Capítulo VII
Quando a manhã chegou, Elena despertou na hora marcada. Movida por uma energia nervosa, abriu a gaveta da cômoda e analisou as opções de roupas íntimas. Determinada a embarcar em sua primeira jornada rumo à autodescoberta, decidiu-se pela lingerie mais fina, descartando as de algodão, embora nunca cavalgasse vestindo roupa íntima de seda. Mas, aquela seria uma ocasião diferente de todas as outras, mesmo o duque ainda não sabendo o papel que viria a representar.
Elena estava convencida de que uma aventura ilícita requeria um corpo cuidadosamente perfumado, por isso optou pela essência de lírios, a fragrância suave se espalhando pelo ar. Embora fosse um cheiro de pureza, ela esperava que soasse como um convite ao pecado.
Enquanto se arrumava, ela se perguntou se fariam amor no chão, ou de pé. Ele a seguraria nos braços, como Kai fizera com Bonnie? Não seria melhor se buscassem refúgio em alguma pousada das redondezas?
Subitamente cheia de dúvidas, pensou em acordar Bonnie em busca de conselhos. Mas eram cinco e meia da manhã e, aos vinte e cinco anos, deveria ser capaz de desempenhar o ato sexual sem o auxílio de um livro de instruções! De qualquer forma, não tardaria a descobrir onde o duque preferia fazer amor. Ela tinha certeza de que ele era um bruxo de prodigiosos hábitos sexuais, considerando sua beleza e fortuna. Esse detalhe, de como e onde fariam amor não representaria um problema.
Ao terminar de se arrumar, olhou-se rapidamente no espelho e saiu do quarto. Atravessando o corredor deserto e silencioso, perguntou-se quem estaria dormindo com quem, e se perguntou se no dia seguinte estaria ela dormindo em uma cama que não era a sua, ou com um homem que não era o seu marido.
Pela primeira vez na vida, Elena tomara uma decisão da qual sempre se julgara incapaz. Em poucos minutos estaria entrando no sofisticado mundo dos adúlteros. Ou, pelo menos, tentaria.
Lá fora, o sol cálido da manhã brilhava e uma brisa suave agitava as folhas das árvores. Encorajada pela beleza da paisagem, inspirou fundo e sorriu. Seria esse o cheiro da liberdade?
Incapaz de dormir, Kol chegou aos estábulos muito antes da hora combinada. Assim que o cavalariço entregou-lhe seu cavalo, dispensou-o, preferindo ficar só enquanto aguardava Elena. Impaciente, olhou o relógio dezenas de vezes, como se fosse um rapazinho nervoso e inexperiente.
Irritado consigo mesmo, procurava se convencer de que aquela era uma manhã igualzinha a qualquer outra e Elena Mikaelson, sua cunhada, era apenas uma mulher como qualquer outra. Entretanto, apesar das considerações lógicas, não conseguia permanecer calmo e indiferente.
Ao vê-la se aproximar, exalando altivez e elegância por todos os poros, o ar lhe faltou nos pulmões. Envergando um traje de montaria marrom, ela era a própria imagem da feminilidade, as curvas sinuosas dos quadris e dos seios enfeitiçando-o.
Que diabos faria? Sentindo o início de uma ereção, cerrou os dentes, obrigando-se a desviar o olhar da figura provocante de sua cunhada. Ele se irritou consigo mesmo. Nunca fora suscetível a uma doppelganger como seus irmãos. O que tinha Elena que o atraía tanto?
Para disfarçar o desejo súbito que o assolara, cumprimentou-a friamente. Porém, ao ver o belo sorriso de Elena se apagar, desculpou-se depressa.
— Perdoe-me se soei brusco, é que acordei há pouco tempo. — mentiu — e minhas cordas vocais ainda não se aqueceram.
A verdade é que Kol passara a noite em claro, pensando nela. E ele tinha certeza de que passaria mais uma noite em claro depois de vê-la assim, tão bonita e sorridente.
Elena admirava o quão bonito ele estava. Alto, musculoso, viril. A pele clara, os cabelos castanhos crescidos, os olhos castanhos sob sobrancelhas grossas, a linha da mandíbula bem marcada. Lorde Kol era tão diferente de seu marido, e tão terrivelmente sedutor!
— De fato é muito cedo — Elena concordou, sentindo-se estranhamente zonza. — E eu quero me desculpar por ontem a noite. Saí sem ao menos me despedir. Não tinha certeza de que você viria esta manhã.
— Tudo bem. Imaginei que você tenha ficado assustada com a perspectiva de ser vista.
— Também, mas não apenas por isso. Eu estava agitada, sufocada. Decidi ir até a cozinha em busca de um chá calmante, mas nos encontramos e... Bem, espero que você não se importe de cavalgar comigo tão cedo.
Percebendo o tremor e a hesitação na voz dela, Kol não teve coragem de ser honesto. Controlando os impulsos eróticos com uma vontade férrea, sorriu.
— Não, claro que não. — Como poderia manter distância, quando aquela mulher afetava cada um de seus sentidos?
— Você vai fazer amor comigo? — ela indagou de repente, enrubescendo até a raiz dos cabelos.
Pego de surpresa, Kol quase cedeu ao impulso de tomá-la nos braços e carregá-la de volta para o quarto. Todavia, a razão prevaleceu e ele apenas a encarou, incapaz de dizer algo.
— É que Bonnie... você a conhece. — Vermelha feito um pimentão, Elena murmurou, nervosa. — Isto é, nós dois a conhecemos... Bonnie é minha melhor amiga... e outro dia me falou... E ontem eu... Oh, Deus, nunca fiquei tão envergonhada em toda minha vida. Você vai pensar que sou louca, e com razão. — Sabendo já ter ido longe demais para tentar consertar o estrago e fingir tratar-se de uma conversa normal, resolveu prosseguir, perguntando-se se o silêncio de Kol devia-se ao susto que ela lhe dera, ou ao cavalheirismo. — Mas...Bem... Nunca dormi com homem nenhum além de meu marido. Cheguei à conclusão de que talvez esteja na hora de fazê-lo. Se você puder me encaixar entre seus compromissos, ficarei eternamente grata.
Embora ansiasse dizer sim, Kol não era um devasso sem caráter, disposto a arruinar damas virtuosas. Ainda mais sendo ela a sua cunhada. Por um instante pensou em torná-la sua amante e deixar que Klaus soubesse. Seria um golpe no orgulho de seu irmão, uma pequena vingança para Kol. Mas encarando Elena, ele concluiu que não seria capaz de usá-la dessa maneira.
— Não deixe que seu marido ou suas amantes a incomodem.
De repente, Elena se sentiu ainda mais humilhada, tanto por sua ingenuidade quanto pela rejeição que estava sofrendo. Já não bastava seu marido, o duque também a rejeitava. Bonnie estava errada sobre as intenções dele.
Kol observou a mudança na expressão dela e se amaldiçoou por entristecê-la.
— Há mulheres que são extremamente amigáveis com os homens, e há homens que são incapazes de permanecerem fiéis a uma única mulher, por isso há tanta infidelidade em nosso meio — o duque ponderou — Mas isto não significa que você deva mudar seu modo de vida.
— Talvez eu queira mudar. — Elena argumentou.
— Nem seu marido e nem a amante, ou amantes, dele merecem que você mude sua vida por eles. Acredite-me!
— Você conhece meu marido? — Elena questionou curiosa.
— Sim. — Ele declarou — Mas não temos contato há muitos anos. — Kol teve o cuidado de não mentir.
— E Klaus não vale meu rancor?
— Não. — O duque disse com firmeza.
— Eu ouvi o que lorde Kai disse a você ontem a noite, imagino que tenha ouvido outros comentários sobre meu marido e meu casamento. Ainda assim me aconselha a cumprir meus deveres de esposa? Parece-me um ponto de vista machista.
— Sou o último homem a adotar opiniões machistas. Gosto das mulheres.
— Imagino que sim.
— A questão é a seguinte — Kol suspirou — Você está zangada agora e busca vingança. Não se lance em algo de que se arrependerá depois.
— Talvez eu não vá me arrepender.
Kol inspirou fundo. Elena era insistente e parecia determinada, mas ele não queria ser o instrumento de perversão dela. Embora ele a desejasse, não queria que uma aventura arruinasse a breve relação que tinham estabelecido, ainda mais considerando que ele estaria fazendo contato com seu irmão em breve. Ele tinha que se conter e resistir a sua cunhada.
— Elena, isso não ajuda muito. Eu estou tendo um raro ataque de consciência neste momento, não me faça mudar isso.
— Você está me rejeitando porque não gosta de mim? — Ela perguntou insegura.
— Pelo contrário... O que eu mais quero agora é você. — Kol a encarou, o desejo escrito em seu olhar.
— Fico feliz. — Ela sorriu genuinamente, sentindo-se menos humilhada. — Pelo menos leve-me para cavalgar, já que se recusa a cooperar com a minha mudança. — pediu, num fio de voz.
De súbito, era como se Elena estivesse muito perto, o perfume suave inebriando-o, enfeitiçando-o...
— Não deveríamos.
— Não precisamos ir muito longe.
— Não sou um homem virtuoso.
— Levaremos meu cavalariço conosco.
— Um acompanhante?
— Se você precisar de um. — Elena deu de ombros.
O que ele precisava, não poderia ter. Era Elena em sua cama.
— Você é muito tentadora.
— Não o suficiente. Mas de fato não o sei. Nunca pensei em outro homem... nesses termos.
— Estou honrado.
— Mas não disposto. — Ela retrucou.
— A pureza e a inocência me intimidam — Kol retrucou, entre sério e brincalhão.
— Talvez eu possa me esforçar para ser menos pura.
— Por favor... não.
Elena sentiu-se derrotada.
— Compreendo. — Ela murmurou.
— Duvido que entenda, porque eu mesmo tenho uma dificuldade enorme para compreender.
— Nesse caso, terei de buscar outro homem, um mais disposto. — Elena disse.
Kol prendeu a respiração, seu corpo retesando. Não queria fazer Elena sua amante, mas não queria que outro homem a fizesse.
— Não fará tal coisa! — Ele disse num tom que fez Elena ter certeza de que ele tentaria impedi-la.
A verdade é que ela não tinha certeza se faria. Ela nunca conhecera um homem antes que a fizesse pensar em trair Klaus. Isso acontecera apenas com Kol.
— Bem, pelo menos aproveitemos a cavalgada matinal. — Ela suplicou, vendo como ele estava tenso.
— Seria mesmo uma pena desperdiçarmos essa bela manhã. — Kol murmurou, ainda pensando sobre a ideia dela de encontrar outro homem para ser seu amante.
— Sim, e ambos já estamos vestidos. — Elena sorriu.
— Sim! Portanto, por que dificultarmos as coisas? — Kol sorriu para ela.
— É o que eu penso — ela concordou, com um sorriso radiante para ele.
— Mas iremos sós.
— Mudou de ideia? — Elena questionou com surpresa.
— Prometo me comportar se você se comportar.
— Pois não conte com isso. — Ela deu-lhe um sorriso travesso.
Depois de montar, Elena atiçou seu cavalo e partiu com Kol em seu encalço. Os dois se lançaram na direção dos campos verdejantes, sentindo a brisa da manhã e o cheiro de liberdade.
