Pouco depois de comprarem o quadro de Nielle, os Cartwright deixaram a festa e voltaram para o rancho. A casa estava silenciosa, mas assim que se aproximaram mais viram a figura de um preocupado Hop Sing surgindo com uma lamparina em uma das mãos.
- Sr. Cartwright! Sr. Cartwright!...
Saindo de sua carruagem, Ben se aproximou do cozinheiro, procurando acalmá-lo.
- O que houve, Hop Sing? Fique calmo e fale devagar.
- Srta. Nielle disse a Hop Sing que ilia ao estábulo cuidar de Chubb, e não está mais lá! Ela não está no qualto também.
Os irmãos se entreolharam e Adam correu para o estábulo, enquanto Hoss foi para o quarto dela e Little Joe foi procurar pelo restante da casa. Quando voltaram a se reunir, Hoss e o caçula disseram que ela não estava ali e Adam contou o que encontrou:
- Esse xale e esse pedaço de pano estavam perto de Chubb.
Hoss nunca tinha visto aquele xale antes, mas constatou que era de Nielle porque tinha o perfume dela.
- Esse pedaço de pano está com um cheiro muito forte, Adam.
- Sim, Joe... É clorofórmio.
- Clorofórmio?
- Então quer dizer que aquele maldito esteve aqui e a levou, Pa – Hoss concluiu, frustrado – Se ele fizer algum mal a ela, eu o mato. Irei atrás deles.
- Não seja tolo Hoss, está escuro como o breu. Você não conseguirá rastreá-los a essa hora da noite. Iremos esperar o amanhecer.
- Eu não irei esperar, Adam. Não vou aguentar ficar aqui parado, sem saber o que ele pode estar fazendo com Nielle.
Entrando no estábulo, Hoss selou Chubb e o montou, ignorando os apelos do irmão caçula: - Hoss!... Hoss, espere!
- Deixe-o, Joseph. Ele não irá nos ouvir agora.
- Mas, Pa!...
- Vá até o escritório de Roy e reporte o desaparecimento da noiva de seu irmão. Diga a ele que Hoss saiu para segui-los e que precisamos de ajuda para procurá-los ao amanhecer.
- Sim, senhor.
- Pa... Eles não conseguirão deixar a região sem uma diligência e imagino que desejam tomar a que parte para São Francisco. Amanhã uma irá partir bem cedo, ganharemos mais tempo se pudermos atrasá-la.
- Boa ideia, Adam. Daqui a pouco partiremos para a estação para tentarmos atrasar a partida da diligência, mas antes quero conversar com você.
E indicando a entrada da casa, Adam o seguiu. Lá Ben colocou o primogênito a par de tudo o que Nielle havia lhes contado, no dia em que receberam seu telegrama. Ele então compreendeu a atitude reservada da condessa, o ódio e a crueldade do enteado e seu medo de ser localizada. Parecia que Hoss finalmente havia encontrado uma mulher digna de seu amor e dedicação e mesmo em meio àquela tensão com o sequestro da jovem, ele ficou mais tranquilo quanto à índole dela. Por fim, Ben lhe explicou sobre o empecilho que havia para que ela e Hoss se casassem e a dificuldade do Dr. Melvin em encontrar uma brecha na lei que permitisse isso sem causar algum incidente diplomático.
- Você já esteve naquela região antes?
- Sim, já estive em Nothumberland, onde a mãe dela nasceu.
- E não há algo que possamos fazer?
- Bem... As únicas soluções possíveis seriam a morte do conde ou a renúncia do título.
- Renúncia do título?
- Sim. Ela teria que assinar um documento oficilializando a renúncia do título dela como condessa de Knightley. Após isso, ela passaria a ser uma simples plebeia, mas se ela realmente amar Hoss, fará isso.
Ben assentiu, preocupado. Em seguida, levantou-se e fez um sinal para o filho indicando que deveriam partir para a estação.
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Estava tudo tão escuro, que Hoss não fazia ideia de como estava conseguindo cavalgar àquela hora da noite. Adam estava certo, ele não conseguia rastrear nada, apenas a luz da lua iluminava o seu caminho. Porém ele sabia que tinha que continuar.
Cavalgou durante mais algum tempo, mas finalmente foi vencido pelo cansaço, a escuridão e o temor em apagar os possíveis rastros deixados pela fuga. Diabos! Ele escolheu uma noite bem escura para levá-la, o que lhe dava uma certa vantagem.
Apeando, Hoss juntou alguns gravetos e fez uma pequena fogueira, pois aquela noite também estava muito fria. Passou alguns minutos pensando em Nielle, em como ela estaria nas mãos daquele maldito, que só lhe desejava o mal... Ficou irado ao imaginar que ele a tinha forçado a deixar Ponderosa... Mas lutaria da forma que fosse preciso para tê-la de volta. E após divagar por mais algum tempo, por fim adormeceu.
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Já estava quase amanhecendo e o Conde havia colocado o Sr. Hoyt para vigiar Nielle, que se esforçava para não amanhecer realmente e fingia dormir, apegando-se à esperança de uma possível fuga.
O criado era um homem bastante resistente e conseguiu manter-se desperto por longas horas, porém não resistiu durante toda a noite e acabou dormindo.
A jovem cativa esperou por mais algum tempo e sorrateiramente, levantou-se, enrolou-se no cobertor para proteger-se do frio e deixou a cabana caminhando durante os primeiros trechos para não desperta-los com seus passos. Olhando para trás de quando em vez, ao ver-se mais afastada da cabana, pôs-se a correr. E correu muito, até quase perder todo o seu fôlego. Nunca tinha estado naquele trecho antes, mas procurou seguir pela direção oposta a que tinham vindo, julgando que isso ao menos a aproximaria da Ponderosa. Durante o percurso, ela rezava pata que estivesse certa.
Enquanto corria, tropeçou e caiu, arranhando parte do braço e do queixo. A queda a fez soltar um gritinho, que assustou um cavalo que estava próximo e o fez relinchar.
- Hmm?... O que houve, Chubb? – perguntou uma voz que ela conhecia muito bem.
- Hoss!... Hoss, é você?
O grandalhão achou que estava sonhando, mas não, era Nielle quem estava deitada ali de bruços e com o queixo ralado. Ele se levantou e a amparou, abraçando-a e beijando-a.
- Você se machucou.
- Oh, não foi nada! Estou tão feliz em encontrá-lo! Tive tanto medo, Hoss... O conde está louco de ódio por mim.
- Não precisa ter mais medo. Eu estou aqui e sei que Pa e meus irmãos irão buscar ajuda. Venha, vamos. Não podemos mais ficar aqui.
Eles apagaram o fogo, juntaram tudo, montaram em Chubb e começaram a cavalgar em direção à Ponderosa.
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Aos poucos os primeiros raios de sol começaram a entrar pelas janelas da pequena cabana. Sr. Hoyt se virou em uma posição mais confortável e aos poucos foi despertando de seu sono. Quando abriu os olhos e viu que a condessa não estava ali, levantou-se num sobressalto.
- Conde Seymour! Conde Seymour!...
- Hmm... Você tem que ter um bom motivo para me acordar assim, Desmond... – murmurou ele, virando-se, coçando os olhos e bocejando – O que diabos foi agora?
- A... A condessa fugiu!
Arregalando os olhos, o conde se levantou num pulo, possesso: - O quê? Você a deixou fugir? Seu imbecil! Eu mandei que a vigiasse a noite inteira!
- M-me desculpe, senhor... É que eu estava cansado e acabei adormecendo...
- Seu energúmeno! Se ela conseguir alcançar os Cartwright, eles nos denunciarão por sequestro!
- M-mas e quanto à lei do condado? E seus direitos reais? – o pobre criado estava quase desfalecendo.
- Odeio admitir, mas ela estava certa quanto ao fato de estarmos na América... O país tem as suas próprias leis e aqui o que fizemos foi rapto, já que ela se comprometeu com aquele gorducho Cartwright.
- Eu não entendo, conde... Ontem o senhor disse a ela que isso não mudava nada.
- Mas é claro que você não entende nada, você é um idiota! Eu estava blefando, entendeu? Blefando! Pensar... Preciso pensar no que fazer!
Respirando fundo a fim de se acalmar, o conde estava vermelho como um pimentão e o criado procurava se recompor dos insultos que sofrera. O que faria se fosse preso naquele país? Não era aquilo que desejava para si mesmo... Iria... Iria...
Correndo em direção à porta e sem olhar para trás, Sr. Hoyt surpreendeu o conde, que começou a gritar: - O que diabos você está fazendo, Desmond?
- Vou fugir daqui! Não posso ser preso e condenado pela sua loucura... Já perdi muitos anos da minha vida servindo a sua família! – respondeu enquanto tentava abrir a porta com as mãos trêmulas.
- Fugir? Isso não! Você não pode me deixar! Não vou levar a culpa sozinho!
Assim que conseguiu destravar o trinco, Desmond usou todas as suas forças para correr em direção à própria liberdade. Mas o conde foi mais rápido e pegando a arma, atirou nele pelas costas, contemplando sua agonia poucos metros à frente. Voltando para o interior da cabana, pegou uma de suas malas, uma lamparina e uma pequena tocha acesa. Aproximando-se de Desmond, que ainda respirava, espalhou o querosene por todo o corpo dele e falou baixinho em seu ouvido: - Ninguém que ousa me trair escapa vivo e você sabe, seu maldito... Mas é uma pena para você não ter feito a lição de casa.
Em seguida se afastou e ateou fogo, ouvindo com frieza os gritos dele e sem nada fazer para por fim àquela morte lenta.
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Na estação, Ben e Adam conseguiram adiar a partida da diligência com um mandado expedido por um Juiz, que era um amigo de longa data do patriarca. No escritório do xerife, Little Joe havia contado toda a verdade a Roy, que se dispôs a ajudá-los com a busca, juntamente com seu assistente Clem.
Todos se reuniram em Ponderosa no início da manhã e começaram a seguir os rastros deixados por Hoss no meio da noite e quando eles os perderam, encontraram os vestígios do acampamento que ele havia feito.
- Veja Pa, alguém montou uma fogueira aqui.
- É mesmo, Joe. Talvez Hoss tenha passado a noite aqui. – Adam respondeu.
- E pelo visto havia mais alguém com ele – Clem completou o raciocínio – Vejam, pegadas. Mas vieram daquela direção pra cá.
Ben apeou e se aproximou para vê-las melhor.
- Parecem pés pequenos, calçados por uma bota. – Joe disse de longe.
- Sim, Joseph... Parece que Nielle conseguiu alcançar Hoss.
- Vamos seguir essas pegadas Ben e ver aonde elas nos levarão. Espero que nos deem alguma pista do esconderijo deles.
- Certo, Roy.
Ben montou e logo eles partiram, seguindo as marcas dos cascos do animal pelo chão úmido.
Após cavalgarem algum tempo, começaram a sentir um cheiro muito forte e pútrido no ar. Tampando as narinas com o antebraço, ao longe puderam avistar uma pequena cabana e um foco de fumaça.
- Meu Deus, que cheiro horrível!
- Atearam fogo em algo no chão... Vamos nos aproximar para ver.
Assim que Adam chegou mais perto com Sport, assustou-se ao reconhecer uma figura humana: - É um corpo!
- Será Hoss? – Joe apeou, preocupado. O mais velho fez o mesmo e aproximando-se com cuidado, analisou o cadáver que ainda queimava e respondeu: - Não, não é ele... E também não me parece ser uma mulher. Será o conde?
- Ele tinha um criado, Adam. Talvez seja ele. Senão, então é uma pobre alma que veio ao lugar errado na hora errada.
Clem foi até a cabana e após revista-la, voltou com um balde de madeira cheio de água até o topo e o usou para apagar as chamas que consumiam o corpo. Depois disse: - Eles passaram a noite na cabana, mas não há mais ninguém lá.
Visivelmente preocupado, Roy disse: - Ben, esse já se tornou um caso muito sério, de assassinato e não mais o sequestro da noiva de Hoss... Seja quem estivermos procurando, o sujeito é cruel e perigoso.
- Eu nunca tinha visto algo assim por aqui antes nesses anos trabalhando como assistente de xerife... Queimar uma pessoa!... Todo cristão sabe que isso não dá paz para a vítima.
- É melhor nós irmos. – Adam interrompeu os pensamentos de Clem com secura – Há um criminoso à solta e Hoss está correndo perigo.
- Clem, enrole o corpo em um lençol e o envie para o consultório do Dr. Martin. Precisamos saber quem é esse pobre diabo.
- Agora mesmo, Roy.
Voltando-se, Ben liderou o caminho e foi seguido pelo Xerife e os filhos.
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- Vamos nos esconder aqui, Nielle. – Hoss apeou, ajudando-a a descer e pegando o cantil que estava atrelado à sela. Deu-o a ela, que bebeu alguns goles e logo em seguida ele bebeu também. Entornando um pouco na concha que fez com uma das mãos e molhou a boca de Chubb, que também parecia cansado.
Hoss amarrou Chubb a uma árvore que estava próxima e eles se sentaram atrás de uma rocha grande. A vantagem daquele lugar era justamente as rochas, que os ajudariam a se esconder.
- Hoss, essa espingarda é a mesma usada em caçadas, certo? – perguntou ela, apontando para a arma atrelada à sela.
- Sim, por que pergunta?
- Bem, eu costumava caçar patos com meu pai e meu irmão nos verões do condado. Deixe-a comigo, assim poderei ajudá-lo caso haja algum perigo.
Um tanto quanto cético e temeroso, ele a olhou com uma sombra de dúvida e respondeu enquanto checava o seu revólver: - Acho melhor não, Nielle. Aquela arma não é para senhoritas. O cabo dela é muito pesado, serve apenas para quem está habituado a caçar animais de grande porte.
- Mas... Mas, Hoss!...
- Deixe o perigo comigo. – ele negou mais uma vez, sorrindo – Não quero que você se machuque caso aconteça algo.
A contragosto, ela teve que aceitar. Porém não conseguia deixar de sentir uma pontada no peito.
Os ficaram descansando abraçados até que Nielle adormeceu. Logo Hoss a soltou com gentileza e ficou de vigia.
Um longo tempo se passou até que ele ouviu um barulho. Um cavaleiro se aproximava ao longe apressado e Hoss percebeu que o pobre animal estava quase morto de tão cansado.
Somente quando ele chegou mais perto é que o reconheceu: era o conde. Raciocinando com rapidez, Hoss decidiu se esconder em algumas rochas mais afastadas para não colocar Nielle em risco caso houvesse algum confronto. Ele tentou correr rápido, mas o barulho dos pedregulhos chamou a atenção do conde que, transtornado, gritou: - Quem está aí? Apareça!
Hoss se encolheu ainda mais, porém mantendo a arma em punho. Um curto silêncio se fez, enquanto o conde aguardava a resposta. Olhando de um lado para o outro, ele desmontou armado, dando a volta de rocha em rocha, procurando por seu algoz.
- Largue a arma, Cartwright!
Suando, ele lentamente obedeceu. Virando-se devagar, encontrou o olhar frio do homem de quem sua noiva vinha fugindo há tanto tempo.
- Há, há, há, há! Foi muito fácil render você, Cartwright! Fácil até demais!... Não acredito que Nielle escolheu se casar com um rancheiro feio feito você!
Controlando a raiva que sentia, Hoss procurava uma pensar em uma maneira de desarmá-lo, mas naquele momento essa possibilidade era muito remota.
- O que vai fazer?
- Em primeiro lugar, encontrar a condessa. Onde ela está?
- Ela não está aqui...
- Você mente muito mal, Cartwright... Eu sei que ela está escondida em algum lugar por aqui. Agora, me diga onde. – engatilhando a arma, apontou para o céu e atirou.
Nielle acordou sobressaltada com o som alto do disparo e deslizando entre as rochas, conseguiu ver Hoss logo à frente, acossado pelo conde, que apontava uma arma para ele.
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Alguns quilômetros à frente, Ben, Adam, Little Joe e Roy ouviram o mesmo som:
- Um disparo! E não foi muito longe daqui!
- Talvez seja Hoss, Adam! E o conde!
- Vamos nos apressar, ele deve estar em perigo.
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Voltando para sua posição original devagar, Nielle se aproximou de Chubb e desatou o nó que prendia a espingarda que estava presa à sela. Era mesmo uma arma pesada, mas ela tinha forças para segurá-la. Após ajustá-la em seu corpo, saiu do esconderijo e a apontou para o conde, dizendo: - Acabou, Seymour! Largue a arma!
Num sobressalto, o conde se virou e Hoss aproveitou essa chance para enfim desarmá-lo. Os dois começaram a lutar e embora Hoss tivesse vantagem em força e tamanho, o conde também usava todas as suas forças para se defender e apontar a arma para o peito de seu inimigo.
Nielle começou a descer, tentando se aproximar mais para rendê-lo novamente, porém não houve tempo: um novo disparo soou, mas ela não conseguia ver para onde a arma apontava e quem havia sido ferido.
Os rostos dos dois homens mantinham uma expressão imutável de horror. A pergunta dela só foi respondida quando seu amado tombou ferido no chão.
- Hoss! – Nielle gritou com lágrimas nos olhos.
Continua...
