Capítulo 9

Quem Não Deve Não Teme –

— Se você se apaixonasse por outra pessoa, você me falaria?

Meu coração quase chegou na boca quando ouvi aquelas palavras vindas de Esme, mais tarde naquele mesmo dia.

Estávamos no quarto já prontos para dormir, Esme encostada nos travesseiros ao meu lado, fechando o computador de repente. Quando chegara da casa de Bella mais cedo por sorte não a encontrara e pude ir direto tomar outro banho, apenas para o caso de ter ficado com o cheiro do perfume de Bella. E durante o jantar tudo transcorreu tranquilamente, Edward e Emmett praticamente monopolizando a conversa, falando da viagem para a casa de praia. Então agora eu não entendia de onde vinha aquela pergunta de Esme. Mas com a consciência suja, é claro que fiquei nervoso.

— Por que você está perguntando isso? — perguntei, fechando o livro que vinha tentando terminar de ler há quase uma semana, fazendo o possível para manter a voz tranquila.

Com um suspiro, Esme levantou e levou o seu laptop até o sofá onde estava sua pasta do trabalho, só então voltando para a cama, sentando sobre os calcanhares de frente para mim. Aqueles poucos segundos que tudo isso durou, meu coração batia tão rápido e tão forte que não me surpreenderia se ela ouvisse.

— Hoje no escritório Amelia disse que viu algo quando foi ao centro na hora do almoço — ela começou e aquelas palavras me deixaram ainda mais nervoso. Na hora do almoço? A amiga dela teria visto o quê? Eu entrando no prédio de Bella? Mas o escritório de Esme ficava tão longe daquela região.

— O que ela viu? — perguntei ainda mantendo a voz calma, mas com muito esforço agora.

— Lembra de Mark, marido de Lindsey Diaw?

Aquela pergunta não fazia o mínimo sentido para mim, mas me forcei a lembrar quem era aquela pessoa, cujo nome não me era estranho.

— A arquiteta que foi transferida?

— Isso. O marido dela ficou porque não podia largar o trabalho e ela foi sozinha, deixando os filhos com ele. E hoje Amelia o viu aos beijos com uma ruiva dentro do carro. Tem noção do quanto Lindsey ficaria chateada se descobrisse isso?

Esme continuou falando e falando a respeito daquela traição, mas agora eu nem lhe dava mais ouvidos. Na verdade, eu nem conseguia ouvi-la. Me controlei para não suspirar aliviado ao descobrir que aquele assunto não era nada sobre mim e meu coração batia tão forte agora que sentia meu ouvido zumbir, deixando minha cabeça leve. Só voltei à mim quando a vi sorrindo a minha frente e ela levou uma mão à minha, entrelaçando nossos dedos.

— Você diria para mim, não é? Se isso acontecesse com você?

— Eu me apaixonar por outra, você diz? — perguntei, tentando soar o mais natural possível, vendo-a assentindo. — Você seria a primeira a saber, meu amor. Mas não precisa se preocupar quanto a isso — continuei, puxando-a para perto e beijei seus cabelos quando ela repousou a cabeça no meu ombro —, porque você é a única mulher que eu já amei na minha vida e sempre vai ser assim.

— E quando eu ficar velha e cheia de rugas? — ela perguntou, erguendo um pouco o rosto para me encarar.

— Então eu vou ficar velho e cheio de rugas com você — respondi de pronto, beijando seus lábios suavemente em meio ao sorriso que surgiu neles.

— Bella, acorda. Vamos lá, Bella, acorda — chamei de novo, falando num sussurro, mesmo estando sozinho no meu escritório.

Carlisle? — sua voz sonolenta finalmente ficou mais fácil de entender, depois de quase um minuto que eu passei tentando fazê-la perceber que ela estava com o telefone no ouvido. — O que aconteceu? Que horas são?

— Não sei. Duas? Três? Não faço ideia.

Por que você está me ligando a essa hora? Aconteceu alguma coisa?

— Eu estava com saudade.

Alguns segundos de silêncio se seguiram às minhas palavras e então ouvi Bella respirando fundo do outro lado da linha.

Você me ligou às quatro da manhã para dizer que está com saudade?

— Sim.

Você lembra que eu tenho aula amanhã... Aliás, daqui a pouco, e que eu tenho um trabalho muito importante para apresentar, não é?

— Sim.

E você tem que trabalhar dentro de quatro horas, não tem?

— Sim, mas...

Carlisle, vá dormir, está bem? Você precisa disso e só Deus sabe como eu preciso.

— Apenas me escute, por favor. Um minuto, é tudo que eu peço.

Mais uma vez a ouvi respirando fundo antes de responder.

Um minuto e então eu vou dormir.

— Tudo bem. Vou direto ao ponto. O fato é que eu não acho mais suficiente te ver só duas vezes na semana. Eu preciso de mais. Não aguento mais sair da sua casa sabendo que só vou te ver novamente no final da semana ou então na segunda. Passo o tempo todo sentindo a sua falta e isso está me deixando num estado de nervos que você não faz ideia. Cansei de contar os minutos para te ver, Bella. — Despejei aquelas palavras sem sequer respirar, falando rápido não apenas porque meu tempo era curto, mas porque tinha medo de desistir de me expor tanto para ela. — Eu acho que estou dependente de você, pequena.

Esperei que Bella falasse alguma coisa, mas ela se manteve por tanto tempo em silêncio que poderia até pensar que a ligação tinha caído, se não pudesse ouvir sua respiração do outro lado da linha.

— Bella?

O que você quer fazer a respeito? — ela perguntou por fim, num tom incrivelmente calmo e quase frio. Ao menos eu achei frio.

— Quero te ver todos os dias.

Eu tenho aula até tarde nos outros dias, Carlisle. Você sabe disso.

— É, eu sei.

Então?

— Eu não sei.

Pense sobre isso então e quando chegar à uma conclusão, me avisa, está bem? Mas não às quatro da manhã, por favor.

— Desculpa te ligar a essa hora. Só precisava ouvir sua voz.

Está tudo bem. Foi bom ouvir sua voz também — ela murmurou. — Agora vá dormir.

— Você também. Beijo, pequena.

Beijo para você também, Carlisle.

— Edward Cullen, que merda é essa?! — perguntei aos gritos, entrando no seu quarto de uma vez, encontrando-o deitado tranquilamente na cama com o laptop no colo.

— Nem bate mais? — ele perguntou, mas foi sensato em colocar o computador de lado e me encarou com a expressão cautelosa, como se tivesse certeza de que alguma culpa ele tinha.

— Essa é a minha casa, rapaz, e eu entro onde quiser sem bater, até que você mereça a sua privacidade. Agora me explique isso — ordenei ainda quase gritando e joguei o papel que tinha nas mãos em cima dele. Esperei enquanto ele o desdobrava e lia seu conteúdo, mas Edward nada falou. — O que deu em você para tirar um 'D' em Química, Edward? E um 'C-' em Biologia? Desde quando você foi de tirar notas ruins? Ainda mais nessas matérias!

— Eu posso explicar — ele começou, mas não lhe dei chance de falar.

— Acho bom mesmo você ter um excelente motivo que justifique essa nota nessas matérias, quando eu cansei de te ouvir dizendo que queria cursar Medicina no futuro. Ou isso mudou?

— Não mudou! — Edward respondeu apressado com um leve tom de desespero na voz.

— Eu nunca te pressionei para seguir os meus passos, filho. Nem você, nem Emmett, mas se você–

— Pai, eu não estou fazendo isso para te copiar, está bem? Eu quero cursar Medicina.

— Com essas notas? Tem certeza que quer mesmo? — perguntei, vendo-o baixar a cabeça. Respirei fundo e sentei na ponta da sua cama, ficando um pouco em silêncio na tentativa de organizar as ideias. — O que aconteceu?

Ainda evitando meu olhar, Edward sentou ao meu lado, o seu boletim agora amassado entre seus dedos.

— Tem essa garota, Angela, você a conheceu naquele dia da brincadeira...

— Sim, eu lembro dela. — Afinal, ela era a amiga da minha Bella.

— Bem, nós estamos juntos. Ou algo assim. E nós fazemos Biologia juntos, daí a minha nota.

— Espera um instante, você está querendo dizer que está tirando notas ruins por causa de um namoro de escola? Por causa de uma garota?

— Não é qualquer garota, pai — ele retrucou num tom nervoso, levando as mãos aos cabelos e ficou assim com elas enterradas nos fios enquanto continuava a falar. — Eu não consigo parar de pensar nela. E na aula eu não consigo me concentrar no que o professor fala, porque ela está logo ali ao meu lado. E ela é tão linda, pai. — A esse ponto, sua voz assumiu um tom estranhamente baixo, quase como se ela fosse amolecendo aos poucos. — Aquele sorriso, a forma como os cabelos dela brilham quando o sol bate na janela e vai até ela...

Edward não pareceu ter condições de continuar e baixou a cabeça, escondendo o rosto nas mãos.

— Você já falou isso tudo para ela? — perguntei, sentindo uma pequena ponta de compaixão pelo meu filho caçula.

— Falei — ele respondeu, sua voz soando abafada agora. — Por isso nós estamos juntos. Quer dizer, ela também gosta de mim e eu acho que estamos namorando agora.

— Por que essa incerteza? Você a pediu em namoro?

— Pai, ninguém pede mais ninguém em namoro nos dias de hoje — ele retrucou, finalmente erguendo o olhar para me encarar, ainda com uma leve ponta de desespero na voz. — Mas é que nós brigamos na semana passada, no dia da prova de Química. Ela veio me contar que há uma chance dos pais dela se mudarem para Chicago no final do semestre. Então nós acabamos discutindo porque eu não queria deixar ela ir e Angela gritou comigo dizendo que eu era um insensível que não percebia que ela também não queria ir, mas que não era algo que ela pudesse controlar.

— Ela tem razão.

— Eu sei, pai. Mas eu não posso ficar sem ela.

— Quem ama deixa ir, filho. Mas você não acha que é muito cedo para se envolver de forma tão intensa com alguém? Ficar tão dependente dela assim em tão pouco tempo?

Assim que terminei de falar aquelas palavras, elas voltaram para mim como um tapa na cara. Não fui eu que na madrugada passada tinha ligado para Bella para falar exatamente isso? Que estava dependente dela? Que moral eu tinha para julgar Edward de sentir o mesmo por uma garota que ele conhecia há quase um ano? Eu conhecia Bella há menos de um mês, afinal.

— Não foi o senhor que começou a namorar a minha mãe quando ainda estava na escola?

Touché — murmurei com um sorriso.

Sim, eu tinha conhecido Esme quando tinha a mesma idade de Edward e estávamos juntos até hoje. Realmente, eu não tinha moral alguma para criticar as atitudes dele. Exceto por uma coisa.

— Mas eu nunca tirei notas baixas por estar com sua mãe, Edward.

— Pai, o senhor pode ver que todas as minhas outras notas estão excelentes — ele se defendeu, me entregando o papel amassado, embora eu lembrasse bem que, realmente, com exceção de Química e Biologia, Edward só tinha 'A' ou 'B+' no boletim. — Foi só nessas duas que eu me ferrei.

— O problema não é por ter sido apenas duas, Edward. O problema é quais matérias são. Você sabe que se tiver notas baixas nessas duas, a chance de entrar em uma boa Universidade é zero. E eu já falei que não vou mover um músculo para beneficiar nenhum dos dois nessa etapa.

— Eu sei — ele murmurou cabisbaixo novamente.

— Vocês estão em uma das melhores escolas do país, tem os carros que queriam, tem um cartão individual com muito mais limite que uma simples mesada daria. E eu vou continuar com isso, mas só até vocês deixarem de merecer. Tudo que você precisa fazer é estudar, tirar notas boas e entrar em uma Universidade para que eu possa continuar pagando seus estudos. Mas você não está fazendo a sua parte, está?

— Não, senhor.

— Quando você tem novas provas dessas matérias?

— No final do mês.

— Então faremos o seguinte: converse com seu professor e peça para ele passar um trabalho para tentar compensar essa nota. Depois estude muito e tire uma nota excelente nas próximas provas e então, quando o novo boletim chegar, se eu não tiver nenhuma surpresa desagradável, tudo vai continuar como está. Do contrário, esqueça seu carro, esqueça o cartão de crédito e esqueça a viagem de férias.

— Mas, pai–

— É isso mesmo que você ouviu, Edward — o interrompi já ficando de pé. — Tire notas boas ou você vai ficar de castigo durante suas férias.

— Eu pensei que os pais prometiam presentes para motivarem os filhos a passar de ano — ele comentou quando comecei a me afastar, mas me voltei e o encarei.

— Passar de ano não é nada mais que sua obrigação, Edward. Nunca dei presente para vocês por isso e não vou começar agora. Além do mais, o que te motiva mais? A chance de ganhar algo novo ou a possibilidade de perder tudo que tem?

E sem esperar por sua resposta, saí do quarto, deixando-o pensar no que eu tinha falado.

— Está ocupada?

Não. Acabei de estudar e estava me preparando para dormir — Bella respondeu do outro lado da linha.

— Eu só queria te dizer que encontrei uma solução para os nossos problemas.

Nós temos um problema?

— Saudade, lembra? Ou você não sente minha falta?

Você sabe que eu sinto, Carlisle — ela murmurou. — Só não sabia que era algo que tinha solução.

— Tem sim — falei, feliz com a minha ideia que me apressei a compartilhar. — Vi que aquele computador do seu quarto não tem webcam, então vou comprar um laptop para você. Assim nós podemos conversar por–

Não, Carlisle — ela me interrompeu num tom firme.

— Você nem me deixou terminar.

Simplesmente porque não há a mínima chance de você me dar isso. Não apenas porque eu não vou aceitar, como eu também não teria como explicar para a minha mãe um presente como esse.

— Um iPhone então — sugeri. — Você pode esconder dela.

Você ouviu a parte em que eu falei que não vou aceitar?

— Mas, Bella–

Nada de "mas", Carlisle. Eu já falei antes que não quero presentes seus. Aceitei daquela vez porque você foi muito fofo no bilhete, mas não vamos tornar isso um hábito, está bem?

— Nem se eu for fofo de novo? — perguntei, tentando deixar a voz suave, fazendo-a rir.

Nem tente — ela falou, ainda rindo de leve.

— E se eu pedir com jeitinho e disser que quero te dar esse presente para poder te ver todos os dias, porque sinto muito a sua falta? — perguntei no mesmo tom. — E se eu disser que queria poder te ver agora, para você tirar sua camisola para mim de novo?

Eu nunca tiraria minha roupa na frente de uma câmera, Carlisle.

— Seria só para mim, pequena. Ou você acha que eu iria querer que outra pessoa te visse? Você é só minha, lembra?

Uhum.

— Então você poderia mostrar esses seios lindos para mim também e passar as mãos neles até ficar com os biquinhos bem durinhos. Eu queria tanto poder ver isso agora.

Só isso?

— Hum?

Não queria ver nada da cintura para baixo?

Um rugido escapou pela minha boca e eu quase bati minha cabeça contra o tampo da mesa.

— Porra, pequena. Não faz isso comigo.

Vamos dormir então.

— Não, não, não! — implorei apressado, sentando ereto na cadeira. — Não vai agora, por favor. Fica só mais um pouco.

Boa noite, Carlisle.

Pelo seu tom, percebi logo que não adiantava insistir, então apenas suspirei derrotado mais uma vez.

Boa noite, pequena.