Oi pessoal!
Me perdoem pela demora... mas para compensar o capítulo está o dobro do tamanho! :)
Espero que gostem...

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CAPÍTULO III – Mudanças e surpresas

Os seus dias de trabalho começavam às 06:00 em ponto. A primeira coisa que precisava fazer era levar Quinn para passear e fazer suas necessidades fisiológicas. Sempre fora apaixonada por cachorros, mas para sua surpresa foi o gato Batman que havia ganho seu coração naquela casa. O felino até dormia entre suas pernas no sofá, provando o ditado que o amor supera até mesmo alergias. Ginny lembrava de uma época em que não podia pensar em chegar perto de gatos, pois quase morria sem conseguir respirar. E ali estava ela, dormindo com um gato e com as vias respiratórias completamente livres.

Terminou de juntar as coisas de Quinn e se dirigiu a casa novamente, sentindo um arrepio quando o vento gelado da manhã de sexta-feira atingiu seu rosto em cheio. "Sair nesse frio sem pegar a touca ou um cachecol foi seu pico de burrice Ginevra Weasley" pensou enquanto fechava a porta da garagem atrás de si. Trocou a água e encheu o pote de ração sorrindo enquanto o safado branco lambia seus dedos pedindo mais carinho e agradecendo todo o cuidado. — Certo, eu já entendi Quinn, eu também amo você! — passou a mão rapidamente brincando com os pelos brancos da cabeça do poodle.

Normalmente a sexta-feira passava voando. Após preparar o café das crianças e embarcá-las no ônibus amarelo da escola, Ginny organizava a casa novamente, lavava as novas roupas sujas do dia anterior, fazia algum doce gostoso para aguardar a volta deles as 16:00 e se preparava para passar um tempo de qualidade com os pestinhas. Pensava que já bastava os pais, que por sinal eram divorciados, não dando a atenção que eles mereciam. Se dependesse dela, eles teriam momentos incríveis ao seu lado.

No começo, sua relação com as crianças fora bem difícil. Porém, a ruiva precisava admitir que tinha valido a pena. Estava realmente sendo uma experiência incrível apesar de no começo ela só chorar. Somente depois de superar tudo ela foi perceber que o problema sempre fora ela. Após toda a tragédia, ela se fechou e não deixava ninguém se aproximar. Nem mesmo quatro crianças completamente carentes.

"Ainda bem que tudo isso mudou..." pensou enquanto tirava os cookies do forno. Não sabia dizer exatamente como tinha sido, mas após o dia em que compreendeu ter superado seu passado, a sensação era de liberdade, de sentir aquele peso do luto sendo levado para milhas de distância, e assim conseguiu se soltar e aproveitar de verdade. — Bela vai ficar extasiada com essa fornada — falou consigo mesma sem conseguir conter um sorriso ao imaginar o rostinho da gêmea loira.

O barulho da porta da garagem abrindo chamou sua atenção.

—…certeza que conseguiria, eu só preciso de um tempo para avaliar a situação e convencer ela de que… — Kimberly entrava pela porta equilibrando de forma surpreendente sua pasta de trabalho em uma mão junto com uma garrafa de água enquanto no outro braço segurava o que parecia ser um casaco branco e alguma outra roupa desconhecida embalada em plástico — "esperta mesmo, jamais saberia lavar aquele vestido sem fazer ele se desmanchar dentro da máquina" não conseguiu evitar de pensar — enquanto com o ombro direito segurava o celular parecendo surpresa ao encontrar Ginny com uma forma de cookies na mão. Não soube dizer se o brilho repentino em seus olhos foi real ou fruto da sua imaginação, pois em questão de segundos já não estava mais lá — cheguei em casa e preciso desligar, mais tarde falamos Jane.

— Deixe-me te ajudar com isso… — deixou a forma em cima da pia e com um sorriso no rosto segurou as roupas — Como foi seu dia? — não resistiu e cheirou as roupas recém lavadas: lavanda, um dos seus cheiros favoritos. Sua relação com sua host mom estava melhor impossível e já reconhecia nela uma grande amiga que levaria para sempre.

— Agitado, entre os pacientes que precisei atender no decorrer do dia ainda tive uma aula na universidade — respondeu com uma voz cansada enquanto enchia sua garrafa com água corrente. Kim era enfermeira e cuidava de alguns pacientes em suas casas, fazia doutorado e ainda era professora na mesma universidade. Kim exalava uma força de vontade de colocar todos seus planos em ação, o que as vezes deixava Ginny com vergonha de ter pensado em desistir do seu — preciso correr porque ainda tenho uma turma de TCC hoje a noite.

— Sinceramente não sei como você consegue Kim… me conte o que você toma para ter energia suficiente pra tudo isso… — resmungou enquanto dava um sorriso e gesticulava com os braços na direção dela, fazendo a loira dar uma risada gostosa enquanto avisava que tomaria uma ducha rápida.

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— ... mas eu não quero ver esse filme! — Sophie choramingou cruzando os braços e se jogando emburrada no sofá bege da sala.

— Max, podemos encontrar um filme que todos concordem em assistir, o que você acha? — a ruiva tentava apaziguar a briga que sentia estar por vir. O mais novo tinha apenas seis anos e sempre queria assistir filmes de ação, de super herói ou de carros velozes, já as gêmeas de sete anos só queriam saber de filmes de princesas. Não era uma tarefa fácil, ela precisava admitir. Pelo menos Giovana, a mais velha de onze anos, era mais tranquila e preferia ficar sozinha em seu quarto. Ginny desconfiava que no telefone com as duas melhores amigas da vizinhança ou assistindo seus seriados adolescentes favoritos.

— Poxa, mas eu queria tanto ver Velozes e Furiosos de novo... — o pequeno vestiu um bico enorme enquanto sentava em seu colo e acomodava o rostinho no seu pescoço. "Ai, assim fica difícil... força Ginny" pensou a ruiva quase se rendendo aos olhinhos carentes.

— Vamos fazer assim, eu vou escolher dois filmes e vamos fazer uma votação…. O que tiver mais votos será o ganhador. Todos concordam? — chamou a atenção de Bela que estava mexendo em seu celular. Ginny achava um absurdo todos eles terem celulares de última geração desde os cinco anos; ganhou seu primeiro celular aos dezesseis e somente porque foi morar na cidade vizinha terminar o ensino médio. Uma lembrança dos seus onze anos passou em sua mente.

Mas pai... todas as minhas amigas têm... a Luna ganhou um semana passada... se todo mundo tem, porque eu não posso ganhar também? — resmungou uma menininha ruiva com um beiço quase chegando ao chão.

Você não é todo mundo, Ginevra. — respondeu Arthur soando de forma delicada mas firme.

A saudade explodiu em seu peito no mesmo instante. Como sentia falta do seu pai, dos seus conselhos, suas palavras e talvez até mesmo das suas brigas. — Bela, psiu... concorda? — a loirinha tirou os olhos castanhos do celular e balançou a cabeça de forma positiva. As vezes parecia tão fácil... só as vezes.

— OK! Primeira opção... — começou erguendo o dedo indicador da mão esquerda enquanto sorria, ouvindo Batman roncando ao seu lado no sofá — Operação Babá! — os olhos das gêmeas brilharam de satisfação enquanto Max revirava os seus; já prevendo uma retaliação da parte dele emendou — se ganhar, tem ação e aquele ator que você adora de Velozes e Furiosos... — o moreno pensou por um momento e fez sinal para ela continuar — Segunda opção... — seu dedo médio se juntou ao primeiro — Totalmente sem Rumo...

— Nunca vimos esse, do que se fala Gin? — sabia que tinha conseguido a atenção dos três agora, então tentou colocar toda emoção na explicação.

— É um filme de ação, de aventura, de comédia e leve romance! Vocês vão adorar, é um dos filmes favoritos que eu e meu irmão nunca cansamos de assistir... ok, início da votação... JÁ! — falou alto iniciando a brincadeira.

No fim eles ficaram com a segunda opção; a ruiva ficou observando os três com olhos vidrados na tela enquanto assistiam a cena de Dan escorregando pela lateral da casa da árvore para fugir dos capangas que estavam atrás dos seus amigos. Ficou lembrando da primeira vez que havia visto o filme com Rony. Seu coração apertou novamente de saudade. Ginny tinha dez anos quando ele nasceu, então sempre sentiu um amor de filho por ele, por ter ajudado na sua criação. O cuidado e carinho que tinham pelo outro era maravilhoso; nessas horas seu coração a chamava de volta a casa.

— E então... — questionou sorrindo enquanto eles se espreguiçavam e começavam a elogiar o filme e falar do que mais gostaram. "Quase dez horas. Kim deve estar chegando e vai me matar se eles não estiverem na cama!" pensou rapidamente enquanto ajudava as crianças a juntarem suas cobertas — Fico feliz que gostaram. Mas agora, já pra cama!

— Gin, você faz um chocolate quente pra gente, por favor? — a ruiva olhou para Giovana encostada na parede com os olhos carentes e um sorriso envergonhado. Ela nunca admitira, mas não haveria nada que eles pudessem pedir que ela não faria. Sorrindo enquanto os demais faziam uma dança feliz ao seu redor se dirigiu a cozinha sendo seguida por quatro crianças incríveis e que de vez em quando aprontavam, mas que naquele momento ela só queria segurar em seus braços e dar todo o carinho que podia.

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Sexta-feira, 03 Março de 2017

— Acho que será melhor a gente se encontrar na estação Gin, preciso terminar uma atividade do curso antes de ir dormir, vou acabar atrasando você amanhã cedo.

Seus planos para o dia seguinte incluíam sua nova melhor amiga Nely e Nova York. As duas se conheceram em um grupo do facebook de pessoas que cuidavam de crianças que buscavam outras para fazerem amizade. Nely era da Alemanha e se deram bem em instantes. Ela entendia bem o que Ginny sentia por estar longe de casa. Quando não era passear na Big Apple, as duas caíam na balada aos arredores de Long Branch.

— Capaz mesmo, assim eu posso dormir um pouco mais. Te pego as 07:00, pode ser? — já estava deitada e pretendia dormir o quanto antes para descansar pois sabia que o dia seguinte seria puxado. Finalizou a ligação e logo caiu em sono profundo.

A manhã de sábado chegou mais rápido do que parecia. Vestiu seu casaco verde musgo ao chegar na porta de casa, se despediu de todos e saiu para o ar frio até seu carro. Havia decidido ficar por mais um tempo, então comprou um carro barato para poder se locomover com maior facilidade até a faculdade onde cursava Literatura Inglesa três vezes na semana. Bateu com a mão na testa ao perceber que havia esquecido o carregador no quarto.

— Ginny, preciso falar com você, prometo que será rápido. — Kim gritou da cozinha enquanto fechava a porta de seu quarto já com o carregador em mãos.

— Claro, pode falar... estou adiantada. Perdi o sono as cinco da manhã. — sorriu enquando sentava ao seu lado na mesa do café.

— Será que é ansiosa?! — comentou a loira sorrindo — vou falar de uma vez para ficar matutando na sua cabeça ruiva... — tomou fôlego e falou de uma vez só — Jane me avisou que tem uma vaga aberta no café da universidade, além do salário terá uma bolsa de 50% de desconto nos cursos... e eu indiquei você. — a ruiva arregalou os olhos. Apesar de ganhar bem trabalhando com Kim, eram apenas três dias na semana, ela precisava urgente aumentar seu salário para conseguir manter seu curso.

— É exatamente o que eu precisava! — soltou o ar que segurava enquanto se desanimava — Mas Kim, eu não posso te deixar na mão desse jeito, nunca seria capaz disso — cortou o raciocínio ao ver a cabeça da loira mexendo em negação enquanto sorria.

— E eu jamais deixaria você perder algo assim... pensei em organizarmos de forma que você pudesse cuidar das crianças nas noites que não tivesse aulas e quanto a casa, eu dou um jeito, não quero que você se preocupe com isso...

— Mas... — tentou argumentar, mas foi em vão.

Estava decidido. A partir de segunda ela teria um novo cargo no café. E com direito a bolsa! Ainda não acreditava na sua sorte. Aquele sábado merecia mais que um passeio, era uma comemoração. Sua mãe sempre dizia "o que tiver que ser seu, sempre achará um jeito de chegar até você, tenha fé!", seu coração se aqueceu com a lembrança e discou o telefone de casa enquanto se dirigia a casa de Nely.

— Oi filha, como você está? — sabia que seria impossível algum dia não marejar os olhos ao ouvir a voz de sua mãe. Contou as novidades e falaram amenidades durante o percurso de meia hora até a casa da amiga.

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Quinta-feira, 13 de setembro de 2018

"Estou muito atrasada, Colin vai me matar!"

Jogou suas coisas na bolsa preta de qualquer jeito, pegou sua garrafa de água e bateu a porta do prédio logo que a passou. Sentada no metro se permitiu mexer no celular, fez uma careta ao ver as cinco ligações perdidas e mensagens de desespero do amigo. Como explicar a ele que as horas não dormidas de madrugada — as quais ela não considerava como horas perdidas, pois estava estudando pra maldita prova que tinham à noite — foram a causa de desligar o despertador assim que ele soou naquela manhã. Suspirou, "como se por um milagre eu pudesse ter esse deslize em meu currículo!" a última mensagem ainda passava na sua mente enquanto olhava ao redor.

Ginny mudou-se para Nova York há dois meses. Entre mudar o curso que fazia para a universidade da cidade e uma transferência para outra filial do café — com benção e apoio de Kimberly — não tinha muito tempo para romance. Não é como se estivesse na seca há tanto tempo, era óbvio. Mas ninguém que fizesse seu coração acelerar ou suas mãos suarem, ou mesmo sentir borboletas no estômago. Culpava o passado apesar de saber que jamais cometeria o mesmo erro, ela não se permitiria errar novamente.

A fase em que trabalhou com Kimberly foi uma incrível aventura, ainda mantinham contato e por vezes ela trazia as crianças para fazerem picnic juntos no Central Park ou a ruiva passava o final de semana com eles em Nova Jersey. Sentia falta deles, mas precisava seguir se aventurando e descobrindo mais sobre aquele lugar e sobre si mesma. Além de ser seu maior sonho, foi também o lugar que a ajudou a curar um coração partido, portanto nada conseguiria se comparar ao sentimento que tinha pela cidade.

No final daquele mês ela completaria dois anos longe de casa, longe da sua família e amigos. Estava planejando um viagem para visitá-los mas entre o trabalho e a universidade ficava muito difícil conseguir conciliar uma viagem internacional. Seu futuro ainda estava incerto, levaria mais dois anos para finalizar o curso e quanto mais ficava, mais desejava ficar, provando que Luna estava certa.

Enquanto subia as escadas do metro em direção a rua não conseguia parar de pensar em como poderia explicar o atraso. Havia uma vaga para gerência, e claro, ela a queria muito. Apesar da chefe deles, Katie, ser muito compreensiva em relação aos estudos e trabalhos do curso, ela não admitia atrasos injustificados. Estava tão distraída nos seus passos que só percebeu que um corpo vinha em sua direção quando já estavam ambos no chão. Bolsa para um lado, pasta para outro. Café quente escorrendo pela sua blusa branca. Rangeu os dentes pronta para amaldiçoar quem quer que fosse, quando seus olhos se encontraram e pela primeira vez em muito tempo ela sentiu seu coração batendo de forma irregular.

Os olhos verdes estavam surpresos e a sensação era que conseguiam ler sua alma. Reparou no cabelo castanho — espetado para todos os lados — e sentiu uma vontade imensa de tocá-los. Balançou a cabeça levemente tentando deixar os pensamentos bobos de lado, não era hora disso. — Me perdoe, eu estava lendo um relatório e não lhe vi — a voz soou firme e fez os cabelos da ruiva se arrepiarem na nuca. Reparou no quanto o sorriso dele era bonito, com os dentes brancos completamente retos e perfeitos.

— Oh — tentou pensar no que falar mas os neurônios não conseguiam fazer uma conexão rápida o suficiente para isso — tudo bem, droga.. — resmungou enquanto percebia o estrago na sua recém lavada camisa do serviço.

— Não sei como me desculpar o suficiente, podemos ir até a Macy's aqui perto e eu compro uma nova camisa para a senhorita — o moreno falava enquanto oferecia sua mão para ela e tentava chamar um táxi com a outra.

— Infelizmente eu já estou atrasada o suficiente, preciso correr — conseguiu formular a frase apesar de sentir os olhos do moreno a sondando — me desculpe também, eu devia estar mais atenta ao que acontece ao meu redor — sorriu de leve enquanto firmava sua bolsa na lateral do corpo e começava a andar. Tentou em vão não olhar para trás, mas quando o fez percebeu uma certa decepção naqueles olhos tão lindos... "Ginevra Weasley, cala essa boca e anda!" arregalou os olhos o máximo que pode com seus pensamentos — "há quanto tempo ninguém mexe assim comigo!" — e firmou seus passos decidida a esquecer aquele momento surpreendente com um completo desconhecido de olhos tão verdes e profundos.

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