Capítulo 2: Descobertas
Não podia ver nada além do céu azul acima de sua cabeça. Lentamente seus sentidos foram se acostumando ao cheiro de grama, à sensação da terra fofa debaixo de seu corpo, ao frescor da leve brisa que passava por onde quer que estivesse. Por um momento, tentou levantar sua cabeça, apenas para descobrir que estava num campo florido, e logo se deixou voltar para a posição confortável em que estava. Foi quando sentiu algo se agarrando em cada um de seus braços e em suas pernas. Não lembrava de ter visto alguém ao parar para observar onde se encontrava.
Agarrada ao seu braço esquerdo estava Sakura. Sorria, como se nada importasse naquele momento senão estar ali, grudada a ele. Sua pele alva reluzia ao sol, tornando-a incrivelmente bela, mais ainda do que normalmente já era. A brisa carregava o cheiro suave de cerejas, exalado pelos cabelos róseos dela, direto para suas narinas. Sentia-se entorpecido pela fragrância dela. Penetrou com seus olhos naquele par de orbes esmeralda que o fitavam apaixonadamente. A sensação era inebriante, e somente foi cortada ao sentir que o que quer que fosse que segurava seu outro braço, o apertava com um pouco mais de força.
Movimentando sua cabeça para o outro lado, deparou-se com outra linda visão. Lá estava Hinata, o rubor tão característico em sua face, seu sorriso singelo e terno, seus olhos perolados o fitando tão apaixonados quanto as orbes esmeralda da menina do outro lado. Seus cabelos negro-azulados sendo acariciados pelo vento tinham um perfume indescritível. Mais do que antes, a jovem corou ao ter o olhar de seu amado sobre si. Ambos se fitavam intensamente, até que sentiu que deveria ver o que prendia suas pernas.
E levantando um pouco sua cabeça, seus olhos encontram Ino, subindo por suas pernas. Tinha no rosto um tom completamente malicioso, e ao mesmo tempo apaixonado, nunca antes visto. Seu sorriso era extremamente sedutor, e seus olhos, um par de safiras, o fitavam provocantes. Por um momento se deixou levar pela ansiedade e excitação que a jovem lhe causava, até que o céu enegreceu.
As garotas viraram correntes repentinamente, prendendo-o ao solo. Tudo rapidamente estava queimando, o terror se espalhava por todo o ambiente romântico e bucólico em que se encontrava. Um imenso par de olhos avermelhados surgiu, e com eles, o rosto da Raposa de Nove Caudas. Soltou uma risada maléfica, daquelas de gelar o coração, e sorriu sádica para o jovem preso às correntes.
- Você nunca as fará felizes! Porque o seu destino é... A dor!– disse a Raposa e tudo ficou escuro.
Naruto se levantou ensopado de suor. O relógio marcava quatro da manhã quando despertou de seu sono. Nada do que presenciara, ou achava que tinha presenciado, era real. Foi tudo um pesadelo. Isso trouxe um mau pressentimento para o loiro, que agora estava deitado em sua cama olhando para o teto. Fez uma nota mental de quando tiver uma oportunidade relatar esse sonho para seu mestre, Jiraya. Pondo-se de pé, foi até a cozinha preparar ramen instantâneo, seu habitual café da manhã.
Após ter seu desjejum, olhou novamente para seu relógio. Ainda era muito cedo para sequer pensar em sair de casa. Sem ter o que fazer foi até seu armário e tirou um velho aspirador de pó. Havia tempos que não limpava sua casa, e como ainda tinha tempo de sobra, resolveu limpar tudo sem o uso de clones. Era incrível a quantidade de lixo armazenada no pequeno espaço vazio entre a cama e a parede, e só juntar todos os copos de ramen, pergaminhos usados e mangás levou um tempo considerável. Mas, enfim, estava tudo limpo. Claro, tudo exceto o dono da casa, que estava imundo depois da limpeza pesada.
Resolveu tomar um banho para refrescar a cabeça e se livrar de toda a poeira e suor proporcionados pela sua boa vontade. Foi quando se deu conta de que nunca antes tinha limpado seu quarto por vontade própria. Achou muito esquisito, mas deu de ombros e tornou a pegar roupas limpas e uma toalha. Logo estava debaixo da água fria de seu chuveiro, cantarolando alegremente. Tinha acordado de muito bom-humor.
Nesse mesmo momento, longe dali, Hyuuga Hinata já estava de pé como de costume. Trajava seu uniforme habitual de treino, quando sentiu um pequeno calafrio. "Esquisito, um calafrio assim, tão de repente. Isso não é bom sinal", pensou. Mas como nada podia fazer em relação a isso, apenas prosseguiu com sua rotina matinal, indo encontrar seu primo Neji na área de treinos do clã Hyuuga. Como todos sabem, o clã Hyuuga é tão extenso que precisa de um pequeno vilarejo para abrigar todos os integrantes, e Hinata morava, juntamente com seu pai, irmã e primo, exatamente no centro, por serem os principais membros.
Naquela manhã algo inédito se sucedeu nos treinos. Hinata, por algum motivo desconhecido, estava num empenho tão exorbitante que manteve o mesmo nível de luta de seu primo por um bom tempo, quando finalmente a experiência do jovem Hyuuga Neji prevaleceu. Entretanto, foi o suficiente para causar o mínimo de surpresa nele, que estendendo a mão após o fim do treino, ajudou Hinata a se levantar.
- Hinata-sama, sua toalha – disse estendendo uma toalha para a jovem.
- O-obrigado... N-Neji-niisan – respondeu corada, enquanto pegava a toalha e secava as gotas de suor que pingavam incessantemente de sua testa.
- Um conselho – nesse momento, Neji adquiriu um tom sério em seu rosto, e por isso virou-se de costas – Quando pretender usar seu movimento rotatório novamente procure não mostrar o ponto cego dele – e começou a se distanciar, quando se virou novamente e encarou sua prima – Excetuando isso, você foi brilhante hoje, Hinata-sama.
Como de costume, a jovem Hyuuga corou mais que um pimentão ao ouvir o elogio direcionado a ela mesma. Neji já havia desaparecido dentro dos aposentos da casa principal do clã, quando Hinata decidiu se banhar no lago secreto nos jardins de sua casa. Após pegar uma muda de roupa em seu quarto, rumou para seu local de relaxamento favorito, e lá mergulhou, em paz e sem esperar ser incomodada.
Aproximadamente uma hora antes dos eventos no clã Hyuuga, uma jovem loira acordava com um objetivo em mente: ajudar um companheiro em dificuldades no amor. Passou alguns momentos em sua cama, refletindo sobre a situação. Após chegar a uma conclusão sobre o que fazer, levantou-se rapidamente e foi tomar um banho.
Momentos mais tarde, Ino, já de banho tomado e tendo comido seu desjejum, saiu de casa com um plano já concreto em sua mente. Aproveitou que o dia estava claro e o sol radiante, e foi caminhando em direção ao Hospital de Konoha, onde encontraria a primeira pessoa com quem tinha que ter uma conversa. Por sorte, ao virar uma esquina, eis que avista ao longe a figura de cabelos rosados que procurava.
- Sakura! – chamou a loira, enquanto corria até sua amiga.
- Ino? – Sakura respondeu espantada. Ino nunca ia para aqueles lados do vilarejo.
- Que bom que te encontrei, Testuda! Precisava mesmo falar contigo!
- Então fale, mulher!
- Mas, não pode ser aqui – Ino fez um gesto para que Sakura a seguisse. As duas foram andando discretamente, até que entraram num beco escuro. Limpo. Mas escuro.
- Então, Porquinha? O que é tão importante para você me trazer pra dentro de um beco? – Sakura tinha em seu tom de voz uma mescla entre impaciência e curiosidade.
- O negócio é o seguinte...
Avançando um pouco no tempo, Hinata tomava banho tranqüilamente em seu lago particular. O tempo fora generoso com a Hyuuga, lhe dando belas formas femininas que agora jaziam expostas debaixo da água límpida onde se banhava. Foi quando ouviu uma movimentação estranha vinda da entrada da trilha que dava até onde estava ela. Rapidamente nadou até a borda, se escondendo atrás de uma pedra.
- Hinata? Você está aí? – gritou Ino, da entrada da trilha.
- E-estou... – Hinata deu um suspiro de alívio – B-bem aqui, a-atrás da pedra...
- O que você estava fazendo aí? – indagou a loira, com um rosto curioso.
- É q-que e-eu p-preciso... m-me t-trocar... – murmurou a jovem de cabelos negro-azulados, encabulada.
- Ah, certo. Então vamos logo com isso, tenho algo importante para conversar com você!
Assim que Hinata finalmente terminou de trocar sua roupa, e após alguns esclarecimentos sobre como Ino entrara no clã Hyuuga, cuja resposta foi apenas um leve menear de cabeça de Ino enquanto disse "Neji", as duas se sentaram à beira do lago escondido. A Hyuuga apenas encarava sua amiga loira sem saber o que esperar, afinal, nunca antes lhe haviam feito uma visita tão repentina.
- Hinata, na verdade eu vim aqui em nome de outra pessoa – Ino quebrava o pequeno instante de silêncio falando num tom sério, e sem rodeios.
- E-em nome de q-quem, I-Ino-san? – indagou Hinata, ainda curiosa.
- Em nome do Naruto – respondeu a loira rapidamente, para a surpresa da Hyuuga.
- N-Naruto-kun?
- Só pela sua reação, já vi que não perdi a viagem – o comentário da jovem Yamanaka apenas despertou mais apreensão em Hinata.
- C-Como assim?
- Bom, na verdade ele não sabe que eu vim até aqui. Mas eu estou ajudando ele num assunto importante e para isso precisava ter certeza de algumas coisas. E agora ficou mais do que claro que você gosta dele, certo?
O baque de saber que seu maior segredo estava exposto foi instantâneo, fazendo com que Hinata desmaiasse assim que Ino terminou sua frase. A loira, por sua vez, apenas suspirou e começou a arrastar o corpo agora inconsciente de sua amiga para longe da margem do lago, e começou a abaná-la para que ela recobrasse os sentidos. Meia hora se passou até que a Hyuuga despertasse, para novamente alternar do branco gélido de sua pele alva para o vermelho pimentão de sempre. Pedindo desculpas pelo incômodo, Ino se foi, deixando sua amiga a pensar sobre tudo o que se passara nos últimos minutos.
"Ino-san veio até aqui para ter certeza de que eu gostava do Naruto-kun... Isso é bem estranho. Mas se eu for parar para pensar, ele mesmo disse que estava precisando de uma namorada. Talvez seja esse o momento de me declarar, mas eu não sei se consigo. Ah, Naruto-kun... Por que você não percebe que eu te amo?", pensando isso, Hinata tornou a voltar para a mansão Hyuuga, onde o resto de seus afazeres diários a voltava correndo para casa, sabia que estava atrasada. Não contava que Hinata fosse passar tanto tempo desmaiada, por isso se esforçava ao máximo para não levar muito tempo entre o clã Hyuuga e sua casa, até porque seria mais fácil de explicar se ela chegasse mais depressa. Talvez Naruto nem percebesse. Afinal, ele sempre fora tapado.
Naruto estava limpo finalmente. Tinha levado um bom tempo até tirar toda a sujeira proveniente da limpeza de sua casa, o que lhe dava o status oficial de atrasado. Olhou em seu relógio, na cabeceira de sua cama, apenas para ter certeza de que já tinham se passado dez minutos do horário combinado com Ino para encontrá-la em correndo o mais rápido que pôde, o cabelo ainda molhado e pingando, o que dava ao jovem um ar mais descolado do que o espetado de sempre. Pulando rapidamente de telhado em telhado, logo avistava ao longe a entrada da Floricultura Yamanaka, e lá, seria onde teria início a maior mudança em toda sua vida.
