara. – Agora você sabe o porquê dos pesadelos. – ele arrepiou-se ao escutar a voz de Sherlock bem próxima de seu ouvido, o hálito quente cheirando a café provocando arrepios em sua pele.
- Obrigado por me contar, John. – então, com espanto, Watson sentiu um beijo suave e breve em sua têmpora. Segurou a respiração e não ousou se mexer nem abrir os olhos enquanto não ouviu a porta do quarto de Sherlock bater.
- O que diabos foi isso? – ele murmurou, sem conseguir erguer-se.
N/A: Bom, eu queria uma história de guerra bem pesada pro John, e algo que explicasse o medo que ele tem de perder o controle. Algo que mostrasse que aquela coisinha de 1,70m pode ser perigosa, hehehhe. E precisava de um fluffy. Vocês não conseguiram visualizar o Benedict, enroladinho naquele lençol branco, se curvando pra dar um beijinho no John? Ou só eu que tenho problemas?
Obrigado pelos reviews, fiel sista Arween, e Linhaa, aqui está a continuação ^^
Domingo tem mais chappie, macacada!
Deha Mata
Eowin
