2. Porto Seguro
Os dias passaram, e apesar da correria, da vida atribulada dos dois, da distância e do tempo principalmente, Lea e Cory incluíram em sua rotina diária, as intermináveis conversas, ora eram via celular, ora Internet, as vezes de manhã, outras no final do dia, chegaram até "almoçar juntos" virtualmente. O fato é que nem eles mesmos haviam percebido o quão dependentes eles se tornaram um do outro, se é que já não eram antes, só que não haviam se dado conta, certamente. Conversavam, trocavam idéias, opiniões, brincavam, se divertiam juntos. Momentos de extrema cumplicidade! A distância só fez crescer uma amizade que estava cada vez mais forte, mais sólida. Agora Lea se sentia plena, confiante e feliz. Seus olhos voltaram a brilhar. Ela voltou a contagiar a todos com sua energia e sua alegria.
"Essa é nossa menina!" Sua família comentava durante um almoço.
"Estava preocupado contigo minha filha, ainda bem que foi só uma fase e agora você está bem!" Seu pai comentava à mesa.
"Era só uma questão de transição", sua mãe assentiu, " e olhem só, agora ela está mais bonita, mais iluminada..."
"Agora ela está perto da gente, aposto que o Théo está cuidando bem de você, não é mesmo querida?" Seu pai olhou pra ela e pro namorado, mas não viu muita sintonia entre eles, pareciam amigos sem muito papo.
"Claro..." ela disse meio sem jeito. A verdade é que Théo acabara virando pra ela um estranho, não tinha muito assunto com ele, as vezes conversavam sobre aquele mundo artístico da Broadway ou da tv, mas o papo não vingava entre eles, não tinha muita continuidade. Era meio que pergunta e resposta, sem muito entusiasmo. Ela gostava dele, muito...talvez não muito, mas gostava. O fato que a cada dia, sentia-o mais distante dela, mesmo dormindo na mesma cama.
Théo deu um sorriso meio amarelo, sem graça e serviu-se de mais vinho, mudando o rumo da conversa. Em meio a um momento de silêncio, ecoou na sala de jantar o barulho de uma nova mensagem. Era no celular de Lea. Ela pediu desculpas e riu por ter esquecido o aparelho naquele volume. Mas o que chamou mais a atenção, foi quando ela não se agüentou e conferiu a mensagem, dando um imenso sorriso de orelha a orelha: era de Cory, estava indo à Nova Iorque à trabalho e queria saber se ela tinha um tempo pra ele lhe ver pessoalmente e dar um abraço.
"Quem é minha filha?" sua mãe estava curiosa.
"Um amigo de Los Angeles está vindo à trabalho pra cá e queria saber se eu teria alguma folga pra gente se encontrar..." ela tentou disfarçar a excitação que estava sentindo.
"De Glee? Que bom que não te esqueceram." Disse seu pai.
"Ele nunca vai esquecê-la!" Disse seu namorado, não parecendo ter gostado da notícia.
O pai de Lea não estava entendendo muito aquela situação, mas percebeu que Théo estava com ciúmes. Já sua mãe entendeu perfeitamente. Ela sabia que nas últimas semanas, Lea e Cory passavam muito tempo conversando, e só podia ser ele deixando mensagem, pra deixar sua filha tão animada.
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Conforme combinaram ,Cory encontrou Lea em um restaurante reservado de Nova Iorque, mais afastado de todo aquele tumulto do centro, para que pudessem ficar mais a vontade sem ter que se preocupar com paparazzis ou jornalistas sensacionalistas chatos. Ele sorriu dando um grande abraço nela. Por alguns minutos, ele sonhou sentindo o cheiro do perfume marcante dela inebriado em sua pele macia, era como se o tempo não tivesse passado e ele estava ali encaixado num abraço com quem ele gostava tanto, no meio de um set qualquer. Abriu os olhos e viu que não estava num set, mas que a garota do sonho era real. Lea retribui o sorriso imaginando como pode ficar aqueles meses sem seu abraço de urso, sem sentir aquele calor tão gostoso do seu gigante preferido. Eles começaram a rir quando perceberam que fazia quase meia hora e eles não tinham se desgrudado do abraço. Sentaram-se e Cory percebeu que ela estava sozinha.
"Veio sozinha? Mas eu disse que poderia trazer seu namorado". Tentou ser diplomático, mas na realidade ele adorou que ela não trouxe a figura, pois nunca foi muito com a cara dele, nada contra, muito menos a favor.
"Ah, ele está trabalhando hoje, tem espetáculo e tal. Mas ele está sabendo que eu viria, não se preocupe!" E ela também gostou quando ele disse que não poderia vir por causa do trabalho. Ele não andava sendo uma boa companhia ultimamente.
"Não tenho porque me preocupar, não estamos fazendo nada demais, além do que, nesse lugar acho que estamos a salvo!' ele riu.
"Eu sei disso, mas você sabe como é esse povo que gosta de uma fofoca. Já pensou se nos visse juntos? Iam dizer que estamos tendo um caso enquanto meu namorado trabalha..." ela soltou uma de suas gargalhadas.
"As pessoas acham que não podemos ser amigos... você é minha melhor amiga, adoro estar contigo, estava sentindo muito sua falta... a sorte que voltamos a conversar, porque eu estava ficando louco".
"Ah, você é sempre encantador Cory, também estava com muita saudade de você! Sinto saudades de tudo aquilo, mas a falta da sua presença é a que mais me inquietava".
Enquanto eles conversavam e se divertiam, o tempo voou.
"Lea, acho que já está tarde, tenho que ir, vou pegar o primeiro vôo amanhã cedo pra Los Angeles. Tenho um teste, amanhã mesmo pra o próximo filme do Steven Spielberg. Não é nada demais, é um papel pequeno, mas é do Spielberg! Você sabe né, trabalhar com ele pode me ajudar a abrir várias obras futuramente".
"Spielberg! Oh Cory, é maravilhoso! Nossa ... claro que vai ser bom pra sua carreira. E não importa o tamanho do papel, só de participar de uma produção dele... toda sorte do mundo pra você meu amigo, vou torcer muito, vai dar tudo certo, tenha certeza!"
Eles se despediram e cada um seguiu seu caminho. Cory não se conteve e olhou pra trás por um minuto pra ver mais uma vez o lindo sorriso de Lea entrando em seu carro. Ela por sua vez, sentiu vontade de sair de trás do volante e correr na direção dele pra dar-lhe mais um abraço. Uma sensação de não querer se separar invadiu seus corações. O que estava acontecendo com eles?
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Lea chegou em casa e encontrou Théo já dormindo. Ela deitou-se ao seu lado sem nenhuma vontade de tocá-lo. Sentia em seu corpo ainda o toque de Cory. Se fechasse os olhos podia até sentir seu abraço, seu calor, sua respiração no seu pescoço, seu coração batendo forte. "E seu sorriso...como estava bonito, como seus olhos brilhavam!", ela pensou. Olhou por um instante seu namorado. Ele dormia tranqüilamente, estava até bonitinho ali na sua cama dormindo sossegado... mas por mais que tentasse, não sentia nada, era como olhar pra um estranho. E sem se dar conta, já estava pensando em Cory novamente.
"Que é isso garota!", Lea levantou-se e foi até a cozinha beber água. Ela começou a lembrar tudo que aconteceu naquela noite, cada detalhe, cada sorriso, cada toque. Na hora parecia tudo automático, inconsciente, mas agora, não conseguia esquecer, parecia tudo tão mágico, tão maravilhoso. Quando ela percebeu estava já em seu quarto, rindo sozinha. Teve que se conter antes que acordasse Théo. Aquela noite ela não dormiu. Estava muito agitada. Mil pensamentos passavam pela sua cabeça, todos com Cory. Quanto mais ela relutava em aceitar, mais acabava voltando ao ponto de partida: ela estava apaixonada por ele.
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Cory também se revirou a noite toda em sua cama no hotel. Ansioso pelo teste pro filme? Poderia ser, mas não era. Aquele encontro com Lea havia lhe tirado o sono mais que qualquer preocupação profissional. Ele não conseguia esquecê-la. O brilho do seu olhar, sua gargalhada alta, seu cheiro, sua pele... "ela estava mais linda que nunca!", ele pensava sorrindo feito bobo. "Nova Iorque estava fazendo muito bem à ela, sua família, seu namorado... Por que ele não percebeu antes dela arrumar um namorado que ele era apaixonado por ela? Agora era tarde demais", seu sorriso desapareceu.
Era já de manhã e ele não havia ainda sequer cochilado, perdido em suas lembranças da noite anterior.
Antes de sair do quarto, olhou no celular uma nova mensagem: "adorei a noite de ontem, vamos repetir?", era Lea. Ele não conteve suspiro de alegria, e um arrepio lhe correu por todo o corpo: "pelo horário ela também não dormiu..." ele pensou arqueando uma sobrancelha com seu meio sorriso.
Cory precisava deixar Nova Iorque pra correr atrás de trabalho, mas assim que fosse possível, ele iria voltar mais depressa ainda pra correr atrás do seu amor. Nunca mais ele iria ficar longe dela. Lea era com certeza seu porto seguro, sua alma gêmea. Depois que voltou a tê-la consigo, todas as coisas começaram a se encaixar novamente e seu coração agora tinha paz, só batia descompassado quando pensava nela.
