Ao entrarem, sentiram o calor aconchegante que aqueceu seus corpos parcialmente gelados. Um odor delicioso provinha da cozinha, sinal de que Hop Sing estava preparando algo muito delicioso para eles.

- Hum! – Hoss murmurou satisfeito – Mal posso esperar para que o jantar fique logo pronto. O cheiro está tentador...

Nielle riu. Há pouco estavam lá fora, falando de amor e agora tudo o que seu noivo pensava era em um bom prato de comida. Como o castelo onde vivia era cercado de serviçais e vassalos, ela não sabia cozinhar praticamente nada, apenas algumas sobremesas que aprendera com sua ama e sua mãe. Quanto aos serviços domésticos, ela também se encontrava em uma sinuca: só sabia arrumar a própria cama, no mais, praticamente nada. Não era necessário, já que ela sempre havia tido amas que fizessem tudo por ela. E se sentiu envergonhada... Agora viveria em um rancho e precisaria aprender a cuidar de um marido e um lar. Na América, com certeza todas as moças sabiam fazer isso muito bem e quanto a ela... A vida era mesmo uma grande escola, ela tinha certeza de que aprenderia, era jovem e inteligente, faria com que Hoss sentisse orgulho dela.

- Pa, Joe!... – ele os chamou, com sua voz grave. Os dois surgiram na escada e ao verem Nielle ao lado dele com uma expressão mais serena, concluíram que eles haviam se entendido.

Reunindo-se na sala, a moça fitou Hoss com incerteza e transmitiu-lhe que aquele era o momento certo para contarem a eles sua história. O filho do meio conhecia os temores da noiva e a impressão de que Ben não gostava dela. Para lhe dar mais segurança e apoio, ele entrelaçou sua grande e pesada mão na dela, quase a ocultando. E tomou a palavra com firmeza:

- Pa, Joe... Nielle e eu iremos nos casar. Mas antes, há algo que vocês precisam saber...

E tranquilamente, relataram tudo. A moça se emocionou novamente ao relatar sobre o ataque de seu ex-marido e a forma que encontrara para defender a própria vida, a vingança do jovem conde e sua fuga para não ser obrigada a se casar novamente por diplomacia. Ben e Joe ficaram muito surpresos pelo fato de ela já ser viúva e possuir um título nobre. Entendiam o temor que ela tinha em ser localizada pelo jovem conde, sua fuga e o fato de ter ocultado isso deles, mas agora a situação era diferente: ela e Hoss haviam se apaixonado e desejam se casar... Mas como o fariam sendo que ela já era legalmente comprometida com outro homem? Eles não poderiam simplesmente trocar votos ali, pois isso envolveria uma séria questão diplomática com o governo britânico. Sinceramente, Ben não sabia que atitude tomar ou como aconselhar o filho. Temia que as coisas não dessem certo e Hoss sofresse; sentia o mesmo pela condessa, mas até o momento, estavam de mãos atadas. Porém precisavam pensar em algo.

- Essa é uma situação muito complicada e delicada... Não sei que conselho lhes dar, teremos que consultar o nosso advogado ou aguardar o retorno de Adam; com certeza ele conhece essas leis. Joseph, vá até a casa do Dr. Melvin* e se ele estiver lá, por favor, traga-o aqui.

- Sim, senhor. – o rapaz respondeu. Logo prendeu o coldre na cintura, pegou o chapéu e partiu.

- Se ao menos Adam estivesse aqui... – Hoss suspirou – Ele com certeza saberia o que fazer.

Nesse momento, Hop Sing apareceu na sala e disse: - Sr. Cartwright, esqueci de lhe dizer: chegou um teleglama do Sr. Adam, está dentlo da gaveta. O jantar está quase plonto. – e voltou para a cozinha.

Rapidamente, Ben abriu a primeira gaveta da escrivaninha da sala e lá encontrou o telegrama do primogênito. Abriu o lacre, passando os olhos pelas poucas linhas:

SRTA. ARWING EH CDESSA DE KNIGHTLEY PT

FOGE DE COMPROMISSO COM ENTEADO PT

ALERTE HOSS ELA MENTE PT

VOLTO DOMINGO PT

ADAM

Ben baixou os olhos ao terminar de ler a mensagem do filho. Se Nielle não tivesse esclarecido toda a sua situação, sem dúvida mostraria o telegrama a Hoss, porém agora que ele sabia, a compreendia. Com o telegrama ele pôde constatar que conhecia muito bem o filho mais velho... Adam não havia dito o motivo real de sua repentina viagem, mas constatara que era com o objetivo de investigar o passado de sua até então misteriosa hóspede.

- O que foi, Pa? O que Adam disse?

Com um suspiro, entregou o papel ao filho, que o leu, mudo. Não pôde deixar de sentir em sua própria boca um gosto doce-amargo; sentiu um misto de compaixão pelo irmão mais velho, por se preocupar com ele e também de raiva, por desconfiar da mulher que ele amava. Porém, isso já havia lhe acontecido antes...** Adam estava certo e ele errado. Seu irmão tinha mais facilidade para perceber a natureza de alguém; como Nielle havia mantido um certo ar de mistério ao chegar em Ponderosa e ele acreditou já tê-la visto antes, desconfiou do caráter dela. Mas agora ele não se enganara, Nielle não era como a viúva Hellen Layton e a senhorita Ragan Miller... Ela jamais o magoaria.

- O que houve, Hoss?... É alguma notícia ruim?

- Não, não é nada que eu já não saiba. – e sorriu. Pela forma como ele proferiu essas palavras, ela concluiu tudo: - Seu... Seu irmão investigou meu passado, não foi?

Ele confirmou meneando a cabeça e Ben interveio: - Condessa... Adam só tomou essa atitude porque se preocupou com Hoss. Ele já sofreu muito.

- Sim, senhor Cartwright, eu sei... Mas agora que vocês já sabem o que aconteceu, fico um pouco mais tranquila, por não estar enganando vocês.

Chegando ao mensageiro, Adam começou a ditar uma mensagem para enviar ao pai:

- "Precisarei fazer nova viagem, ponto. Desta vez, mais longa, ponto. Ficarei fora cerca de duas, não, três semanas, ponto. Voltarei a tempo para concurso pintura, ponto. Assinado, Adam.".

Pagou e se dirigiu ao saloon para tomar uma cerveja bem gelada, sua garganta mais parecia um banco de areia.

- A melhor cerveja que tiver... E bem gelada.

- Cinquenta centavos. – disse o barman, que após pagar a moeda, desligou o copo no balcão.

Adam o pegou agilmente e após saborear o primeiro gole, olhou para um lado do saloon onde se encontravam colados cartazes com anúncios e criminosos procurados pelos xerifes da região. Foi então que um deles particularmente chamou sua atenção. Se aproximando, ele viu claramente impressa uma foto do belo rosto de Nielle com a legenda em letras garrafais:

DESAPARECIDA...

CONDESSA NIELLE MARY WINDSOR KNIGHTLEY.

RECOMPENSA DE 500 MOEDAS DE

OURO PARA QUEM FORNECER

INFORMAÇÕES PRECISAS DE

SEU PARADEIRO

- Condessa? Mas que diabos?...

Pegando o chapéu preto, Adam deixou o copo no balcão e se dirigiu ao escritório do xerife para tentar conseguir mais informações sobre o anúncio. Se aquela mulher pertencia à realeza e estava sendo procurada, sua família poderia se envolver em um incidente diplomático grave por esconderem-na, mesmo não conhecendo sua verdadeira identidade.

- Boa tarde. Meu nome é Adam Cartwright. Quero falar com o xerife.

- Eu sou o xerife responsável. Em que posso ajudá-lo?

Adam esperava extrair daquele homem franzino que carregava a estrela prateada no peito, as informações necessárias que precisava saber sem levantar nenhuma suspeita.

- Vi no saloon um anúncio com o rosto de uma mulher jovem e muito bela, que está desaparecida.

- Ah, a condessa de Knightley! – ele concluiu como se já estivesse farto do assunto – O senhor é a enésima pessoa que vem aqui procurar informações sobre ela.

- É mesmo? Bem, na verdade deveria ser o contrário, já que a recompensa é de 500 moedas de ouro...

- Sim, é muito dinheiro. Mas pelo que tenho percebido, os homens estão mais interessados na própria condessa do que na recompensa. Dizem que a diaba é uma feiticeira ruiva e de olhos verdes.

- Sim, eu percebi pela foto do cartaz que ela é muito bonita – ele confirmou, sorrindo – Mas me diga, ela foi sequestrada? O cartaz diz que ela está desaparecida...

- Não, comentam que ela fugiu. Se casou com um conde velho e muito rico, mas o matou. Ela foi absolvida por legítima defesa e o enteado agora tem o direito de se casar com ela, é ele quem a está procurando.

O rosto de Adam ficou tenso, parecia estar talhado em pedra. Apenas seus olhos se moviam, num breve raciocínio. Precisava avisar ao pai e os irmãos sobre a verdadeira identidade daquela aventureira e a alta recompensa que estavam oferecendo por ela, antes que algo de mais grave acontecesse. Se a população de Virginia City tomar conhecimento disso a tempo do concurso de pintura e o baile, isso traria sérios problemas aos Cartwright.

Ele agradeceu ao xerife e voltou ao mensageiro:

- Sabe me dizer se a mensagem que ditei já foi enviada?

- Ainda não, Sr. Cartwright. Eu a enviarei daqui a pouco.

- Cancele-a. Quero enviar outra.

Ditou a mensagem, pagou e voltou ao hotel. Precisava tomar a próxima diligência para Virginia City o mais rápido possível. Pelos seus cálculos, deveria chegar no próximo domingo, a tempo para o concurso ainda.

Em Virginia City, Little Joe havia ido até o escritório do Dr. Melvin, mas àquela hora já estava fechado. Decidiu então ir até a sua casa, provavelmente ele já se encontrava lá.

- Dr. Melvin! Dr. Melvin!... É Joe Cartwright!

A esposa do advogado atendeu, e ele disse que necessitava falar com ele, mas não aceitou o convite que ela lhe fez para entrar.

- Joe, que surpresa! O que deseja falar comigo que não pode esperar até amanhã? Acabei de chegar do escritório.

- Desculpe incomodá-lo, Sr. Melvin... Mas é que meu pai precisa falar com o senhor e me pediu que viesse aqui para buscá-lo.

- Ele não pode esperar até amanhã?

- Sinto muito, mas não. É um assunto um pouco delicado.

Conformando-se, o homem pegou seu chapéu e acompanhou Joe. Em se tratando de Ben Cartwright, não podia recusar-lhe algum chamado fora do expediente. Era um cliente muito importante.

- Martha, não me espere para jantar. Irei à Ponderosa, atender ao Sr. Cartwright.

Em Ponderosa, Dr. Melvin foi muito bem recebido pelos Cartwright. Ele ficou surpreso ao ver que Hoss Cartwright estava de mãos dadas com uma jovem belíssima, aparentemente fina e educada, que lhe foi apresentada como sua noiva. Não seria incomum para ele se ela estivesse comprometida com Adam ou Little Joe, mas se surpreendeu por ser com o filho do meio.

Após as formalidades, eles o deixaram a par de toda a situação em que a condessa se encontrava. O advogado ouviu tudo com atenção, ao mesmo tempo em que raciocinava com rapidez uma maneira de solucionar-lhes aquele problema.

- Bem, Sr. Cartwright... Como o senhor deve imaginar, jamais lidei com uma situação do gênero antes... Uma prova de que em minha profissão, sempre há uma primeira vez para tudo.

- É verdade, Cliff. Mas em uma situação como essa, que atitude devemos tomar? Meu filho e a condessa desejam se casar. Deve haver alguma forma de romper o compromisso entre ela e o jovem conde.

- Bem, teríamos que conhecer melhor sobre as leis do condado dela... Se o jovem conde reivindicou seus direitos de se casar com a madrasta após a morte de seu pai... Poderia se tornar algo muito sério se interviéssemos.

Após trocarem mais algumas palavras, Dr. Melvin prometeu que analisaria as leis do condado de Norfolk e daria uma atenção especial a esse caso, prometendo também sua discrição total.

Depois que ele se foi, Nielle olhou para Hoss com uma expressão preocupada e apertou sua mão na dele. Deveria haver alguma maneira de ela se libertar de seu compromisso antecessor... Tinha que haver.

Continua...

Notas:

*Dr. Clifford Melvin - Nome fictício que criei para um advogado da família Cartwright, já que não consegui me lembrar do nome do personagem recorrente. Desculpem por isso! ^^'

**Para conhecer essas histórias, assista aos episódios:

- The Courtship (s02e48)

- She Walks In Beauty (s05e135)