Clem deu as boas notícias da recuperação de Hoss e Roy respirou mais aliviado: - Então quer dizer que já poderemos colher o depoimento dele?
- Não, ainda não. Dr. Martin disse que ele deverá ficar em repouso e também deve permanecer inconsciente pelas próximas horas.
- Tomara que ele acorde logo, Clem. Estou mantendo o conde na casa dos Brown e já o interroguei diversas vezes... Mas ele não quer nos contar o que fez ou sabe.
- E quanto à moça? O que fará com ela?
- Infelizmente terei que libertá-la por falta de provas. Conversei com o Dr. Melvin para saber se eu não poderia mantê-la aqui por mais tempo e ele me disse que não.
Indo com a chave até a cela em que Nielle estava com o pai, Roy disse: - A senhora pode ir. Será libertada por falta de provas, ficarei apenas com o conde sob custódia.
- E como Hoss está?
- Ele ficará bem. – Clem respondeu – A bala foi extraída e ele precisará ficar em repouso por algum tempo.
- Eu quero vê-lo, papai.
- Nielle, eu não acho que essa será uma boa ideia. É melhor que deixemos esses Cartwright em paz e tomemos a próxima diligência para São Francisco.
- Papai, não posso ir embora sem antes vê-lo... Sr. Clem, onde ele está?
- Ele ainda está inconsciente, moça. Mas eu a levarei até lá, é a clínica do Dr. Martin.
Voltando-se para o pai, que estava preocupado, ela disse: - Por favor, vá até o hotel e faça suas malas. Assim que eu ver Hoss e deixar um recado com o Sr. Cartwright, me encontro com o senhor lá.
O velho assentiu, um pouco contrariado. Deixando a cela, ajeitou o cabelo rapidamente, apertou as bochechas para dar cor ao rosto pálido, alisou o vestido e disse: - Muito bem senhor Clem, vamos.
Após atravessarem a rua, caminharam alguns metros em silêncio, até finalmente chegarem ao consultório do Dr. Martin.
- É aqui.
- Muito obrigada, até logo.
Fazendo uma discreta mesura com a aba do chapéu, o assistente de xerife se despediu com um educado 'Senhora'. Respirando fundo, Nielle entrou. Na sala de espera se encontravam Ben, Adam e Little Joe, visivelmente cansados.
- Boa tarde.
- Boa tarde, senhora.
- Já deixou a prisão tão cedo? Acho que deveria ficar mais algum tempo lá. Por sua culpa, meu irmão quase morreu! – Little Joe respondeu, cheio de ressentimento. A moça ficou sem reação diante daquele ataque verbal, não imaginava que ouviria aquele rapaz gentil que lhe ensinara a ordenhar falar daquela forma com ela. Seu rosto se converteu em uma máscara de tristeza, mas ela entendia os sentimentos dele.
- Joe, por favor – Adam pediu.
- Você sabe que eu estou certo!
- Joseph, pare com isso. Ainda não sabemos como está a investigação de Ro lei quem deve decidir se a Sra. De Knightley é culpada ou não.
Diante desse pito passado pelo pai, Little Joe se aquietou, mas continuou lançando aquele olhar para ela.
- O que deseja, condessa? – Adam foi direto ao assunto.
- Bem, respondendo à pergunta de Little Joe, fui solta por falta de provas, segundo o xerife Coffee – voltando o olhar para Ben, continuou – E, bem... Vim aqui porque gostaria de ver Hoss, se possível.
Os três homens permaneceram em silêncio por alguns segundos, até que o caçula respondeu pelo pai: - Acho que não deveria. Você trouxe muitos problemas para Hoss... Além do mais, ele está inconsciente.
- Por favor, sei que ele está inconsciente, mas eu gostaria de vê-lo.
Após uma rápida troca de olhares com os filhos, Ben finalmente deu seu parecer: - Acho que é justo. Vou falar com o Dr. Martin.
Após conversar rapidamente com o médico a respeito da visita, ela finalmente pode entrar e sozinha. Hoss estava com uma expressão bastante serena e que a alegrou. Sentando-se na beirada da cama, ela segurou a mão dele, com os olhos marejados e curvando-se, deu-lhe um beijo suave nos lábios, acarinhando sua face. Levantando-se tristemente, enxugou o rosto e se foi. Ao voltar para a sala de espera, evitou o olhar duro dos rapazes Cartwright, mas disse: - Quero agradecer-lhes por terem me permitido visitar Hoss. E também por tudo o que fizeram por mim, por terem me acolhido em Ponderosa... Muito obrigada a todos.
Adam e Little Joe nada disseram, mas fizeram uma educada mesura a ela. Ben apertou sua mão e disse: - Não precisa agradecer, Nielle.
Ela sorriu por ele ter dito o primeiro nome dela e acenando, deixou o consultório.
Adam concluiu que Nielle havia ido embora de Ponderosa pela maneira como se despedira deles no consultório do Dr. Martin. Esteve em casa para buscar algumas mudas de roupas para eles, pois ficariam no hotel até que Hoss recobrasse a consciência e perguntou a Hop Sing, que confirmou todas as suas suspeitas: - Srta. Nielle esteve aqui com um outlo homem e buscou suas malas. Ela também deixou uma calta pala o Sr. Hoss no qualto dele.
- Um homem? E que homem era esse, Hop Sing?
- Hop Sing não sabe. Mas ela um homem mais velho e muito elegante, como a senholita.
"Então ela realmente se foi... Hoss ficará arrasado quando souber. Logo imaginei que ela não fosse faze-lo feliz, haviam muitas diferenças entre eles, além da suspeita de tentativa de homicídio que há sobre ela." O primogênito concluiu em pensamento e voltou para Virginia City, deixando o pai e o irmão mais novo a par da situação.
- Teremos que contar tudo a Hoss quando ele estiver se sentindo melhor.
- Sim... Fiquei curioso quanto ao homem que Hop Sing disse que a acompanhou.
- E há a carta também – Little Joe interveio – Será que ela deu sua versão da história lá?
- Não faço ideia Joe, mas talvez ela tenha esclarecido tudo à sua própria maneira.
- Só de imaginar que ela pode ter sido a responsável pelo ferimento de Hoss... E agora essa partida dela... Isso irá acabar com ele.
Colocando a mão no ombro do pai, Adam tentou acalmá-lo: - Não será a primeira vez em que ele fica com o coração partido, Pa. Hoss já foi iludido por outras mulheres antes.
- Eu sei, Adam! Mas não agüento vê-lo sofrer, mendigando amor! Ele não merece mais passar por isso.
Nesse momento, Clem entrou no consultório dizendo que Roy precisava falar com eles sobre a investigação. Imediatamente eles o acompanharam e ao chegarem, o xerife lhes adiantou que tinha uma boa notícia.
- Após muito tentar, finalmente consegui arrancar uma confissão do jovem conde de Knightley.
Todos ficaram surpresos e se entreolharam.
- O que ele disse?
- Bem, ele confessou que tinha um plano para se vingar da condessa por ela ter matado o pai dele. Disse também que foi com o criado à Ponderosa naquela noite e a levaram para a cabana que encontramos na floresta.
- E de quem era o corpo queimado que encontramos? – Adam quis saber.
- Do criado dele, Desmond Hoyt. O conde o matou após saber que ele tentaria se entregar quando viram que a condessa havia fugido.
Com uma expressão carregada pela tensão, Ben perguntou: - E sobre o ferimento de Hoss? E o do conde?
- Os dois lutaram com uma arma em punho e Hoss foi ferido. Quando ele tentou atirar nos dois, a condessa atirou primeiro, esse foi o tiro que lhe passou de raspão pela perna. Ben, a versão dele bate com a da condessa, exceto pelo fato do assassinato do Sr. Hoyt, que ela provavelmente não conhecia.
Um pesado silêncio caiu sobre eles, até que Roy disse que agora precisavam apenas do depoimento de Hoss para esclarecerem tudo. Mesmo assim um inevitável sentimento de culpa se abateu no coração dos Cartwright. Em grande parte eles haviam sido responsáveis pela partida dela. o que diriam a Hoss quando ele acordasse? Não poderiam mentir para ele, ainda que fosse para poupar-lhe sofrimento.
- Para onde a condessa foi, Roy?
- Ela deixou a cidade ontem, Little Joe. Enquanto ainda estava sob custódia, o pai dela esteve aqui. Ontem os vi embarcando na diligência para São Francisco.
- Isso quer dizer que logo devem tomar um navio para a Europa. Não chegaremos lá a tempo – concluiu o homem de negro.
- Droga! É tudo culpa minha!
- Acalme-se, Little Joe. Encontraremos uma maneira de impedir que ela embarque... Tenho um amigo que trabalha no porto, vou telegrafar pedindo que ele dê uma mensagem a ela.
E de fato foi o que Adam fez logo em seguida. Telegrafou ao amigo do porto e ficou aguardando por sua resposta no hotel enquanto o pai o e irmão aguardavam no consultório. Mais tarde o mensageiro lhe chamou, dizendo que havia recebido uma resposta: o navio para a Europa já tinha partido, mas apenas o conde William de Windsor embarcou. Sua filha não estava com ele.
"Então... Para onde ela foi? Para onde?" – Adam indagou, intrigado.
Passado mais algum tempo, Hoss finalmente recobrou a consciência. Após ver o pai e os irmãos, a primeira pessoa por quem ele perguntou foi Nielle. Eles se entreolharam, um pouco preocupados e Ben disse:
- Mais tarde falaremos sobre ela, filho. Primeiro, Roy precisa colher o seu depoimento para encerrar a investigação.
- Está bem, Pa.
Enquanto Ben foi chamar o xerife, Adam e Little Joe lembraram o irmão do mau pedaço que ele havia enfrentado.
- Você tem mesmo um couro resistente, Hoss!
- E foi graças a essa força que sobreviveu.
Rindo, ele respondeu: - Sim, confesso que o meu 'couro duro' pode ter me ajudado muito, mas se não fosse por Nielle, acho que teria morrido.
Os irmãos baixaram o olhar e um silêncio pairou no ar. Hoss achou aquilo estranho: - Adam, Little Joe... Há algo errado? Me digam!
Nesse instante, Ben entrou no quarto com Roy, que disse estar feliz com a rápida recuperação dele. Em seguida, comentou que quando chegaram ao local, ele e o conde se encontravam caídos no chão e feridos; e que a condessa estava com uma espingarda a tiracolo e um revólver na mão, que logo foi entregue a ele. Depois falou sobre o depoimento de Nielle, o corpo carbonizado que encontraram próximo à cabana e a difícil confissão do conde.
Logo Hoss deu sua versão dos fatos sobre o que havia acontecido, finalizando: - Nielle atirou no conde em legítima defesa, salvando a própria vida e a minha.
- E quanto a você, como foi ferido?
- O conde e eu lutamos com a arma em punho, ela disparou e me atingiu.
- Então isso esclarece tudo. Seu depoimento coincide com o da condessa, Hoss.
- E onde ela está? Por que ela ainda não veio me ver?
Pedindo licença, Roy se retirou, deixando Hoss na companhia do pai e dos irmãos.
- Hoss...- Ben começou – No momento em que chegamos àquele monte rochoso, encontramos você e o conde feridos no chão. Nielle estava com sua espingarda de caça a tiracolo e uma arma em punho. Roy precisou levá-la sob custódia... Você entende, filho?
Com uma expressão séria pelo mau pressentimento que sentia, ele balançou a cabeça em afirmativa. Ben ficou em silêncio e Little Joe deu continuidade por ele: - Sabíamos que o conde era em grande parte o responsável pelo que tinha acontecido, mas também imaginamos que... Que Nielle havia atirado em você.
- O quê?... Como puderam pensar algo assim?
- Sentimos muito, Hoss... Achamos que ela fosse como algumas das mulheres por quem você se apaixonou no passado. Pensamos que ela o faria sofrer, que estava aliciada ao conde. – Adam respondeu – Roy disse que o pai dela esteve aqui e eles partiram para São Francisco há uma semana.
- Ela... Foi embora? Mas... Mas nós iríamos nos casar!
- Eu telegrafei para um amigo que trabalha no porto e ele me disse que apenas o pai dela embarcou de volta à Europa. Isso quer dizer que ela provavelmente ainda está em São Francisco.
- Iremos para lá o mais rápido possível. Foi por uma suspeita nossa que ela partiu, portanto, trazê-la de volta é um dever que temos, irmão.
Por alguns segundos, Hoss ficou em silêncio, pensando. Estava triste pelo fato de sua família ter desconfiado da integridade da mulher que ele amava e também pelo fato de ela ter partido assim, sem mais nem menos. Foi quando ouviu o pai dizer:
- Ela esteve aqui no dia em que partiu. Pediu para vê-lo e depois foi para Ponderosa a fim de buscar seus pertences e lhe deixou esta carta. – e estendeu um envelope que ele pegou com cuidado, admirando a bela caligrafia.
"Hoss... Eu estou tão feliz em saber que você ficará bem! Sinto muito que a minha vinda aqui tenha causado tantos problemas para você e sua família e que isso tudo tenha terminado assim... O fato de você quase ter morrido foi terrível, mas depois da tempestade, vem a bonança. Assim espero... Não há nada que eu deseje mais do que a sua felicidade, assim como não há ninguém que mereça ser mais feliz do que você.
Conhecê-lo mudou completamente a minha vida e a minha maneira de ver as pessoas. Está sendo muito difícil para mim deixar Virginia City e o nosso compromisso... Mas saiba que eu sempre irei amá-lo.
Nielle"
As mãos de Hoss tremiam quando ele terminou de ler aquelas linhas. Olhando para cima, não pode evitar que algumas lágrimas caíssem de seus olhos azuis e brilhantes. Fitando o pai e os irmãos, comunicou a decisão que havia tomado: - Eu irei a São Francisco. Não posso deixá-la ir!
- Mas Hoss, você ainda está se recuperando dos ferimentos!
- Nós iremos até lá Hoss, ela partiu por nossa culpa.
- Me desculpem, irmãos... É algo que preciso fazer.
- Adam, Joseph... Deixem que Hoss vá. – Ben interveio. Estava sendo difícil para ele dizer aquilo, mas entendia os sentimentos do filho do meio. Ele já havia sofrido muito e merecia ser feliz. Provavelmente Nielle se sentiria melhor e aceitaria voltar se o próprio Hoss fosse até ela.
Continua...
