PARTE V – HEAVY WEAPONS

Sherlock encostou-se contra a porta fechada, o coração acelerado. Talvez o conselho de Lestrade não fosse uma tolice completa. John, afinal, contara para ele uma parte de sua vida que não partilhara com mais ninguém. E Sherlock tivera que usar cada miligrama de coragem em seu corpo para dar aquele beijo, aquele inocente beijo, na têmpora do doutor. Um beijo que poderia ser interpretado como um simples gesto de amizade e conforto. Mas ele esperava que John, conhecendo-o bem como conhecia, visse todas as implicações de seu gesto. Sherlock Holmes, que abominava ser tocado e fugia de qualquer tipo de demonstração física de afeto, espontaneamente lhe dando um beijo no rosto.

Sherlock se inspirava na história de Mycroft e Lestrade. Uma amizade que se aprofundara numa hora de dificuldade, evoluindo naturalmente para um envolvimento romântico. Ou tão naturalmente quanto fosse possível, em se tratando de seu irmão manipulador e dissimulado e do teimoso e irônico inspetor da New Scotland Yard.

E ele e John não eram de material muito diferente.

Pensou no último conselho de Lestrade: ver se havia uma abertura e atacar. A abertura surgira mais cedo do que ele ousara esperar; uma brecha na barreira emocional de Watson, com tamanho suficiente para que ele começasse a se infiltrar aos poucos. Mas ele ainda precisava de um plano mais agressivo, mais proativo, como Lestrade sugerira.

John, obviamente, não mais lhe era indiferente em termos físicos. Sherlock vira a reação dele mais cedo, naquela manhã, ao encontra-lo vestindo apenas o lençol. Além do mais, a voz dele parecia ter um toque de... ciúme, ao perguntar se ele havia recebido Lestrade daquela forma. Ele quase retrucara não ser o tipo do inspetor, mas não queria desviar a conversa para o delicado e incomum relacionamento do irmão quando estava tentando construir seu próprio delicado e incomum relacionamento.

Com resolução, foi até a penteadeira. Hora de escolher a armadura correta para travar a batalha pelo coração de "seu bom doutor", como Mycroft diria.

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John não saberia dizer se cochilara por alguns minutos ou não. Dois desabafos daquela magnitude em uma mesma manhã foram demais para seus nervos em frangalhos. O médico sentia-se esvaziado de toda a energia. Deixou-se ficar na poltrona, com os pés no escabelo, os braços pendendo flácidos e o fantasma do beijo de Sherlock a formigar-lhe na têmpora.

O que dera no detetive para fazer aquilo? Sherlock abominava contato físico casual. A única pessoa a quem ele demonstrava afeição de maneira física era a Sra. Hudson, e mesmo assim, só porque era a melhor maneira de agradar a velha senhora e levá-la a tolerar suas excentricidades. Nos primeiros tempos de sua convivência, Sherlock costumava encolher-se cada vez que John tinha que fazer um exame médico nele. Com o tempo, foi ficando mais confortável com o toque dele, e até mesmo tocando-o casualmente durante as investigações – uma mão no ombro ao fazer uma afirmação enfática, um toque leve no cotovelo ao conduzi-lo por um caminho ou porta, um agarre no pulso ao puxá-lo em perseguição a um suspeito. Mas aquilo... aquilo fora diferente. Um beijo, um gesto de conforto quando não havia ninguém por perto para vê-los. John só esperava que isso não fosse um dos jogos mentais de Sherlock, ou ele não aguentaria.

O médico ouviu a porta do quarto abrir-se, e os passos do detetive seguirem até a cozinha. Ajeitou-se na poltrona com um gemido, plantando os pés no chão, esfregando a testa com as pontas dos dedos.

- John, você pediu comida ontem?

- Deixei na prateleira de baixo, bem longe dos seus experimentos. – o médico virou-se para a cozinha... e seu queixo foi fazer companhia aos seus pés. Inclinado para dentro da geladeira, com o traseiro no ar ("um belo traseiro", passou pela mente de John), Sherlock vestia uma regata branca e justa e uma boxer preta. Nada mais. – Sherlock? – John falou, com a voz uma oitava acima do habitual, o que fez o detetive sorrir dentro do refrigerador. O médico pigarreou para firmar a voz – O que é isso que você está vestindo? – Sherlock respondeu sem olhar para John, enquanto cheirava a caixinha de comida indiana da noite anterior e procurava por um garfo.

- Você estava claramente desconfortável com o fato de eu ficar andando pelo apartamento nu e enrolado num lençol, então segui seu conselho e "coloquei umas calças".

- Você só colocou a sua roupa de baixo. – Sherlock virou-se com uma expressão de criança contrariada.

- Mas está quente, John! Eu só vesti isso por sua causa. Por mim, ficaria do jeito que estava. Mas não quero você andando em torno de mim pisando em ovos e desviando o olhar toda hora. – Sherlock largou-se na poltrona diante de John, passando as longas pernas sobre um dos braços da poltrona, reclinando-se no outro, enquanto atacava a comida com vontade. - Quer um pouco?

- São dez horas da manhã, Sherlock.

- E eu não como nada desde o almoço de ontem. – o detetive respondeu, de boca cheia. John deu uma risada e recostou-se na poltrona, olhando o outro comer. Por um momento, deixou-se admirar a figura de Sherlock. Passeou os olhos pelas longas pernas de coxas musculosas, observou a maneira como a regata branca se agarrava ao peito, e o movimento da musculatura dos braços sob a pele pálida. Sherlock tinha a constituição de um atleta, ou talvez de um bailarino; esguio, longilíneo, com uma graça felina, mas extremamente resistente e forte. Quando ergueu o olhar, viu que Sherlock parara de comer e o encarava com um sorriso enigmático.

- Viu alguma coisa que gostou? – John ergueu a sobrancelha e entrou no jogo.

- E ontem, você viu alguma coisa que gostou? – teve o prazer de ver o detetive corar de leve, mas não desviar o olhar.

- Eu estava em clara desvantagem, John. Você já me vira nu em Buckingham.

- Primeiro: eu não fiquei te dissecando com os olhos, estava ocupado demais tentando não cair na gargalhada com as reações do seu irmão. E segundo: tudo tem que ser uma competição pra você?

- Quando se cresce na mesma casa que Mycroft, sim, tudo é competição. – Sherlock retrucou, venenosamente. John bufou e ergueu-se da poltrona.

- Eu vou tomar um banho. Preciso trancar a porta, ou você promete que não vai entrar sem bater? – John saiu correndo para não ser atingido pela almofada lançada por Sherlock.

Quando ouviu o chuveiro ligar, Sherlock correu para seu quarto novamente, como um adolescente excitado. Encostou a porta e enrolou-se na colcha, segurando o riso. Esperou John começar a cantar e, em poucos movimentos, gozara ao som de Satisfaction, enquanto visualizava a água escorrendo pela pele nua do outro.

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John saiu do banho e ouviu um ruído engasgado vindo do quarto de Sherlock. Ao ver a porta fechada, preocupou-se. Na tarde anterior, o detetive parecera febril. E se Sherlock estivesse doente e escondendo o fato dele? Foi até a porta e bateu de leve, abrindo uma fresta em seguida e espiando pela abertura.

- Sherlock, você está bem? – deu de cara com o amigo sentado no meio da cama, curvado, enrolado na colcha, com os olhos fechados, o rosto muito vermelho e com a respiração ofegante. Sherlock tinha o cenho franzido, e gotas de suor cobriam sua testa. John chegou perto dele. – Sherlock? – o detetive abriu os olhos e empalideceu ao dar de cara com John. O médico estendeu a mão para a testa do outro. A pele estava levemente morna. Com ar preocupado, mediu a pulsação no pescoço dele. O coração batia em ritmo acelerado, mas regular. Sherlock não ousava mexer-se, mal ousava respirar, paralisado sob o toque gentil do outro. John afastou o cabelo suado da testa dele, e ele sentiu seu corpo reagir à proximidade e ao cheiro do médico. Quando John fez menção de abrir a colcha, Sherlock aferrou-se a ela com ambas as mãos.

- Não ouse!

- Sherlock Holmes, deixe de bobagens! Eu preciso examiná-lo, e para isso tenho que tirar essa maldita colcha de cima de você!

- Não! – John rangeu os dentes, exasperado.

- Você sabe que eu consigo subjuga-lo em uma luta, Holmes. – o médico viu os olhos do detetive se estreitarem.

- Tente, Watson.

John lançou-se sobre Sherlock, que se enroscara em uma bola, protegendo o corpo. O médico enlaçou o corpo do detetive, tentando forçar a abertura das mãos. Os dois lutaram por alguns instantes, até que John pressionou um ponto na base da coluna de Sherlock que fez o corpo do detetive amolecer completamente, levando-o a cair estirado de bruços sobre o colchão, ainda enrolado na bendita colcha.

- Que diabos foi isso? – Sherlock gritou, com a voz abafada pelo travesseiro.

- Técnicas de combate desarmado. Aprendi com um médico israelense. Agora, seja um bom menino e deixe eu te examinar. – John virou o detetive de frente para ele, fazendo a coberta escorregar. Ele ficou parado um momento ao ver que Sherlock estava com uma enorme ereção saindo para fora da boxer, que já estava manchada de sêmen. Ele ergueu o olhar e encarou o amigo, que estava extremamente ruborizado.

- Você podia ter me falado. – John comentou, secamente. – Teria evitado essa cena. Sherlock desviou o olhar, embaraçado, enrolando-se novamente no cobertor. – Droga, Sherlock, pare de agir como uma maldita criança! – Sherlock encolheu-se com o tom raivoso na voz de John, o que fez o outro arrepender-se. – Desculpe, eu não devia ter gritado.

- Eu... eu nunca tinha feito isso antes. – Sherlock falou, em voz moderada – Perdoe-me se não conheço a etiqueta apropriada. – John bufou, exasperado. Então a compreensão do que o outro falara atingiu sua mente.

- O que você quer dizer com "nunca tinha feito isso antes"? Certamente você não está falando de... toda a situação? – John viu a mandíbula de Sherlock retesar-se, e um brilho determinado e insano tomar o olhar do detetive, enquanto ele sentava com a coluna reta no meio do colchão, encarando John, que continuava em pé aos pés da cama.

- Eu nunca tivera uma ereção em minha vida... até ontem.

N/A: Sherlock. De boxer preta. E regata branca. A minha temperatura corporal subiu uns 5 graus quando eu escrevi essa cena. E quando imaginei ele atirado na poltrona... uau.

Ele pode estar meio OOC, mas lembrem que ele não sabe lidar com emoções humanas. Ele até pode fingi-las bem, mas é a primeira vez que ele realmente é afetado por elas, então sejam bonzinhos comigo.

Desculpe pelo atraso na postagem, bit of a busy sunday - I went to a Doctor Who meeting *o* Mas quarta-feira, sem falta, tem mais um capítulo (o maior da fic inteira, e o penúltimo)

Deha Mata

Eowin