Mesmo com Virginia City normalmente sendo uma cidade tão quente, naquele dia todos tiraram os casacos do armário. Algumas pessoas foram à pequena estação esperarem por amigos ou parentes que vinham na próxima diligência, que estava atrasada.

À medida que os minutos se passavam, as pessoas começavam a ficar impacientes; atormentando o pobre bilheteiro, que nada tinha a ver com o assunto.

- Eu já lhe disse que não sei quanto tempo vai demorar, senhora... Já enviei um telégrafo para reportar o atraso e disseram que no caminho uma roda da diligência se quebrou! Tenha um pouco mais de paciência, sim?

- É bom mesmo que essa diligência chegue logo! Minha filha está lá e se algo acontecer com ela, reportarei às autoridades!

Mas não foi necessário chamar ninguém, pois ao longe já era possível avistar a diligência.

Ao chegar, todos estavam ansiosos para rever alguns dos passageiros, que desembarcaram com um sorriso no rosto. Porém houve um que se mantinha sério e não havia ninguém esperando por ele.

Após pegar sua bagagem, pediu informações sobre um hotel e se registrou no que ficava mais próximo e que fosse mais confortável.

- Aqui está sua chave, senhor... – e olhando a assinatura no livro de registros, completou – Hoyt.

- Muito obrigado. Ah por favor, poderia me dizer se está hospedada aqui uma jovem ruiva e muito bonita chamada Nielle de Knightley?

- Não, lamento. Se alguma jovem bonita estivesse hospedada aqui, eu me lembraria.

Um tanto insatisfeito, ele se dirigiu às escadas quando o recepcionista o chamou:

- Ah, Sr. Hoyt! Se lhe interessar, haverá um baile beneficente da igreja daqui a uma semana. Ia ter um concurso antes, mas, por alguns problemas, ele foi adiado.

Sem alterar as feições rígidas, o homem subiu as escadas indo em direção próprio quarto.

Consigo mesmo, ele pensava: "Não importa como ou onde estiver escondida, Milady... Eu irei encontrá-la!".

- Bom dia, Sr. Corrigan. Chegou algum telegrama para mim?

- Bom dia, Sr. Cartwright! Sim, chegou este hoje bem cedo.

Adam pegou o papel cuidadosamente lacrado e o rasgou impacientemente, ali mesmo na recepção. Isso não lhe era habitual, tamanha a ansiedade, porém sentiu que não aguentaria esperar a volta até o seu quarto para enfim lê-lo. Precisava descobrir quem era aquela mulher o mais rápido possível, antes que algo de mais sério surgisse entre ela e seu irmão Hoss. Não queria que ele sofresse mais por causa de mulheres sem nenhum caráter e estranhamente, tinha um mau pressentimento.

- Droga! Esta seria uma viagem ainda mais longa, demoraria cerca de duas ou três semanas mais ou menos. Mas não importa, estou fazendo isso por Hoss.

Em seguida, dobrou o telegrama guardando-o no bolso e foi ao mensageiro. Precisava enviar uma mensagem ao Pa e os irmãos informando que precisava ficar mais algum tempo fora. Esperava ao menos chegar a tempo para o concurso de pintura, como havia prometido.

- Chegamos! – Hoss disse mal contendo a ansiedade. Queria entrar logo naquela casa com sua noiva e contar a todos que iria se casar.

Apeando, ele ajudou a moça a descer e de mãos dadas se dirigiram até a grande casa, respirando fundo. Quando ele ia dar mais um passo em direção à porta, ela o deteve.

- O que houve? Está nervosa?

- Sim... Muito. Sei que Joe ficará feliz, mas... Tive a impressão de que o seu pai não gostou muito de mim. Temo que ele não me aceite.

Sorrindo, Hoss a abraçou e beijou sua testa. Durante alguns poucos segundos, limitou-se a acariciar seus cachos vermelhos. E por fim, disse-lhe:

- Ele gostou de você, de onde tirou isso?

- Não sei... Foi só uma impressão.

- No dia em que você chegou aqui, ele estava nervoso por causa do contrato de madeiras. E depois, aconteceram tantas coisas e tão depressa... Que vocês não tiveram uma oportunidade para conversarem. Mas vocês terão e muitas.

- Hoss... Tenho um mau pressentimento. Sei que algo tentará impedir que nos casemos.

O filho do meio ficou sério e olhando-a nos olhos, segurou seus ombros com firmeza e disse:

- Eu não vou permitir que isso aconteça. Nós iremos nos casar e seremos felizes. Eu prometo.

Ela sorriu, assentindo. Sabia que ele falava sério e faria todo o possível para concretizar os sonhos que eles começaram a construir juntos. No que dependesse dela, também lutaria com todas as armas que tinha. Aquele sorriso aquecera o coração do gigante e o deixaram ainda mais balançado quando ela o abraçou e disse:

- Eu te amo, Hoss Cartwright.

Uma outra lágrima teimou em brotar de um dos olhos dele enquanto ele respondia: - Eu também te amo.

Ambos respiraram fundo novamente e a voz dele se fez ouvir: - Vamos?

- Vamos, sim!

Hoss briu a porta de mãos dadas com a moça. Hop Sing estava na cozinha, Joe e Ben se encontravam na sala. Ao ouvirem o barulho, se voltaram para eles. Desatando o coldre da cintura e o depositando na mesinha da entrada, ele não conseguia conter o sorriso.

- Graças a Deus vocês estão bem! Joseph e eu já íamos sair para procurá-los.

- Sim, imaginamos que haviam tido problemas com o temporal de ontem e ficaram retidos em algum lugar. – O caçula completou.

- Nós nos abrigamos em uma das cabanas ao leste do rancho. Ela estava abastecida com suprimentos, por isso não tivemos problemas. Aliás – começou, olhando para ela, que sorria – essa tempestade nos fez muito mais bem do que mal.

- Como assim, filho?

Estendendo a mão para ela que a segurou, os dois se abraçaram e Hoss disse: - Nielle e eu iremos nos casar!

Um largo sorriso se abriu nos lábios de Joe, que imaginou que cedo ou tarde o irmão mais velho traria a boa nova para casa. Não era surpresa para ele que, pensando consigo mesmo, concluiu que havia agido bem em não ir atrás de Hoss naquela hora. Porém para Ben aquela havia sido uma grande surpresa e lhe parecera bem repentino, mas sabia que o amor era um sentimento que chegava assim ser convidado e só desejava mesmo que o filho fosse feliz com aquela moça, que lhe parecia ser uma boa pessoa. Hoss merecia a felicidade.

- Ora... Essa notícia me pegou desprevenido, mas... Meus parabéns aos dois! Que Deus os abençoe!

- Eu também lhes desejo muitas felicidades! – Joe repetiu o gesto do pai, porém dando um abraço mais apertado em Hoss.

Olhando para Nielle, que estava bastante ruborizada, tirou uma carta do bolso do colete e entregou a ela – Ah, antes que eu me esqueça, fui à Virginia City hoje e a comissão da igreja pediu que eu lhe entregasse isso.

Ela abriu a nota e exclamou com surpresa: - Vejam! Devido ao grande número de inscrições, o concurso de pinturas foi adiado para daqui a duas semanas. Isso é ótimo, assim terei mais tempo para recomeçar o meu trabalho!

Eles sorriram concordando e Joe foi até a cozinha contar a novidade a Hop Sing e pedir uma garrafa de champanhe.

- Então, seremos irmãos! Isso com certeza merece uma comemoração regada a champanhe, não concorda comigo, Pa?

Ben teve que concordar com o filho mais novo e eles estouraram a garrafa.

- Já pensaram em uma data? Também precisam correr atrás dos preparativos e convites. Toda Virginia City deve estar presente.

- Não Joe, veja, é que Nielle quer uma boda mais discreta. Por isso pensamos em convidar apenas algumas pessoas. E quanto à data, marcaremos depois que Adam voltar.

Little Joe e Ben trocaram olhares confusos, achando estranha aquela opção. Devia haver algum motivo para aquilo, sem contar que um casamento não seria algo fácil de se passar despercebido, ainda mais de alguém da família deles, que era influente na região.

Hoss percebera a pequena confusão que se apossara das mentes do pai e do irmão. Ele também não entendia exatamente o motivo daquilo, mas respeitava a decisão da noiva. O importante é que ele iria se unir à mulher que amava. Não importava para ele em que circunstância ou lugar fosse, contanto que ficassem juntos.

- Cuidamos disso depois, então. – Ben concluiu, quebrando aquela momentânea tensão.

O restante da tarde prosseguiu de forma alegre, com Hoss fazendo planos sobre a casa onde iriam morar depois do casamento.

- Pensei em terminar aquela que Adam começou a construir quando ficou noivo da senhorita Laura. O que acham?

- É uma ótima ideia! – Joe concluiu com entusiasmo – Aquela casa está parada faz tempo, esperando para ser concluída. Vai ser um ótimo lar para vocês!

- Amanhã eu a levarei lá. E gostaria de fazer um levantamento da madeira necessária para concluí-la, Pa.

- Quando tiver esses dados em mãos, me avise e eu fornecerei o que precisar.

Hoss agradeceu, acrescentando que contaria com a ajuda de Joe. O caçula aceitou prontamente.

Nielle ouvia toda a conversa, mas sem falar muita coisa. Estava ocupada com seus próprios pensamentos, sua própria consciência. Hoss estava tão feliz, fazendo tantos planos, que jamais se perdoaria se o fizesse sofrer com seus pecados. Ben e Little Joe também estavam sendo muito cordiais com ela, aceitando-a como futuro membro da família sem nenhum questionamento...

A moça se encontrava tão nervosa que mal percebeu quando apertou a frágil taça que segurava e a mesma se partiu, cortando sua mão esquerda. Apenas alguns segundos depois é que começou a sentir a dor e percebeu quando Hoss enrolava um lenço branco em sua mão.

- Não foi um corte muito profundo... Está sentindo alguma dor, Nielle?

Ela estava sentindo uma dor sim, mas não na mão e sim no coração. Hoss não a aceitaria depois que descobrisse o que ela tinha feito... E precisava contar a verdade a ele...

- Por favor Hoss, solte a minha mão... Eu não posso me casar com você, eu não posso!

O rosto de Hoss se converteu em uma máscara de incredulidade e tristeza, ao mesmo tempo em que aquela expressão alegre desapareceu do rosto de Little Joe. Seu irmão não podia estar passando por aquilo outra vez...

Ben também ficou tenso, mas não tão surpreso porque já esperava algo assim; havia tido um mau pressentimento. Sentia que havia algo de errado por trás de todo aquele mistério dela...

Continua...