- Veja, chegamos! – disse Hoss apontando para uma casa grande de dois andares logo à frente. Parecia ser um lar muito aconchegante, mas Nielle se perguntou como seria uma casa onde viviam apenas homens.

Parando a carroça, Hoss desceu primeiro e logo em seguida parou ao lado dela para ajudá-la a descer, segurando-lhe pela cintura com cavalheirismo. Meio sem jeito, ela murmurou um 'obrigada', mas ele pareceu não ter ouvido, pois já estava descarregando as malas.

A porta da frente se abriu e Nielle se virou ao som do clique. De lá surgiu um homem chinês com uma trança enorme. Ele estava segurando um facão de cozinha com uma das mãos e tinha um ar preocupado:

- Onde o senhor Hoss esteve a talde toda? Seu pau estar muito nelvoso! Espela foi longa demais!

- Oh, olá Hop Sing. Demorei porque surgiram alguns... Imprevistos. Mais tarde irei explicar isso para ele. Essa é a senhorita Nielle Arwing. Nielle, esse é o Hop Sing, nosso cozinheiro.

- Muito prazer – ela estendeu a mão, mas Hop Sing apenas devolveu o olhar e disse:

- Ilei plepalar um qualto pala senholita. – em seguida, murmurou algumas palavras em chinês, como se estivesse praguejando e entrou.

- Acho que ele não gostou muito de mim, Hoss...

- Néh... Ele só está um pouco nervoso por causa da preocupação do meu pai. Venha, vamos entrar. Ainda preciso lhe apresentar ao meu pai e irmãos e conversar com eles a respeito do contrato de madeiras.

Carregando as malas da jovem, eles entraram. Ao ver a sala, Nielle teve sua primeira pergunta respondida: então aquele era o visual de uma casa onde viviam apenas homens! Um ambiente muito confortável, mas bem rústico; porém, muito bonito! Sentiu que adoraria passar alguns dias ali até que conseguisse um emprego, isso se o Sr. Cartwright permitisse que ela ficasse ali até então.

No canto havia um pequeno escritório com uma mesa e um mapa da região pintado, ao fundo. Ali se encontrava um homem todo vestido de preto, analisando alguns papeis. Logo à frente, algumas poltronas, onde em uma se encontrava um rapaz mais jovem, que estava deitado com os pés na mesinha de centro. Ambos tinham ótima aparência, embora aos olhos dela não possuíssem nenhuma semelhança entre eles mesmos e Hoss. Porém, pelas descrições, ela logo julgou que se tratavam dos irmãos dele...

Ao verem a moça ao lado do irmão, imediatamente os rapazes se levantaram e fizeram uma mesura.

- Nielle, esses são meus irmãos Adam – o homem de negro lhe estendeu a mão e lançou-lhe um olhar examinador e desconfiado; como se a conhecesse de algum lugar. Isso a assustou momentaneamente, mas desviou o olhar para o irmão mais novo – e Little Joe.

- Prazer em conhecê-los. – ela disse, educada. Little Joe lançou um olhar de admiração e deu uma piscadinha discreta para Hoss e Adam. Era a mulher mais bonita que Hoss já havia lhes apresentado. Não se lembrava de ter visto cabelos tão vermelhos assim antes; cada cacho parecia uma chama acesa – Muito prazer, senhorita.

- Adam, Joe, esa é Nielle Arwing. Onde está Pa? Preciso falar com ele.

- Oh, ele também precisa falar com você. E pelo visto não será uma conversa nada agradável. – Joe adiantou – O homem está uma fera.

Vindo da porta, Adam completou:

- E pelo visto você trouxe o carregamento de volta. Isso não é bom, Hoss.

- Sim, eu sei. – Hoss praguejou baixinho – Mas era isso ou deixar a madeira lá e sem dinheiro algum.

O som de passos rápidos vindos em direção à sala foram ouvidos e com eles, uma voz alta como um trovão:

- Hoss? Hoss, é você?

- Sim Pa, estou aqui.

- Onde diabos você esteve? – o som parecia ecoar por toda a casa – Eu estava preocupado! Tem ideia das bobagens que eu pensei que... – ele parou ao ver a figura da jovem que estava atrás de seu filho – Oh... E vejo que temos visitas... – o olhar de reprovação fez com que Hoss engolisse em seco.

- Sim, Pa. Essa é a Srta. Nielle Arwing. Ela está procurando por emprego em Virginia City, mas não teve muita sorte. Como não tinha para onde ir, imaginei que não se importasse em deixá-la aqui até encontrarmos algo.

- Eh... Prazer em conhecê-lo, Sr. Cartwright. Espero que minha presença aqui não importune sua família.

- Não, de maneira alguma Srta. Arwing. Será um prazer tê-la conosco. Imagino que esteja cansada da viagem, queira tomar um banho e descansar. Pedirei a Hop Sing que lhe prepare um quarto, jantaremos logo.

- Hop Sing já está cuidando disso, Pa. – Hoss garantiu.

Logo em seguida o esperto chinês surgiu no topo da escada – O quarto da senholita já está alumado. Hop Sing vai à cozinha plepalar o jantar agora. Vocês podiam ao menos avisar quando tlazem alguém; deixam tudo por minha conta e na última hola! – e praguejando algumas palavras em chinês, desceu as escadas e se dirigiu à cozinha com rapidez.

- Não ligue para ele. – Joe interveio, cavalheiro – Venha, vou lhe mostrar o seu quarto.

Pedindo licença a todos, ela agradeceu e o acompanhou. Tocando o ombro do filho, Ben disse:

- Venha, precisamos conversar sobre o contrato e... Essa moça.

Pressentindo que levaria uma bronca, Hoss fez uma careta enquanto acompanhava o para fora da casa.

Em silêncio e com um ar divertido, Adam acompanhou toda a cena. Em seguida, adquiriu uma expressão mais séria e pensativa.

Após aquele revigorante banho, Nielle finalmente se sentiu uma pessoa de novo... Fazia tanto calor, não sabia dizer se era propício da cidade ou se era culpa do próprio tempo. Iria usar um vestido simples para o jantar e nenhuma jóia. Havia refletido brevemente se deveria contar a verdade sobre suas origens aos Cartwright ou se ainda deveria manter isso em segredo. Sentia-se péssima por pensar em esconder isso deles, pois eles estavam sendo muito gentis em lhe oferecer estadia sem saberem nada sobre ela, mas ao mesmo tempo sentia-se insegura ali... Tinha medo de que seu pai ou o Conde a encontrassem por meios indiretos ou que o Sr. Cartwright lhe escrevessem, enviassem um telégrafo ou algo do gênero. Mas pensando bem, ele não tinha motivo para fazer algo assim... Ah, estava tão confusa! Nunca tinha feito aquilo antes, por isso se encontrava nessa situação e tão insegura.

Rapidamente, Nielle vestiu um modelo branco com estampas florais azuis. Fez um coque simples, deixando alguns cachos soltos na testa e próximos às orelhas. Por último, calçou as botas. Estava pronta e linda, de uma maneira... Campestre.

Logo a figura de Hoss lhe veio à mente e sem saber por que, sorriu. Talvez por que ele havia sido o único cujo olhar não lhe causou apreensão. Lembrou-se do olhar desconfiado de Adam, o de desejo de Little Joe e do nervoso do Sr. Cartwright. Mas Hoss havia lhe olhado com ternura e ela sentiu que estava bem, segura. Nielle sabia que estava agindo mal julgando a família dele apenas pela primeira impressão; mas eles também não pareciam de ter feito o mesmo com ela?

Ao pensar em todas essas coisas, sua cabeça começou a doer e achou melhor parar. Isso acabaria por lhe fazer mal e pelo menos durante algum tempo queria sentir que estava em paz.

- E é isso, Pa. Ela só me disse que estava procurando por emprego e que pretendia ficar por muito tempo em Virginia City, que não tinha dinheiro para pegar uma diária em um hotel. O que o senhor queria que eu fizesse?

Refletindo um pouco, Ben ponderou que deixá-la ficar por ali por alguns dias não faria mal a ninguém. E naquelas circunstâncias, ele sabia que Hoss não agiria de forma diferente, conhecia o filho. Ele já havia feito aquilo outras vezes, trazer desconhecidos – e desamparados – para Ponderosa.

- Ficou com pena, ou será que foi outra coisa? – Little Joe provocou.

- O que quer dizer com isso?

- Bem... Temos que admitir que ela é linda. Tenho certeza de que ao ver aquele lindo rostinho triste, você sentiu o coração balançar e foi correndo oferecer ajuda! – e piscou para o irmão, que já estava com as bochechas redondas rosadas.

- Escute aqui, Joe. Eu juro que decidi trazê-la por que... Porque senti pena e isso é tudo. Eu não podia deixá-la lá, sozinha.

Adam, que até aquele momento havia ficado em silêncio, apenas ouvindo, se aproximou mais do grupo e disse:

- Pa... Eu acho que... – e se calou. Não queria dizer nada sem ter certeza, precisava checar tudo antes – Esqueçam. Teremos o jantar para conhecê-la um pouco mais – e sorriu de forma enigmática.

Fechando a porta do quarto, Nielle colocou a mão na cintura, respirando fundo. Embora quisesse acreditar que não havia motivos, estava com medo... De Adam Cartwright.