Capítulo Dezessete: Reestabelecendo as regras; Dezoito por vir
Entorpecida.
Essa era a melhor forma de descrever Bella na manhã de quinta-feira enquanto ela observava Edward dormindo ao seu lado. Os lábios dele estavam virados para cima, moldados de alguma forma entre um sorriso e um beicinho, como sempre ficavam, e seu braço a mantinha presa firmemente próxima a ele. O braço dele parecia pesado, mas ao mesmo tempo reconfortante em volta dela, e ela não teve outra opção a não ser correr seus dedos para cima e para baixo naquela pele macia.
O impulso de simplesmente se inclinar para frente e beijá-lo a pegou de surpresa, e seus olhos continuaram grudados nos lábios rosados dele. Depois do dia de ontem, ela não sabia mais o que pensar sobre seu melhor amigo. Ela ficara admirada pela demonstração de Edward na noite anterior. Teria sido, sem dúvidas, uma coisa linda e um pouco triste para quem assistisse de fora, mas ter feito parte do momento, ter sido a pessoa a quem ele estava pedindo perdão, ainda a trazia às lágrimas. Foi uma noite que ela jamais esqueceria, em especial porque ultimamente tudo o que ela conseguia pensar era Edward.
De uns tempos para cá, sua mente vinha lhe bombardeando a qualquer momento com imagens suas beijando Edward. Durante a costumeira reunião de discussão de pauta da produção, na segunda-feira, ela estava discutindo a mais nova história que estava editando – um básico romance de mistério -, quando acidentalmente, ela chamou o protagonista masculino de 'Edward'. Por sorte, ninguém sabia que ele era real, mas o deslize freudiano a pegou de surpresa. Era inexplicável, mas para ser sincero, ela não precisava de uma explicação. Ela sabia que aquilo acontecera por conta do joguinho deles; isso estava começando a tomar conta de suas vidas.
Bella continuou a olhar a face serena de Edward, os nós de seus dedos percorrendo suavemente sobre as maçãs do rosto dele, antes de ela finalmente decidir se afastar. Ela tinha que ir para o trabalho em breve, não tinha mais tempo para ficar enrolando em casa.
Lentamente, ela se dirigiu para o banheiro para tomar banho. Ela estava aliviando a pressão em sua bexiga quando gemeu audivelmente.
"Merda," ela soltou em alto volume, apertando a descarga.
"O que foi?" Edward perguntou exasperado enquanto entrava bruscamente no banheiro, assustando Bella.
"Mas que droga, Edward! A pessoa não pode nem fazer xixi sem ter você correndo para dentro do banheiro?" reclamou ela, entrando na banheira, e sugando o ar entre os dentes quando seus pés descalços fizeram contato com o chão frio de mármore.
"Você gritou!" ele argumentou, grogue, sua voz rouca de sono. Ele esfregou os olhos, tentando espantar o sono.
"Desculpe. É só que a minha menstruação desceu."
Edward franziu o cenho, soltando um suspiro irritado. "Foi só isso? Você gritou porque a porcaria da sua menstruação desceu? Eu pensei que você tivesse caído e se machucado. Por Deus, você quase me deu um ataque do coração! Qual o grande problema em ficar menstruada?" ele protestou, entrando no chuveiro junto com Bella.
"Eca, Edward. Sai daqui," Bella choramingou, batendo no peito dele, por um momento tendo que morder seu lábio para não soltar um gemido - ela amava senti-lo sob suas mãos.
"Por quê?"
"Eu acabei de falar, estou menstruada, e você simplesmente entrou no chuveiro comigo. Isso é nojento."
Edward riu, bufando. "Não me importo. Além disso, eu lembro que um dia você me contou que durante o banho seu fluxo pára um pouco. Então pare de reclamar e me passe o sabonete. Preciso ir trabalhar."
"Ah, claro, porque eu não, né?" ironizou ela, passando-lhe o sabonete, e ele sorriu. Ele amava quando ela ficava toda irritadinha.
"Você definitivamente está naqueles dias, Sra. Mal Humor," ele riu enquanto se enxaguava.
Bella rugiu e o empurrou para o lado para que pudesse lavar seu cabelo.
"Então, qual exatamente é o grande problema sobre o Chico esse mês?" perguntou ele, passando o condicionador para ela quando ela lhe pediu.
"Sábado deveria ser o meu dia, já que você decidiu quebrar as regras e usar o dia de ontem como o seu, mas agora não podemos mais brincar no sábado por conta da merda da minha menstruação. Eu tive sorte nos últimos dois meses; fiquei menstruada sempre durante o início da semana, então nos sábados eu já estava livre," ela resmungou, saindo do chuveiro.
"Mas então nós podemos adiar a sua vez para o domingo, certo? Seu fluxo só dura três dias, portanto eu ainda não entendi o porquê desse estresse todo," ele comentou, unindo-se a Bella na pia para escovar os dentes.
"Você não entende mesmo, não é? Nós estabelecemos as regras no início do jogo por um motivo, Edward. Nós concordamos que faríamos apenas nos sábados, e o que você faz? Você pura e simplesmente burla as regras, como sempre. Você é tão anarquista."
Edward riu, quase se engasgando com o enxaguante bucal com que gargarejava. "Você bem que não reclamou, Bella. Não me faça parecer o vilão, aqui. Você participou tanto quanto eu."
Bella revirou os olhos, notando o tom de voz que Edward usou.
"Relaxa," disse ela. "Ontem foi lindo, Edward. É sério, eu não estou com raiva pelo o que você fez. Aquilo foi de longe a coisa mais legal que alguém já fez pra mim. O problema é que você escolheu o dia errado. A regra diz 'aos sábados', Edward, sábados."
Edward a encarou, uma expressão que ela não reconhecia em seu semblante. Ele quase parecia desapontado; ela poderia até dizer que ele parecia aflito.
"Tudo bem, Bella. Eu respeito isso, mas não posso mentir. Está ficando cada vez mais difícil de me controlar quando estou perto de você. Não consigo evitar, algumas vezes," ele respondeu com sinceridade, seus olhos impossivelmente verdes. Bella corou, e se afastou. Ela não disse nada a ele, mas não teve outra opção a não ser pensar no fato de que ele não era o único ali que não conseguia controlar a si mesmo.
Eles se encontraram em frente à cafeteira quando estavam os dois vestidos. Bella sorriu enquanto andava em direção a Edward, sua xícara de café preparada do jeito exato como ela gostava.
"Obrigada," ela murmurou, assoprando a bebida quente.
"De nada," respondeu ele de forma vaga, e Bella sentiu-se como se a evasão dele fosse culpa dela.
"O que foi?" ela perguntou, repousando sua caneca no balcão e cruzando os braços.
"Nada," foi a resposta dele. Ele não olhou para ela, e isso era algo que Bella detestava.
"Olhe pra mim," ela demandou, pegando o rosto dele nas mãos para virá-lo em sua direção. "Qual o problema?"
"Nada," repetiu ele, olhando para ela.
"Por que está mentindo para mim?" ela sussurrou, em descrença.
"Bella, é sério, não tem nada errado. Estou só pensando sobre algo que Alice me falou."
"O que foi que aquela diabinha te disse dessa vez?" Bella questionou, soltando o rosto dele, e sentando-se na cadeira. Ela apontou para que Edward se juntasse a ela.
"Nada muito importante, de verdade," ele começou, sentando-se do outro lado da mesa. "Ela apenas mencionou algo sobre eu ainda não ter me acertado com nenhuma mulher. Você sabe como ela é. Ela quer que todo mundo se case."
"Ela é doida," Bella bufou, provocando, apesar de ter ouvido essas mesmas palavras vindas de Alice, nos últimos dois anos.
"Eu sei, mas fiquei me indagando sobre isso mesmo assim."
A cozinha ficou silenciosa, então, algo que era incrivelmente estranho para os dois. Não, de fato não era raro que ambos ficassem em silêncio na companhia um do outro, mas essa era a primeira vez que o silêncio parecia ensurdecedor... embaraçoso. Nenhum dos dois sabia o que dizer.
"Eu tenho que ir," Edward falou, quebrando o silêncio, e se levantou, mas Bella o parou.
"Espera!" ela falou e ele congelou seus passos. Ela correu até o quarto dele e pegou o gorro das letras. Ela correu de volta até ele, mas assim que contornava o sofá, seu calcanhar prendeu-se na borda do tapete sob a mesinha de centro.
Edward correu para apanhá-la, e quase não conseguiu, apenas pegando o braço dela no último minuto. Ele a puxou para perto de si, e Bella não pode evitar o arfar que soltou.
A posição não era nada fora do comum. Eles já haviam ficado face a face incontáveis vezes antes, mas agora tinha algo de diferente na maneira como ele estava segurando-na e no modo como ele estava olhando para ela.
"Obrigada," ela sussurrou, suas mãos ainda firmemente agarrando os antebraços dele. Ele assentiu antes de soltá-la, e abaixou-se para pegar o gorro, estendendo-o em direção a ela.
"Só você mesmo para quase se matar de antecipação," ele brincou, quebrando a tensão que pairava no ar. Bella ficou grata por isso. Alguma coisa não estava certa nessa manhã, e isso estava a enlouquecendo.
"Muito engraçado. Você sabe que eu estou com dificuldade para andar."
Edward riu levemente e sacudiu o gorro mais uma vez, antes de abri-lo largamente para que ela retirasse a letra.
Bella deslizou a mão para dentro do chapéu, e tateou ao redor do gorro, mas quando puxou sua mão, ela estava vazia. Edward a encarou, confuso, enquanto Bella lhe dava um olhar enfurecido.
"Trapaceiro!" ela o acusou, puxando o gorro para longe dele.
"Do que você está f-fa-falando?" ele gaguejou, seus olhos desviando dos dela.
"Você roubou! Eu dobrei cada papelzinho naquele gorro exatamente do mesmo tamanho, e agora eu coloco minha mão lá dentro e sinto que alguns papéis estão diferentes. Você trapaceou! Você abriu todos os papéis para procurar pela letra D, não foi?" ela reprimiu, apontando para ele o tempo todo.
"Desculpe," Edward falou, sem realmente sentir o remorso, e Bella sabia disso.
"Mentiroso. Você não está arrependido. Você procurou pela letra, e mentiu para mim. Você me disse que tinha sorteado sua letra, mas procurou por aquela que você queria," ela decifrou, apontando suas provas.
"Você está certa," Edward assumiu, dando de ombros ao se render. "Mas eu não vou pedir desculpas por isso. Não estou nem um pouco arrependido, porque eu finalmente consegui fazer com que você aceitasse os meus pedidos de perdão depois de todos esses anos. Você não faz idéia de quanto tempo eu esperei por isso.
"Eu sei que isso é cafona, mas naquele dia que você acordou no hospital, depois da queda, você nem sequer... você nem sequer ficou brava comigo por causa daquilo. Eu me sentia tão culpado, e ontem, eu finalmente consegui a chance de tirar um pouco desse peso das minhas costas. Então, me perdoe por ter quebrado mais uma regra, eu acho, mas eu não estou arrependido de ter feito o que fiz," ele respondeu, em um tom sério, jamais desviando os olhos dos dela.
As imagens e os sons da noite passada começaram a percorrer a cabeça de Bella, e lágrimas começaram a se formar em seus olhos.
"Não chore, Bella," Edward falou, dando um passo para frente, para enxugar as lágrimas dela.
"Me desculpe. Eu nunca soube o quanto você se sentiu culpado durante esses anos todos por causa daquele dia. Estou me sentindo horrível agora," ela falou, arfando entre seus soluços.
"Bella, não," Edward tentou assegurá-la de que estava tudo bem, inclinando-se para nivelar seu rosto com o dela. Ele segurou o rosto dela nas mãos, para que pudesse realmente olhar para ela. A respiração de Bella cambaleou enquanto ele a encarava.
"Nunca. Eu não quero que você sinta culpa por isso, nunca. Está me ouvindo? Tudo aquilo foi, e sempre será somente minha culpa."
Bella fungou o nariz, enquanto Edward inclinava-se para beijar sua testa, e assim como na outra manhã, seu coração pulou uma batida.
"Agora, escolha a sua letra, e vá tomar a porcaria de um Midol*. Você está muito emotiva!" provocou ele, abraçando-a antes de se abaixar e pegar o gorro novamente.
"Seu imbecil!" Bella riu através de suas fungadas, finalmente escolhendo sua letra, Edward tentando dar uma espiada, como de costume.
"Você está bem?" ele perguntou, colocando o chapéu no sofá e andando com Bella em direção à porta para saírem para o trabalho.
"Sim, só não sei o que há comigo hoje."
"Está tudo bem, Bella. Todo mundo merece ter um dia atípico."
"Bem, Noam, oito fins de semana a menos, dezoito por vir."
"Você acabou de me chamar de Noam? Tipo Noam Chomsky, o anarquista?" Edward perguntou, trancando a porta quando Bella saiu.
"Aham, qual o problema? Está estupefato? Não consegue pensar em nenhum anarquista para me xingar?" Bella provocou, sorrindo largamente para Edward, agradecida pelo fato de que a tensão presente mais cedo ter se dissipado, agora.
"Não. Vejamos... eu poderia te chamar de Che, mas ele foi mais um rebelde do que um anarquista, então eu vou no Franco."
"Franco era ditador!"
"Sim, e ele acreditava na ordem das regras. Acho que combina muito com você!" Edward falou em tom alto enquanto se encaminhava para seu carro. Ao abrir a porta, ele gritou para Bella.
"Manda ver, Franco!"
"Vai se ferrar, Chomsky!" ela gritou em resposta, entrando em seu próprio carro. Ela sorriu para si mesma com a banalidade da conversa deles, mas algo ainda parecia fora do lugar. Alguma coisa tinha mudado, e ela não sabia o quê.
N/T: *Midol é um famoso remédio famoso nos EUA contra cólica, e outros sintomas da TPM.
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