Esta história lida com as consequências do sequestro, estupro e extrema violência física. É sombria e bastante gráfica.
Capítulo 47
Bella POV
Acordei na manhã seguinte e fui tomar um banho. Fui para o meu quarto e até o meu guarda-roupas. Fiquei lá por vários minutos tentando decidir o que vestir. Normalmente eu usaria um par de jeans e uma camisa de manga longa, mas hoje não era como um dia normal para mim. Parecia que eu estava indo para a guerra e, de certa forma, eu suponho que estava, mas eu não tinha certeza do que vestir. Então eu vi.
Respirei fundo e tirei um dos vestidos que eu tinha comprado apenas algumas semanas antes. Era um vestido azul de algodão de comprimento até os joelhos com mangas curtas. Eu o vesti e coloquei um par de legging preta e minhas sapatilhas pretas. Puxei um suéter preto e fiz o meu caminho para baixo até a cozinha.
Charlie e Renée estavam na cozinha com Emmett, Garrett e Kate. Ninguém estava comendo e eu sabia que eles estavam tão nervosos quanto eu estava sobre a assembleia hoje, mas era algo que precisava ser feito. Esta cidade tinha vivido com medo durante muito tempo e era hora de deixarmos Phil Dwyer apodrecer no inferno onde ele pertencia. Todo mundo olhou para mim e sorriu.
"Bella, você está usando um vestido." Renée ofegou, trazendo as mãos até o seu rosto.
"Eu decidi que era hora." Murmurei, encolhendo os ombros.
"Você está linda." Ela chorou, abraçando-me. Passei meus braços em torno dela.
"Obrigada, mãe." Eu sussurrei. Olhei para todos. "Estamos prontos para fazer isso?"
"Sim." Eles sussurraram.
Fizemos nosso caminho lentamente para fora para os carros. Subi no jipe com Emmett e Garrett. Enquanto nos dirigíamos para a escola, inclinei minha cabeça no ombro de Garrett e olhei pela janela. Eu estava tentando ser corajosa, mas, honestamente, eu estava apavorada. Da última vez em que estive em frente a essas pessoas, eu me perdi. E se isso acontecesse de novo? Ficaria melhor? Mais fácil?
"Pare de pensar sobre tudo." Disse Garrett. Eu olhei para ele. "Eu posso ver isso escrito em seu rosto. Se eu não achasse que você estava pronta para isso, então eu não teria sugerido".
"Eu sei." Eu murmurei, colocando minha cabeça de volta em seu ombro. "Diga-me novamente".
"Eles precisam saber que eles não podem continuar machucando você, ou qualquer outra pessoa." Disse Garrett, deslizando seu braço em volta da minha cintura e me puxando para o seu peito. "Você está muito mais forte do que você estava da última vez, Bella. Eles precisam ver que você não vai ficar fodidamente deitada e deixá-los pisar em você".
"Você promete não me deixar, certo?" Sussurrei.
"Eu estarei lá o tempo todo, segurando sua mão." Garrett sussurrou. "Eu te disse, eu não vou desistir de você".
"Eu não estou desistindo de você também, Gar." Murmurei enquanto Emmett estacionou o jipe no estacionamento.
Depois de alguns minutos, Garrett, Emmett e eu saímos do jipe. Edward e Kate estavam esperando por nós. Edward deslizou o braço em volta da minha cintura, beijando minha bochecha enquanto fizemos nosso caminho para a escola e para o ginásio, tomando um assento na primeira fila. Todos começaram a chegar. Acho que quase todos os pais tinham aparecido hoje. Tenho a certeza que vi algumas pessoas que não têm filhos na escola aqui. Uma vez que todos tinham se estabelecido nas arquibancadas, respirei fundo e fiz meu caminho, com Garrett, para o meio do ginásio com um microfone na minha mão. Respirei fundo e comecei a falar.
"Eu quero contar a vocês uma história." Eu disse suavemente. "Era uma vez uma menininha, que pensava que ela tinha tudo. Ela tinha os melhores pais que uma menina poderia desejar. Um irmão fantástico que cuidava dela, e os melhores amigos. Ela era feliz. Ela era amada e amava aqueles ao seu redor. Então, um dia, ela foi roubada da sua família e amigos. Ela foi arrastada para o mais escuro abismo do inferno, onde ela foi muito machucada. Depois de algum tempo, todos se esqueceram dela. Todo mundo, exceto sua família. Eles nunca perderam a esperança de que um dia ela seria encontrada e, um dia, ela foi encontrada. Ela queria desesperadamente ser feliz novamente. Ela queria ser a mesma menininha que ela era antes de ser levada, mas ela não podia ser. Levou muito tempo para ela entender que ela precisava deixar ir a sua dor, seu medo, sua culpa. Ela teve que deixar isso ir a fim de salvar a si mesma." Fiz uma pausa e olhei para todos no ginásio.
"Tenho certeza que muitos de vocês já ouviram como eu defendi Lauren e Jessica ontem. Eu sei que muitos de vocês não entendem como eu poderia fazer isso depois do que elas fizeram para mim, mas eu não vou dizer a vocês. Vou dizer a vocês que Lauren e Jessica, assim como seus pais, estão tentando se curar da sua própria dor, culpa, medo, e agora é a vez de vocês. É a sua vez de liberar a sua raiva contra Phil Dwyer porque ele se foi. Ele não pode voltar e ferir qualquer um de nós novamente. É a sua vez de liberar a sua raiva sobre a culpa e a vergonha que vocês sentem pelo que quer que esteja em sua vida, porque eu posso prometer a vocês que não vale a pena. A dor simplesmente vai comê-los vivos até chegar ao ponto em que você não sabe quem você é. Eu percebi, nos últimos dias, que a dor é apenas uma parte da minha vida. Eu luto todos os dias com a culpa que eu sinto por não lutar o suficiente, por desistir da vida. Mas todos os dias eu opto por usar o poder que vem da dor para seguir em frente, para viver mais um dia. Para nunca desistir de um dia, para que eu não acorde pela manhã com medo. Para que eu me sinta confortável em minha própria pele novamente. Vocês têm que escolher agora, como vocês vão usar o poder que vocês têm. Vocês podem usar esse poder para ferir os outros, ou vocês podem usar esse poder para se reunir como uma comunidade, como uma família, e trabalhar juntos para nos tornar mais fortes e felizes novamente".
Minhas mãos tremiam quando me abaixei e coloquei o microfone no chão. Eu me virei e fiz meu caminho para fora do ginásio. Minhas pernas pareciam geléia e meu corpo tremia. Garrett passou os braços em volta de mim e me levou à sala de aula vazia.
"Bella, você foi ótima." Disse Garrett.
"Fiquei assustada como a merda." Eu sussurrei. "Eu não sei como passei por isso".
"Você é mais forte do que você imagina." Garrett sussurrou.
"Estou tentando." Eu murmurei.
"Isso é tudo que você pode fazer, querida. Você simplesmente tem que continuar tentando." Sussurrou Garrett.
"Você também." Eu disse, olhando para ele. "Você tem que fazer essa escolha também".
"Eu sei. Eu simplesmente fico pensando sobre como exatamente quando a minha vida começa a ser normal, um pouco completa, fica tudo meio na merda." Garrett disse, deslizando em uma das mesas vazias. Sentei-me ao lado dele.
"Eu acho que nós temos de nos resignar ao fato de que não importa o quanto queremos, nossas vidas são uma merda. Nós simplesmente temos que continuar e seguir em frente. Essa é a única maneira de conseguirmos sobreviver." Eu disse.
"Quando você ficou tão inteligente?" Ele riu.
"Eu tive esse conselheiro realmente muito bom uma vez..." Eu parei através das minhas risadas.
"Você sempre terá, querida." Ele disse quando o sinal tocou terminando o primeiro período. "É melhor irmos para a aula".
"Acho que sim." Eu disse.
Garrett e eu levantamos e fizemos o nosso caminho até a sala de aula. Nós lentamente fizemos nosso caminho pelo corredor, através da multidão para a minha aula do segundo período de História. Sentamos em nossos lugares no fundo. Jasper entrou poucos momentos depois e sentou ao nosso lado. Enquanto o resto dos estudantes lotava a sala de aula, alguns deles pararam e olharam para mim, mas a maioria deles foi diretamente para os seus lugares. Eu poderia dizer que eles pareciam estar lutando com os seus sentimentos. Peter entrou e sentou-se com Lauren, que parecia estar um pouco melhor hoje.
Pela hora que o almoço chegou, eu estava cansada. Não tanto fisicamente, mas emocionalmente exausta. Através de toda a manhã notei que menos pessoas olhavam para mim. Não sei se era porque eles estavam muito ocupados pensando no que eu havia dito anteriormente, ou se eles estavam apenas tentando não olhar. De qualquer maneira, gostei disso. Garrett, Emmett e eu estávamos em nosso caminho até o refeitório quando vimos Ângela do lado de fora das portas do refeitório com Ben. Ela andava para frente e para trás, preocupação gravada em seu rosto. Ela olhou para mim e franziu a testa.
"Bella, posso falar com você por um minuto?" Ela perguntou. "A sós".
"Claro." Eu disse, calmamente. Olhei para Garrett e Emmett. "Eu estarei lá dentro em um segundo, ok?"
"Ok." Garrett murmurou, olhando para Ângela.
"Sim, claro." Disse Emmett. Ben seguiu Garrett e Emmett para dentro. Ângela se afastou de mim e tomou uma respiração profunda.
"O que está em sua mente, Ang?" Eu perguntei.
"Eu não entendo." Ela disse, olhando para mim. Eu podia ver as lágrimas nadando nos olhos dela. "Como você pode simplesmente perdoá-las depois do que elas fizeram para você?"
"Não é fácil, Ang." Eu disse, balançando a cabeça. "Ainda estou muito brava com elas, mas isso não está ajudando. Não ajuda a mim, ou a elas, segurar toda a minha raiva".
"Mas elas simplesmente trataram você como merda." Ela argumentou. "Como você pode defendê-las?"
"Porque eu não posso deixar a minha raiva chegar a mim de novo." Eu disse, implorando a ela para entender. "Isso quase me matou. Eu estava tão brava antes quando fui para o Brasil, Ângela. Eu culpava cada um de vocês por eu ter sido levada. Não é justo, eu sei disso, mas eu culpava. Porque eu vivi no inferno e vocês seguiram em frente".
"Nós não seguimos em frente." Ela franziu a testa.
"Sim, vocês seguiram." Eu suspirei. "Vocês assistiram filmes e leram livros. Vocês riram e brincaram." Eu balancei a minha cabeça. "Vocês se apaixonaram".
"Bella." Ela sussurrou.
"Está tudo bem, Ang, porque é isso que vocês deveriam fazer." Eu disse. "Mas levou meses para eu me sentir confortável o suficiente para ser capaz de ficar no corredor sozinha com você. Levei meses para apenas... eu não sei, sentir que não estou mais no escuro. Eu não posso viver lá, assim, mais. Se eu não perdoar Lauren e Jessica, então eu vou acabar presa lá. Não é assim que eu escolho viver a minha vida".
"Eu gostaria de ser amável como você é," Ângela franziu a testa, "mas eu não consigo ser".
"Talvez haja uma maneira que você possa ser." Murmurei, colocando minha mão em seu braço. "Simplesmente não as xingue porque isso dói muito mais do que você algum dia vai saber".
"Ok." Ângela sussurrou.
Deixei Ângela parada no corredor, os braços em torno do seu corpo e as lágrimas caindo pelo seu rosto. Ben olhou para mim e franziu a testa antes de se dirigir de volta para o corredor. Um dia Ângela seria capaz de ultrapassar sua raiva e dor, mas, até lá, eu não tinha nenhuma dúvida em minha mente que ela manteria suas opiniões para si mesma. Entrei e tomei meu assento entre Garrett e Edward, que deslizou o braço em meu ombro.
"Tudo bem?" Ele perguntou. Sorri enquanto me aconcheguei em seus braços.
"Está tudo bem." Murmurei. E eu sabia que estava porque eu tinha a minha família. Isso era tudo o que importava.
Nota da Tradutora:
Perfeito o discurso que Bella fez para todos no ginásio, esperemos que agora eles passem a não viver mais com tanta raiva, culpa e medo...
Deixem as 10 reviews e até amanhã! Apenas mais 2 capítulos e o epílogo...
Bjs,
Ju
Pra quem acompanhou Mr. Horrible, postarei uma cena extra amanhã, no link da fic mesmo.
