Capítulo I
Montalcino, Itália, 1892
Elena Mikaelson, Condessa de Claire, chegou com um dia de atraso para as festividades na casa de campo de sua amiga, lady Caroline Salvatore. Uma serie de acontecimentos ocasionaram isso. Sua tia e seu irmão tinham vindo dos Estados Unidos para passar o último mês com ela, na Irlanda, onde ficava a residência do Conde de Clair, seu marido Klaus. Eles tinham ido todos a Londres, onde ela se despediu da família e despachou a filha para a escola interna.
De Londres ela embarcou para a Itália, para visitar a amiga. A viagem levara mais tempo do que o habitual, devido a problemas com o vapor e a ferrovia. Elena sentia-se exausta enquanto aguardava a criada terminar de arrumá-la para o chá.
Momentos depois, entrava no grande salão decorado, e reunia-se aos outros convidados. Elena teve que resistir ao desejo de gritar de pura frustração. Katerina Salvatore, doppelganger, atriz, atual esposa de lorde Damon, cunhada de Caroline, e amante de vários homens importantes, inclusive de seu marido Klaus, dominava a cena.
Elena temeu enfrentar o fim de semana. Estava cansada da longa viagem e desgastada com acontecimentos recentes em relação a seu casamento, por isso não se achava disposta a trocar farpas com Katerina, que sempre procurava atingi-la com comentários rudes. Elas tinha alguma semelhança de rosto, devido a linhagem doppelganger, mas as semelhanças se limitavam a isso. Em altura, cabelo e corpo, elas eram diferentes, Elena era mais esbelta, tinha cabelos lisos e era mais alta do que Katerina. A vampira gostava de dizer que era sempre melhor do que Elena, em tudo.
Fatigada, desculpou-se com a anfitriã, desejando repousar um pouco até o jantar. Caroline Salvatore mostrou-se bastante compreensiva, conhecia os dilemas da amiga. Dali a instantes, Elena subia novamente a imponente escadaria de mármore, rumo aos seus aposentos. Descansada, seria mais fácil para ela ignorar o descaramento de lady Katerina Salvatore.
Não é que ela não estivesse acostumada ao comportamento devasso e desregrado dos membros de sua classe social. Pecados amorosos eram comuns, mesmo entre suas amigas. E embora ela própria jamais houvesse sido infiel, não se julgava particularmente virtuosa ou moralista. Cada qual lidava com a vida conforme desejava.
Seu casamento assemelhava-se a qualquer outro de seu círculo. Seu marido estava sempre envolvido com outra mulher, tendo diversas amantes, enquanto ela ficava em casa cuidando da filha. Apesar de Klaus ser muito diferente daquilo que imaginara, conformara-se há tempos, afinal, não existiam maridos devotados. E sua filha era o que de mais maravilhoso acontecera em sua vida.
Ao chegar no alto da escada, Elena inspirou fundo e percorreu o corredor elegante apressadamente. Olhou as portas e, certa de estar diante da porta de seu quarto, abriu-a sem bater. Chocada, estacou, os olhos arregalados.
A baronesa Bonnie, sua melhor amiga, agarrava-se a um homem branco, de cabelos negros e musculoso, as pernas morenas enlaçando-o pela cintura. Com o torso nu, o desconhecido a sustentava nos braços, a calça de couro arriada até as coxas.
Com a entrada de Elena, Bonnie deixou escapar um gritinho de surpresa. O homem, contudo, após breve hesitação, murmurou algo no ouvido da parceira e retomou as investidas ritmadas. Imediatamente Elena fechou a porta e se afastou, feliz por não haver ninguém no corredor para testemunhar seu embaraço.
Como nenhum dos dois se lembrara de trancar a porta? Teria que se desculpar com Bonnie, apesar da óbvia indiferença do cavalheiro sugerir que aquela não havia sido a primeira vez em que fora pego em flagrante.
Localizando, enfim, seus aposentos, Elena suspirou aliviada, perseguida pelos gemidos de prazer de Bonnie. Sabia que esses divertimentos eram comuns, mas nunca havia presenciado algo. Perturbada, Elena percebeu que a possibilidade de conseguir dormir estava agora descartada, considerando o fato de ocupar o cômodo adjacente ao dos amantes e saber exatamente o que eles faziam. Pelo menos tinha como se desculpar pelo equívoco, entrara na porta ao lado do seu quarto, um engano compreensível numa mansão de quarenta dormitórios.
Sabendo não poder retornar ao salão depois de haver se queixado de forte dor de cabeça, Elena passou a hora seguinte bombardeada pelos ruídos do êxtase da amiga e do estranho, até que, graças aos céus, o silêncio aconteceu.
Abandonando o livro com o qual tentara se distrair, deitou-se na cama e fechou os olhos. Todavia seu descanso durou pouco. Dali a minutos, Bonnie aparecia, um sorriso resplandecente no rosto.
— Vim lhe dizer que acabei de contemplar as glórias do paraíso, minha querida. Ele é inacreditável...
Dando seu repouso por encerrado, Elena sentou-se na cama.
— Por favor, desculpe-me a intromissão!
— E desculpe-me pelos gritos. — devolveu a baronesa Bonnie, rindo e jogando-se sobre uma cadeira. — Na verdade, você não precisa se desculpar. Seu aparecimento não nos atrapalhou em nada, porque Kai é tão... focado. E muito, muito, muito melhor do que qualquer mulher, bruxa ou vampira pode imaginar. Acredite-me, os comentários sobre seu desempenho sexual não lhe fazem justiça. O bruxo é fantástico! Ele realmente faz mágica nesse quesito!
— Então ele é superior ao seu prezado Enzo?
— Não há a menor comparação! Meu querido Kai é um deus!
— Então é querido Kai agora?! — Elena a questionou, erguendo uma das sobrancelhas. — Suponho que, devido às circunstâncias, uma certa... intimidade seja permitida.
— A mais deliciosa das intimidades, eu lhe asseguro — retrucou Bonnie, maliciosa, mostrando com as mãos o tamanho daquilo que tanto prazer lhe dera.
— Terei isso em mente quando me deparar com ele.
O tom de Elena indicava exatamente o contrário. Ela e Bonnie eram amigas de infância e embora Elena não aprovasse aventuras extraconjugais, Bonnie se empenhava em lhe contar os detalhes mais picantes de seus relacionamentos amorosos.
— Quando você vai se permitir essa experiência? Marido, filho e trabalhos beneficentes não são suficientes! Além disso a vida passa tão depressa, querida. Nós acabamos de completar vinte e dois anos!
— Estou contente assim. Não preciso da excitação do adultério.
— É porque você nunca encontrou um homem que realmente a excite.
— Talvez. Tampouco espero encontrar, depois de conhecer as centenas de homens desinteressantes que circulam em nosso meio. Isso inclui os sobrenaturais.
— Os quais você sempre rejeitou, eu sei, embora eu não entenda sua motivação. Não é normal, Elena querida, ser tão fiel. Deus é testemunha de que nossos maridos não o são.
— Não comece! Você sabe o quanto detesto esse assunto.
É verdade, pensou a baronesa, entristecida. O marido de Elena, Klaus Mikaelson, Conde de Clare, era tão conhecido por seus incontáveis casos amorosos quanto pelo pouco tempo que passava em casa, ao lado da família.
— Bem, de qualquer forma, você poderá se distrair cavalgando enquanto estiver aqui. Você trouxe seu cavalo?
— Não, mas tenho certeza de que você tem um bom cavalo para mim.
— Claro que sim, nisso Enzo é bom, em comprar bons cavalos. Ah, ouvi rumores de que Klaus pretende vir encontrá-la desta vez. — O híbrido raramente se dava ao trabalho de acompanhar a esposa em qualquer evento, muito menos fora da Inglaterra ou da Irlanda.
— Foi o que ele disse. Meu marido gosta de competir, portanto creio que aceitará o convite de Caroline para o fim de semana, uma vez que há diversos cavalheiros aqui para ele desafiar nos jogos, nas corridas...
— Kai monta tão bem quanto Klaus, melhor até. Provavelmente Klaus considere o lorde um desafio interessante.
Elena esboçou um sorriso.
— Lorde Kai poderá estar cansado demais para competir, se você insistir em mantê-lo ocupado na cama.
— Aparentemente ele pode se dedicar a ambos os esportes sem perda de energia. Pelo menos é o que Vicky me disse. Ela conheceu Kai no ano passado e passou um mês de absoluto prazer ao lado dele.
— Pelos céus, Bonnie, você precisa encontrar outra forma de se distrair. Além de ter amantes, procura referências dos mesmos!
— Haverá tempo de sobra para isso quando eu ficar velha, querida. A propósito, considerando nossa longa amizade, estou disposta a partilhar o maravilhoso bruxo com você. Não tenho dúvidas de que ele será capaz de satisfazer todas as nossas necessidades.
— Apesar de apreciar sua generosidade, lorde Kai não me interessa. Tampouco desejo ser mais uma na sua extensa lista de conquistas.
— Acho que você não tem um pingo de sangue quente correndo nas veias, querida. Se tivesse, não poderia resistir-lhe. — disse sorrindo.
— Concordo plenamente. — Elena falou.
— Bem, já que ele não interessa, podemos arranjar outra pessoa.
— Desista Bonnie! Como eu disse, todos que estão aqui são meus conhecidos, e nenhum deles me interessa. Muito menos para essas atividades.
— Certo. — Bonnie murmurou desanimada. Mas então, seu rosto se iluminou e ela se virou para a amiga com um sorriso brilhante. — Acabei de me lembrar de algo. Lorde Kai convidou um amigo para esse final de semana, alguém que ainda não conhecemos, um duque inglês. Segundo ele, é um jovem bruxo tão poderoso quanto ele que se tornou membro da marinha, proprietário de várias terras e dono de muitos negócios. Talvez Kai possa apresentá-los e, quem sabe, ele desperte seu interesse.
— Agradeço sua oferta, mas não tenho interesse.
Bonnie revirou os olhos. Aquela não era a primeira vez que discutiam o assunto. Há anos Bonnie tentava convencê-la, sem sucesso, a experimentar as delícias dos casos passageiros. Assim como Caroline.
— Alegremente deixo todas as aventuras adúlteras para você e Caroline. Não estou interessada em amantes. Tenho uma vida cheia, que me mantém ocupada. Agora saia, gostaria muito de tirar um cochilo antes do jantar.
— Certo, vou deixá-la em paz. — concedeu Bonnie, levantando-se. — Tomarei um demorado banho enquanto penso numa maneira de estar com Kai esta noite.
— Será um pouco difícil, dividindo a cama com seu marido.
— Talvez Enzo procure a companhia de outra lady, como fez quando passamos o fim de semana na residência dos Salvatore. Lady Sybil é uma das convidadas de Caroline, então, ele pode querer passar um tempo com ela novamente.
— Katerina Salvatore também. — completou Elena, com amargura.
— Você tem que ignorar Katerina, querida. Ela é cunhada de Caroline, então sempre a veremos. E ela adora provocá-la. Se ainda não dormiu com todos os homens aqui reunidos, não foi por falta de tentativas. Você sabe o quanto ela é oferecida.
— Não me faça pensar nisso. — Os rumores ligando lady Salvatore a seu marido, além de insistentes, revelavam a pura verdade.
— Creia-me, ela não significa nada para nenhum deles.
Era isso que Elena pensava para poder se convencer a continuar naquele casamento infeliz. Nenhuma das amantes de Klaus significava algo para ele.
A baronesa caminhou até a porta.
— Portanto, ignore a vadia. É o que todas as outras mulheres farão.
— Enquanto todos os homens a cercarão de atenções. - Elena completou triste.
Bonnie parou na porta e olhou para Elena. Vendo a amiga entristecida disse:
— Ouça meu conselho, querida amiga. Prove os prazeres do amor ilícito qualquer dia desses. Não como Katerine, é claro, que passa de mão em mão. Apenas experimente, uma única vez. Vejo-a no jantar.
