Os Cartwright conversaram com o Dr. Martin a respeito da viagem que Hoss desejava fazer a São Francisco e sua recuperação.
- Serei sincero: a bala não danificou tecidos vitais, mas fez um estrago bem grande. Você é um homem forte e resistente Hoss, provavelmente foi isso o que lhe salvou a vida. Mas você não deve abusar da sorte... Precisará ficar em repouso por pelo menos três semanas.
- Droga! Mas eu preciso fazer essa viagem, Dr. Martin!... Minha felicidade depende disso.
O velho médico fitou os olhos azuis e preocupados de seu paciente e indagou: - Sei que não é da minha conta, mas tem a ver com aquela bela moça que esteve aqui, não é? – tomando seu silêncio como um sim, ele continuou – Tenho certeza de que o desejo dela é vê-lo completamente recuperado. Essa viagem é importante para você, mas não vale a sua vida... Tenho certeza de que ela lhe entenderá.
- Acalme-se, filho... Se ela tivesse embarcado para a Europa, o amigo de Adam teria enviado uma mensagem. Isso quer dizer que ela ainda está aqui... Você irá encontrá-la.
- A boa notícia é que... – Dr. Martin procurou mudar de assunto para evitar a tensão do paciente – Você poderá voltar para casa hoje!
- Isso é ótimo, Hoss! Podemos jogar damas, xadrez... Quem sabe eu até lhe deixe ganhar, hein? Há, há, há, há!...
Nem mesmo as brincadeiras do irmão caçula evitaram que ele se sentisse angustiado. Já havia sentido medo antes, mas nunca um como este, como se fosse perder a única coisa preciosa que a vida havia demorado para lhe enviar.
De volta a Ponderosa, os dias passavam depressa e Hoss procurava manter-se a maior parte do tempo em repouso, como o Dr. Martin havia lhe recomendado. De vez em quando, ele ficava algum tempo na varanda tomando sol e ar fresco, mas sempre pensando em Nielle e que deveria partir para encontrá-la em São Francisco; no quanto deveria lutar pelo futuro deles... Queria que Deus continuasse escrevendo aquela história que, no que dependesse dele, nunca teria fim.
Aquela partida dela para São Francisco o enchia de esperanças ao mesmo tempo em que o intrigava... Se ela sentiu que deveria ir embora, por que não voltara para a Europa? Seria para recomeçar sua vida? E sem ele? Só aquele pensamento era o suficiente para extrair suas forças. Mas não iria desistir.
Havia relido a carta dela diversas vezes, tanto, que a memorizara por completo. Ao mesmo tempo em que contemplava o relicário e a fotografia dela, lembrando-se de suas palavras: 'Estaremos sempre juntos, não importa a distância... '
Passaram-se três, quatro semanas... Até que em sua última visita, Dr. Martin finalmente lhe disse que ele já se encontrava em boas condições para poder partir.
Enquanto arrumava suas malas para tomar a diligência para São Francisco, Adam, que havia sido chamado pelo mensageiro, entrou em casa com um pedaço de papel na mão direita.
Com um sorriso, trocou um olhar de cumplicidade com o irmão mais novo, com quem estivera viajando durante alguns dias. O homem de negro e o caçula haviam retornado há dois dias, tempo em que não conversaram muito com o filho do meio. Hoss estivera ansioso, nervoso e um pouco deprimido, sentiu-se um bocado solitário com essa viagem dos irmãos, embora desfrutasse também da companhia do pai e de Hop Sing. Imaginou que eles não o haviam procurado por acharem que ele queria ficar sozinho, o que não deixava de ser totalmente verdade.
- Hoss... Adam e eu temos uma surpresa para você!
- Uma grande surpresa – Adam corrigiu o irmão mais novo, que não parava de sorrir – Nesta última viagem que fizemos, fomos a São Francisco!
- O quê?...
- E após muitas buscas, um amigo de Adam conseguiu localizá-la... Nielle não está em São Francisco.
Hoss se aproximou da poltrona de couro do pai a fim de se sentar para absorver aquelas notícias. Fitando os irmãos com um meio sorriso, quis saber: - E... E onde ela está?
- Ela está em Hanford, uma cidade do interior do estado. Trabalhando como professora em uma escola primária.
- Não conseguimos o endereço da casa onde ela está vivendo, mas aqui tem a localização da escola. – e Adam lhe entregou o papel que havia recebido do mensageiro pouco antes.
- Queremos que você seja feliz, Hoss. – Joe se esforçava para reprimir as lágrimas, no entanto, estava difícil.
Hoss contemplou os irmãos, visivelmente emocionado. Só Deus sabe quanto tempo ele demoraria procurando por Nielle em uma cidade grande como São Francisco. Levaria muito tempo até ele descobrir que ela vinha lecionando no interior do estado.
- Venham cá, vocês dois!... – e deu um abraço bem apertado nos irmãos, agradecendo espiritualmente por tudo o que tinham feito por ele.
Do outro lado da sala, Ben contemplava aquela manifestação de afeto entre seus três filhos.
Fazia muito frio naquela manhã. Como todos os mortais que trabalham fora, Nielle estava com preguiça de se levantar daquela cama e lençóis quentinhos, mas logo pediu perdão a Deus pelo seu pecado. As crianças precisavam muito dela, não poderia pensar apenas em si mesma.
Fazendo uma prece, logo arrumou a cama e vestiu-se. Depois, penteou os cabelos, prendendo-os em um coque médio e desceu para o desjejum.
Assim que chegara a Hanford, procurou por hospedagem e teve sorte em encontrar a Sra. Stephens... A pensão dela era pequena e aconchegante, com banho e três refeições ao dia.
Havia deixado claro que ainda não havia encontrado um emprego, mas estava em busca de um e aceitaria o que estivesse disponível.
- A senhora parece ser muito fina... Já trabalhou antes?
- Bom... Na verdade não. Mas posso aprender, pego as coisas de maneira muito rápida.
- Gosta de crianças? – a mulher inquiriu, com o olhar desconfiado.
- Oh sim, adoro os pequenos! – a moça respondeu com um olhar sincero, que convenceu a mulher.
- Há uma vaga para professora em nossa escola primária... Já faz algum tempo e ainda não conseguimos contratar ninguém.
- Oh!... Eu adoraria dar aula para essas crianças! Ficaria feliz!
- Então vamos até a casa do Sr. Riverdale. Ele é o líder da associação de moradores de Hanford.
À tarde, a Sra. Stephens acompanhou Nielle até a casa de Edward Riverdade. Ao contrário do que ela havia imaginado, ele era um homem jovem, na casa dos trinta anos e muito atraente.
Nielle percebeu a atenção e a forma como ele a fitou e sentiu medo. Não queria causar nenhum tipo de sofrimento... Até porque sabia que jamais seria capaz de esquecer Hoss.
Ficou acertado que ela daria aulas para as crianças da região. Pouco depois, a Igreja anunciou aos moradores a chegada da nova professora.
O salário era pouco, mas o suficiente para pagar o aluguel do quarto e algumas outras despesas pequenas. Ela ficou impressionada ao ver como os preços das mercadorias no interior eram mais baixos.
Os alunos a receberam muito bem e com carinho. Para a sorte dela, a maioria eram crianças, apenas dois deles eram um pouco mais velhos, porém lhe respeitavam e não davam trabalho.
Com o passar dos dias, Nielle viu que nem tudo eram flores para uma professora do interior. Precisou ir até os ranchos conversarem com alguns pais que julgavam desnecessário enviar os filhos para a escola. Achavam que eles não precisavam de instrução, que deveriam apenas ajudarem com os afazeres domésticos e do rancho.
Sem querer acabou se tornando inimiga de alguns pais e se sentiu mal por isso. Não queria causar nenhum tipo de conflito com os moradores da região, desejava apenas o melhor para seus alunos.
O Sr. Riverdale a acompanhou nas últimas visitas. A presença dele pareceu intimidar alguns dos rancheiros que a haviam ameaçado anteriormente.
- Muito obrigada, Sr. Riverdale!... Acredito que agora o Sr. Lionel envie Samuel para a escola na próxima semana.
- Por favor, Srta. de Knightley... Me chame apenas de Edward.- ao ver que ela hesitava, continuou – Eu insisto.
- Está bem... Sr. Edward.
- Você... Você é tão linda!... Parece uma boneca de porcelana. E esses cabelos cor de fogo...
- Sr. Riverdale! Por favor...
Aquela conversa estava tomando um rumo muito perigoso. Ela tentou mudar de assunto, falando sobre algumas das crianças, foi inútil.
- Sinto que me evita, Srta. de Knightley... Minha presença a incomoda?
- Não... Quero dizer... Sr. Riverdale, acho que o senhor deve saber que sou comprometida.
O sorriso que ele ostentava desapareceu imediatamente. Estava tentando cortejá-la desde que a conheceu. Vinha percebendo que ela o evitava, mas não imaginou que fosse compromissada. Ela era tão jovem...
- Eu... Eu sou noiva.
Nielle fez uma rápida reflexão e constatou que não estava mentindo. Ela e Hoss não haviam rompido o compromisso deles e enquanto o amasse, sempre seria sua noiva, ainda que estivessem separados.
- E eu o conheço? – indagou. Dependendo de quem fosse, talvez pudesse persuadi-lo a romper o noivado.
- Não sei, talvez... Mas por que deseja saber?
- Ora, por nada... Mera curiosidade! – ele riu, sem graça.
Olhando para o céu, Nielle admirou aquele tom de azul que desde a infância achava bonito. Os olhos de Hoss eram da mesma cor... Mas eram ainda mais belos porque a fitavam com ternura.
- Cartwright... O nome dele é Hoss Cartwright.
O rosto de Riverdale ficou tenso. Se fosse a mesma família que ele estava pensando...
- Cartwright? Do rancho Ponderosa em Nevada?
- Sim... – confirmou, percebendo a mudança dele – Há algo errado?
- Não, nada. Os Cartwright são poderosos em Nevada.
- Eu acho que sim.
Nielle apertou o passo querendo chegar depressa à pensão. Não queria mais tocar naquele assunto com Riverdale.
- Esse Hoss Cartwright... É um homem grande e gordo? – o tinha visto com o irmão mais velho em um leilão de gado há alguns anos.
- O senhor está fazendo perguntas demais, não acha?
- Meu Deus... – ele parou, com uma expressão de espanto – Não pode ser... Você não pode estar comprometida com um homem como aquele! Você é... Você é bonita demais!
- Cale-se! – ela gritou, nervosa – Sr. Riverdale, o senhor é um homem arrogante e muito fútil! Hoss é o oposto disso... Tem mais caráter do que o senhor! Agora, se me dá licença, preciso ir embora.
E deu as costas, dando passos largos e procurando ignorar a fúria que viu nos olhos dele.
Ao chegar à pensão, pediu à Sra. Stephens alguns baldes com água quente para o banho e correu direto para o quarto, passando o trinco na porta.
- Nielle? – era a dona da pensão, à porta – Há algo errado, querida?
- Desculpe, senhora Stephens... Mas não quero conversar com ninguém agora. Por favor, me traga apenas a água, sim?
Sentando-se em uma cadeira enquanto tirava os sapatos sujos, ela constatou o quanto sentia falta de Virginia City e... Seu coração também transbordava de saudades de Hoss. Como ele estaria? Teria se recuperado dos ferimentos? Havia rezado muito pedindo a Deus que cuidasse dele. Sentia vontade de lhe escrever, mas temia a reação do pai e dos irmãos dele caso Hoss viesse a descobrir onde ela estava.
Diferentemente dos dias anteriores, Nielle havia acordado com mais disposição para ir trabalhar. Tomou o café rapidamente e sem trocar muitas palavras com a Sra. Stephens, que estava se mordendo de curiosidade de o que havia acontecido no dia anterior. Porém, a moça não lhe deu esse gostinho.
Caminhando depressa, chegou logo à escola temendo que alguma criança se machucasse no corre-corre da espera. Subiu as escadas rapidamente e antes de entrar, chamou um dos alunos: - Tommy, toque o sino para mim, sim?
Após o dobrar do sino, todos os alunos entraram rapidamente e ela deu início às aulas. Começou com Língua Inglesa e quando chegou a vez de Aritmética, falou: - Como eu havia mencionado na última aula, hoje teremos um teste.
- Aaaahhhhh! – as crianças lamentaram em um coro.
- Vamos, nada de preguiça! Eu avisei semana passada que teríamos um teste!
Os alunos se concentraram no teste até a hora do recreio. Depois disso ela passou para a aula de História Americana. Estava falando sobre a importância da assinatura dos tratados de paz com os apaches e seus direitos às reservas.
- Algum de vocês sabe me dizer o nome do General do Exército Americano que foi o mediador do último tratado assinado?
Todos ficaram em silêncio, aparentemente ninguém sabia. Ela esperou mais alguns segundos, quando decidiu repetir a pergunta:
- Classe, eu estou aguardando a resposta. Qual é o nome do General que mediou a última assinatura do tratado de paz com os apaches?
- General Andrew Thomas Hoffman. – uma voz doce e muito familiar a ela surgiu do fundo da sala – Meu pai apoiou a assinatura do tratado.
Sentindo as pernas bambearem, Nielle olhou para a direção da porta e lá encontrou o olhar de Hoss que, enquanto dava o primeiro passo para dentro da sala de aula, tirou o chapéu – Bom dia, crianças. Sra. de Knightley.
- Eh... Ah... Classe, respondam ao cumprimento do Sr. Cartwright. – pediu ela num fio de voz, colocando a mão sobre a garganta, sentindo-a seca.
- Bom dia, Sr. Cartwright. – os alunos responderam em uníssono.
- Classe dispensada!
Os meninos fecharam os cadernos com rapidez e deixaram a escola feito um furacão. Nielle estava pálida devido à surpresa, mas sentiu o coração derreter ao ver o olhar e o sorriso dele.
- H... Hoss! Estou tão feliz em vê-lo recuperado e bem de saúde! Como se sente?
- Agora eu me sinto bem melhor.
- O... O que faz aqui?
- O que mais poderia ser? – ele se aproximou, tomando as mãos dela entre as suas – Vim buscar a minha noiva de volta.
- Oh, Hoss!... – ela se virou, sentindo as lágrimas queimarem-lhe os olhos – Eu não posso voltar, não depois de tudo o que aconteceu! Sua família pensa que eu...
- Tudo já foi esclarecido! Dei meu depoimento e o conde confessou toda a verdade. Pa, Adam e Little Joe enviam suas desculpas. – apertou os ombros dela com carinho, se deliciando com o aroma de flores que emanava dos cabelos dela.
- Fala sério?
Ele balançou a cabeça em afirmativa e retribuindo-lhe o sorriso, ela disse: - Isso é ótimo, fico feliz!
- Então volte comigo! Seja a minha esposa!
- Hoss... É o que eu mais quero neste mundo! Senti tanto a sua falta! E tive muito medo que morresse... Fiquei muito preocupada com você, enquanto estive na prisão, mas seu pai me deu notícias. E quando fui vê-lo no consultório do Dr. Martin...
- Então você esteve mesmo lá!... Reli a sua carta diversas vezes. – e ficando rubro como um garotinho travesso, ele reuniu coragem para dizer – Foi a sua lembrança que me deu forças para continuar vivendo.
Embora fosse um homem tímido, Hoss tomou a iniciativa de lhe dar um beijo, gesto que ela retribuiu com todo o sentimento que conservava no peito.
Enquanto deixavam a pequena escola de braços dados, Edward Riverdale os avistou enquanto se aproximava da pequena casa.
- Então aquele é mesmo o Cartwright! – sussurrou com amargura antes de pisotear as flores que ele havia jogado no chão.
Continua...
