Pondo as mãos no rosto, a moça se virou para esconder a vergonha que sentia. Agora não havia mais como esconder seu passado deles, não poderia levar aquele noivado adiante, ocultando dos Cartwright tudo o que havia acontecido na vida dela.

Achou que Virginia City seria um bom lugar para se esconder durante algum tempo, mas ela não esperava encontrar um homem como Hoss e se apaixonar por ele.

Levantando-se, ela pediu licença e saiu da sala, indo refugiar-se na varanda. Agora era fim de tarde e o sol parecia querer adiar a própria morte. Mas ela era inevitável, aconteceria todos os dias. O mesmo ocorria com ela, sua fuga era inevitável, embora quisesse adiá-la, se estabelecer em algum lugar e se casar. Mas não queria se casar com qualquer pessoa... Queria ficar ali em Virginia City e se casar com Hoss. Mas ele a aceitaria depois de saber o que ela estava escondendo?

Ben e Joe permaneceram na sala, impotentes, olhando para Hoss que permanecia imóvel. Fitando um ponto cego em direção à porta, o rosto dele parecia talhado em pedra. Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos, que mais pareceram horas. Aquilo não fazia sentido... Na cabana tudo pareceu estar claro entre eles: se amavam e desejavam se casar. Não poderiam haver meios-termos, ou poderiam?

Hoss agora se lembrava que ela havia mencionado que precisava lhe contar sobre a sua fuga e chegada a Virginia City. Então, o empecilho que havia entre eles só poderia estar ali.

Finalmente ele saiu daquele transe em que se encontrava e com uma voz rouca, disse:

- Irei atrás dela. – e saiu. Fosse qual fosse o problema, eles o resolveriam juntos.

O céu estava tingido de um vermelho bonito e o reflexo da luz se mesclava ao vermelho dos cabelos dela, que mesmo de costas, parecia estar ainda mais bonita.

Ela estava apoiada em um dos pilares de madeira, chorando. Hoss ficou bastante sentido com aquela cena, o magoava vê-la assim.

Percebendo que alguém havia se aproximado, ela não se virou porque sabia que era ele e também porque sentia vergonha. Rapidamente enxugou as lágrimas que ainda pingavam em seu rosto, pensando em algo para justificar o que havia feito; quando ele repousou ambas as mãos nos ombros dela. aquele toque lhe causou um arrepio e trouxe algumas lembranças recentes, que remetiam à violência. As mãos de Hoss eram muito grandes e pesadas, se ele quisesse, poderia quebrá-la sem muita dificuldade. Mas sabia que ele jamais faria algo semelhante com ela... Hoss jamais tentaria machuca-la como... Como...

- Nielle... O que aconteceu? Por que não quer mais se casar comigo?

O tom de voz dele continha uma nota triste que a deixou com o coração ainda mais partido. Somente alguém sem escrúpulos magoaria Hoss; ela não era assim, mas preferia não enganá-lo.

- É... É porque sou feio? É de se estranhar que prefira a mim a Joe ou Adam...

Hoss só percebeu que ela havia lhe dado uma bofetada alguns segundo depois, quando a dor veio e sua face começou a latejar. Colocando a mão no rosto, ele a fitou ainda mais confuso, e encontrou nos olhos dela um misto de tristeza e revolta.

- Como se atreve a pensar que eu prefiro seus irmãos a você só por causa da beleza física? Não sou esse tipo de mulher, Hoss!... Não é nada disso!

Hoss baixou a cabeça, envergonhado. É claro que ele sabia que ela não era assim, mas é que... Isso era o mais comum. Geralmente as mulheres se encantavam por Adam ou Joe porque eles tinham uma melhor aparência, eram educados e galantes. Mas mesmo assim se sentiu envergonhado, porque se lembrou da forma como ela olhou para ele e da declaração que ela havia lhe feito na cabana. Sabia que os sentimentos que ela lhe tinha eram verdadeiros.

- Me perdoe... Eu não deveria ter dito isso.

- Não... Não é sua culpa, Hoss. A culpa é toda minha. Eu deveria ter sido sincera com você e sua família desde o começo.

- Senhorita Nielle... O que quer que tenha acontecido, nós podemos resolver isso juntos. A senhorita... A senhorita ainda quer se casar comigo?

Fitando os olhos dele com ternura, ela segurou a mão dele e respondeu:

- Eu quero, quero muito Hoss!

Sorrindo, ele apertou a mão dela e a abraçou: - Então, o que nos impede? Eu sou livre e você também!

- Não, Hoss... Eu não sou uma mulher livre... Sou comprometida.

Como um sobressalto, Hoss a soltou e a fitou incrédulo: - O que disse?

Tremendo, ela o encarou com o coração em pedaços, sabendo que agora tudo estava perdido. Com algumas lágrimas caindo de seus olhos, ela tentou explicar:

- Hoss... Por favor, me ouça... E eu lhe peço que não me julgue antes que eu lhe conte tudo. Você promete?

Ele assentiu, disposto a ouvir tudo. Engolindo em seco, ela se afastou e esfregou os braços, como se tivesse sentido um calafrio. E após alguns segundos, voltou-se para ele, revelando:

- O meu sobrenome verdadeiro é Knightley. Arwing é o sobrenome de solteira de minha mãe. Quando eu fugi, passei a usá-lo para evitar que me localizassem.

Hoss ouvia tudo muito sério e atentamente. Nielle estava com medo, mas sabia que ele não era um homem violento. Seu maior temor era que ele deixasse de amá-la, mas sentiu que ele merecia saber tudo.

- E por que você fugiu?

- Antes que eu lhe responda a essa pergunta, você precisa saber de uma outra coisa. Eu menti ao seu irmão Adam quando lhe disse que era de Nothumberland... Minha mãe é quem nasceu e passou a infância lá. Na verdade, eu pertenço ao condado de Norfolk.

Organizando aquela linha de raciocínio, ele concluiu: - Então você mentiu para nós a respeito do seu sobrenome e país de origem, certo? – ao ver que ela assentia, continuou – Mas o que...

- Isso não é tudo, Hoss. A minha família é da realeza, o meu pai é um conde... Minha família é muito rica e poderosa, embora o nosso condado não seja de lá.

- Da realeza? Então você é uma princesa?

- Não, na realidade eu sou uma condessa... Ou melhor dizendo, eu era. Não duvido que eu perca o meu título depois de ter fugido.

Hoss estava muito confuso e frustrado... Se ela pertencia à família real, então isso queria dizer que havia uma distância muito grande entre eles. Os Cartwright eram uma família importante, mas apenas ali naquela região. Não que isso importasse muito, mas ele não tinha nenhum título. E também, ela havia lhe dito que era comprometida...

- A senhorita é... É casada? – nunca achou que seria tão difícil formular uma pergunta. Temia muito a resposta, seu estômago começou a queimar de nervosismo.

- Não... Sou viúva.

Ele levantou os olhos e em meio àquele início de noite, eles brilharam. Então ainda havia uma chance para eles!...

- Viúva? Tão jovem?

- Sim... Já fiquei noiva diversas vezes, mas era sempre por conveniência, sempre por diplomacia – a voz dela continha uma nota de amargura – Meu marido era um homem muito mais velho do que eu e... Bastante violento. Na nossa noite de núpcias, ele havia bebido muito e...

Hoss percebeu que aquela era uma lembrança dolorosa para ela. Tentando controlar a raiva que pressentia, apertou as mãos até os nós de seus dedos ficarem brancos.

- Ele me agrediu e tentou me violentar. – após dizer essas palavras, ela cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar. Hoss a abraçou e tremendo de raiva, pensou consigo mesmo que se aquele maldito já não estivesse morto, o mataria.

- Achei que ele iria me matar... Por isso, peguei um peso de papel que estava na mesinha de cabeceira e... Atingi-lhe na cabeça. Eu o matei, Hoss! Matei meu marido... Permaneci presa em uma cela especial até o meu julgamento.

- Mas pelo que a senhorita me contou, agiu em legítima defesa.

- Sim... E como o meu casamento não havia sido consumado e existiam testemunhas de que ele estava bêbado na noite anterior, eu fui absolvida.

- Então... Como a senhorita ainda pode ser comprometida? Eu não entendo!

- Em meu país, as leis são diferentes para quem possui um título real. Meu marido tem um filho com a minha idade e logo após ficar viúva, tenho o dever de me casar com ele, se ele me reclamar como esposa; e ele o fez... Provavelmente por vingança.

Hoss a abraçou com força. Finalmente havia entendido a raiz dos temores dela, mas agora que a havia encontrado, não a deixaria ir.

- Eu fiquei com a imagem do velho conde morto em minha mente por semanas. Mesmo agindo em minha própria defesa, isso não muda o fato de que eu matei um homem... Matei meu marido... Estávamos unidos pelos laços de Deus.

- Não, não estavam. Você não se casou com ele por amor, esses são os verdadeiros laços de Deus. E nós dois fomos unidos por ele. Nós dois, não a senhorita e ele.

Olhando nos olhos dela, Hoss enxugou suas lágrimas e sorriu de uma forma que a acalmou.

- Então... Então quer dizer que você não me odeia pelo fato de eu ter matado um homem? E nem por estar comprometida com o jovem conde?

- Sim, eu te amo e quero me casar com a senhorita. O que pensou? Que meus sentimentos por você acabariam depois que eu soubesse disso? Pois a senhorita se enganou... Isso não é e nem nunca será o suficiente. Quanto ao fato de ser forçada a se casar com o jovem conde, isso... Pode ter validade na Inglaterra, mas nós estamos na América! Portanto, aqui, a senhorita está comprometida comigo. Iremos olhar com Pa e Adam as questões das leis, eles irão nos ajudar. Mas enfrentaremos isso juntos.

Com um sorriso, a jovem assentiu e o abraçou, aproximando o seu rosto do dele, para beijá-lo. E novamente, foi um beijo terno, mas carregado de sentimentos.

- Venha, vamos entrar. Já está frio aqui fora...

Continua...