Assim como na noite do baile, o evento para o leilão das telas estava repleto de pessoas. Roy e Clem já se encontravam no local para garantirem a segurança, a comissão checava a bancada para o leiloeiro e as cadeiras para os participantes e convidados.

Entre os cochichos sobre o lote de peças, qual participante ganharia ou não, a comida servida e quem não estava presente, tudo indicava que o evento seria um sucesso.

Ao ver os Cartwright, a Sra. Peacock, organizadora dos eventos beneficentes da igreja, se aproximou muito entusiasmada: - Boa noite Ben, Hoss e Little Joe! Muito obrigada por terem vindo! Onde está Adam?

- Boa noite, Sra. Peacock. Ele ainda não retornou da viagem, mas deve chegar ainda hoje ou amanhã.

Olhando para eles como se estivesse procurando alguém, ela disse: - Oh, entendo. E onde está aquela bela mocinha que se inscreveu para o concurso? Ela não virá?

- Surgiu um imprevisto e ela não poderá vir – Ben interveio com uma desculpa.

- Oh... É uma pena. Ela parecia tão animada a participar do concurso... Confesso que até mesmo fiquei curiosa para saber o que ela iria pintar quando me perguntou sobre figuras humanas...

O leiloeiro escolhido havia sido o Sr. Goldsmith, mas por um motivo de saúde, ele não pôde ir. Nisso, a comissão decidiu escolher um substituto por um sorteio. E o escolhido foi justamente Ben Cartwright, que surpreso, subiu até a bancada e começou a dizer com sua voz vigorosa:

- Boa noite, senhoras e senhores... Vamos dar início ao terceiro leilão beneficente de Virginia City, presidido pela Sra. Peacock.

A boa senhora se levantou do lugar de onde estava e acenou timidamente para a população.

- Por favor, tomem seus lugares. E vamos dar início ao leilão.

Assim que todos se sentaram, Little Joe viu um vulto negro se aproximar na escuridão. Cutucando Hoss, que estava distraído fitando o pai na bancada: - Veja só quem chegou.

Era Adam, que se aproximava deles bem rápido. Quando um outro senhor estava prestes a tomar o lugar vago entre eles, Joe se desculpou, dizendo que já estava reservado.

- Em cima da hora, irmão mais velho.

- Cheguei ainda há pouco e deixei minhas malas no hotel. Pa está como o leiloeiro desta vez?

Olhando ao redor, não encontrou a quem procurava: - Onde está a Condessa?

- Em Ponderosa... Há cartazes com o rosto dela espalhados por toda Virginia City. E o conde já esteve no rancho procurando por ela.

Adam ficou surpreso. Sabia que o conde estava à procura dela, mas não imaginou que ele já estivesse ali e tão rápido. Imaginou que chegaria à Virginia City com todas as surpresas sendo que era exatamente o contrário.

- A pintura dela está no concurso sob o pseudônimo 'Uma Dama'. Nos últimos dias ela fez muito mistério acerca do tema, passava horas trancafiada no quarto, pintando.

Adam não disse nada e Little Joe lembrou-se de algo mais que ele não sabia: - Ela e Hoss ficaram noivos...

- O quê? – ele se voltou, olhando com desaprovação para Hoss, que estava mais à frente – Droga... Era isso o que eu temia... Vi como ele olhava para ela e imaginei que algo assim pudesse acontecer. Vocês não leram o telegrama que eu enviei? Ela é comprometida com o enteado pela lei de Norfolk.

- Antes que Pa lesse o seu telegrama, ela nos contou tudo. E acalme-se, pois ela e Hoss se amam de verdade. Pedimos a orientação do Dr. Melvin sobre uma forma de contornar essa lei, mas ele ainda não encontrou nenhuma.

Hoss, alheio à conversa dos irmãos, procurava pelo conde com o olhar em meio à plateia. Aquele maldito tinha que estar ali, em algum lugar. Mas não o encontrou e ouviu a voz do pai anunciando as telas do primeiro lote.

Algumas eram bonitas e de muito bom gosto. Haviam sido pintadas em sua maioria pelas mulheres da região e retratavam Virginia City, os ranchos, as belezas naturais e suas riquezas. Também havia uma variedade de natureza morta, que arrancaram suspiros de todos. Era possível perceber que os lotes haviam sido divididos entre as telas de menor qualidade, que foram leiloadas em lances mais baixos, às regulares, leiloadas a preços médios.

Por fim, Ben anunciou o último lote. Todos imaginaram que ele consistia nas melhores telas do concurso e estavam certos.

Trouxeram à bancada uma tela que estava coberta por um pano branco de linho, muito limpo. Ben olhou no papel que lhe foi entregue os dados sobre ela e o valor do lance inicial, que até aquele momento era o mais alto.

- Esta tela faz parte do último lote do leilão beneficente e foi eleita pela comissão a campeã do concurso de pintura. A autora, que entregou a peça sob o pseudônimo de 'Uma Dama', orientou a comissão que, caso vencesse, o prêmio de 500 dólares em dinheiro deveria ser doado às causas beneficentes.

Os Cartwright sorriram com o gesto e a decisão da autora da tela, que sabiam ser Nielle. No início ela precisava do dinheiro para fugir ou se manter durante algum tempo, mas as coisas haviam mudado muito nas últimas semanas.

Um membro da comissão entregou um outro papel a Ben, que o leu: - A tela, pintada por 'Uma Dama', foi nomeada como: 'Duas Gerações de Bondade'.

O pano foi retirado e suspiros de admiração foram involuntariamente arrancados da plateia. A pintura continha pinceladas precisas e firmes, ao mesmo tempo em que carregava sentimento e pareciam conter vida. A maioria das pessoas imaginou que ela havia sido pintada por algum artista profissional.

Sorridente e serena em cores vivas, estava Inger Cartwright. Logo abaixo, seu filho Hoss, com a mesma expressão no rosto. Ben ficou estático diante daquela pintura tão bonita e sensível. Na plateia, Adam e Joe fitaram o irmão que contemplava a tela com os olhos rasos d'água. Ainda sem conseguir dizer nada, o olhar de Ben se encontrou com o de seus filhos e o restante da plateia, que entendeu que aquela pintura pertencia aos Cartwright.

Tirando um talão de dentro do bolso, ele assinou um cheque de 1.500 dólares, o entregou à comissão e tirando a tela do cavalete, desceu da bancada e o entregou nas mãos de Hoss.

Em Ponderosa, Nielle aguardava ansiosa a chegada dos Cartwright a fim de saber o que acharam do quadro. E também, porque não gostava de ficar ali sozinha. Hop Sing estava na cozinha, mas dali a pouco se recolheria. Porém ela não iria antes de falar com os rapazes.

Foi até a estante, pegou um livro sobre a Guerra Civil, sentou-se na poltrona de couro e começou a lê-lo. Ela via as frases e tentava se concentrar nelas, mas não conseguia. Decidiu ir até o celeiro e tratar um pouco do Chubb. Hoss amava aquele cavalo e ela já o amava também. Além disso, sentiu que o ar da noite lhe faria bem.

Indo até a cozinha, avisou a Hop Sing onde estaria e que não iria demorar. Logo depois, saiu e levou um choque ao sentir o ar gelado que fazia lá fora. Voltou, pegou um xale de lã que tinha trazido, e saiu novamente, se cobrindo.

No celeiro, sorriu ao ver Chubb, Cochise e Sport. Eles haviam usado a carruagem maior para irem à cidade, por isso seus cavalos descansavam ali. Aproximando-se de Chubb, ela pegou uma escova e começou a acarinhar seu pelo, sussurrando no ouvido do animal: - Oi Chubb!... Vim cuidar um pouquinho de você enquanto seu dono não está...Você é muito carinhoso assim como ele, sabia? Hoss te adora!...

Um som de aplausos fez com que ela desse sobressalto e se voltasse para a porta do celeiro. A cor fugiu de sua face quando ela viu o conde gargalhando e batendo palmas. Sr. Hoyt estava ao lado dele, apontando uma arma para ela.

- Que cena mais inusitada! Você deu para conversar com animais agora, condessa?

- Seymour!... O que faz aqui? E por que essa arma?

- Ora, a razão é muito simples: você não quis vir comigo por bem, então virá por mal.

Balançando a cabeça em negativa, Nielle sentiu seu estômago se revoltando e suas pernas amolecerem. Com os olhos marejados, ela pediu: - Por favor... Por favor, não me force a ir com você... Não podemos nos casar! Nós não nos amamos!

- E desde quando isso importa? Pessoas do nosso nível social sempre se casaram por conveniência. Amor é o de menos. – os olhos do conde brilhavam de forma sinistra e ao mesmo tempo sarcástica à medida em que ele se aproximava, o que assustou Nielle e fazia com que ela recuasse a cada passo que ele dava - Além disso, quero fazer com que você pague por ter matado o meu pai...

- Eu já estou pagando Seymour, mesmo sem ter culpa... A imagem de seu pai morto me aparece em sonhos, num infinito tormento! Não tive a intenção de matá-lo, mas naquele momento lutei por minha vida! Ele teria me matado se eu não reagisse.

- Mas é isso o que você deveria tê-lo deixado fazer! – e enterrando a mão direita na massa de cabelos vermelhos, puxou a cabeça dela sentindo prazer ao vê-la gemer de dor.

- Você é um sádico!

- Obrigado pelo elogio! Agora, vamos.

Fazendo um sinal para Desmond Hoyt, ele se aproximou com um vidrinho e um pedaço de pano. Os olhos da moça se arregalaram quando deduziu que aquilo era clorofórmio. Ao sentir o contado do pano com aquele forte odor, ela não pôde suportar e perdeu os sentidos.

- Ótimo. Assim ficará ainda mais fácil carregá-la. Ajude-me a levá-la, vamos sair logo deste lugar antes que os Cartwright voltem.

Enquanto a pegava no colo, o xale que ela usava se desenrolou e caiu no chão. Sr. Hoyt jogou o pedaço de pano com o clorofórmio ao lado, próximo ao Chubb.

O conde havia alugado uma cabana ao leste, para se esconder até a manhã do dia seguinte, em que fugiriam com Nielle na diligência que sairia de Virginia City. Eles a tomariam passando por um atalho próximo à cabana que os levaria à estrada.

O frio da noite havia aumentado ainda mais, dificultando um pouco a cavalgada, mas conseguiram chegar lá no tempo previsto.

Após alguns minutos, enquanto o Sr. Hoyt acendia a lareira, Nielle recobrou a consciência. Esfregando as mãos nos braços para afastar o frio, ela perguntou num fio de voz:

- Onde... Onde estou?

Tomando um cobertor e estendendo-o sobre ela sem que o conde visse, ele sussurrou: - Cubra-se, condessa. Está muito frio esta noite.

- Sr. Hoyt... Para onde me levaram?

- Para uma cabana, a leste da propriedade dos Cartwright.

- Por que o senhor está ajudando Seymour? Eu lhe fiz algum mal?

Suspirando, ele se voltou de costas para ela: - Não, condessa... Mal nenhum. Mas é que minha família serve a dele há gerações.

- Ora, ora... Vejo que já despertou de seu sono real!

Engolindo em seco e tentando conter seu asco pelo jovem conde, Nielle disse: - Seymour... Por favor, me deixe aqui e fuja... Os Cartwright nos encontrarão mais cedo ou mais tarde.

- Fugir? E por que diabos você acha que fugiria e abriria mão dos meus direitos?

- Porque isso o que você está fazendo é sequestro! Você me trouxe aqui à força, eu não queria vir!

- Quanta tolice... Você sabe muito bem que tê-la é um direito meu. Isso não é sequestro pelas leis de Norfolk!

- Mas nós não estamos em Norfolk, estamos na América... E... E aqui estou comprometida com outro homem. Não importa para onde você me leve, ele irá me encontrar.

O medo que Nielle sentiu naquele momento foi indescritível. O rosto do conde endureceu como se tivesse sido talhado em pedra e logo se converteu em uma horrível carranca. Aproximando-se dela como um raio, e apertando seus braços com força, ele gritou enquanto sacudia-a: - O que foi que você disse? Comprometida com outro homem? Quem?

- Me solte, Seymour! Você está me machucando!

- E vou machucar ainda mais! Diga-me logo de quem se trata!

- Hoss Cartwright...

- Hoss Cartwright?... – franziu a testa numa tentativa de se lembrar - Quem, aquele gordo? Há, há, há, há, há!... Você está brincando comigo! – e soltou-a.

Massageando os braços doloridos, ela o fitou com ódio, desprezando a fundo aquela crueldade dele.

- Não é brincadeira. Eu me apaixonei por ele... Hoss é nobre, gentil e valente... E ele é muito mais homem do que você jamais foi!

- Nunca mais repita isso! – e apontou o revólver para a cabeça dela – Você não faria uma tolice dessas de deixar Norfolk para se casar com um rancheiro. Perderia o título e sua herança.

- Eu não me importo com o título e a herança. Meu pai não tem só a mim, mas também ao meu irmão mais novo, a quem ele pode legar tudo.

- Isso é ridículo! Você não passa de uma imbecil! Amanhã bem cedo iremos tomar a diligência para São Francisco e de lá, o navio de volta para a Inglaterra. Por isso, pode ir se conformando.

- Hoss virá!... Eu sei que ele virá... – disse ela, quase como para si mesma.

Continua...

Notas: Quero agradecer ao meu irmão Felipe por ter feito o desenho que ilustra a pintura que Nielle fez para o leilão!
Para ver a imagem, acesse o link: tinyurl pinturanielle

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