Capítulo Vinte: Dez a menos, Dezesseis por vir
Quatro horas.
Foi o tempo que Bella demorou para pegar no sono naquela noite.
Ela e Edward foram embora do parque vinte minutos após a atividade digna da vida sexual de um adolescente. Eles ficaram lá deitados em silêncio no brinquedo do parquinho, retomando seus fôlegos e apenas olhando para o céu até se levantarem. Edward havia comentado sobre a umidade do ar e foi Bella quem optou por voltar para casa antes que começasse a chover. Se dependesse dela, eles ficariam deitados ali a noite inteira, mas ela achou bom que eles não tenham ficado.
A volta para casa foi algo que Bella jamais esqueceria. Ela não se lembrava de já ter rido tanto quanto durante aquela caminhada. Ela riu de Edward freneticamente o percurso inteiro, vendo-o tentar ajustar a lambança dentro de seu jeans. Ele ficou o tempo todo reclamando sobre como a parte de cima de sua cueca boxer estava grudada no trecho de pelos que levavam a seu membro, conforme ele desabafava tão veementemente em sua frustração. Era uma visão e tanto para as pessoas que passavam pela rua e encaravam a mão dele que toda hora esgueirava-se para dentro de sua calça. Ele praticamente correu para dentro do apartamento para que pudesse arrancar aquele jeans fora.
A melhor parte de tudo isso foi vê-lo caindo de cara no assento do sofá quando suas pernas ficaram presas dentro da calça. Bella aproveitou o momento para lembrar a ele que talvez fosse mais inteligente se ele tirasse os sapatos antes de tudo, e só então ela finalmente cessou suas gargalhadas. Vê-lo tropeçando era uma raridade, mas quando acontecia, era realmente uma cena ótima. Nunca era um pequeno tropeço, mas sim uma queda estrondosa.
Depois que finalmente se ergueu - devidamente mostrando o dedo do meio para Bella -, ele correu para tomar um banho. Menos de cinco minutos depois, ele chamou Bella para se juntar a ele, porém ela respondeu dizendo que estava ocupada. Ela o ouviu gritando 'Quem está perdendo é você!' antes de fechar a porta do banheiro novamente.
Ela havia mentido.
Durante os quinze minutos que Edward ficou no chuveiro, ela não conseguia parar de ouvir a voz dele em sua mente, enquanto refletia sobre o que havia acontecido no parquinho. Será que ela ouvira corretamente? Ela pensou que ele tivesse dito 'eu te amo', mas quando ela perguntou, tudo o que ele respondeu foi 'caramba'.
Aquelas três palavrinhas haviam feito o coração dela disparar, mas pensar que ela havia apenas imaginado aquilo era como um soco no estômago. Doía, terrivelmente, mas a pior parte era não saber por quê havia lhe doído tanto o fato de ele não ter dito que a amava.
Mesmo durante seu próprio banho naquela noite, o único pensamento em sua mente eram aquelas três palavras: 'eu te amo'. Ela podia jurar que havia ouvido exatamente isso sendo sussurrado na base de seu pescoço.
"Eu te amo", ele dissera, ela tinha quase certeza que sim.
Seu coração ouvira as palavras; ele havia começado a bater de maneira tão rápida, como ela nunca sentira antes. Ele martelou em seu peito tão poderosamente, que ela não sabia como seria possível a imaginação dela ter pregado-lhe uma peça tão cruel.
Mas pregou.
O coração dela estava sofrendo da pior maneira possível. Nem mesmo quando terminou com seu primeiro namorado ela sentiu-se desse jeito. Embora eles tivessem namorado apenas por quatro meses, ela se indagava sobre o motivo de todos os seus amigos acharem que era algo de costume que uma garota ficasse sofrendo por dias após o término de um namoro. Na noite em que ela terminara, ela havia ligado para Edward e ele a fizera se sentir melhor, e assim, no dia seguinte ela já estava bem. Porém três curtas palavras que ela imaginou terem saído da boca de Edward - de seu melhor amigo -, causaram-lhe mais dor do que ela pudesse um dia pensar ser possível.
E ela simplesmente não conseguia compreender o por quê.
Durante quatro horas, ela ficou deitada em sua cama, olhando para o teto acima, refletindo sobre o que havia realmente ocorrido, repassando todos os acontecimentos recentes. Sempre que ela tentava dormir, ela fechava os olhos e via tudo novamente. Ela podia sentir tudo, e o pior, ela conseguia ouvir tudo.
Em sua mente, ela ouvia as correntes dos balanços rangendo com a brisa, e a pequena ponte perto deles balançando levemente. Ela ainda podia sentir o calor do corpo de Edward em cima do dela enquanto ele se movia em harmonia com ela. Ela podia sentir os músculos das costas dele pulsando através da camiseta enquanto ela o agarrava no momento em que ele a levou a seu clímax. Ela ainda conseguia ver o rosto dele na hora em que ele gozou, ela via o modo como sua face se contorcia, quase como se estivesse com dor, quando encontrou o momento de êxtase. Sentia ainda a respiração dele contra seu pescoço enquanto ele tentava voltar de seu orgasmo. E ela ainda podia sentir os lábios dele movendo-se contra o pescoço dela, dizendo 'eu te amo' - ou pelo menos foi isso que ela pensou ter ouvido.
Eles haviam quebrado as regras novamente, e principalmente: eles quase quebraram a regra mais importante de todas. Algumas perguntas assombraram sua mente naquela noite. Mesmo enquanto dormia, todos os seus sonhos envolviam aquele momento.
Por que será que havia machucado tanto quando ela pedira para ele repetir o que tinha dito, e ele apenas respondera 'caramba'? Por que será que seu coração ficara tão partido quando ele falou que sentiria saudades dela?
E por que diabos ela tinha dito não à pergunta dele?
Aquele era o pensamento que estava realmente a chateando. Ela queria sim beijá-lo. Ela quis beijá-lo com tudo que havia dentro de seu ser. Na hora, ela teve que se refrear para não inclinar-se e roubar um beijo dele.
Sua amizade estava em jogo, e foi por isso que ela impediu a si mesma.
Ela não estava disposta a arriscar vinte anos de tudo o que eles haviam construído. O que Rosalie havia lhe dito ficara grudado em sua mente durante dias. Aquilo literalmente consumiu todos os seus pensamentos seguintes. Edward era a sua força, sua solidez, ele era o tudo dela, e se um dia ela perdesse tudo aquilo, isso a mataria, principalmente se ela fosse a responsável pela perda.
Os relacionamentos amorosos de Bella nunca iam bem. Esse era o azar dela, ela concluíra. Ela jamais teve um relacionamento muito longo. O mais longo que ela já teve havia durado um pouco mais de um ano e meio, e sempre era ela quem terminava.
Fosse um problema de baixa auto-estima, ou fosse por ela não estar muito a fim, a questão era: era nunca se sentia confortável com a pessoa com quem estava se relacionando. Sim, é verdade que geralmente seus parceiros eram fisicamente compatíveis com ela, e às vezes o sexo seria bom. Outras vezes, porém, o sexo era uma completa desgraça. No entanto, alguma coisa sempre faltava e ela jamais conseguia apontar o que era exatamente... pelo menos até hoje.
Durante anos, ela havia tentado parar de pensar sobre isso, mas seus esforços eram inúteis. Havia um desejo que pulsava em seu coração e em sua alma.
Bella Swan era apaixonada pelo melhor amigo desde os dezesseis anos.
oOo
Bella acordou, na manhã seguinte, com o barulho da cafeteira trabalhando na cozinha. Ela tivera uma terrível noite de sono depois que finalmente conseguiu dormir.
"Bom dia, Bella," Edward cumprimentou alegremente, e Bella lhe ofereceu um sorriso triste.
"Bom dia," respondeu ela em voz baixa, sentando-se à mesa da cozinha. Seu humor transparecia melancolia e isso não passou batido.
"Ei, o que você tem?" ele perguntou, servindo uma xícara de café e sentando-se ao lado dela.
"Eu não dormi muito bem ontem à noite," ela murmurou. Edward pôs um braço em torno dos ombros dela.
"Você teve um pesadelo?" Bella assentiu e ele a trouxe para mais perto de seu corpo. Ela gostou de sentir o cheiro de loção pós-barba que invadiu seus sentidos.
"Por que você não me acordou?" perguntou ele, com toda a preocupação do mundo evidente em sua voz.
"Você terá um longo dia hoje e eu não queria estragar tudo. Você precisava do descanso, afinal, você tem uma viagem à Nova York pra fazer mais tarde."
"E daí, Bella? Você sabe que pode sempre me procurar. Você já devia saber disso."
Bella fungou o nariz quando recordações de seu pesadelo passaram por sua mente.
"Sobre o que você sonhou?" Ele quis saber, e Bella balançou a cabeça daquele jeito que mostrava que ela não queria conversar sobre o assunto. Edward a segurou mais apertado, repousando a lateral de sua testa contra a testa dela. De sua visão periférica, ela conseguia enxergar um Edward embaçado por lágrimas.
"Por favor? pediu ele, e Bella enfim cedeu. Ela sabia que o pesadelo tinha sido ridículo, mas havia a apavorado.
"Eu... eu sonhei que seu avião caía em algum lugar desértico, como o Kansas ou algo parecido," explicou ela, nervosa, porém Edward não conseguiu conter uma risada.
"Não é engraçado, Edward," ela o repreendeu. "Aquilo me deixou apavorada. Eu não sei o que eu faria se acontecesse de verdade."
"Não vai acontecer nada," ele afirmou, beijando a testa dela e se levantando para ir ao quarto. Era a primeira vez no dia que Bella percebia que ele já estava completamente pronto para sair, e isso apenas contribuiu para amargar seu humor mais ainda.
Ela não queria que ele ficasse fora por tanto tempo. Sim, três dias era um longo tempo. Depois de anos vivendo com ele, e o vendo toda hora, três dias pareciam uma eternidade - e esse pensamento fez Bella rir. Eles já tinham passado semanas separados, quando estavam em suas respectivas faculdades, e isso não tinha afetado Bella de modo algum.
"Por favor, me ligue quando chegar lá," Bella pediu. Edward trouxe sua mala para a sala de estar, e a deixou próximo à porta da frente.
"Eu te ligo quando for de manhã aqui."
"Não!" ela gritou. "Ligue quando você chegar - assim que você puser os pés no terminal do aeroporto."
"Bells, você provavelmente já vai estar dormindo nessa hora," argumentou, mas ela não quis saber. Ela cruzou os braços em frente ao peito e fez um beicinho.
"Por favor?" perguntou ela novamente enquanto olhava fixamente para ele.
"Deus! Precisa mesmo fazer essa carinha?" ele gemeu e Bella sorriu já cheia de saudades para ele. "Não dá para competir com isso. Ok, eu vou ligar, está bem? Não precisa atender; eu deixo um recado na secretária eletrônica. Já estará muito tarde por aqui."
"Obrigada." Bella sorriu largamente.
"Mas por que você quer tanto que eu ligue, mesmo?" ele perguntou, curioso para ouvir a resposta dela.
"Eu só quero saber se você chegou em segurança."
"Aquilo foi apenas um pesadelo, Bella. Nada de ruim irá acontecer," ele reafirmou, e trouxe o quadro que continha a apresentação de sua campanha, para colocá-lo perto da mala.
"Agora, eu vou preparar um café da manhã e você vai arrastar essa bunda preguiçosa de volta para o seu quarto e se arrumar pra ir trabalhar. A menos que você esteja planejando aparecer lá usando uma camiseta do Darkwing Duck com minha antiga bermuda do time de basquete," ele provocou, o que a fez checar suas próprias roupas.
"É, você tem razão. Será que você pode fazer alguma coisa bem gordurosa? Estou a fim de comer bacon," ela falou e foi para o quarto. Antes que ela chegasse na porta, ele gritou que faria "qualquer coisa por você!". Ela sorriu, sentindo o calor subindo em seu rosto enquanto entrava no quarto.
Ele estava sempre fazendo com que o coração dela palpitasse.
Vinte minutos mais tarde, Bella voltou à cozinha, já pronta para sair, e encontrou ovos, bacon, e até mesmo algumas frutas sobre a mesa.
"Está com uma cara boa," ela o informou, sentando-se na frente dele. Ele sorriu imensamente para ela enquanto ela colocava uma colherada de bacon em seu prato.
"Você parece melhor agora," ele falou. Bella riu.
"Obrigada. Está tentando me dizer que eu estava parecendo um lixo antes?"
"Não," ele voltou atrás. "Eu quis dizer que você parecer estar se sentindo melhor."
"Não muito," ela murmurou, pegando um pedaço de bacon com a mão e mordeu a carne firme.
"Bella, tudo correrá bem, ok? Eu vou deixar um recado assim que chegar lá. Então, por favor, pare de se preocupar, está bem?" ele tentou reconfortá-la, porém nada do que ele dizia estava de fato funcionando.
"Já que insiste..." ela sussurrou, perdendo o apetite repentinamente. Ela não estava mais a fim de fazer nada.
Os dois comeram em silêncio por alguns minutos, até que Edward declarou estar cheio e que já estava na hora de partir - e com isso Bella lembrou-se que esta seria a última vez que ela o veria pelos próximos três dias. O pensamento causou-lhe uma dor aguda em seu peito.
Ele tirou a mesa, porém ao ir lavar a louça, Bella o impediu.
"Deixa que eu limpo isso quando eu chegar em casa," ela falou, tirando a mão dele para fora da pia. Ele sorriu e assentiu, concordando, e seguiu para a porta da frente.
Eles caminharam juntos pela garagem, achando seus carros onde eles sempre ficavam estacionados, lado a lado, o Audi dela, e a Mercedes dele.
"Você lembra do Volvo?" ela perguntou, parada no espaço entre seus respectivos veículos.
"Aquele carro foi o meu primeiro amor!" ele brincou, ganhando um brilho de nostalgia em seus olhos. "Bons tempos eu passei naquele carro," ele deu uma piscadela, e Bella riu.
"Tenho certeza que sim."
"Mas se não me engano, eu não fui o único. Creio que um certo alguém aqui pegou meu carro emprestado para se divertir um pouco com um namorado dela," ele recordou, sarcasticamente.
"Não aconteceu nada! A gente ficou só se beijando, foi só isso!" Bella explicou, indignada, e Edward riu. Ele olhou para seu celular, o alarme estava tocando novamente.
"Tenho que ir," ele falou, em tom baixo e Bella assentiu. "Não sinta muitas saudades de mim," ele brincou, e tomou Bella em um abraço. As mãos dela rapidamente envolveram a cintura dele.
"Vai ser uma tarefa difícil," ela murmurou contra o peito dele. Edward riu, e deixou um beijo repleto de saudade e anseio no topo da cabeça de Bella.
"Você acha isso difícil? Então você devia ver como é sentir saudades de você," falou ele, se afastando.
Bella sentiu o coração dela palpitar novamente, ao ouvir o que ele tinha acabado de dizer. Ela ficou observando enquanto Edward entrava no carro, acenando um tchau para ela e saindo de sua vaga.
Ele abaixou a janela ao virar o carro em direção à saída.
"Vou sentir sua falta, Swan," ele falou, sorrindo.
"Sentirei sua falta também, Cullen," ela respondeu, e então ele partiu.
Após alguns momentos, Bella finalmente entrou em seu Audi e foi para o trabalho. Enquanto dirigia, ela se perguntou por quê as rádios sempre sabiam o momento certo de tocar as músicas mais tristes justamente quando ela estava com vontade de chorar.
N/T: Ahhhh, esse não foi o capítulo mais fofo? Diz aí!
Bom, pra quem me perguntou sobre, to avisando que já teve um update de Holding Out For You. Vão lá ver! ;)
E já que eu tô na onda de falar de outras fics, vou fazer uma recomendação que é provavelmente a melhor oneshot que eu li nos últimos tempos, mesmo dentre as gringas. Chama-se De Outra Maneira, e é da Blueberrytree, vocês podem encontrar ambos os links nos meus favoritos. A história é linda, te faz rir e chorar, e os diálogos são maravilhosos de ler... tipo muito cools mesmo! hahah Leiam, e não se esqueçam de deixar reviews!
E, claro, não se esqueçam de deixar pra cá também.
Beijos!
