1. BILL
Bill Weasley sempre a intimidara, mesmo antes da cicatriz que marcava seu rosto e lembrava a todos de seu papel na guerra. Durante todo o tempo em que conviveu com os Weasley, foram poucas as vezes em que ele havia lhe dirigido a palavra, mas não por desgostar dela ou qualquer coisa do tipo. Ginny sempre dissera que ele era o mais reservado os irmãos, e que poucas vezes se soltava. Hermione lembrava até hoje da primeira vez que o vira em uma reunião da Ordem na antiga casa de Sirius, e lembrava nitidamente de sentir seu estômago revirar quando seu corpo se chocou contra o dele enquanto andava distraída pela mansão antiga. Lembrava de olhar para cima e encontrar dois olhos muito azuis e uma barba ruiva por fazer. Lembrava que ele lhe dirigira um sorriso simpático e lhe pedira desculpas. Naquela ocasião, Hermione sequer conseguira abrir a boca. Após anos de convivência com os gêmeos e Ron, Hermione certamente não estava esperando que o primogênito dos Weasley fosse tão bonito, e com certeza não esperava que qualquer outro homem mais velho além do padrinho de seu melhor amigo fizesse seu coração disparar daquele jeito.
Durante o período em que permaneceram na casa dos Black antes do falecimento de Sirius, Hermione secretamente cultivou uma paixonite pelo padrinho de Harry. Nada demais, apenas o admirava, achava-o muito bonito, e torcia para que no futuro arranjasse um homem como ele. O futuro chegou, e ela não arranjara qualquer homem minimamente parecido com Sirius.
Após a guerra, engatou um relacionamento com Ron, que logo no primeiro ano ficou estremecido quando ela decidiu retomar os estudos em Hogwarts. Quando ingressou no Ministério, com apenas 20 anos, teve a oportunidade de participar da reunião que, mais tarde, seria decisiva para a sua vida: com as perdas da guerra, o Ministério instituiu uma Lei do Casamento, que obrigava todos os bruxos a formarem união e repovoarem a comunidade mágica. O Departamento de Leis de Execução de Magia frisou a necessidade de que tudo acontecesse o mais rápido possível e que bruxos nascidos trouxas deveriam, imprescindivelmente, unir-se a bruxos puro-sangue, e vice-versa. Segundo o bando de homens presentes na sala de audiências do Wizengamot, dessa forma era mais garantido que as crianças nascidas seriam mágicas. A Lei também previa que bruxos que não cumprissem com o estabelecido seriam expulsos da comunidade bruxa, devendo entregar suas varinhas.
- Isso é um absurdo! – Hermione lembrava de ter batido na mesa, fazendo com que todos os olhares virassem para si – não podemos tolher a escolha dos bruxos da nossa comunidade! Os registros mostram que mesmo a união de bruxos puro-sangue não garante a perpetuação do sangue mágico. Famílias puro-sangue também tem abortos, por exemplo. E expulsar bruxos quando estamos justamente precisando de mais?
Depois de muita discussão, Hermione ganhara sua primeira grande tarefa no Departamento: elaborar uma lista de vetos e emendas ao projeto da Lei do Casamento. Como sempre, a castanha mergulhou de cabeça nos livros, registros e pesquisas existentes e, com o voto da maioria dos parlamentares bruxos, conseguiu uma flexibilização da referida lei: haveria a preferência para a união de puro-sangues com trouxas ou mestiços, mas não seria uma imposição. Ainda, conseguiu que o prazo fosse estendido e que todos tivessem até os 30 anos para colocar o primeiro filho no mundo. No entanto, não conseguiu dissuadir o Conselho de expulsar os bruxos que não cumprissem com a Lei.
Sua participação na edição da referida Lei conferiu notoriedade à morena dentro do Ministério. É claro que todos sabiam do seu papel na guerra e na derrota de Voldemort, assim como sabiam de seu histórico de estudante exemplar em Hogwarts, mas esse destaque no Ministério a colocou em grande conta com o Conselho de Bruxos e com Shacklebolt, o Ministro Substituto. Para Hermione, era muito significativo estar em estima com o Ministro mais honesto que o Ministério já tivera.
Em seu segundo ano de trabalho no Ministério, Hermione chegou n'A Toca e flagrou Ron na cama com outra mulher. Hermione, é claro, brigou com o ruivo e voltou para casa com raiva. No entanto, estranhamente, percebeu que não estava abalada com o fato de Ron ter outra, havia apenas se sentido humilhada. Desde a guerra, os dois mal se viam e raramente mantinham relações sexuais. Ela trabalhava demais e tinha grandes aspirações para o seu futuro na política, enquanto Ron parecia disposto a viver a vida de forma menos regrada.
Ron sequer havia saído da casa dos pais! A amarga verdade é que o ruivo não tinha espaço na vida amorosa dela.
Nos anos que transcorreram, Hermione traçou uma carreira brilhante e estava cotada para ser a primeira mulher Ministra da Magia. Então, foi com surpresa que recebeu uma notificação de suspensão e teve de se dirigir à sala de Shacklebolt após receber um memorando.
- Srta. Granger, o seu currículo dentro do Ministério é impecável, e seus serviços prestados durante a guerra inegáveis – o homem falava, com os olhos fixos em Hermione, enquanto suas mãos seguravam firmemente um dossiê com as informações da castanha – no entanto, o principal problema é: você continua sendo a Srta. Granger.
- Não sei se entendi – ela respondeu, piscando várias vezes. Sua voz denotava todo o seu desentendimento – meu currículo é impecável, o senhor mesmo disse, não entendo a razão de eu estar sendo suspensa.
- Vou ser bem sincero com você, Hermione, porque nos conhecemos há muito tempo e lutamos lado a lado – o homem suspirou, largando os papéis em cima da mesa e se levantando de sua cadeira – se a matemática não me falha, já era para um documento estar nesse dossiê, e ele não está.
- Qual documento? – Hermione perguntou preocupada e se dirigiu à mesa, quase atropelando Shacklebolt no caminho, e começou a folhear a grande pasta de informações sobre si.
- A Certidão de Casamento.
Hermione largou os papéis na mesa novamente e encarou o Ministro Substituto incrédula.
- O quê? Eu... eu pensei que... Eu estou na lista de sucessão para Ministra!
- Isso é outra coisa – Shacklebolt respondeu com calma – o Conselho decidiu tornar meu cargo permanente até que o próximo candidato tenha idade para assumir. Você é muito jovem e tem muito o que provar ainda. E não queremos uma Ministra contra a lei, queremos? Você precisa se casar, Hermione. Você tem menos de três anos para ter seu primeiro filho nos braços. As consequências, infelizmente, valem para você também.
- Então estou sendo suspensa do trabalho por não ter casado? – Os olhos dela se estreitaram em direção ao Ministro – você mesmo disse que eu ainda tenho três anos.
- Menos de três anos. E você está sendo suspensa por um bom motivo – ele sorriu para ela calmamente – pense nessas semanas afastadas como uma oportunidade de conhecer um bom bruxo e formar um casamento.
- Você só pode estar brinc...
- Aqui está a sua suspensão assinada – ele estendeu um papel para ela, e voltou a se sentar na cadeira giratória atrás da mesa de carvalho – agora, se me der licença Srta. Granger, tenho trabalho a fazer. Pode deixar sua mesa do jeito que está.
- Inacreditável! – Hermione bufou, apanhando sua bolsa com raiva e saindo da sala de Shackebolt, fazendo questão de bater a porta com força.
A morena cruzou o corredor a passos largos, bufando de raiva e gritou para que segurassem o elevador. Ao cruzar a porta dupla do elevador, deu de cara com um Bill Weasley encharcado, pingando água pelo local inteiro. Ela parou ao lado dele e, ao perceber que não estavam se movendo, deu um passo a frente e pressionou o botão do saguão com raiva. Voltou para trás e bufou, cruzando os braços.
- Fico feliz que esteja num ótimo dia, Srta. Granger – Bill exclamou, debochado. Ele raramente falava com ela, apesar de se cruzarem pelos corredores algumas vezes. Hermione o olhou de cima a baixo, os olhos apertados de raiva.
- Olha quem fala – ela respondeu.
- Ouch – ele comentou, entredentes, levantando as sobrancelhas e colocando as mãos dentro do bolso. Colocou-se a encarar a porta do elevador. Hermione suspirou.
- Desculpe – ela pediu de forma sincera, olhando para ele – não está sendo um dia bom para mim.
Bill deu de ombros e o movimento fez com que uma mecha de seu cabelo caísse sobre seus olhos. Ele tirou uma das mãos do bolso e penteou o cabelo para trás com os dedos.
- Está tudo bem – ele respondeu, sorrindo compreensivelmente para ela – faz alguns anos que meus dias também não são grande coisa.
E era verdade. Bill e Fleur haviam se separado, o que causou um grande escândalo na época. Em tese, casamentos bruxos deveriam durar para sempre, porque, em geral, as pessoas se casavam ou por amor ou para perpetuar a linhagem pura. Bill e Fleur se amavam, mas ao que tudo indicava, o amor de Fleur durou menos que o de Bill. Ela pediu o divórcio e voltou para a França um ano após a guerra. Hermione tinha uma vaga lembrança da Sra. Weasley chorando na cozinha e dizendo a todos que pudessem escutar que ela "já havia avisado que aquela veela não era boa o suficiente" para o seu filho.
Hermione também lembrava de quando Ginny comentou que Bill havia se mudado para um apartamento próximo ao Ministério e estava decorando o quarto de sua filha, já que soubera que Fleur estava grávida poucos meses depois da separação dos dois. Bill estava disposto a manter contato o máximo que conseguisse com sua filha, mesmo que não estivesse mais casado. No entanto, mais tarde se descobriu que Victoire não era filha de Bill, e foi a partir dali que ele começou a fumar, para o desespero da Sra. Weasley, que odiava o cheiro de tabaco nas vestes e no cabelo de seu filho.
Esse segundo escândalo não veio a público graças à discrição de Bill, que raramente integrava as pessoas à sua volta dos acontecimentos de sua vida pessoal. E, ao contrário dos casamentos, os casos de traições e nascimentos fora do território inglês não ficavam arquivados nas pastas do Ministério.
Hermione não teve tempo de responder qualquer coisa. O elevador abriu e Bill saiu pela porta, despedindo-se da castanha com um simples "tchau".
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Os primeiros dois dias em casa foram insuportáveis para Hermione. A castanha, que estava acostumada a sempre ter milhares de coisas para resolver todos os dias, encontrava-se sem nada para fazer. Passou a organizar a casa de forma obsessiva e inclusive imprimiu novas etiquetas para recatalogar todos os seus livros.
Na quarta-feira, Ginny lhe enviou uma carta a convidando para jantar n'A Toca no sábado. Seria o aniversário de James Sirius e toda a família estaria presente. Hermione e Ron eram os padrinhos e, portanto, deveriam comparecer. Hermione não sabia se ficava feliz ou ansiosa. Finalmente teria motivos para sair de casa e fazer algo diferente, mas também sabia que a notícia de sua suspensão já deveria ter corrido solta e que provavelmente todos sabiam o motivo.
Em verdade, há anos que a Sra. Weasley, Ginny e Angelina – que estava casada com George – comentavam sobre a solteirice de Hermione, e ela tinha conhecimento disso. Mas, até o momento, não se importava muito. Até o momento, acreditava que estar na linha de sucessão para Ministra seria motivo o suficiente para a Lei não se aplicar a ela.
Suspirando frustrada, passou o resto do dia procurando registros de bruxos solteiros que pudessem lhe despertar o mínimo de interesse. À medida que folheava o álbum de fotografias de seus antigos colegas de Hogwarts em busca de um possível marido, sua frustração aumentava mais e mais.
- Eu juro por Merlin que se Sirius estivesse vivo eu o pediria em casamento sem pensar duas vezes – Hermione falava sozinha – e daí que ele seria mais velho? Aposto que teria continuado bonito e charmoso do mesmo jeito.
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Quando a sexta-feira chegou, Hermione foi uma das primeiras convidadas a chegar n'A Toca. Harry e Ginny lhe receberam com animação, assim como seu afilhado. Albus Severus estava no colo de Molly e o Sr. Weasley conversava animadamente com George e Angelina. Não demorou muito para que Ron chegasse acompanhado de Luna, com quem passou a se envolver após seu término com Hermione. A castanha ficava feliz ao ver que o ruivo havia finalmente achado o amor de sua vida e que Luna havia conseguido fazer o que ela não havia conseguido: tirar Ronald Weasley da casa dos pais e virar um adulto.
Harry chamou Hermione de canto para lhe oferecer um copo de Firewhisky.
- Sinto muito pela sua suspensão – o amigo disse, passando a mão no ombro da amiga num gesto de conforto – é realmente injusto que você seja pressionada dessa forma.
- Não fui realmente pressionada, não é mesmo? – ela respondeu, bebericando a bebida e dando de ombros – eu deixei esse assunto de lado por muitos anos, agarrei-me à possibilidade de não precisar respeitar a Lei por estar cotada como futura Ministra. Eu que me deixei enganar sozinha, Harry.
- O que pensa em fazer? – o moreno perguntou – Quem tem em mente?
- Honestamente? – ela respondeu suspirando de forma derrotada – eu não faço ideia. Por anos eu só convivi com vocês, nunca passou pela minha cabeça ter de me relacionar com alguém de fora. Agora tenho que correr contra o tempo e conhecer algu...
- EU NÃO QUERO ESTA PORCARIA EM MINHA CASA! – Molly gritou, interrompendo Hermione, que virou para trás somente para enxergar uma Sra. Weasley furiosa atravessar a sala e, com um aceno de varinha, explodir um cigarro aceso na mão de um Bill Weasley, que acabara de chegar acompanhado de Charles.
- Por Merlin, mulher – o Weasley mais velho respondeu incrédulo – é só um cigarro.
- Só um cigarro? – Molly respondeu, botando as mãos na cintura, o que arrancou uma risada de Charles e de George, que há tempos não via a mãe irritada – é um veneno, e aqui é um aniversário de criança.
Bill deu de ombros e, como um criminoso pego em flagra pela polícia, tirou lentamente a carteira de cigarros de seu bolso interno do casaco e o largou no lixo ao lado da entrada da casa. Após, levantou as duas mãos em sinal de rendimento para a Sra. Weasley, que, convencida, deixou-o entrar na casa. A cena tirou um sorriso de Hermione.
Como de costume, Hermione e Bill permaneceram em lados opostos da sala. O Weasley mais velho era muito próximo de Charles - apesar da distância física entre os dois desde que se formaram em Hogwarts - e, por isso, os dois quase sempre ficavam juntos nas jantas em família colocando o papo em dia. Bill era um quebrador de maldições, havia passado muitos anos no Egito antes de voltar para a Inglaterra, e Charles seguia cuidando dragões na Romênia, aparecendo de anos em anos para visitar a família. Hermione, por outro lado, quase sempre permanecia junto de Harry, Ginny e George. George havia se tornado um grande amigo após a morte de Fred, e Hermione costumava ir à loja de logros em seu intervalo de trabalho e aproveitava para almoçar com ele e Harry pelo menos duas vezes na semana. Os dois eram os únicos que não pareciam se preocupar com o fato de Hermione estar solteira, pelo menos eram os únicos que não eram flagrados cochichando sobre o assunto perto dela.
A Sra. Weasley, ignorando completamente os pedidos de Ginny, havia cozinhado uma janta farta completamente sem necessidade, o que fez com que a ruiva mais nova tivesse de diminuir a quantidade de petiscos que havia preparado. Segundo Ginny, a ideia era que todos comessem somente petiscos, bebessem e conversassem na sala enquanto as crianças brincavam. No entanto, os planos foram frustrados e todos comeram mais do que estavam prevendo sentados à mesa de jantar. As crianças permaneceram em uma mesa em separado, e estavam visivelmente se divertindo. Teddy trocava a cor do cabelos exatamente como sua mãe costumava fazer, arrancando risos de James e Roxanne. Somente Albus que permanecia deitado em uma espécie de berço entre Ginny e Harry.
Durante a janta, Hermione se colocou a olhar Bill. Ele havia mudado muito pouco desde que se conheceram. O ruivo mantinha o ar jovial, os cabelos quase na altura do ombro e sua barba por fazer escondia parcialmente a cicatriz em seu rosto. A castanha observava com atenção como os cabelos caíam sobre seu rosto, fazendo com que ele constantemente os jogasse para trás com os dedos. Observava como ele sorria quando estava próximo do Sr. Weasley e de Charles, como os lábios dele eram mais avermelhados que o normal, como os ombros dele pareciam largos dentro daquela jaqueta de couro de dragão e como ele parecia não ter envelhecido absolutamente nada na última década.
Hermione ficou tão absorta em Bill que levou um susto quando ele lhe encarou com aqueles olhos azuis, como se soubesse que ela estava o fitando esse tempo inteiro. Seu estômago deu uma cambalhota. Ela sustentou o olhar dele por um bom tempo, tentando não denunciar que estava nervosa e que havia ficado hipnotizada por ele nos últimos minutos. Esperou que ele desviasse o olhar, mas ele não o fez, e, então, sentindo suas bochechas quentes, ela desviou dos olhos azuis dele para seu prato. Naquele momento, um pensamento louco perpassou sua mente. E se?
Terminada a janta, todos se dirigiram a sala e se colocaram a beber e engatar assuntos animados sobre quadribol, sobre o sucesso da loja de George e sobre a última missão de Ron e Harry, que haviam se tornado Aurores do Ministério apesar de nunca terem se formado em Hogwarts. A comunidade bruxa havia simplesmente entrado em débito com os três depois da guerra, principalmente com Harry, razão pela qual os dois conseguiram os cargos tão almejados. Ron pediu a atenção de todos e anunciou, com a taça de vinho ao alto, que Luna estava grávida. A sala inteira irrompeu em palmas e felicitações e Hermione se sentiu perdida em meio àquela algazarra. A castanha esperou que todos cumprimentassem o casal e repetiu o gesto.
- Eu estou realmente muito feliz por vocês, Ron! – ela disse, de forma bastante sincera, enquanto abraçava o amigo. Percebeu que Bill a encarava com curiosidade e rapidamente desviou o olhar dele, largando Ron e passando a abraçar Luna em felicitação.
Quando soltou Luna, viu pelo canto do olho que Bill havia saído para o pátio, e resolveu seguir o ruivo mais velho. Seu coração palpitava de forma esquisita, e ela respirou fundo para tomar coragem. Chegando ao pátio, visualizou o ruivo fumando um cigarro e olhando para cima, escorado na pilastra da varanda.
- Achei que tivesse colocado os cigarros fora – ela comentou, caminhando até ele.
- Aquela carteira estava vazia – ele respondeu de forma divertida, piscando um olho para ela – a cheia estava no meu bolso o tempo inteiro.
Hermione riu e se aproximou mais dele, escorando-se na pilastra ao lado dele.
- Posso fumar um? – ela perguntou, e ele a encarou levantando uma sobrancelha em surpresa.
- Hermione Granger fumando?
- Eu tive uma semana de merda, acho que mereço fumar – ela deu de ombros, e ele tirou um cigarro da carteira e ofereceu a ela. Assim que ela colocou o tabaco entre os lábios, Bill se inclinou para ela e acendeu o cigarro com sua varinha.
- Sinto muito por ter sido suspensa – ele disse, virando-se de frente para ela e colocando uma mão no bolso enquanto a outra permanecia segurando o cigarro aceso.
- Todo mundo já sabe? – ela perguntou.
- Bem... – ele puxou o ar entre os dentes, fazendo um barulho sibilante – sim.
- Como eu posso ser jovem demais para ser Ministra e muito velha para arranjar um marido com calma? – ela perguntou irritada, tragando o cigarro com força. Bill deu uma risada.
- Você não está muito velha – ele disse sorrindo – você só está chegando na idade limite que o Ministério estabeleceu.
- Você só está calmo porque ninguém cobra que você engravide – ela respondeu suspirando, levando a mão que segurava o cigarro entre o indicador e dedo médio até o rosto, apertando a têmpora – você é mais velho do que eu, por que você não tem que se casar?
- Porque eu já me casei – ele respondeu calmamente e levou o cigarro aos lábios de novo, puxando a fumaça para dentro – não deu certo e a filha não era minha, mas eu casei.
Hermione se sentiu mal pelo comentário, deu uma última tragada e jogou o cigarro ainda pela metade no chão, apagando-o com o sapato. Cruzou os braços na frente do corpo e suspirou.
- Me desculpe, Bill – ela pediu, envergonhada.
- Não tem que se desculpar – ele respondeu, repetindo o gesto de Hermione e apagando o cigarro – já faz anos, estou cansado de todo mudo fingir que isso nunca aconteceu só para tentar me poupar.
- Por que nunca tentou se relacionar com alguém depois de tudo? – ela perguntou interessada. Bill era lindo, tinha uma boa família e um bom emprego. Hermione via como todas as mulheres, inclusive as casadas, olhavam para ele no Ministério. Se, antigamente, ser marcado por um lobisomem era motivo de repulsa, no caso de Bill poderia se dizer que a cicatriz lhe conferia um ar de mistério e perigo que as mulheres amavam. Não entendia como ele ainda estava solteiro.
- Nunca achei ninguém muito interessante – ele respondeu, encarando-a sério e fazendo com que a castanha buscasse desviar os olhos dele e focar sua atenção nos detalhes da madeira da pilastra que estava encostada – por quê? Quer que eu case com você?
- O quê? – ela perguntou, nervosa ao perceber que ele sorria de forma marota para ela - você não está fazendo sentido algum.
- Eu sei que você estava pensando em me pedir isso – ele respondeu sorrindo de canto despretensiosamente, e se aproximou um pouco mais dela – está com frio?
Ela, inicialmente, não entendeu, até que o viu apontando o dedo indicador aos braços dela, que estavam cruzados e com os pelos arrepiados. Percebeu, somente naquele momento, que estava gelada e com frio.
- Um pouco – ela confessou, e ele tirou a jaqueta a estendeu para ela, que aceitou. Sentiu algo estranho se mexer em seu baixo ventre quando colocou a jaqueta de couro de dragão sobre si e sentiu que estava quente do calor do corpo de Bill.
- Então... – ele começou, repentinamente hesitante – estou enganado?
- Seria tão absurdo? – ela perguntou, ajeitando a jaqueta sobre si e tentando manter os olhos o mais longe dos olhos de Bill quanto fosse possível.
- Por que eu? – ele perguntou. E ela finalmente o encarou.
- Porque você é a única pessoa que eu conheço e que ainda está disponível – ela disse, torcendo para que ele não percebesse a mentira. Ele não era a única pessoa que ela conhecia que estava disponível, havia dezenas de ex-colegas dela ainda solteiros. Mas Bill era o único que ela se imaginava casando, dentre as opções. Lembrou que, quando era adolescente, desejava encontrar um homem como Sirius Black. Também lembrou que o único homem a fazer as borboletas em seu estômago saltarem, além de Sirius, fora Bill. Suas bochechas pegaram fogo.
- Você não me conhece tanto assim – ele respondeu, dando um passo para trás e descendo dois degraus da varanda. Quando o fez, puxou Hermione pela cintura para frente, de forma que os dois permanecessem próximos, mas agora com os rostos na mesma altura.
- O que quer dizer? – ela perguntou, sentindo todo o seu rosto muito quente.
- Eu fui marcado por um lobisomem, Hermione – ele disse, parecendo se divertir com o nervosismo dela.
- E? Você não virou um lobisomem.
- Sim, mas eu tenho necessidades – ele respondeu, sorrindo de canto, provocando-a – nas luas cheias eu tenho necessidades que preciso suprir, e qualquer mulher que divida a vida comigo deve estar ciente disso.
Hermione sentiu o coração quase sair pela boca quando entendeu do que ele estava falando, e pressionou suas coxas uma contra a outra. Bill soltou um risinho baixo, e Hermione sabia que ele provavelmente havia percebido.
- Eu caso com você, Hermione – ele pontou – mas vou dar um tempo para você pensar nessa condição que acabei de lhe apresentar.
Bill aproximou o rosto do dela e, muito lentamente, depositou ali um beijo. Hermione sabia que ele estava tentando lhe deixar desconcertada.
- Pode ficar com a jaqueta – ele disse, por fim – pode me devolver quando decidir o que quer fazer. Pode avisar que fui embora?
Hermione ficou congelada, com os pés grudados no lugar, os olhos arregalados e as bochechas muito quentes. Bill virou as costas e passou a caminhar para longe da casa, tirando outro cigarro do bolso.
- Como sabia que eu queria te pedir isso? – ela perguntou, antes que ele se afastasse muito. Bill se virou para ela.
- Eu não sabia – ele respondeu rindo, virou-se de costas e desaparatou.
Bill Weasley sempre a intimidara, e naquele momento nada havia sido diferente. Nada, além do fato de que Hermione estava seriamente cogitando se casar com ele.
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