4. Nem Tudo São Flores...

"Lea...Lea, você está me ouvindo? ...Lea Michele! Está ficando impossível falar com você. Acho que vou ter que começar te mandar torpedos e tal, porque falar pessoalmente contigo ultimamente é muito raro, e olha que moramos no mesmo apartamento". Théo mais uma vez procurava chamar a atenção de Lea, sem muito sucesso, já que ela olhava toda hora pro celular.

"Desculpe Théo, o que você estava dizendo?" disse uma Lea distraída mexendo em seu celular.

"Marquei esse jantar, nesse lugar que você gosta, longe do nosso cotidiano, de todos, pra ver se a gente conseguia conversar, voltar a ter um momento mais romântico, mas pelo visto foi em vão. Mesmo tendo o clima e tudo mais, você prefere ficar no seu celular, sei lá, com seus amigos, do que prestar atenção em mim!"

"Oh, sinto muito Théo, eu..." Lea ficou constrangida com o apelo do namorado, mas a verdade é que ela havia aceitado o tal jantar sem saber o porque, não sabia nem mesmo por que ainda estava com ele, já que não sentia mais do que carinho, pois era outra pessoa que amava.

"Lea, há quanto tempo já não existe mais 'nós'?"

'Nós', Lea ficou surpresa. Era justamente está a questão.

"Você está certo! Acho que faz muito tempo que já não existe mais 'nós'. Vou ser sincera contigo, pois você é uma pessoa maravilhosa e merece o mínimo de respeito. Gosto muito de você, mas desde que voltei pra cá, que passamos a conviver juntos, me sinto mais distante de você do que antes. Acho que formamos um casal de distância, de se ver vez ou outra, não do convívio do dia a dia. Sempre gostei de você, me apaixonei e tínhamos muita coisa em comum, a Broadway, trabalhos, sonhos,... somos muito iguais! E acho que é isso que nos afasta cada dia mais e mais um do outro. Isso não é amor! Amor é quando você e a outra pessoa tem que ter paciência, tem que aprender a ceder se necessário, a exigir, tem que estar sempre se surpreendendo mesmo conhecendo seu parceiro, vocês dois precisam se completar, e não ser iguais. Precisam ser o apoio um do outro, sua outra metade". Lea enquanto descrevia lembrava dela e de Cory, não vendo só suas diferenças físicas, mas de vida, de emoções, sentimentos, sendo que no final, justamente aquilo que os diferenciava, é o que ela mais amava nele. "Você precisa ter expectativas, ter paciência quando seu amado esquece as coisas e diz que vai lembrar da próxima vez, quando cai e meio desajeitado ele se esforça pra mostrar que está tudo bem, admirar e sonhar acordada só ouvindo sua voz. Precisa se doar, se entregar por completo, acreditar na pessoa quando o mundo não acredita, nem ela mesma. Ela precisa te inspirar, fazer você suspirar e se arrepiar dos pés a cabeça, ansiar pelo seu olhar e derreter com um sorriso seu!" Lea sorria imaginando Cory.

"Nunca vi esse brilho nos seus olhos nem esse largo sorriso falando de mim, acho que você nunca me amou como eu te amo Lea".

O sorriso de Lea se apagou. Ela havia machucado Théo. Perdeu a noção, se deixou levar pelas emoções sem ver que quem estava escutando-a era alguém que podia não gostar dela falando de outro cara dessa maneira na sua frente.

"Me perdoe Théo, nunca quis machucar você! Eu falei sem pensar".

"Não, você sabe no que está pensando, o que está sentindo, e não é em mim!"

"Acho melhor nós ficarmos por aqui, antes que nos machuquemos mais. Você não merece isso, nem eu. Nunca te traí, mas também não o amo. Quero muito ser sua amiga, mas se não quiser, vou entender. Só saiba que é muito especial pra mim, vou sempre te levar comigo, no meu coração, como uma pessoa que me ajudou muito e que é incrível".

"Amizade... vamos ver com o tempo. Agora eu estou muito dolorido por dentro. Você quebrou algo dentro de mim. Vou pro apartamento pegar minhas coisas, por favor, dê um tempo por aí, não quero que você lá quando eu for pra 'casa' pela última vez".

Lea viu Théo se afastar dela com um ar melancólico. Era difícil terminar um relacionamento. Ela jamais queria que ele ficasse assim, por isso ficou tanto tempo estudando uma forma de fazê-lo. Ela só não podia mais ficar enganando-o. Principalmente enganando ela mesma. Ela amava Cory e queria ficar com ele.

Théo saiu do restaurante com o rosto cheio de lágrimas. Sua intuição dizia que ela não estava distante a toa, mas não pensou que sairia daquele lugar chorando aquela noite. Pensou por um momento que poderia reconquistá-la. Colocou a mão no bolso e tirou uma pequena caixa com um anel. Iria lhe pedir em casamento. Triste, com raiva, ele jogou a caixa num lixeiro próximo a entrada do restaurante antes de entrar no carro.

.:

"Steven Spielberg desta vez fez uma aposta muita alta. Está confiando um grande filme a um ator mediano. O que ele fez? Comédia musical! Que isso...ele precisa mais que um sucesso juvenil pra conquistar a credibilidade pra fazer um drama. Acho que o Sr. Spielberg está ficando caduco..."

"Talvez ele não seja o principal, porque temos ainda no elenco Daniel Radcliffe, Javier Bardem, Meryl Streep, e participações de Tom Hanks, Morgan Freeman, Julia Roberts e outras feras de Hollywood".

"Nossa, que é isso? A lista de atores de um filme, ou a premiação de alguma coisa? Quanta gente famosa... esse é o poder de Spielberg, é só ele estalar os dedos e cai atores consagrados no seu set!"

"Talvez ele pegou toda essa gente pra suprir a falta de experiência do seu protagonista!"

Essa era uma conversa entre dois âncoras de um programa de entretenimento famoso que circulavam em Hollywood. Mas esse tipo de comentário e o sarcasmo implícito, não era apenas desse programa. A mídia bem como a crítica especializada caíram matando Cory. Ninguém acreditava nele pra representar um filme tão dramático como Steven Spielberg propusera. Ele mesmo sentiu certa desconfiança na primeira reunião geral que tiveram, quando ele ficou frente a frente com seus maiores ídolos. Ficou gelado quando algumas das maiores lendas de Hollywood lhe cumprimentaram e desejaram boa sorte.

"Não mora de véspera" disse um senhor recordista de filmes dramáticos e aclamados pela Academia e por seus colegas, Morgan Freeman.

"Isso mesmo, não escute nada o que dizem por aí. Eu confio no Steven, se ele te escolheu, deve ter algum mérito, então... estou ansioso pra ver". Completou Tom Hanks.

Julia Roberts e Meryl Streep riam da situação. Aquele homem enorme, pálido diante dos dois senhores. Javier Bardem se aproximou do grupo. As duas mulheres não perderam a piada: "Já sei porque Spielberg escolheu ele... é porque ele é do tamanho do Javier, tal pai tal filho!". Javier iria ser o pai de Cory no filme. O ator riu das duas e entrou na brincadeira: "vocês descobriram... mas e o Daniel? Ele é baixinho?". Daniel que até então só ria, se defendeu: "viram só, ele se empenhou tanto no primeiro e não sobrou muito pra mim...".

Spielberg se aproximou orgulhoso do grupo, pois percebeu que acertou em cheio em suas escolhas: um bom ambiente de trabalho certamente traria ótimos resultados.

"Fico feliz que todos estão já familiarizados. Agora é só trabalhar!".

Eles passaram a tarde toda conversando e acertando alguns pontos. Apesar de serem apenas participações, atores como estes, com tamanha competência, gostavam de estar por dentro de tudo no trabalho que iam fazer. Depois do ponto de partida, só voltariam pra suas gravações, mas era fundamental saber pra que caminho as filmagens iam seguir. Após muito trabalho, Cory estava exausto, contudo, muito feliz. Era um presente estar naquele ambiente com aqueles atores maravilhosos. Ao se despedir, todos lhe encheram de muita coragem e confiança pra fazer seu papel.

"Use toda e qualquer crítica a seu favor, não guarde as coisas ruins que você houve, mas use elas também, mas até do que as boas, coloque sua alma no que fizer, paixão e dedicação. Mas nunca deixe de lado sua vida!" Esse foi o último conselho que ouviu, da Srª Streep.

"Daniel, Cory, venham aqui...como vocês vão estar mais envolvidos com cenas fortes, drogas e todo seu ambiente, eu tenho uma dica: na Europa, precisamente em Londres, estão desenvolvendo trabalhos interessantes com jovens drogados. Acho pertinente vocês dois fazerem um laboratório, um estudo, e acho que quanto mais longe daqui é melhor pra vocês se afastarem dessa enxurrada de fofocas e sensacionalismo. Vocês tem que focar no trabalho, sem se preocupar ainda com criticas e tudo mais". Spielberg era mais que um cineasta, ele se preocupava mesmo com seus atores, seu pessoal.

"Ótimo, eu aceito" disse Daniel.

"Claro" justo agora que ele pensou que estaria mais próximo de Lea, já que as filmagens iam serem feitas em Nova Iorque. Mas o cineasta estava certo. Agora era hora de pensar no trabalho.

.:

"Hei, estava morrendo de saudades... o que fez hoje?" perguntava uma Lea eufórica no celular.

Cory então lhe contou tudo sobre seu encontro surreal com todos aquelas lendas vivas. Ela ficou encantada, principalmente com seu entusiasmo.

"Eu conheço você, o profissional dedicado e talentoso que é, tenho certeza que fará um ótimo filme. Além disso, pode também usar sua própria experiência nisso".

"Tenho medo em mexer no meu passado Lea, existe coisas tão obscuras que nem lembro direito, ou meio que esqueço propositalmente porque são demais pra mim. Quero conversar com minha família, preciso saber detalhes deles que sei que são horríveis sobre coisas que fiz".

"Eu imagino, mas pode ser essa a hora, através do seu trabalho, de exorcizar seus demônios. E lembre-se, sempre que precisar, eu vou sempre estar aqui por você".

"Você é maravilhosa! Estava tão feliz...achei que agora ia poder vê-la mais,... já que vamos filmar em Nova Iorque, como te falei..."

Lea ficou apreensiva.

"O que aconteceu?"

"Estou embarcando amanhã cedo pra Europa. Eu e o Daniel vamos fazer um laboratório de um mês, talvez dois, em Londres numa instituição com jovens drogados. Vamos nos concentrar, estudar pra montarmos nossos personagens. Vamos nos desligar do mundo um pouco. Então acho que só vou te ver daqui uns dois meses..."

Lea se conteve pra não chorar: justo agora! Justo quando tinha resolvido sua relação com Théo!

"Que pena! Estava ansiosa achando que ia te ver logo...mas não se preocupe. Primeiro o trabalho. Faça o seu melhor. Quando voltar vamos conversar, tem uma coisa que você precisa saber".

"O que? Não pode adiantar?" Cory ficou intrigado.

"Por celular não. Quero falar contigo pessoalmente. É importante, quero falar olhando nos seus olhos. Mas não encane com isso, você não é o pai". Lea começou a rir quando percebeu que ele ficou preocupado. "É brincadeira, modo de dizer, eu não estou grávida! Quero dizer que é importante nossa conversa pra ser por celular. Vou esperar quando você voltar, ok? Quero dizer pra você se concentrar e dar 110%".

Lea se despediu, desligou e terminou o que queria dizer por celular pra ele num suspiro:

"Quero dizer que não estou mais com Théo e que... e que eu te amo!".