Já era noite e Nielle ainda não havia saído do quarto dele. Imaginou que pela raiva ou tristeza que sentiu naquele momento, não distinguira os quartos no corredor e entrara no dele por engano. Hoss sentia-se péssimo por tê-la magoado, mil coisas passaram por sua cabeça... A que mais lhe perturbava era o pensamento de que ela pode ter entendido que ela não era digna de lhe retratar em uma tela. Mas a realidade era outra, ela imaginava que um retrato seu atrapalharia suas chances de vencer o concurso de pintura. E diabos, ele sabia que estava certo.

Ela também não quis descer para o jantar, preferiu ficar no quarto e por isso Bem pediu a Hop Sing que lhe levasse uma bandeja e a buscara há cerca de dez minutos. Todo o jantar havia transcorrido de forma um pouco tensa, mas com assuntos triviais por parte dos demais Cartwright, para não chatear o irmão do meio. Isso era um pouco incomum, já que eles geralmente se abriam uns com os outros, sempre que algo os perturbava e entristecia.

Falaram sobre o baile que havia depois do concurso, dali a duas semanas. Little Joe já havia convidado a Srta. Lygia Andrews, a jovem mais bonita de Virginia City. Tivera inclusive que dar alguns socos em outros pretendentes para conseguir sair com ela.

Já Adam iria com uma jovem viúva da região, Sra. Stella Simpson. Estava fazendo a corte a ela há algumas poucas semanas. Ela havia perdido o marido em um acidente na mina de prata de Over Hill há dois anos. Ben acompanharia os filhos... E quanto a Hoss, acreditavam que ele convidaria Nielle, mas depois do incidente no início daquela noite, agora não tinham certeza.

Depois do jantar, Hoss aproximou-se da porta e quis bater várias vezes, mas algo o impedia. Descendo as escadas de volta para a sala pela enésima vez, encontrou o rosto de Pa fitando o seu preocupadamente.

- Ela ainda está lá?

- Está sim, Pa.

- É melhor que a deixemos passar a noite no seu quarto, Hoss. Amanhã pela manhã terei uma conversa com ela, porém acho melhor que a deixemos esfriar a cabeça.

Hoss assentiu, resignado. Estava se sentindo péssimo, nem mesmo tinha sono. Queria poder conversar com ela, pedir-lhe desculpas pelo que tinha acontecido. Teria sido melhor ser sincero com ela na beira do rio do que ali, diante de todos.

Subiu as escadas e se dirigiu ao quarto de hóspedes onde ela estava desde que chegara a Ponderosa. Por mais estranho que aquilo fosse, sentia-se um invasor da intimidade daquela moça e aquele quarto que já conhecia lhe parecia diferente, como se fosse um novo ambiente. Ali tinha um novo toque, um novo aspecto, uma fragrância suave...

"Devo estar ficando louco!" pensou confuso.

Hop Sing havia deixado ali, a seu pedido, um pijama limpo, pois todas as suas roupas se achavam no outro quarto. Dormiria usando aquele pijama e quando amanhecesse, vestiria novamente a roupa que usara no dia anterior, não haveria problema.

Tirou as botas e trocou de roupa, para logo em seguida, repousar o corpo naqueles lençóis sedosos. Ao colocar a cabeça naquele travesseiro macio, sentiu o cheiro suave dos cabelos de Nielle e por alguns momentos parecia estar agradavelmente entorpecido. Era um cheiro suave de flores silvestres, parecia estar em um jardim e sem perceber logo se viu ao lado dela, ambos caminhando nesse lugar e de mãos dadas. Sorrindo, ele tirou do bolso da camisa uma caixinha de madre-pérola, a entregou em suas mãos e falou: "Nielle, preciso te dizer uma coisa...".

Ela abriu a caixinha e foi com surpresa que viu lá um camafeu muito bonito. Ela o contemplou feliz e virando-se de costas para ele, pediu-lhe que a ajudasse a colocá-lo, levantando a linda massa de cabelos vermelhos. Foi então que ele sentou de novo aquela mesma fragrância e fechou os olhos.

Ficando de frente a ele, abriu a peça, mas não havia nada lá dentro.

"Quero colocar duas fotos neste camafeu, Hoss: uma minha e uma sua. Será uma forma de me lembrar para sempre deste dia."

Ele sorriu e a ouviu continuar: "Também tenho algo para você. Sabe, eu nunca acreditei em coincidências, mas sim em destino. Acredito que foi ele quem nos trouxe aqui e que fez com que eu também escolhesse esse presente."

Com a mão direita, tocou no bolso do vestido e de lá tirou um relicário; a peça e a correntinha eram de ouro puro.

Ele o abriu e foi uma muda surpresa que viu ali dentro um retrato que conhecia muito bem. O retrato de sua mãe.

Hoss despertou daquele sono assustado e sem nada entender.

No dia seguinte, Hoss levantou-se disposto a conversar com Nielle, pedir-lhe desculpas. Após a rotina matinal antes do desjejum, bateu na porta de seu próprio quarto à procura dela.

- Nielle? É Hoss. Podemos conversar por um minuto?

Silêncio. Ele abriu a porta devagar, mas não encontrou ninguém ali. Tudo estava arrumado e impecavelmente limpo, nem mesmo parecia que ela havia passado a noite ali.

Sem entender mais nada, ele desceu as escadas e encontrou todos à mesa, menos a hóspede.

- Bom dia!

- Bom dia, Hoss – responderam Adam e Joe em uníssono. Ben olhou por cima da xícara e respondeu ao seu comprimento com um 'Bom dia, filho.'

- Onde está Nielle?

- Ela tomou café bem cedo e saiu. – Ben respondeu enquanto cortava o bacon.

- E com todo o material de pintura. – foi a vez de Joe, que observava atentamente a reação do irmão.

Hoss baixou os olhos e murmurou um 'Ah!' antes de se sentar à mesa.

- Pa, partirei daqui a pouco. – Adam disse, engolindo o café com um pouco de pressa.

- Vai viajar, Adam?

- Sim Hoss, mas serão por poucos dias. Preciso... Bem, confirmar uma coisa. – e lançou um olhar meio estranho para ele - Voltarei a tempo do concurso de pintura.

Sério, Adam pousou a xícara de café na mesa e refletiu um pouco sobre essa repentina viagem que decidira fazer. Tinha uma leve desconfiança sobre aquela jovem que morava em Ponderosa. Sentiu que precisava investigar o passado dela, pois não queria que seu irmão sofresse mais por causa de mulheres sem caráter, compromissadas ou caçadoras de fortunas. Se bem que, se ela fosse quem ele suspeitava, não se trataria de uma, pois teria muito mais dinheiro do que sua família. Enfim, fosse ela quem fosse, cedo ou tarde iria descobrir.. Fazia isso para o bem de Hoss. Percebera o carinho que o irmão do meio manifestara sobre ela, com certeza Joe e Pa também. Ele não merecia passar por outra situação como as demais que experimentara e faria o possível para evitar uma decepção ainda maior, se pudesse agir a tempo.

Assim que ele se levantou, os demais fizeram o mesmo para acompanhá-lo até a carruagem e se despediram. Depois voltaram, terminaram de tomar o café e se voltaram para seus afazeres no rancho.

Hop Sing comentou com Hoss que Nielle havia pedido um lanche e um almoço em uma cesta e o levado com ela. Hoss ficou intrigado... Para onde ela teria ido?

- Pa... – ele começou a falar enquanto prendia o coldre na cintura – Vou sair para procurar por Nielle. Estou preocupado.

Ben não disse nada, apenas assentiu e fixou os olhos no filho, vendo-o passar pelos umbrais da porta, apressado. Little Joe, que se encontrava na sala sentado, com os pés da mesinha de centro, pensou em acompanhá-lo. Porém ponderou que aquele era um assunto pessoal do irmão mais velho e que deveria ser resolvido por ele. Hoss a encontraria, não havia ninguém que conhecesse aquele território melhor que os homens de sua família. E naquele mesmo lugar também, ela não poderia ter ido tão longe.

Continua no próximo capítulo...