Hoss cavalgou por cerca de uma hora debaixo daquele sol até que a encontrou... Naquele lugar.

Imaginou que ela não poderia ter ido tão longe, que ainda estava dentro de Ponderosa. E sem saber bem como, acabou indo até aquele mesmo lugar que era tão importante para ele. Sempre havia gostado dali, onde os pássaros construíam seus ninhos, o vento soprava uma brisa deliciosa, o sol brilhava suavemente e as flores davam o seu perfume. Até este dia, só havia levado uma pessoa lá... Alguém que havia marcado sua vida e que se fora sem dizer adeus há muito tempo... Emily.

Sentiu um aperto no coração... Logo após levar Emily para conhecer aquele cantinho, havia lhe dito um pouco do que sentia e logo depois, ela foi embora sem se despedir e para nunca mais voltar. Agora temia que o mesmo acontecesse com Nielle, que ela fosse embora depois de ter estado ali.

Ela estava muito bonita, com vestido verde leve, o vento sacudindo seus cachos vermelhos... Ela estava muito concentrada, pintando e não teria percebido sua chegada se ele não tivesse pisado em um graveto seco.

Assim que ela o viu, tirou a tela do cavalete, virou-a de costas e a cobriu com um pano. Esse gesto magoou um pouco Hoss, porém ele entendia que essa atitude era um direito que ela tinha; não tinha por que ver a pintura dela.

- Eu sabia que você me encontraria! – ela disse com um sorriso.

Ele correspondeu o gesto e tirando o chapéu, passou a mão pelos cabelos; um pouco sem graça:

- Pela forma como disse, dá a impressão de que eu a estava seguindo e a minha intenção não era essa, senhorita.

Ela o contemplou por alguns segundos e respondeu, por fim: - Sim, eu sei Hoss... Sabe que até hoje eu ainda não o tinha visto sem o chapéu? – e sorriu de novo.

Hoss teve uma sensação estranha naquele instante, aquela mesma que o incomodara antes. Um calor que parecia consumir-lhe as entranhas e uma incrível paz interior. Alguma coisa nele havia mudado. Não conseguia reconhecer certos sentimentos que estava tendo: insegurança, medo, preocupação, que se mesclavam a um sentimento de proteção, paz de espírito e esperança.

- Eh... Bem... – começou a dizer, tentando formular uma sentença em sua mente – Gostaria de me desculpar por ontem. Não era a minha intenção deixá-la triste ou... O que eu quero dizer é que, se há alguém digna de me retratar em uma pintura, esse alguém é a senhorita. Por isso, não pense o contrário porque essa não seria a verdade.

Ela ouviu tudo atentamente, sem interrompê-lo. Ficou feliz por ele ter dito que ela era a pessoa digna de retratá-lo em uma pintura, ninguém nunca havia lhe algo assim antes.

- Obrigada Hoss, foi muito bom ouvir isso. Mas eu também lhe devo um pedido de desculpas. Não lhe perguntei se ao menos queria posar para o quadro, praticamente lhe impus esta condição, o que não foi certo.

Hoss fez um gesto afirmativo com a cabeça, indicando que estava tudo certo entre eles; ela fez o mesmo.

- Então, já escolheu o que irá pintar?

- Já sim... – e não entrou em detalhes. Hoss achou que seria melhor mudar de assunto, pois ela não lhe diria o tema que havia escolhido.

- Como encontrou esse lugar?

- Para ser sincera, eu não sei... Queria encontrar um lugar tranqüilo para pintar e quando dei por mim, já estava aqui. O que acha de nos sentarmos um pouco e comermos algo? Hop Sing preparou uma cesta para mim!

Eles forraram o chão com uma toalha, sentaram-se e saborearam a comida da cesta. Quando terminaram, continuaram sentados ali, o dia estava lindo e soprava uma brisa muito suave. O silêncio parecia manter aquele clima de tranquilidade, ao invés da tensão usual. De certa forma, em meio ao silêncio ambos sentiam que pareciam se comunicar em meio àquela beleza natural, as palavras não pareciam ser necessárias.

- Hoss... – ela começou, a fim de esclarecer uma dúvida que havia surgido – E você, como conseguiu me encontrar?

- Esse é um lugar muito especial para mim. Sempre que eu me sentia só, triste ou queria ficar sozinho, vinha para cá. Houve uma vez... – parou, não querendo trazer à tona aquela triste lembrança.

- O que aconteceu, Hoss? Se não quiser me contar, eu o entenderei; porém se deseja desabafar, saiba que tem em mim uma amiga.

Aquelas palavras o feriram profundamente; o pior é que ele não conseguia entender bem o por quê. Não queria ser só o amigo dela... Queria estar sempre por perto quando ela precisasse, queria protegê-la, ser alguém importante para ela. Foi então que, num lampejo, entendera tudo: estava apaixonado por ela! Aqueles sentimentos estranhos não ocorreram por acaso, aquilo tudo era amor.

- Bom, é que... Uma vez eu trouxe até aqui uma pessoa que eu amei muito. Eu sabia o que sentia, mas pensava que ela não gostava muito de mim, que me achava feio. Acho que no início foi essa a impressão que eu causei a ela.*

A moça ouvia tudo atentamente, mas por alguma razão, sentiu que essa história não acabava bem.

- Só que depois... Ela disse que me amava. Quando achei que iríamos nos casar, ela havia ido embora.

- E por que ela se foi?

- Porque ela estava muito doente... Ela havia me dito isso antes, porém achei que se tudo desse certo, isso não nos impediria de sermos felizes...

- Oh Hoss, eu sinto muito! – e baixou os olhos. Nunca tinha ouvido uma história tão triste assim, não sabia o que dizer a ele.

- Você... Você já foi noivo outras vezes?

- Sim, já. Mas nunca tive muita sorte com esses assuntos. Acho que o meu destino é ficar aqui com o meu pai e meus irmãos. Eu acredito que eles virão a se casar e quem sabe o meu pai também.

- E você também, claro! – colocou a mão no ombro dele.

- Não, eu não...

Novamente ela ficou sem resposta... E olhou para trás, para a sua própria história. Seu maior medo era o de ser forçada a se casar com alguém que não amasse, apenas por conveniência. Isso era o que mais havia lhe acontecido na vida: ficar noiva. Viu que o sonho de Hoss era poder ser feliz e sabia que ele seria capaz disso com poucas coisas. Esse era o maior sonho dela também; porém chegou a pensar que nunca o seria presa a um matrimônio infeliz e mais, sem as regalias às quais estava habituada. Hoje ela podia ver que sim, conseguiria se realizar plenamente com bem menos... Ali, naquele instante, nada mais parecia lhe faltar.

E uma dúvida a assolava: se Hoss já havia passado por tantas coisas ruins com relação ao coração, por que não se tornara um homem amargo? Por que continuava assim tão doce quanto o mel da Terra Prometida? Sentiu-se péssima por estar omitindo tantos fatos sobre seu passado e atual situação; enquanto que ele estava abrindo o próprio coração para ela, relatando-lhe lembranças que certamente lhe doíam.

- Hoss... Há uma coisa sobre mim que você e sua família precisam saber... Não é nada muito grave, creio eu... Mas eu estou sendo procurada. Isso por que... Bem, porque eu fugi do meu país.

Nesse instante e sem que eles tivessem percebido, uma forte chuva torrencial caiu sobre eles. Isso era muito estranho, pois ainda há pouco o céu estava muito azul e límpido; sem nenhum sinal de alguma nuvem escura.

Rapidamente eles recolheram tudo do chão e amarraram às selas. Quando Nielle olhou para a direção do cavalete, exclamou: - Minha tela! – e correu até ela, cobrindo-a melhor com o pano, mas já estava tudo ensopado e eles mesmos, molhados até os ossos.

- Não se preocupe, há uma cabana próxima daqui. Lá eu acenderei o fogão e a colocaremos próxima ao fogo para se secar.

Velozes como o vento mesmo em meio aquele aguaceiro, esporearam os animais que deram o melhor de si naquela corrida. E após alguns minutos que pareceram intermináveis, chegaram à cabana que Hoss havia mencionado.

Eles entraram e pegando alguma lenha que estava cortada junto à parede, Hoss acendeu o velho fogão de ferro.

- Venha, vamos tirar essas roupas molhadas; do contrário ficaremos doentes! – e se dirigindo ao outro cômodo, trouxe alguns cobertores confeccionados com um pano grosseiro e escuro, e entregou alguns a ela.

- Essa cabana nunca fica sem provisões, graças ao meu pai. Ainda estamos em Ponderosa. Vou esperar no outro cômodo, enquanto as nossas roupas se secam e você se aquece.

Ela ia pedir-lhe que ficasse, mas sentiu vergonha. Por fim, assentiu com a cabeça, tremendo feito vara verde. Depois que ele se foi, tirou o vestido colocando-o perto do fogão, se enrolou no cobertor e sem se virar, pediu que ele deixasse as próprias roupas molhadas no chão. Hoss se aproximou devagar e também enrolado no cobertor, deixou as roupas próximas ao fogo, junto com o vestido dela. Assim que fez isso, ela lhe pediu que ficasse para que também pudesse se aquecer e se virou. Hoss estava parecendo um homem das cavernas enrolado naquilo e ela não conteve o riso.

- O que foi?

- Desculpe Hoss, mas é que você está muito engraçado todo enrolado assim!

Ele riu e falou:

- Sei... Se eu estivesse olhando para mim mesmo, diria que era um bolo de carne gigante.

Ela riu mais ainda e completou:

- Humm, bolo de carne!...

- É melhor pararmos de pensar nisso! Meu estômago já está se remexendo aqui.

Foi então que de repente ela se lembrou de algo importante: a tela! Precisava colocá-la próxima ao fogo! Correndo até onde havia deixado suas coisas, Nielle tirou o pano e a virou com cuidado; constatando com tristeza que tudo o que havia pintado antes agora não passava de um borrão multicolorido. Entristecida, ela colocou alguns dedos nos olhos para afastar as lágrimas.

Hoss a fitou com compaixão e se aproximando, falou:

- Não se preocupe... Ainda há tempo até o concurso. Tenho certeza de que você conseguirá refazer tudo até lá.

- É que... – ela tentou dizer, entre soluços - Você não entende! Estava ficando tão bonito!... – e baixando a cabeça, começou a chorar. Penalizado, Hoss se aproximou mais um pouco e lhe deu um abraço, numa tentativa de consolá-la. Com o rosto pingando pelas lágrimas, ela aninhou-se nos braços dele, escondendo o rosto.

Aquelas alturas eles já estavam secos, mas o peito de Hoss estava molhado de novo por consequência da tristeza dela. Ele não se importava, claro... Exceto pelo fato de que não queria que ela sofresse...

- Acalme-se. Não chore mais, senhorita... Eu já disse, ainda há tempo até o concurso. – e mergulhou aqueles dedos grandes nos cachos dela que, mesmo após aquela chuva toda, ainda continham uma doce fragrância.

Afastando o rosto para que o pudesse ver, ela fungava e algumas lágrimas ainda caíam. Hoss as enxugou todas com as pontas dos dedos e sem nem perceberem, seus rostos se aproximaram. Nielle fitou aqueles olhos, que tinham o tom de azul mais bonito e brilhante que ela já vira. Hoss correspondeu àquele olhar, e por sua vez parecia perdido no tom de verde dos dela.

Embalados pelo calor que emanava do fogão e o som da chuva que caía lá fora, eles trocaram um beijo, que mais pareceu uma carícia inocente. A moça teve um arrepio diferente, pois nunca havia sido beijada antes. De onde ela vinha, uma atitude dessa natureza seria o suficiente para condenar uma moça ao casamento, sem contar que estivera presa numa espécie de 'torre de marfim' por toda sua vida.

Já Hoss sentia o coração mais balançado do que boi em comitiva e seu enorme rosto redondo ficou vermelho como um pimentão. Ela também ficou envergonhada e virou o rosto para esconder o próprio rubor.

- Eh... Ah... – Hoss começou a gaguejar. Aquele era o momento ideal para dizer a ela o que sentia. Já tinha idade o suficiente para saber reprimir o que lhe transbordava no coração só lhe faria ainda mais mal – Se... Senhorita. Nielle... Preciso te dizer uma coisa.

Ela voltou o olhar, fitando os olhos dele com admiração.

- Sinto que isso não vai ser fácil para mim, pois não sou muito bom com as palavras como meus irmãos. Mas o que eu tenho a dizer é que... Tenho sentimentos pela senhorita. Sentimentos profundos.

- Oh, Hoss! – o coração dela palpitava num misto de felicidade e insegurança – Como isso é possível? Você não sabe nada sobre mim.

- Isso não tem importância! Teremos muito tempo para nos conhecermos... Queria que soubesse que não me importo com quem você seja ou que tenha feito, sempre há uma chance para um recomeço.

Baixando os olhos, ela não sabia o que dizer a ele. E agora, o que faria? Seu destino era um tanto quanto incerto e os Cartwright nada sabiam sobre o seu passado, quem realmente era e por que estava fugindo. Achou que poderia ficar ali em Virginia City, mas algo lhe dizia que o Conde ou então seu pai a encontrariam. Porém se pudesse, escolheria ficar nesta cidade e com os Cartwright. Mas sentia que essa escolha não dependia só dela.

Continua...

*Nota: Para conhecer essa história, assista ao episódio The Newcomers (s01e03).