Hoss havia mesmo escolhido um ótimo lugar para um piquenique: a grama era muito verdinha, havia árvores enorme sombreando o lugar, uma paisagem belíssima e o céu estava lindo, de um azul intenso e nuvens como algodão.
Nielle cortou uma fatia do bolo, que Hoss comeu com gosto. Ela também experimentou e estava mesmo muito bom! Com toda aquela apreensão que havia passado pela manhã, achou que não teria sorte. Por precaução, julgou conveniente ficar longe da cozinha de Hop Sing por alguns dias.
Assim que terminaram o frango assado que o cozinheiro havia preparado eles, arrumaram tudo de volta no cesto e continuaram sentados sob o pano estendido na grama, aguardando o tempo necessário para entrarem na água.
- Hoss, o que a população de Virginia City faz para se divertir?
- Bem, de vez em quando ocorrem bazares e quermesses da Igreja para angariar fundos, bailes, concursos...
- Concursos? De quê? – ela quis saber, interessada.
- Há o Concurso de Panquecas*, em que meu irmão Joe me fez participar uma vez. Tive que ficar vários dias a pão e água. – rindo, os olhos dele brilharam com aquela lembrança divertida – Foi muito difícil para mim, Joe armou várias armadilhas para evitar que eu assaltasse a cozinha à noite.
- E você tentou? – ele confirmou meneando a cabeça um pouco constrangido e ficou vermelho quando ela soltou uma gargalhada, divertindo-se com aquela confidência.
- Nossa, que ótima história! E quando haverá outro?
- O próximo Concurso de Panquecas será no ano que vem. – refletindo um pouco, Hoss tentou se lembrar de algum evento próximo. E se lembrou de um, que a Sra. Peacock comentou com os congregados após o culto do último domingo. Também haveria um baile no sábado, dali a duas semanas. Um pouco tímido, quis convidá-la para ir com ele, mas se sentiu inseguro e imaginou que ela não aceitaria.
Nielle era tão bonita... Talvez não quisesse ser vista com alguém como ele em um baile lotado. Sem contar que... Que já estava cansado de sofrer daquela forma. Perdera as contas de quantas vezes seu coração precisara ser remendado. Em uma questão de segundos, pensou em tudo isso e seu semblante ficou triste, Hoss baixou os olhos e parecia ter entrado em um transe melancólico, em um caleidoscópio com as lembranças de todos os seus amores frustrados.
Nielle percebeu que ele havia mudado, mas não conseguia ver os olhos dele. Com gentileza, ela levantou o queixo dele e procurou pelo seu olhar, que se encontrava vago, completamente perdido.
- Hoss? Hoss, o que aconteceu?
Deixando o torpor que o envolvia, ele olhou para ela como se estivesse despertado naquele momento.
- Oh, desculpe!... Na próxima semana haverá um concurso de pinturas.
- Pinturas? Isso é ótimo, Hoss! – ela respondeu entusiasmada – Adoro pintar... Será que poso me inscrever?
- Sim, é claro que sim. O que irá pintar?
Ela lançou um olhar curioso para ele e novamente tocando de leve no queixo dele, virou seu rosto redondo para a direita e para a esquerda.
- Irei pintar você! Que tal?
- A mim? - ele se assustou – Por que eu? Acho melhor não desperdiçar o seu talento comigo, moça.
- Ora, mas o que está dizendo? Será ótimo participar do concurso e o quadro será também uma forma para agradecê-lo por tudo o que tem feito por mim.
- É um lindo gesto, mas... Não pense que irá ganhar o concurso com a minha cara, Nielle.
- Deixe de bobagens, Hoss. Como é que um homem tão generoso como você pode ser tão destituído de confiança?
Aquele olhar tristonho retornou e Nielle ficou preocupada. Hoss fitou a lagoa e após alguns segundos em silêncio, ele disse:
- Se você soubesse o que eu já vivi, me entenderia.
Ela percebeu que mesmo sendo tão boa pessoa, Hoss já havia sofrido muito. E se sentiu com uma parcela de culpa por despertar nele aquelas que pareciam ser sombras em seu passado. Não perguntaria nada sobre o assunto, pois ele mesmo não a forçara a dizer nada sobre ela e estava agradecida por isso. Ouviria apenas se ele quisesse e tomasse a iniciativa de se abrir com ela.
- Bem... Depois que você me ensinar a pegar alguns peixes, podemos ir até a cidade comprar os materiais para a pintura e fazer a minha inscrição para o concurso, que tal? – ele balançou a cabeça em afirmativa e ela continuou – Já se passou algum tempo dede o piquenique, vamos começar?
Sorrindo, Hoss pegou a vara de pescar e a ensinou a preparar as iscas. Enquanto o observava, tentava imitá-lo, mas a minhoca sempre escapava por entre seus dedos, lutando por sua sobrevivência. Aquilo a enterneceu e logo ela lançou um olhar pidão a Hoss:
- Pobrezinha... Não posso fazer isso, Hoss!
Rindo, ele rebateu:
- Não acredito! Mal começamos e já está com pena da isca? E olha que ainda não partimos para o peixe!
Ela inclinou a mão para devolver a isca para a latinha quando ele a impediu, segurando sua mão e trazendo-a de volta para o anzol.
- Ande, vamos logo. Estou esperando – ele disse com um olhar sério.
Nielle não teve outra alternativa a não ser obedecer e espetou a minhoca no fino anzol.
- Ótimo! Não foi tão difícil assim, foi? Agora vamos.
Ao aproximarem-se do lago e vendo que ela mal sabia manejar a vara de pescar, rapidamente se aproximou para ensiná-la. Se aproximando por trás da moça e com gentileza, a ajudou a apoiar com as duas mãos.
- Segure assim, com firmeza. E não solte! Quando sentir uma fisgada forte, é porque o peixe mordeu a isca.
- Está bem, não vou soltar.
- Não estranhe se passar muito tempo. Isso pode demorar.
Porém não tiveram que esperar muito tempo. Logo Nielle sentiu um forte puxão que a teria feito mergulhar no lago caso Hoss não estivesse ali. Quando puxaram a linha, viram com satisfação que era um peixe enorme.
Passado mais algum tempo, pescaram outros – um deles ela conseguiu sem nenhuma ajuda – e foi com um sorriso que disse a Hoss que achava finalmente ter pego o jeito para a pesca.
Continua no próximo capítulo...
Notas do capítulo: *Para entender essa história, assista ao episódio The Flapjack Contest (s06e15)
