- Hoss! Hoss, você está bem? – gritou Nielle desesperada, enquanto se aproximava do corpo.

Bufando, o conde enxugava o suor da testa e tentava se recompor da luta que travara há pouco. Estava fraco, tinha usado todas as suas energias e sentia-se esgotado. O grandalhão era muito forte, mas conseguira. Ninguém podia com ele, nem mesmo um rancheiro com o dobro de seu tamanho.

Nielle abaixou-se para amparar Hoss, que agonizava, ainda consciente. Chorando, ela o abraçou e o beijou, analisando a ferida em sua barriga, que parecia ser grave.

- Meu Deus... Se eu não estivesse vendo, não acreditaria. Você se importa mesmo com esse rancheiro chucro, não é?

- É claro que eu me importo, tenho sentimentos por ele! E mais uma vez digo que ele é muito mais homem do que você jamais foi, Seymour!

- Eu já te disse para não repetir isso!

- É a verdade! Seu covarde... Covarde! Não importa como, eu me casarei com Hoss e não com você, nunca!

Virando o rosto, ela voltou a fitar Hoss, que viu nos olhos dele o brilho do ódio: - Não, não vai! No que depender de mim, não vai! – e levantando o punho, apontou a arma para ela.

- Nielle, cuidado!

Aquele grito fez com que uma luz se acendesse na mente dela que, com a espingarda ainda a tiracolo, a pegou e apontou para ele, mirando em sua coxa esquerda. E sem pensar em mais nada, atirou.

O conde caiu no chão, se contorcendo de dor e gritando. Ainda ao lado de Hoss, sussurrou no ouvido dele: - Você vai ficar bem, Hoss!... Você tem que ficar! O que farei se você se for?

Alguns segundos depois, foram avistados ao longe por Ben, que liderava o caminho e os outros três.

Nielle se levantou e tomou a arma das mãos do conde, para evitar que ele os ameaçasse novamente. Assim que Roy se aproximou, a entregou nas mãos dele.

Vendo que Hoss jazia no chão, Little Joe, Adam e Ben apearam preocupados e viram a ferida que ele tinha na região da barriga.

- A ferida está muito feia, pai... Precisamos levá-lo para o Dr. Martin e rápido.

Roy se aproximou do conde, que também sangrava muito e disse: - Esse aqui tem uma ferida na perna e também parece mal, Ben.

Nielle colocou a espingarda no chão com as mãos trêmulas. Por culpa sua, dois homens haviam sido gravemente feridos e entre eles estava a pessoa que ela mais tinha amado na vida.

- Vamos levá-los para o consultório do Dr. Martin o mais depressa possível. Condessa – e voltou-se para a moça que ainda tremia, perdida em seus pensamentos – sinto dizer, mas terei que levá-la sob custódia até que o inquérito se encerre.

- Está bem, xerife.

- Roy, espere... – Hoss começou a falar, enquanto era amparado pelos irmãos.

- Sinto muito Hoss, mas terei que levá-la comigo. Há mais uma pessoa morta e não identificada que encontramos no caminho e uma questão de diplomacia envolvida nisso.

- Mas... – ele tentou contestar, quase perdendo suas forças.

- Não fale mais filho, poupe suas forças. Condessa, por favor, acompanhe Roy.

- Sim, senhor Cartwright. Promete me informar sobre o estado dele?

Ele balançou a cabeça em afirmativa e reafirmou: - Eu prometo.

Aproximando-se de Hoss, ela colocou as mãos no rosto dele, dizendo para ele não se preocupar, pois tudo ficaria bem. Nesse momento, ele perdeu os sentidos devido ao ferimento.

- Vamos levá-lo ao Dr. Martin, rápido.

Little Joe, que sentia o sangue ferver pela situação de Hoss, tirou a arma do coldre e a apontou para o conde.

- Joe, o que diabos está fazendo?

- Nosso irmão está ferido por culpa dele, Adam! Quero que ele pague por isso!

- Não faça isso, Little Joe! O homem está ferido! – alertou Roy.

- Isso não me importa! Ferido ou não, irei matá-lo se o meu irmão morrer!

- Joseph, seja razoável... Eu também estou sentindo raiva, mas não quero que faça justiça com as próprias mãos... Eu não os criei assim. – Ben tentou acalmar o filho mais novo, que finalmente cedeu, abaixando a arma. Nesse momento, um lampejo passou pela cabeça do rapaz que olhou para Nielle com uma sombra de dúvida. Adam se aproximou deles e logo lançou um olhar sério para ela, que se sentiu traspassada, como se estivesse sendo ferida com uma estaca de gelo.

Enquanto era algemada por Roy, ela com tristeza viu os Cartwright se afastarem com os homens feridos e olhou para dentro de si mesma, refletindo sobre todos os problemas e discórdia que sua vinda a Virginia City havia causado... Duas pessoas gravemente feridas e uma morta, que ela nem fazia ideia de quem se tratava; o sofrimento de um pai e dois irmãos, incidentes diplomáticos... Achou que o sentimento que havia nascido entre ela e Hoss superaria tudo, mas agora duvidava, pois nenhum sentimento compensava vidas perdidas. O que ela tinha feito?

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No escritório do Dr. Martin, Hoss havia acabado de entrar para a sala de cirurgia para a retirada da bala. A enfermeira atendeu as ordens do médico para estancar o sangramento da perna do conde, pois a bala, mesmo sendo de grande calibre, na verdade passara de raspão pela região da coxa e ele agora passava bem. Dali a pouco seria levado por Roy à prisão a fim de enfrentar um interrogatório.

Ben, Adam e Joe estavam muito ansiosos na sala de espera, aguardando notícias. Mas o Dr. Martin já havia lhes adiantado que aquela era uma cirurgia um pouco delicada e com isso, seria também longa.

- Tudo isso está acontecendo por culpa daquela condessa! É por culpa dela que Hoss está assim! – Joe lamentava com os olhos marejados.

- Também acredito que ela tenha uma boa parcela de culpa nessa história toda... Nosso irmão nunca teve a sorte de se apaixonar por uma mulher digna.

- Calem a boca, vocês dois! – Ben os reprimiu, tenso devido à cirurgia delicada do filho e mesmo confuso com aquela história toda, tentou pensar de forma justa – Esse não é o momento para discutirem ou procurarem um culpado, vamos deixar isso com Roy e a lei.

E tomando o seu chapéu, disse que iria ao escritório de Roy, mas que logo voltaria. Chegando lá, o xerife viu o cansaço e a tensão no rosto do amigo.

- Como está Hoss, Ben?

- Ele está sendo operado agora. Estou muito preocupado, Roy.

- Ora, ele é um homem forte. E essa não é a primeira vez em que ele passa por uma situação como essa.

Ben assentiu e virando a cabeça para a área das celas, perguntou: - E quanto a ela?

- Eu a interroguei ainda há pouco. Alega legítima defesa, mas precisamos que Hoss confirme a versão dela, pois duvido que o conde o faça. Assim que o Dr. Martin me permitir, eu tomarei o depoimento dele.

- Posso conversar com ela um minuto?

- Sim Ben, vamos.

Roy pegou a chave das celas e ele o seguiu. Nielle estava deitada, um pouco encolhida, na direção oposta. Ao ouvir o barulho do molho de chaves na fechadura, ela se virou.

- Visita para a senhorita, condessa.

- Senhor Cartwright!

- Como está, condessa?

- Ora por favor, não me chame assim! Apenas Nielle.

Ele assentiu, vendo que ela mal podia se conter: - Como Hoss está?

- Dr. Martin está com ele na sala de cirurgia, para a remoção da bala.

- Mas... Ele ficará bem?

- Eu espero que sim.

Levantando-se, Ben caminhou até a janela e ficou observando o movimento dos transeuntes, sem saber como tocar no assunto que o incomodava. Por fim, resolveu ir direto ao assunto: - Nielle... A senhora atirou no meu filho?

Uma expressão séria e preocupada tomou a face dela: - O... O quê? Mas é claro que não! Eu amo o seu filho mais do que tudo, nunca atiraria nele! Sr. Cartwright... É isso o que o senhor e os seus filhos acham?

Ben não teve coragem o suficiente para lhe responder a essa pergunta, mas o seu próprio silêncio a respondeu por ele. A moça não pôde conter que uma lágrima caísse de um se seus belos olhos verdes.

- Então... Então está bem. Se é isso o que os Cartwright pensam, não temos mais nada para conversar.

Sem dizer mais nada, Ben respirou fundo e chamou Roy para que lhe abrisse a cela.

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No consultório do Dr. Martin, Adam e Little Joe ainda aguardavam por notícias sobre a cirurgia.

Quando Ben voltou, Adam concluiu: - O senhor foi vê-la, não foi Pa?

- Sim, fui.

- O senhor foi dar notícias sobre a cirurgia de Hoss?

- Sim Joseph, eu havia lhe prometido informar sobre o estado dele.

- Isso não faz sentido, Pa... Quando chegamos lá, ela estava com uma arma na mão e uma espingarda a tiracolo! – o caçula levantou-se, concluindo seu raciocínio – Tudo indica que Hoss atirou no conde e ela atirou em Hoss, tomando a arma das mãos dele e a entregando a Roy para não levantar suspeitas.

- De qualquer forma Joe, o único que poderá esclarecer essa história será Hoss.

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Roy trancou a cela levando de volta o prato com o almoço da prisioneira, praticamente intacto. Nem mesmo se dera ao trabalho de tocar na comida, disse não ter fome.

Ao voltar para a sua mesa, tampou o prato quando ouviu a porta se fechar. Levantou a cabeça e viu um homem muito elegante e sério, em trajes distintos. Tinha os olhos verdes e a barba de um tom rubro, bastante escuro, mas com alguns fios brancos.

- O senhor por acaso é o xerife desta cidade?

- Sim... Sou Roy Coffee, xerife de Virginia City. O que deseja, senhor...

- Conde William de Windsor. Procuro por esta jovem do cartaz. – e estendeu a ele o panfleto com o rosto de Nielle, que estavam espalhados pela cidade – Ela é minha filha.

Balançando a cabeça em afirmativa, Roy lhe respondeu: - Pois não precisa procurar mais, senhor Windsor. Sua filha está aqui.

- Como? Aqui? Mas... Mas isso aqui é...

- É, é uma prisão. Ela está sob custódia. Vou deixar que o senhor a veja e lá ela lhe explicará tudo o que aconteceu.

Um tanto quanto chocado, o conde de Windsor acompanhou Roy até as celas.

- Condessa, você tem mais uma visita.

- Quem é agora, Sr. Coffee?

Ao ver aquele rosto conhecido com um olhar incrédulo, ela exclamou: - Oh, meu Deus! Papai!

- Nielle, o que você está fazendo aqui? E... E presa?

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Algumas horas depois, após a entrada de Hoss na sala de cirurgia, finalmente o Dr. Martin apareceu para dar alguma notícia de seu procedimento.

- Como meu filho está, Dr. Martin?

- Acalmem-se. Consegui extrair a bala sem danificar os tecidos internos. Ele ficará bem, mas precisará permanecer em repouso absoluto nos próximos dias.

Pai e filhos se abraçaram com a emoção dessa boa notícia.

- Graças a Deus! E quando poderemos falar com ele?

- Ele deve permanecer ainda inconsciente por longas horas. Assim que acordar, eu os informarei.

Clem, que estava no consultório aguardando notícias sobre o estado de Hoss, se despediu para a delegacia para informar tudo a Roy.

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Nielle havia contado tudo ao pai, sobre sua fuga, seu encontro com Hoss, a paixão que nasceu entre eles, a loucura do conde e o confronto.

William ouviu tudo muito surpreso e ficou chateado com o fato do jovem Seymour querer vingar a morte de seu pai, sendo que já havia sido comprovado em juízo que ela era inocente.

- Agora o Sr. Cartwright e seus filhos acreditam que eu atirei em Hoss e de propósito! Tenho certeza de que agora eles jamais me aceitariam em sua família. Estou preocupada com o estado dele e... E me sinto tão infeliz!... Não sei o que fazer!

- Eu sei, minha filha.

Ela levantou o olhar com um brilho de esperança: - O senhor sabe? Então me diga, por favor!

- Volte para Norfolk comigo. Lá você poderá esquecer todo esse pesadelo e reconstituir sua vida.

- Com o conde Seymour? Não papai, isso não! Quero saber se há algum meio para que eu consiga me libertar desse compromisso com ele. Aquele homem está louco e é capaz de tudo para me fazer mal.

William desviou o olhar para um ponto cego, evitando por um momento a tristeza que era visível nos olhos da filha. Não queria que ela fosse infeliz, mas também não queria destruir o futuro dela e de seu condado. Após hesitar durante alguns segundos que pareceram intermináveis, ele por fim falou: - Há um meio, Nielle.

Novamente aquele brilho nos olhos dela se reacendeu e desta vez ainda mais intensamente.

- A única maneira de desfazer o seu compromisso com o conde Seymour de Knightley é abrindo mão de seu título de condessa.

- A-abrindo mão de meu título? Mas isso quer dizer que...

- Que você passaria a ser uma simples plebeia. Uma plebeia e nada mais, Nielle. Porém sei que você não cometeria tamanha tolice por um reles fazendeiro.

- Por Hoss eu seria capaz de tudo, até mesmo disso.

- Você ficou louca? – ele se levantou, ainda mais pálido – Ao abrir mão de seu título, você estará também abrindo mão de sua herança! Ainda que o seu casamento com o velho conde não tenha sido consumado, você será uma viúva na mais completa miséria! Ninguém em Norfolk irá lhe querer e pelo visto nem mesmo aqui, já que as notícias correm e esses Cartwright a consideram uma criminosa! É isso o que você deseja para a sua vida, Nielle? É?

Com o olhar perdido, Nielle fitou o pai, sem no entanto conseguir encontrar uma resposta.

Continua...