Capítulo 22
– Escolhas –
Ainda assim, Charlie se manteve em silêncio até chegarmos ao subsolo onde meu carro estava estacionado e continuou da mesma forma no caminho até o apartamento de Bella.
Ele não gostou nada quando o atendente do estacionamento me cumprimentou com camaradagem, percebendo que aquela não era a primeira ou segunda vez que deixava meu carro ali, mas não falou nada até eu apertei o botão do 304 na caixa de interfones.
— Bells, sou eu — ele falou apenas, lançando um olhar atravessado na minha direção.
— Pai?
— Sim, abra, por favor.
— O que o senhor... Ah, vou abrir.
— Aonde você pensa que vai? — ele perguntou depois de entrar, vendo que eu o seguia.
— Se a minha vida será discutida lá dentro, tenho todo direito de participar.
— Não vou discutir a sua vida. Vou discutir a vida da minha filha — ele retrucou, tentando bloquear o meu caminho, mas eu apenas desviei e comecei a subir as escadas.
— Exatamente.
Bufando, Charlie me seguiu até o terceiro andar, pisando com força por todo o caminho. Quando bati à porta do apartamento, ele praticamente me empurrou para o lado, me tirando do caminho.
A porta à nossa frente se abriu e antes mesmo que Bella falasse algo, ela viu que seu pai não estava sozinho.
— O que...? — foi então que seu olhar caiu sobre meu rosto que eu sabia estar começando a ficar roxo onde Charlie tinha batido. — Ai meu Deus! Pai, o que o senhor fez?! — ela perguntou chocada, encarando o pai com o olhar arregalado enquanto, enquanto me puxava para dentro.
Bella estava com a mesma roupa que eu tinha lhe deixado quando saí há pouco mais de uma hora e eu tentei esquecer o fato de que sabia que ela não tinha vestido sutiã por baixo daquela camiseta. Aquele não era o momento de pensar nisso.
— Eu estou bem, Bella — murmurei para ela, mas me deixei ser arrastado até a cozinha.
— Não está nada bem — ela reclamou olhando para o pai por sobre o ombro enquanto pegava um saco de ervilhas congeladas no refrigerador. — Você não podia ter feito isso, pai!
— Bells–
— Não me chama de Bells! — ela gritou com ele o interrompendo. — Não vem tentar bancar o bonzinho depois de ter batido no meu namorado.
— Namorado? Ele é um velho, Isabella!
— Ele é mais novo que você, Charlie — Bella retrucou de imediato, fazendo seu pai recuar ao ouvi-la chamando-o de Charlie.
— Você não está mesmo me comparando a esse–
— Se você o ofender–
— Bella, não — a interrompi num tom baixo, pegando sua mão na minha. — Vocês precisam conversar.
— Eu não vou conversar com ele. Quero que ele... — Bella se voltou direto para o seu pai, falando quase aos gritos agora. — Quero que você saia daqui. Agora!
— Você não pode estar falando sério, Bells.
— Ah, eu estou sim.
— Não faz isso, está bem? — pedi novamente num tom baixo, atraindo sua atenção. — Converse com ele.
— Eu não quero.
— Por favor, pequena. Ele é seu pai.
— Ele te bateu!
— Bella, ele teve motivo para pensar que deveria agir assim. Nós dois sabíamos que não seria sempre fácil. — Seu olhar caiu para nossas mãos entrelaçadas, enquanto eu passava o polegar lentamente sobre a pulseira que tinha lhe dado e que ela não tirava mais. — Eu não vou me afastar de você porque alguém da sua família não me aprova, mas também não quero que você se distancie do seu pai por minha causa.
Respirando fundo, Bella ergueu o olhar, me encarando por um instante antes de olhar para Charlie que se mantivera em silêncio.
— Antes que você fale qualquer coisa, Charlie — ela começou, ficando de frente para ele, mas não soltou a minha mão — quero que saiba que se o senhor tentar ficar entre nós, vai acabar me perdendo uma hora ou outra. Porque eu não vou admitir que o senhor trate o homem que eu amo dessa forma. Eu não sou mais nenhuma criança para que tentem escolher por mim. E eu espero que o senhor enxergue isso antes que seja tarde demais.
— Você está mesmo escolhendo ele à mim, Bella? — Charlie perguntou num tom baixo, quase como se não tivesse forças para falar.
— Não, pai. Não há escolha nenhuma aqui a não ser a sua. Eu estou de dando a chance de escolher entre sua filha e seu preconceito que não está te deixando ver o quanto eu estou bem e feliz.
— É claro que eu escolho você, Bells! — ele falou apressado, como se aquilo que Bella tivesse falado fosse um absurdo.
— Então prove isso com mais do que palavras — ela pediu, lançando um rápido olhar para mim. — Acho que o senhor deve desculpas a Carlisle.
Mordi os lábios para evitar falar alguma coisa ou apenas rir daquela situação, porque Bella estava bancando a mediadora como se fosse a mãe de dois filhos que tinham acabado de brigar. Enquanto isso Charlie a encarava como se não acreditasse que Bella tinha mesmo falado aquilo.
— Eu não vou pedir desculpas a ele!
— Eu não preciso disso — devolvi, ao contrário dele, falando calmamente. — Só não fique entre nós.
— Você não–
— Pai, por favor — Bella o interrompeu.
— Mas... — Por um instante Charlie pareceu perdido, olhando de Bella para mim e então para Bella, parecendo buscar por um apoio que ele nunca teria ali. Quando ele olhou para baixo e soltou o ar pesadamente, senti a mão de Bella apertando a minha com mais força. — Eu não vou aprovar isso — ele falou por fim, voltando a nos encarar, mas continuou quando viu que Bella ia falar algo. — Mas também não vou impedir nada, por mais que ache esse namoro um completo absurdo. Mas escute bem o que vou falar, Cullen — Charlie continuou, olhando apenas para mim agora. — Se chegar aos meus ouvidos qualquer coisa que seja que você tenha aprontado, ou se você magoar a minha Bells, eu não vou pensar duas vezes antes de vir até aqui novamente. E da próxima vez não vou vir apenas te bater.
— Pai, menos — Bella resmungou e só então soltou minha mão, indo ate onde o pai estava. — Eu sei me cuidar, está bem? Não precisa ameaçá-lo.
— Eu espero que você saiba o que está fazendo, Bells — Charlie murmurou, levando uma mão aos cabelos da filha e os dois ficaram um instante ali apenas se encarando sem falar nada, até que Bella o abraçou.
— Confie em mim, pai. Eu amo Carlisle e ele me ama também. É só isso que deve importar.
Sua voz estava baixa e abafada pelo abraço, mas ainda assim consegui ouvir com clareza cada palavra. Sim, eu definitivamente tinha acertado ao dizer que Bella era mais madura que os dois únicos adultos naquela cozinha. Se não fosse por ela, essa briga poderia nunca ter chegado a um fim. Ao menos não um fim tão pacífico.
Charlie não ficou muito mais ali, dizendo que precisava voltar logo para a delegacia que tinha deixado sozinha. Bella ainda pediu que ele ficasse pelo final de semana, mas seu pai se recusou, indo embora em seguida, abraçando a filha rapidamente. Ele não se despediu de mim ou sequer me olhou antes de sair, mas eu não esperava que isso acontecesse, de qualquer forma.
Assim que a porta fechou, Bella veio até mim e se jogou nos meus braços. Tentei não gemer de dor por conta do soco que Charlie tinha dado nas minhas costelas, apenas para que ela não ficasse ainda mais preocupada, com o tanto de desculpas que Bella me pedia agora.
— Ainda não acredito que meu pai fez isso com você — ela murmurou contra o meu peito enquanto eu a abraçava de volta, beijando o topo da sua cabeça. — Eu sinto muito, Carlisle. Muito mesmo.
— Não por isso, pequena. Charlie só reagiu como qualquer pai faria.
— Ele apareceu no hospital? — ela perguntou, erguendo o rosto para me encarar, mas não recuou um passo. Apenas assenti em resposta. — Me desculpe por isso também. Meu pai não é sempre um bruto assim, sabe? Ele consegue ser bem simpático às vezes.
— Acho que não vou conseguir ver esse lado dele por enquanto.
Sabia que precisava voltar ao hospital para ao menos pegar minhas coisas e ir para casa, mas ficar ali com Bella era sempre tão bom que a vontade de sair era nenhuma.
— Se com o meu pai foi ruim assim, imagina quando Edward e Emmett descobrirem — ela comentou depois de um tempo em que apenas ficamos abraçados.
— Por falar neles, preciso pensar numa desculpa para isso — falei, apontando para meu rosto machucado. — Mas duvido que eles acreditem em qualquer coisa. Acho que o melhor a fazer é evitar eles um pouco.
— Desculpe por isso — ela murmurou ao erguer o rosto e levou uma mão ao ponto cortado.
— Pare de pedir desculpas, pequena — falei, girando o rosto para beijar a palma da sua mão. — Eu estou bem.
— Eu sei, mas–
— Shhh... Eu estou bem, minha pequena — sussurrei antes de cobrir seus lábios, beijando sua boca lentamente. — Passa a noite comigo? — pedi de repente, falando ainda de olhos fechados e com a boca contra a sua, mas Bella se afastou, surpresa com a proposta.
— Passar a noite?
— Eu acho melhor ficar num hotel essa noite para não ter que ir para casa. E você poderia ficar comigo, só nós dois, sem pressa para juntos e acordando juntos — completei.
Seu olhar brilhou intensamente, enquanto ela mordia o lábio inferior pensando no que eu tinha falado.
— Eu quero — ela falou por fim, fazendo uma pequena careta. — Mas minha mãe não vai deixar.
— Nem se você pedir com jeito? — sugeri, levando uma mão para dentro da sua camiseta, tocando suas costas nuas.
Bella estremeceu contra o meu corpo e levou suas mãos para o meu pescoço, provocando a mesma reação em mim quando suas unhas arranharam minha nuca de leve.
— Ela ainda pensa que eu sou virgem, lembra? Para ela, nós estamos na nossa segunda semana de namoro. — Essa era a parte ruim de fingir que nós estávamos começando a ficar juntos agora, porque qualquer coisa que acontecesse entre nós, poderia ser vista como "rápido demais", quando na verdade nós até que fomos bem lentos, levando em consideração o quanto nosso corpo clamava um pelo outro. — Mas você pode ficar aqui.
— Aqui? — perguntei surpreso. — E isso não daria no mesmo? Sua mãe não deixaria.
— Eu acho que posso dar meu jeito quanto a isso. É só dizer que a culpa é do Charlie e vai ser fácil ela deixar.
É claro que eu aceitei aquela proposta. Só queria ficar com Bella, não importava onde. Enquanto ela ligava para a mãe para pedir autorização — o que ainda era um pouco estranho para mim — voltei para o hospital para pegar minhas coisas que tinha deixado lá, além do arquivo com a ficha da paciente insatisfeita. Obviamente não leria aquilo naquela noite, mas no final de semana teria que encontrar um tempo para revisar aquele caso para me preparar para a reunião de segunda feira.
Estava saindo do hospital quando Bella mandou uma mensagem avisando que sua mãe tinha concordado, mas com algumas condições. Deixei para perguntar quais seriam apenas quando chegasse lá, já disposto a aceitar qualquer coisa. No caminho, passei numa loja para comprar uma roupa para dormir e alguns itens de higiene pessoal.
As condições, no fim, não eram assim tão fáceis, porque me impediam de dormir com Bella. Sua mãe — que já tinha chegado quando voltei ao apartamento — queria que eu dormisse na sala, apesar de Bella dizer que eu jamais caberia no sofá. Depois de muita argumentação, Bella propôs que eu ficasse no seu quarto enquanto ela dormiria na sala. Eu não queria isso, é claro, mas acabei aceitando quando ela sussurrou no meu ouvido que me encontraria quando a mãe estivesse dormindo.
Ficamos na sala por um tempo, os três conversando e assistindo qualquer coisa que estivesse passando. Quando Renée começou a bocejar, mas se recusou a ir dormir, eu fingi que estava com sono também e me despedi das duas. Tomei um banho rápido antes de ir para o quarto de Bella e fiquei ali ansioso demais à sua espera para conseguir dormir. Já passava da meia noite quando Bella finalmente entrou, um sorriso brincando nos seus lábios.
— Demorou — sussurrei depois que ela fechou a porta com cuidado.
— Só queria me certificar de que ela não acordaria. — Me ajoelhei na cama e estendi uma mão em sua direção, vendo Bella se aproximar lentamente. — Não podemos fazer barulho — ela lembrou quando a envolvi pela cintura, puxando-a para a cama.
— Eu sei — murmurei, deixando seu corpo embaixo do meu e aproximei minha boca do seu ouvido. — Me contento em te ouvir gemendo baixinho dessa vez.
Não fazia muito tempo que o sol tinha nascido quando Bella me acordou, avisando que ia voltar para a sala antes que a mãe saísse do quarto. Fiquei observando-a se vestir e beijei seus lábios de leve antes que ela saísse. Vesti apenas a calça do pijama, ignorando a camiseta por conta do calor, mas não consegui voltar a dormir, minha mente ativa demais para me permitir relaxar. Não apenas pelo que tinha acontecido no dia anterior, mas pelo que eu sabia que ainda viria. Charlie tinha sido o primeiro a reagir daquela forma, mas eu bem sabia que não seria o último. Duvidava que meus filhos reagiriam bem, embora nunca partindo para a agressão. Mas palavras poderiam ser piores. E ainda tinha a sociedade em si. Os amigos de Bella da escola, meus próprios amigos. Não seria fácil para nenhum de nós enfrentar os olhares e os julgamentos. É claro que poderíamos apenas ignorar tudo, já que esse assunto dizia respeito apenas a nós dois, mas seria algo que teríamos que praticar. Porque não tinha sido nem um pouco fácil ouvir Charlie me chamando de pedófilo e tantas outras coisas que escaparam da sua boca ontem.
Desistindo de ficar na cama, levantei e fui para o banheiro lavar o rosto e escovar os dentes. Estava nessa segunda parte quando Renée apareceu à porta — que eu tinha deixado aberta — e me encarou com o olhar arregalado. Fiz de conta que não tinha percebido seu olhar vagando pelo meu corpo, me chutando mentalmente por ter saído do quarto sem camisa, mas nem mesmo tive tempo de lhe dar bom dia quando ela deu meia volta, voltando para o seu quarto. Foi ali que eu vi de onde Bella tinha herdado aquela facilidade para corar.
Terminei de escovar os dentes e voltei rapidamente para o quarto, achando melhor trocar o pijama pela roupa extra que tinha pegado no hospital, que sempre deixava lá para alguma eventualidade.
Bella estava dormindo tranquilamente quando passei pela sala em direção à cozinha. Estava terminando de preparar o café da manhã quando ela entrou bocejando e se espreguiçando.
— Bom dia — ela murmurou com a voz sonolenta.
— Bom dia, pequena. — Tirei as torradas do forno e me aproximei dela, beijando seu pescoço quando ela me abraçou. — Tem algum plano para hoje?
— Hum... Não, e você?
Sim, eu tinha um plano. Um plano que envolvia completamente a garota em meus braços e que colocamos em prática duas horas depois quando Renée finalmente permitiu que Bella passasse o final de semana comigo na casa de praia.
