Dois dias após o baile beneficente, alguns moradores de Virginia City comentaram alegres que haviam conseguido arrecadar uma boa soma para as causas da região.
Em Ponderosa, durante o desjejum, Little Joe comentava com todos sobre como o seu encontro foi do paraíso ao inferno em questão de minutos:
- Deixei Lygia em casa e me despedi com um beijo. Até aí tudo bem...
- Até que?... – Hoss adiantou.
- Até que ela me pediu que entrasse a fim de prestar contas ao pai dela, garantindo que tudo havia corrido bem. Aceitei e do nada o Sr. Andrews começou a me fazer cobranças sobre casamento.
- Nossa... Isso é muito sério, meu filho.
- Sim eu sei, Pa! Lygia acreditou que havia algum tipo de compromisso entre nós. Mas eu não lhe dei essa confiança, eu juro!
- Nem mesmo após alguns beijos? - Hoss tentava conter o riso. Fazendo uma careta para a ironia do irmão mais velho, ele garantiu: - Mas é claro que não! E quando eu esclareci para o Sr. Andrews que a filha dele e eu não estávamos noivos, bem... Ele reagiu mal.
- E foi assim que você conseguiu esse olho roxo. – Nielle concluiu. Com um sorriso amarelo, o jovem Cartwright não pôde negar.
Todos riram, mas aquela gargalhada característica de Hoss se sobressaiu entre as de todos. E nesse momento, ele decidiu contar sobre os forasteiros que havia visto no baile, mas foi interrompido por Ben: - Pelo telegrama de Adam, ele deve chegar hoje.
- Sim, senhor Cartwright... E confesso que estou um pouco ansiosa com a chegada dele. Como o Dr. Melvin ainda não encontrou uma solução para o nosso problema, bem, acredito que ele possa tê-la.
- E o concurso de pinturas será hoje à noite, Nielle... É arriscado que você vá à cidade, precisamos pensar em outra coisa.
- Bem, enquanto isso creio que não haverá problemas. Little Joe entregou a minha pintura à comissão sob o pseudônimo de 'Uma Dama' *. E também não irei ao leilão, não há nenhum perigo. Assim espero.
Na enorme mesa de jantar, Hoss apoiou sua mão sob a dela com carinho e confessou:
- Estou curioso para ver o que você pintou.
Retribuindo àquele olhar terno, ela disse: - É uma surpresa. Acho que você irá gostar.
Nesse instante, alguém bateu à porta. Como Hop Sing ainda estava na cozinha, Hoss se levantou e a abriu. Ficou muito surpreso ao ver que eram os mesmos dois homens que ele tinha visto no baile.
O mais bem vestido não se identificou, apenas entrou sem ser convidado e olhou para o aspecto rústico da casa com um ar de escárnio. Logo ele foi seguido pelo outro homem.
- O que os senhores desejam?
- É aqui que vive um homem chamado... Cartwright?
- Sim, eu sou Hoss Cartwright.
Ao ouvirem as vozes que vinham da sala de estar, todos se levantaram, especialmente Nielle, que conhecia aquela outra voz e teve um mau pressentimento.
Chegando lá, suas pernas ficaram moles como gelatina ao ver o jovem conde. Cedo ou tarde isso iria acontecer, mas esperava que fosse em um momento que soubesse como agir, como negar-lhe seus direitos... Pressentira que ele estava caçando-a como a uma criminosa, mas não iria se render assim tão facilmente. Não voltaria com ele, ficaria ali com os Cartwright, com Hoss.
O homem se voltou e os dois se fitaram durante alguns segundos, travando uma muda batalha. Por fim, ele rompeu o silêncio:
- Finalmente a encontrei, condessa de Knightley! Achou que poderia se esconder de mim por muito mais tempo? Cedo ou tarde eu iria encontrá-la, mas confesso que me surpreendi com o lugar que você escolheu... Li sobre o progresso do Oeste norte-americano, mas isso aqui... É deprimente, comparado de onde viemos.
Little Joe e Ben trocaram um olhar mútuo de desprezo por toda aquela insolência. Hoss procurava conter a própria irritação. No mesmo instante os Cartwright concluíram que aquele era mesmo o homem de quem ela vinha fugindo naquelas últimas semanas.
- Não voltarei com você, Seymour... – ela conseguiu dizer, num fio de voz – Não me importa o que você diga ou faça... Não voltarei.
- Isso é o que você pensa... Você não tem escolha, é a lei! Tenho todo o direito de me casar com você, uma vez que assassinou o meu pai!
- Sr. de Knigthley... – Ben começou – A condessa matou o seu pai em legítima defesa... Ela já foi julgada, por isso não tem o direito de usar a lei do seu condado para castigá-la!
- Eu tenho todos os direitos! E não me interessa se foi em legítima defesa ou não, o fato é que ela tirou a vida do meu pai. Essa carinha de anjo não me engana... Se não fosse por você, ele ainda estaria vivo!
Se dependesse de Hoss, já teria tirado aquele almofadinha para fora dali no início daquela conversa, mas Little Joe estava ao lado dele, segurando-lhe os grandes e fortes braços, sussurrando 'Acalme-se, Hoss...'. Mas ambos os irmãos sabia que cedo ou tarde não seria mais possível contê-lo.
- Seymour... Eu... Eu não queria matar o seu pai! Foi um acidente, eu não tive essa intenção! Ele me atacou e se eu não tivesse me defendido, ele teria me matado...
- É mentira! – uma lágrima pingou de um de seus olhos, o que a deixou com o coração ainda mais apertado por ele – Você o matou porque não queria aceitar o compromisso com ele. Mas eu sou mais esperto do que o meu pai. Não permitirei que faça comigo o que fez para ele.
Nesse instante, Hoss reagiu. Soltou seus braços que estavam presos por Joe e segurou o conde pelo colarinho, suspendendo-o do chão como se segurasse um boneco:
- Nielle não irá se casar com você! Não pode obrigá-la... E vá embora daqui agora mesmo, antes que eu o quebre em dois pedaços!
Desmond Hoyt, que até aquele momento havia ficado quieto, tentou separá-los ao ver que o conde estava quase desfalecendo: - Por favor, solte-o! Ele tem uma saúde frágil!
- É verdade, Hoss... Por favor, coloque-o no chão! – Nielle pediu. Ele o soltou apenas porque ela havia pedido, caso contrário, teria expulsado-o dali.
Recompondo-se, o conde olhou para aquele homem enorme ao lado de Nielle e disse: - Mas... Mas como se atreve? Você vai pagar caro por isso, seu brutamontes!
- Não insulte o meu irmão em nossa casa! Você não está no seu reino aqui. Se continuar nos ameaçando, terão duas pessoas para expulsá-los de Ponderosa.
- Hoss, Little Joe, acalmem-se. Vamos conversar com o conde civilizadamente e tenho certeza de que resolveremos esse problema.
- Não há nada para resolver! Está decidido, Nielle vai voltar comigo, pois pela lei do condado de Norfolk, tenho o direito de me casar com el que pretendo fazer.
Tomando-a pelo braço, ele a arrastou até a porta, mas Little Joe bloqueou a passagem com o corpo e Hoss apertou seu antebraço com força, fazendo com que ele desse um gritinho de dor.
- Saia da frente! – Sr. Hoyt gritou – Eu exijo que abra caminho para mim e o conde!
- Suas ordens não valem aqui – e dando-lhe um soco, Joe quase derrubou-o no chão. Porém ele reagiu, revidando o soco, mas por fim ele foi vencido pelo jovem Cartwright.
- Desmond! Ora, seu...
Hoss novamente levantou o conde pelo colarinho e passando a mãos pelo forro babado de seu colete para limpá-lo, derrubou-lhe com um forte soco que quase lhe tirou os sentidos. Isso nunca havia lhe acontecido na vida, sempre havia sido cercado de luxo e proteção. Nunca alguém se atrevera a contrariar suas ordens antes e muito menos ameaçá-lo. Colocando a mão na boca, ele arregalou os olhos ao olhar para ela e ver o sangue que estava saindo de seu nariz. Olhando para eles com ódio, falou com tanto desprezo que parecia cuspir as palavras: - Seus selvagens! Nunca fui tão ultrajado em toda a minha vida!... Juro que vão pagar caro por me humilharem desse jeito!
E sendo amparado pelo criado, levantou as calças pomposas e limpando-se, foi embora.
Nielle havia observado a cena imóvel, mal acreditando na coragem de Hoss e Little Joe. Não pôde deixar de sorrir, porque no fundo de seu coração, aquilo era o que ela sempre desejara fazer com o conde, desde que o conhecera.
- Ele não nos incomodará por um bom tempo. – Hoss disse segurando a mão da noiva.
- E como Adam chegará hoje, ele nos dirá como agir. – Joe completou.
Ben estava sério. O conde tinha muito ódio no olhar e sua ameaça não parecia ter sido em vão. Suas palavras não ficariam perdidas ao vento.
Já era noite e os Cartwright já haviam se arrumado para o leilão. Conforme o combinado, Nielle, que já havia enviado a pintura para a comissão, ficaria em Ponderosa até que todos retornassem. Hoss, porém, não queria ir. Temia deixa-la ali sem alguma proteção e também as ameaças do conde.
- Não há o que temer, Hoss... E as pessoas sabem que você está em Virginia City, seria estranho se você não fosse.
- Little Joe está certo, Hoss. Fique tranquilo, nada irá me acontecer. Além do mais, não está curioso para ver o que eu pintei? Eu também quero que você a veja.
Mais tranquilo, ele concordou. Aproveitando essa deixa, a moça disse que precisava conversar a sós com ele por um minuto antes de irem.
- Está bem, vamos lá fora.
A noite estava fria e escura, mas mesmo assim ele conseguia ver o brilho dos olhos dela. Estendendo-lhe a mão direita e segurando a dele com a esquerda, entregou-lhe uma pequena caixinha.
- Quero que você fique com isto como presente de noivado. É uma peça valiosa nos dois sentidos: físico e emocional. Pertenceu à minha mãe... Agora quero que você fique com ele. Por favor, não me diga que não irá aceitar, porque eu não o receberei de volta.
Abrindo a caixinha com cuidado, aqueles belos olhos azuis contemplaram um lindo relicário de ouro... Como em seu sonho. Espantado, ele disse:
- É... É uma joia muito bonita. Mas não entendo porque quer que ela fique comigo.
Ela o abriu e ele viu que lá dentro havia uma foto dele e dela. Hoss ficou muito feliz com aquela sensibilidade e também com a coincidência com o que ele havia sonhado, semanas atrás.
- Agora entende o por quê? Sempre que não estivermos juntos, quero que esse seja o seu aliado. Não parece fazer muito sentido agora, mas saiba que, sempre que estiver com ele, estará comigo, não importa a distância...
Hoss assentiu e segurando os ombros dela, deu-lhe um beijo, que ela correspondeu com paixão.
"Estaremos sempre juntos..." ela havia lhe dito, antes que eles partissem para o leilão.
Continua...
* 'A Lady'- esse foi um pseudônimo inicialmente usado pela romancista inglesa Jane Austen para publicar suas obras.
