3. Novos Ventos...

Cory mal pode acreditar quando viu a quantidade de pessoas esperando a vez pra fazerem testes, assim como ele, almejando um papel no próximo filme de Steven Spielberg. Era um grande set de filmagens, mas parecia tão pequeno tamanha gente aglomerada ali. Algumas caras conhecidas dele, de outros testes, de trabalhos antigos. Todos muito nervosos, ansiosos, concentrados. Trabalhar com esse cineasta sempre foi o sonho da maioria dos atores, devido ao seu renomado nome no meio artístico, bem como a grandiosidade dos seus trabalhos. Era uma oportunidade de ouro ter participado de uma das produções de Spielberg. Apesar da tensão do local, Cory estava calmo. Havia estudado o script do personagem que iria fazer o teste e estava confiante que ia conseguir. Enquanto sua vez não chegava, ele volta e meia olhava no celular pra ver se "alguma nova mensagem apareceria". Eis que uma finalmente surgiu: "Quebre a perna...rsss...boa sorte!", era Lea. Ele sorriu realizado.

Depois de muita espera, chegou a vez de Cory. Uma banca composta por alguns diretores e produtores analisava os atores, claro que todos supervisionados pelo cineasta, que raramente falava, apenas ficava ali olhando e comentando com a banca. Cory apresentou sua cena e felizmente convenceu a todos: "Ok, está dentro, entregue seus dados pra aquela moça da ponta da mesa, nossa secretária, que depois iremos entrar em contato pra ver do texto, cronograma de ensaios e filmagens, e tudo mais". Enquanto ele falava com a moça, que por sinal era uma gleek e estava aproveitando pra pegar um autógrafo dele, Cory ouviu uma conversa peculiar entre o pessoal da banca:

"E então, tudo certo com o Daniel Radcliffe? Ele vai participar?" perguntou um produtor ao cineasta.

"Sim, falei com ele à pouco. Tudo certo! Pelo menos isso, eu já estava ficando louco, preocupado. Logo temos que começar as filmagens e não temos os protagonistas! Meu Deus que dificuldade arrumar bons atores que aceitem encarar esses papéis mais dramáticos, fortes. Eles estão acostumados a essas coisas mastigadas por aí, e na hora de encarar algo mais forte, dão pra trás! Ofereço um presente desses e eles acham que não vai dar certo, que é muito pesado, muito drama; acham que não vai ser um sucesso porque não tem piadinhas e mulheres peladas!" Disse um Spielberg triste e desapontado.

"Te entendo, hoje eles querem moleza. Pensam que pra ser um filme pros jovens tem que ter sexo, humor de lixo, e sexo, ...o mundo está perdido, meu amigo!"

"E é por isso que venho a anos trabalhando nessa história, montando o roteiro, pensando nos atores pra compor esses personagens... e quando chego e falo pra um, diz que não está interessado... a sorte que o Daniel aceitou fazer, ... o problema é que falta o outro protagonista, já que é a história de dois irmãos. Justo nos falta o mais velho! Se ele fosse um pouquinho mais alto... a maquiagem com certeza conseguiria deixá-lo com alguns anos a mais, e daí o irmão mais novo a gente corria atrás, pra esse eu até tinha mais opções. Bom, eu fiz vários contatos, vamos esperar até o final da semana".

"Você nunca pensou em testar um desses caras aí? Eles não tem muita experiência ou nome, mas estão cheios de vontade, dá pra ver nos olhos deles!"

"Acho dificilmente encontrar um protagonista pra um filme desse porte aqui no meio. Preciso de alguém que além de atuar bem, cative e emocione as pessoas já que ele vai ser o central, a história é entorno dele. Nosso ator vai ter que capturar o público e fazer com que eles sintam-se como se estivessem na pele dele, ou que possam um dia vir a estar. Fazê-las pensar em qual seria seu comportamento... é complicado".

Sem pensar, num momento de loucura, sua intuição fez com que Cory se aproximasse dos dois senhores e interrompesse a conversa.

"Desculpem minha intromissão, mas sem querer eu escutei que o papel principal está em aberto, gostaria de pedir uma chance pra fazer um teste pra ele. Sei o que estão procurando. Me dêem um crédito, por favor. Se não gostarem, se eu estiver enganado, não precisam nem me deixar terminar a cena". Depois que terminou de falar e vendo a cara de espanto com a petulância dele, Cory se deu conta do que estava fazendo. Ele não sabia nada, como foi que se meteu ali naquela conversa! Agora se aqueles dois senhores lhe demitissem ele tinha que ficar quieto e ir embora com o rabo entre as pernas.

"Corajoso! Mas não gosto que fiquem ouvindo por aí... olhe meu rapaz, acho muito difícil você desenvolver o que eu tenho em mente pra esse personagem, mas vou te dar uma oportunidade, quero ver até onde você vai. Tem uma hora pra ler esse resumo do enredo. Aí você terá uma idéia da história e do seu personagem. Não precisa decorar nenhuma fala. Quero apenas sentir se você tem capacidade pra fazer esse personagem, ok?" Ninguém entendeu nada. Spielberg nunca foi de atitudes como esta!

Cory pegou a pasta que o cineasta lhe alcançava e entrou em um lugar reservado que o próprio lhe indicou.

"O que deu em você Steven? Há anos que trabalhamos juntos, pensei que te conhecia! Nunca saiu com uma dessas!" O diretor, juntamente com todos da banca, ficaram de boca aberta!

Nos primeiros minutos, Cory não conseguia nem respirar direito. Que loucura! O que deu na sua cabeça em fazer aquilo repentinamente! Pra qualquer teste é preciso ter preparação e tal. Ele mal sabia do que se tratava o filme. E ainda por cima disse que sabia o que o Spielberg precisava. Ele não tinha coragem nem de abrir a pasta. Enquanto olhava tudo naquela sala, menos a tal da pasta com o enredo, se lembrou de certa vez, no set de filmagens de Glee, quando pegou o script de uma cena e ficou preocupado ao ver que teria que fazer alguns passos de dança, coisa que ele não era muito bom. Lea estava com ele e sem que ele comentasse, só vendo seu jeito nervoso ao ver o texto, pegou na sua mão e olhou bem nos seus olhos: "Calma, você pode até sentir medo ou receio no início, mas nunca torne o problema maior do que ele é! Respire fundo, veja o que ele é de verdade e aí parta pra solucioná-lo. Não queira resolver antes sem saber do que se trata, muito menos sofra por antecipação. Os obstáculos são sempre menores do que imaginamos!" Como Lea era especial e lhe entendia. Já naquela época, ela lhe salvava. Respirou uma, duas vezes. Abriu a pasta e começou a ler seu conteúdo.

A história que Spielberg escreveu era genuína, maravilhosa. Cory foi capturado e se emocionou muito lendo aquelas linhas, rabiscadas com anotações do cineasta. No instante que terminou de ler, se lembrou da sua mãe, do seu irmão, dos seus amigos. Era uma história forte. Ele já sabia que se tratava de um filme voltado pros jovens, a respeito de drogas, vícios e seus males. Além de poder trabalhar com o cineasta, esta também fora uma das causas que lhe motivaram a tentar um papel. Mas ao ler e se interar mais do enredo, ficou impressionado. Não era só mais uma história com um monte de gente drogada. Era a história! O problema das drogas era tratado do ponto de vista não do viciado, mas sim da família, tudo o que esta passava tendo um drogado dentro de casa, o quão este podia arrasar não só os bens materiais mas, principalmente a razão e a sanidade dos outros membros: as dificuldades de convívio, o desespero em querer ajudar e não conseguir, o sentimento de frustração e culpa ... tinha por intuito mostrar que pode acontecer em qualquer lugar e as vezes sem motivos muito convincentes. Cory fechou os olhos e pensou na sua mãe, na dor e sofrimento que ele lhe causou anos atrás, quando ele era um desses drogados que arrasam suas famílias. Quanta coisa sua mãe agüentou, quanto ela lutou pra que ele largasse tudo aquilo, na hora ele nunca teve muita noção, mas depois quando passava o efeito da droga, ele ouvia sua mãe chorando e ainda hoje lembrava de quão triste ele ficava. Mesmo assim, mesmo nas piores das situações, mesmo quando ela estava no limite, ela nunca se entregou e ela conseguiu, já fazia mais de dez anos que ele estava curado!

O chamado de alguém da direção lhe trouxe pro presente: "Sua vez".

Ele saiu e pôs-se novamente na frente da banca avaliadora. Estava fora do seu corpo, meio emocionado pelo que leu e recordou do seu passado. Estava estranhamente calmo.

Um dos diretores lhe orientou:

"Ok, vamos fazer então uma cena onde você, irmão mais velho, está preocupado porque seu irmão menor se tornou um drogado e seu pai, um alcoólatra. Está desesperado, sem saber o que fazer. Fique a vontade se quiser inventar algum monólogo ou coisa parecida".

Cory abaixou a cabeça, respirou fundo, e pensou na sua mãe. Estava pronto.

A cena começa...

Cory caminha de um lado pro outro, nervoso, angustiado, olha pra lente da câmera como se essa fosse alguém que estava observando ele. Ele puxou uma cadeira, virou-a e sentou. Passou a mão nos cabelos, procurando uma forma de confidenciar um problema, escolhendo as palavras, num misto de excitação e tristeza.

"Eu,..." desistiu de falar, como se não tivesse mais forças. Respirou fundo, fechou os olhos, e quando abriu, olhando diretamente pra lente, uma lágrima correu no seu rosto. Ele deu um sorriso meio sem graça e continuou:

"Sabe, sempre adorava ficar em casa de bobeira, implicando com meu irmão, ... te contei que tenho um irmão? É, tenho, ele é mais novo, ..." ele dá um grande sorriso lembrando do irmão "...sempre fomos muito unidos, até nas férias a gente viajava junto...tínhamos muitos planos...ele era meio desengonçado, mas um bom rapaz, inteligente, gentil..." o sorriso some do seu rosto e seu semblante muda completamente, "...ele nunca me disse que tinha um problema, nos últimos meses não nos falamos muito, mas não imaginei que ele estava passando por alguma dificuldade, quando deixei aqui e fui embora, estava tudo bem, tinha meus pais aqui também felizes, eu..." ele engasga, "...como eu poderia imaginar que quando eu voltasse pra casa ia encontrar essa situação?... meu Deus,... não reconheci minha família, nem a casa, nada está como antes!...minha família..." ele engasga novamente "...meu irmão tinha tantos sonhos... não entendo o por que ele entrou nessa?"abaixou a cabeça engolindo o choro, "não sei o que é pior, ele surtando por não ter droga ou por estar drogado! Da última vez que ele ficou sem, ele quebrou a casa inteira, não tinha quem segurasse, se machucou, me machucou... outro dia, ele estava drogado, saiu por aí e ninguém sabia seu paradeiro, fui encontrá-lo quase morto embaixo de um viaduto uns quatro dias depois de saber que ele havia usado drogas. Ah, você acha que eu deveria ter pedido ajuda? Pra quem? Nosso pai virou alcoólatra, dificilmente encontro ele sóbrio pra podermos conversar, perdeu o emprego, nossa antiga casa, mal temos o que comer aqui, só o que eu arranjo fazendo alguns bicos, porque todo emprego descente que arrumo acabo perdendo pois tenho sempre que correr atrás do meu irmão. Ontem mesmo, tive que ir até o bar da esquina buscar meu pai pois estava tão bêbado que não conseguia ficar em pé, e o dono me ligou pra tirá-lo de lá porque estava importunando. Minha mãe?" Ele não agüenta e começa chorar. "...ela não agüentou a situação...não pude nem me despedir dela!" ele põe a mão na boca pra tentar se controlar. "há algum tempo, recebi uma excelente proposta de trabalho e estudo, me mudei de casa, deixei um verdadeiro lar, pai, mãe e irmão, muitas planos e sonhos pra quando eu voltasse. Tive que interromper tudo e voltar mais cedo. Fui informado que minha casa havia virado um inferno...e eu tive que voltar pra salvar o que ainda restava do meu lar!" Ele fica olhando fundo naquela lente, como se o restante da história, tivesse que ser lido do seu próprio olhar, pois ele não conseguia mais falar.

O diretor encerrou a cena. Uma multidão aplaudiu. Era todos os outros atores que estava ali fazendo testes, produtores e outras pessoas envolvidas com a produção. Todos pararam para ver a cena dele. Muitos estavam tão emocionados que tinham em seus rostos lágrimas. A banca voltou-se para Spielberg.

"É melhor você economizar nas lágrimas porque senão com tantos ensaios mais as filmagens, quando chegar nas últimas cenas vai estar seco!" Disse o cineasta olhando para Cory, o qual não entendeu direito e ficou com cara de paisagem.

"Você conseguiu, sabia mesmo o que eu queria. Parabéns!" Agora sim Cory entendeu. Ele havia conseguido não só estar em um filme de Steven Spielberg, mas ser o ator principal.

Cory saiu do set meio anestesiado, entrou no seu carro e não conseguia ainda acreditar no que havia acontecido com ele naquele dia. Era inacreditável! Pegou o celular, tinha que contar pra todo mundo seu intento. Mas pra quem ele ligaria primeiro? Seu agente que havia conseguido o teste pra ele, sua mãe que tanto lhe inspirou, seus amigos que moravam junto com ele e sempre lhe apoiavam acreditando nele e incentivando?

"Hei, o que você está fazendo? Sente-se porque tenho uma grande noticia pra te dar...sim consegui entrar pro elenco do próximo filme do Spielberg, mas não foi como havia te contado, fiz o teste pro papel principal e passei... vou ser o ator principal Lea!" Cory contava eufórico pra ela como tudo aconteceu. "Te liguei pra agradecer porque mesmo sem estar lá, mais uma vez você me ajudou, meu deu coragem e força pra me superar. Quando ganhei a oportunidade de fazê-lo, foi tão impensado que na hora fiquei horrorizado, com medo, não tinha coragem nem de abrir a pasta pra ver do que se tratava. Mas daí me lembrei de certa vez, ainda em Glee, onde você me deu apoio pra não me assustar com qualquer coisa, não fazer do problema algo maior do que ele é. Essa sua garra foi importante pra mim encarar aquela situação e daí por diante, cada coisa foi se encaixando, e foi como te contei, no final tudo deu mais do que certo, graças a você. Obrigado! Você dia após dia vem se tornando mais e mais especial em minha vida..."

Lea escutava aquela linda declaração de carinho, de admiração, de afeto, emocionada. "Você também é muito especial pra mim" disse Lea antes de desligar o celular. Olhando ainda pro display ela completou: "não sabe o quanto você é especial pra mim, querido!"