A MULHER DO INQUISIDOR

Capítulo 2

Por alguns instantes, Violante ficara ali, sentada no chão, o vestido rasgado e os cabelos revoltos, descomposta. Então levantou-se e foi ao banho.

Era estranho. Até o começo daquela tarde, não tinha esperança alguma de ter um amor, abandonada como fora pelo marido. E de repente... ele, o único homem que dissera que a amara, soubera de sua situação e a tirara dela. Era certo que não se casaria com ela, clérigo indisposto a largar o ofício, mas... não seria aquilo melhor do que viver ali sozinha, sem esperança?

De fato, aquele ano sozinha a fizera afrouxar as dantes tão rígidas amarras morais às quais em sua juventude tanto se apegara.

E ele, além de tudo, era tão belo... tinha um beijo tão delicioso... e quando enfim a tomara, o que fora aquilo? Jamais, em seus sonhos mais eróticos, imaginara que pudesse ser tão bom.
Banhou-se, sentindo todas as sensações que a água e as essências podiam lhe proporcionar. O corpo, as mãos, a boca do frei, fizeram com que ela passasse a se sentir totalmente desperta. Sabia que algumas mulheres odiavam fazer sexo, pois os maridos eram uns brutos. Ouvira falar que João Fernandes tinha um fogo sem fim pelas mulheres e as fazia felizes na cama, mas jamais sentira a esse fogo. Ele a castigara deixando-a ali, sozinha, sem sequer um beijo após a cerimônia de casamento.

Já o frei Expedito...

Céus, que homem maravilhoso! Não era possível que fosse pecado sentir prazer nos braços de homem tão belo, tão fogoso e... ainda mais um sacerdote do Senhor, um membro do Santo Ofício, que castigava as almas pecadoras com suas próprias mãos!

Sorriu, maravilhada. E esse homem, esse mesmo homem, a amava. Era o único que a amara em toda a vida! E de repente ela gostou muito disso... se sentiu envaidecida e feliz, como em muito tempo não se sentia.

Lavou-se, perfumou-se e penteou-se. Após isso ceou e ficou a descansar em seu aposento, pensando na vida que teria a partir do dia seguinte. Havia ainda um receio de que ele a abandonasse naquele castelo e ela, já sendo deflorada, fosse obrigada a um destino ruim, como a prostituição... porém, não quis interromper aquele idílio ao qual sua mente se entregava e quis crer, com todas as suas forças, que ele a viria buscar. Que ele a viria salvar daquele inferno de ouro no qual ela fora colocada.

Dormiu de maneira um tanto quanto sobressaltada, acordando no meio da noite, vendo vultos nas sombras, mas de resto aquela noite fora a mais tranquila que passara nos últimos tempos.
Assim que acordou, de manhãzinha, ordenou aos criados que arrumassem a todas as suas coisas em malas. Depois tomou o desjejum - o último que tomaria naquela torre que significava prisão.

Com o chegar da tarde, ficou nervosa. Roeu os cantos das unhas, pensando se ele ia faltar com a palavra. Frei Expedito sempre lhe parecera pessoa tão séria quando estava no Arraial do Tijuco; será que agora descumpriria com o que dissera?
Tal sobressalto, no entanto, não durou muito. Às quinze para as duas, um dos criados entrou na sala de visitas - a mesma onde o inquisidor a possuíra com ardor no dia anterior, sem esperar sequer tirar as roupas - e anunciou enfim:

- Senhora dona Violante, o senhor frei Expedito espera na antesala para lhe falar.

- Mande-o entrar!

O criado assim o fez, e o eclesiástico adentrou o recinto. Após tudo que acontecera entre ambos no dia anterior, o coração de Violante saltara no peito somente em vê-lo.

Ele disse então:

- Muito boas tardes, senhora. Então, está pronta para irmos?

- Ah, sim! Os criados arrumaram tudo. Apenas pensei que me esperaria lá embaixo, pois teve o trabalho de subir tudo isso e terá, também, o mesmo trabalho de descer...

- Minha senhora, eu jamais deixaria que uma dama de sua monta descesse desacompanhada, como se fosse uma reles amante. Vossa mercê é minha responsabilidade e meu bem mais precioso a partir de hoje.

Ela sorriu, radiosa. Então, com uma alegria imensa, mandou os criados descerem a bagagem até a diligência do frei, a qual já se encontrava a postos na entrada do castelo.

Em seguida, ele a tomou pela mão, a beijou suavemente na ponta dos dedos e a levou escadaria abaixo, como se fosse de fato uma dama de grande valor. Ela sorria, alegre, pois João Fernandes a abandonara no alto da escada, sozinha... enquanto ela correra atrás dele, quase tropeçando no suntuoso vestido de noiva, ao passo que ele a ignorava solenemente, deixando-a para trás envolta em lágrimas e soluços.

Como era diferente a sua partida de tal local! O frei se esmerava em ir na frente, pois caso ela tropeçasse, ele a ampararia em seus braços e não a deixaria se ferir.

Os criados miraram aquela peculiar cena, já sabendo que a esposa de João Fernandes agora se desfazia do título de "esposa" e ia agora para a casa do inquisidor. Estava tudo anteriormente explicado em mensagens enviadas a eles pelo próprio João Fernandes. Um deles até sentira pena, pois quando o frei adentrara a sala de visitas no dia anterior, ela poderia até mesmo ser violentada.

Mas a figura dela era tudo, menos de uma mulher forçada! Ia sorrindo, como uma moça apaixonada, segura pela mão de seu mais querido amante.

- Veja, ela tem cara de que gosta do frei! - comentou ele com outro criado.

- Essa? Ora, imagine só! Um homem ainda novo, rijo, com belo porte. Uma lábia... ontem o ouvi falar, a voz dele é que é uma seda. Acha mesmo que um homem desses precisa forçar alguém? Que nada. A mulher aí, abandonada, sem conhecer o marido, na maior miséria... aí chega um frei desses, bonito, mel na ponta da língua... aposto até que foi ela quem se jogou nos braços dele! E fez muito bem! Pra que ser fiel a marido que fez tal desfeita? Decidiu é viver!

- Mas eu não sabia que sacerdotes eram tão... impetuosos pra essas coisas!

- Meu caro, esses homens que usam saias, quando se vê... vupt! Conversa cá, conversa acolá... as mulheres pensam que eles são inofensivos pois são religiosos, então não esperam a investida... quando vêem, já lhes caíram nos braços!

E assim ficaram a debater o destino de Violante, enquanto ela e o frei já se encontravam defronte à diligência. Havia duas carruagens na verdade. Uma levaria a ambos - carruagem totalmente fechada, com janelas cobertas por cortinas - e a outra as bagagens dela.

O inquisidor a ajudou a subir, tomando-a pela mão, e subiu logo em seguida, fechando a portinhola atrás de si.

- Vamos juntos neste carro fechado?

- Que mal há?

- Os outros não vão comentar?

- Sou um eclesiástico, senhora. Por quem crê que me tomam as pessoas?

Violante silenciou. Como a carruagem não tinha aberturas nas cortinas, ela sequer poderia observar pela última vez o castelo que fora sua prisão, mas agora nada disso importava.

Principalmente porque as mãos de Expedito logo tomaram das suas e as beijaram nas pontas dos dedos.

- Como passou sua última noite de casada?

Ela sorriu.

- Dormi sozinha - espero que pela última vez.

- Sim, pela última vez. Pensou em mim?

- Muito...! Até a água do banho me parecia ter um toque diferente!

- Que bom. Significa que foi bom para si, não?

- Claro que sim. Mas por favor, meu senhor. Não se exceda, mesmo numa carruagem fechada...

- Oh, não! Jamais. Eu disse que vossa mercê teria a melhor reputação possível, e terá. Terá de tal forma, que em público eu não ousarei fazer mais do que beijar a ponta de seus dedos.

Violante sorriu, lisonjeada. Há tanto tempo não se sentia assim elogiada e galanteada. Ela tentou olhar para os cantos, mas ele permanecia beijando a ponta de seus dedos e vez por outra, quando o olhar dela cruzava com o dele, sentia tal ardor vindo de si, que corava violentamente ao sentir-se assim despida por sua mirada.

Ele a beijava sem parar, e a olhava como se não pudesse parar fazê-lo. Ela estava vestida de maneira recatada, com mantilha na cabeça e as tranças recompostas, mas de qualquer modo ele a observava como se mesmo nesses trajes sóbrios ela fosse digna de todo o desejo do mundo.

Para que não ficassem em silêncio, ela entabulou assunto:

- Sua casa é muito longe daqui?

- Ah, não. Logo estaremos lá. Mas até chegarmos... quero beijar suas mãos quantas vezes puder. Não sabe como desejei fazê-lo antes, quando não podia...

A moça sorriu novamente. Entregava-se aos carinhos dele, encantada. De repente, todos os seus sonhos pareciam se tornar realidade.

- Vejo que traz em sua mão esquerda o anel que lhe dei ontem... o anel cravejado de diamantes.

- Sim. Eu o usarei como se fosse uma aliança de casada. Já a aliança que João Fernandes havia me dado no dia da cerimônia, a deixei em cima da mesa daquela sala onde...

-... onde eu a possuí.

- Sim.

- Fez muito bem. Haverá muitos outros anéis para que use ao decorrer de nossa convivência.

Ambos continuaram assim, nesse namoro velado, porém cheio de suspiros e pequenas carícias, até chegar perto da residência onde o frei estava a viver. Pouco antes de lá chegarem, ele a acariciou no rosto.

- Pensando bem, não fará mal dar apenas um beijo... aqui nesse carro fechado...

- Ai, meu Deus...!

Violante protestava, mas estava era doida pra ser beijada. Então ele a tomou e a beijou com tamanho ímpeto, que ela quase derreteu. Era mais que simples desejo: era um fogo imenso, que tomava conta de toda sua mente e ela nunca sentira antes com João Fernandes ou mesmo com seu primeiro noivo.
Quando ele enfim a largara do beijo, a fidalga estava com as faces coradas, a respiração acelerada. Parecia não sentir algo deste mundo.

Afinal chegaram ao local. Novamente, ele a ajudou a descer e a tomou pela ponta dos dedos - mais cavalheiro que a maioria dos homens leigos e de sociedade; ele, um frei que em teoria vivia apartado do mundo.

Ele bateu, uma das criadas abriu e ele chamou as demais serviçais para apresentá-las a Violante após entrar na residência.

- Senhora dona Violante, estas serão as vossas criadas a partir de hoje. Esta é Ana, a cozinheira. Aquela, Maria da Graça, é a arrumadeira. E a última é Teresa, a que será como uma "mucama" a si. Aqui não temos mucamas, uma vez que não temos escravos... mas ela a arrumará e a vestirá.

A fidalga olhara as servidoras de modo firme e seco. Desde menina que ela comandava aos escravos em casa com mão de ferro, já que a mãe morrera quando ela era muito nova e a madrasta que veio depois era demasiado "coração mole" para fazer essas coisas. Sabia que não podia ser tão rígida com mulheres livres como era com os escravos no Brasil, mas de qualquer forma não seria mole.

O frei continuou:

- A senhora dona Violante é minha governanta. Obedeçam-na, como se a palavra dela fosse a minha própria. Agora que estão todas apresentadas, senhora, eu a levarei até seus aposentos.

Violante tomou da mão do frei outra vez e foi até um dos quartos da casa - o maior, mais arejado e mais bonito, por sinal. Os lacaios do castelo deixaram toda a bagagem lá, foram embora com a gorjeta que o inquisidor lhes deixara e após isso, ele entrou no quarto com a fidalga e lá trancou ambos a chave.

A moça, assim que entrou no aposento, ficou maravilhada, pois nele havia um amplo oratório, cheio de santos. Ela, que sempre fora muito católica, simplesmente se encantara.

- Oh, senhor inquisidor, que oratório mais rico...!

- Sabia que ia gostar. Agora, senhora dona Violante, antes que venha a começar suas orações, preciso conversar com vossa mercê, É sobre as regras da casa.

Atenta, a moça sentou-se no leito que havia no quarto - leito de casal por sinal - e deu sinal de que o ouviria.

Ele começou:

- Sou um homem muito metódico. Portanto, há algumas normas que devem ser respeitadas nesta casa. Deixo-lhe claro que, embora vossa mercê mande nas criadas e tenha total liberdade para tal, quem manda na casa e dá a última palavra sou eu.

- Perfeitamente.

- A senhora também terá normas de conduta. Poderá sair das oito da manhã às seis da tarde. Mulher direita não tem precisão de sair à rua de noite. Mesmo que saia de dia, nos horários permitidos, deve sair sempre comigo. Eu preciso sair pela manhã para investigar os autos de fé, então a senhora ficará em casa cuidando das servidoras. Felizmente não precisará fazer serviço doméstico; elas se encarregarão disto. Mas vossa mercê terá de cerzir meus hábitos; toda mulher de casa cuida das roupas de seu homem.

A moça o observava, enlevada. Ele dava a si um cotidiano de esposa...! Até mesmo com roupas de homem a cerzir!

Ele continuou:

- Seus vestidos, a partir de hoje, quem escolhe quais usa sou eu. As joias, idem. Mulher honesta e de respeito não precisa de muita joia, nem de roupa muito escandalosa. Um vestido discreto, uma mantilha na cabeça e já está bom. Pintas falsas, muito perfume, nada disso é recomendável. Quando eu sair pela manhã, trancarei a casa. Vossa mercê não terá posse de cópias das chaves, as quais estão em meu poder. As criadas saem quando eu entrar no começo da noite, às seis. Vossa mercê me receberá neste horário, composta, limpa, com suas tarefas já cumpridas. De resto, jamais darei a vossa mercê o tratamento de "tu", e sim de "senhor". Sem exceções.

Os olhos dela continuavam a brilhar, e a razão deste brilho o frei só saberia mais tarde. Ele terminou:

- Também decidirei o que tomará nas refeições. No dia anterior, deixarei tudo pronto com a cozinheira. Também deixarei as orações que fará todos os dias, em cima do oratório. Não poderá mais se confessar com outro sacerdote senão comigo. De resto, nossa convivência mostrará as demais adaptações que poderão vir a ser necessárias nestas regras. Alguma pergunta?

- Bem, eu... fui criada de maneira muito rígida em relação à moral por meu pai. Já estou acostumada a seguir ditames como estes que o senhor me passou. Também tinha o costume de cerzir roupa de homem, pois tive quatro irmãos. Sobre as orações, sempre as fiz com frequência. De resto... apenas havia uma diferença quando eu vivia no Brasil.

- E qual é?

- Eu não saía pela noite, mas saía de dia acompanhada pelas mucamas.

- Não, aqui isto está fora de cogitação. Vossa mercê tem de se ocupar da casa e de mim, que agora sou seu senhor. Se ou quando precisar sair, sai acompanhada de mim. Caso haja algum acidente extremo, como incêndio ou coisa parecida, podem sair, vossa mercê e as criadas, por uma das janelas. Mas se não for por risco de vida, não a quero nas ruas sem mim.

Violante pensou que era algo em demasia rígido, já que ela não dava motivos para desconfiança, porém... assentiu. Ele era o senhor da casa; ele tinha o direito de mandar.

- De resto, pode castigar as criadas. Fisicamente, inclusive. Porém, não seja tão rígida como era com os escravos. Elas são livres, ganham soldo. Mas pode e deve tratá-las com pulso firme.

- Decerto. Eu sempre tratei a escravaria da casa de meu pai de maneira bastante austera.

- Confio em vossa habilidade. Agora partirei. À noite volto para cearmos juntos. Qualquer coisa, converse com a cozinheira; ela lhe dará o que comer caso sinta fome.

- Hoje eu posso acompanhá-lo até a porta?

- Ah, sim. Está composta, com muito bom gosto. Vamos.

Novamente com gesto de cavalheirismo, o inquisidor tomou a Violante pelas pontas dos dedos e a levou até a porta. Lá, beijou-lhe suavemente a mão, saiu, trancou a porta com a chave que trazia em seu cinto e partiu na diligência, para julgar a novas almas pecadoras.

A fidalga observou-o partir pela janela, pensando que agora tinha nova vida. Em breve, foi para dentro de casa dar ordens às criadas e observar a seu trabalho de perto. Uma delas, vendo que a governanta era jovem e bonita, tentou desabafar com ela:

- Muitos bons dias, minha senhora! Sou Ana, a criada que cuidará da cozinha. O senhor frei já me deixou as ordens do que preparar para a ceia. Mas veja, fico feliz de a senhora estar aqui! Pois quando era o senhor Expedito a nos governar, era muito rígido! Brigava por qualquer coisa, não queria nada fora do lugar! Ô homem difícil de agradar!

Violante não teve dúvidas: de um ímpeto, acertou uma bofetada na cara da criada, a qual recuou assustada.

- Nunca mais fale mal do senhor inquisidor em minha presença! Ele fez a caridade de me acolher, portanto devo lhe ser grata! De mais a mais, se o crê rígido é porque ainda não me conheceu! Não costumo dar relaxo a criados e não foi à toa que o senhor Expedito me escolheu para governá-las!

Ana mirou à patroa, que tinha olhos feros, lancinantes. Percebeu que ela não era pra brincadeira.

- Desculpe-me senhora. Não desejei ofender - sibilou a cozinheira, a cabeça baixa em sinal de submissão.

- Está bem, dessa vez passa. Mas lembre-se: não sou sua amiga, e sim sua patroa! Que o erro não se repita.

A criada foi de volta à cozinha e depois de tal episódio, nem ela, nem alguma das outras três ousou fazer gracinhas ou falar mal do inquisidor na frente da então nova governanta.

Após vigiar o serviço das criadas, Violante foi ao quarto rezar. E ao pegar no terço, sentiu uma emoção muito terna, muito doce. No meio de toda aquela austeridade, ela se sentia cuidada. Se sentia feliz. Não era um ambiente muito diferente daquele onde ela fora criada por seu pai, um militar rígido.

Em seu íntimo, conforme seus dedos passavam pelo rosário em oração, sua alma sorriu.

Às seis, o inquisidor chegou em casa. As criadas saíram, pois moravam em outro local; ele preferira tê-las em casa somente de dia, pois queria a noite livre para ficar à vontade com Violante sem haver falatórios. Haveria fuxicos uma hora ou outra, mas na hora em que ele fosse fazer sexo com ela, era melhor estarem só os dois.

Entrou no quarto de dormir e lá viu Violante contrita, passando os dedos pelo terço.

- Que cena mais bela... uma mulher a rezar, pois sim?

A fidalga o viu e sorriu plenamente.

- Meu senhor, já chegou?

- Cheguei. A tarde passou rápido?

- Sim, mas senti a sua falta.

O frei sentou-se no leito e convidou a moça a fazer o mesmo com um gesto.

- Como foi com as criadas?

- A cozinheira Ana falou mal de si, e eu a puni. Fiz mal?

- Oh, não! Claro que não. Fico feliz que possa vir a defender a minha reputação quando não estou presente.

- Bem... meu senhor, eu... tenho algo para lhe dizer, em caráter de confissão.

- Oh, sim. A casa está vazia, pode falar e ficará somente entre nós.

- Eu não sei como começar. Mas...

- O que foi? Está, por um acaso, arrependida de ter tomado o caminho que tomou?

- Não! Não, pelo contrário... eu gostaria de lhe dizer que, quando começou a me passar as regras da casa, eu de repente percebi que de fato não terei a convivência de uma perdida, e sim... de uma esposa! De fato, há esposas que tem vida menos regrada que esta a qual está me oferecendo.

- Sim? Eu não disse que cuidaria da sua honra acima de tudo?

- Além disso, me lembrei de como, quando solteira, queria me casar como um homem igual a meu pai. Ele, sargento austero, cuidava mais da disciplina dos filhos do que dos demais. Ele achava que os filhos mereciam punição em dobro, para honrar o nome da família! E de repente... eu me apercebi que com meus anteriores noivos, não tive essa correspondência com meu pai. Eles eram... libertinos, gostavam de mulheres das ruas...

- Sempre soube que homens como João Fernandes jamais saberiam apreciar a virtude de mulheres como vossa mercê.

- Então... quando rezava aqui no oratório... de repente, percebi que na verdade... como posso lhe falar isto?

- Continue.

- Vi que vossa mercê é o homem que por anos a fio eu pedi de joelhos nas orações para Deus. Sim, é exatamente igual ao que eu pedi. Eu sempre quis um homem igual a meu pai, e vossa mercê é igual no teor da fibra, da força, da moralidade.

- Eu agradeço que assim tenha visto à minha pessoa.

- E... de repente, me vi em estado de graça! Não pode ser pecado, de forma alguma!

- Não. Eu lhe disse, senhora dona Violante... que não seria pecado conviver comigo. Esta é uma casa de respeito.

- E então... eu percebi que o amo!

- Sim?

- Sim. Quando me disse, antes de eu vir a Portugal para me casar com João Fernandes, que me amava, eu... pensava que somente o admirava, que o achava belo, mas era só... como eu ia me casar com outro, achava que não era direito alimentar o amor por outro homem. Mas agora... que sofri o que sofri com João Fernandes e vossa mercê me deu esta vida nova... oh, senhor! Somente posso lhe dizer que é tudo que eu sempre quis!

O frei sorria, beijando as mãos da senhora.

- Eu o amo, senhor... como nunca amei ninguém!

- Nem mesmo a João Fernandes, naqueles anos em que tanto lutou para se casar com ele?

- Aquilo era uma obsessão, uma questão de ego ferido por ter sido trocada por uma escrava! Mas nunca - nunca! - meu coração bateu tão célere por um homem.

O inquisidor sorriu. Beijou as mãos dela novamente, e em seguida a convidou para que ceassem juntos. Ela foi, sorridente, considerando que até mesmo o sabor da comida estava melhor do que antes.

Após a ceia, a qual já estava previamente posta pelas criadas, levou Violante para o quarto de dormir outra vez e acariciou suas mãos. Em seguida, disse:

- Minha senhora, já que se declarou assim tão enamorada de mim, quero que me dê uma prova de amor.

- Uma prova? Qual?

- Fique toda nua para mim.

- Oh... mas ficar totalmente nua não será pecado?

- Já lhe disse, senhora dona Violante... com um homem santo do Senhor, não há pecado! Acha mesmo que eu arriscaria a salvação de sua alma?

Ela sorriu, e o frei direcionou as mãos para os botões de seu vestido.

- Para que veja que não é pecaminoso, eu vou despi-la completamente e então vossa mercê sentirá que não é um ato ilícito.

Pouco a pouco, com um cuidado e um desvelo exagerados, o inquisidor a despiu toda; primeiro o vestido, depois as anáguas, enfim o corpete e as calçolas. Deixou-a toda nua e no final, enfim, desfez-lhe as tranças.

- Linda... linda, um corpo perfeito! Certamente sequer Eva seria tão tentadora no paraíso...

O frei ajoelhou-se diante dela, como se venerasse a uma santa ou uma imagem sagrada. Os cabelos dela desciam em cascata pelos ombros, até os quadris, e sem adereços ou roupas, ela parecia agora uma dríade da floresta, uma bela fada que vinha a recebê-lo para o amor. Um amor que, àquele momento, parecia mais pagão que cristão.

Ele beijou seus seios, seu ventre, tomou-a nos braços e enfim se levantou, beijando-a na boca. Os olhos de Violante se enchiam de lágrimas; nunca se sentira tão amada, tão desejada e tão querida.

- Deite-se na cama, senhora.

Ela se deitou, já sem pudor, já sem medo de ficar nua perante ele, aquele que a partir de então era seu homem, seu dono e senhor. Ele, também, passou a despir-se.

- Oh, céus... e eu, que nunca antes vi um homem completamente nu!

O inquisidor sorriu.

- Minha senhora, ontem eu a possuí de costas para mim e de roupas por um motivo simples: muitas donzelas, principalmente as que foram assim excessivamente guardadas como vossa mercê o foi, quando são defloradas às vezes vêem o... dote do homem, assim, bruscamente, sem nunca terem visto antes, e têm medo. Acham que não vão conseguir. Por isso fiz sem que visse, apenas sentisse. Mas agora, que já sabe que é perfeitamente possível... creio que pode ver.

Violante sorriu e corou. Estava descobrindo tudo com ele, tudo que na vida de casada não descobrira. Quando enfim o viu todo nu, riu.

- Se eu visse ontem, pensava que não ia conseguir mesmo...
O frei deitou-se em cima dela, beijando sua boca e já afastando suas pernas a fim de possui-la. Violante o abraçou com força, sentindo a pele dele roçar na sua, o calor de seu corpo no dela... como no dia anterior não sentira, pois ambos estavam vestidos.
Logo ele a penetrou e ela gemeu de dor.

- Ainda dói?

- Um pouco.

- É por causa da falta de uso. Mas em breve seu corpo vai se acostumar ao meu e não vai doer mais.

Violante sorriu e o beijou, sentindo todo aquele arrebatamento que lhe dava um nó nos pensamentos outra vez. Céus, como o amava! De todas as esperanças que tivera, jamais pensara que seria feliz justamente desta forma, nos braços de um sacerdote.
Mas não conseguia, de fato, pensar que era pecado. Aquela noite fora melhor ainda que a primeira vez, pois estava nua, se entregava por completo, sentia o corpo dele, o cheiro dele, o gosto dele por completo. Na casa dele, no leito dele, sem pressa de acabar.

Após o sexo, no qual ele a possuíra mais de uma vez, foram se banhar. Ela não o largou sequer por um minuto, com medo de que a abandonasse. Todas as vezes em que dissera a um homem que o amava, ele se aproveitara desse amor ou fizera pouco caso. Tinha um medo terrível de que o inquisidor fizesse o mesmo.

Mas até então ele não dava mostras de que seria ruim. Parecia amá-la mais do que ela o amava, beijava seus dedos a todo momento, louvava seus cabelos, seu porte, seu corpo. Louvava o fato de ela ter chegado pura a ele, ah! Que se ela tivesse sido de outro, ele seria capaz de matar esse outro.

Violante sorria, embevecida. Se antes a sua virgindade prolongada a incomodava, agora apenas a alegrava. Pois ele era tão bom com ela, a tratava tão bem, que ela se sentiria péssima se tivesse sido de João Fernandes ou mesmo de seu primeiro noivo.

Teve orgulho de ter sido ele a romper os véus de sua pureza, e o frei mesmo lhe dizia que o fato de seu antigo marido sequer tê-la tocado era um sinal de Deus... que era o Senhor a guardando para chegar daquela forma, intocada, a ele.

Quando foram dormir, novamente ela o abraçou forte contra si e não o largou por um segundo. Ele sentiu, e percebeu que ela já estava caída. Ele a fizera se apaixonar por si, afinal.

Algumas vezes durante a noite, ela acordara sobressaltada, com medo, pensando ainda estar na torre... que tudo aquilo de o frei buscá-la havia sido apenas um sonho. Mas não era. Sempre que acordava e via a face adormecida do inquisidor a seu lado, ela o beijava e o apertava contra seu seio outra vez. E agradecia a Deus, mentalmente, por tê-lo ali consigo.

Assim foi até de madrugada, quando ela conseguiu pegar no sono enfim - até de manhã, quando acordou já sem o homem a seu lado.

To be continued

OoOoOoOoOoOoO

Continua bonitinho, né? Sexo bom, comidinha gostosa, casa com empregadas, cavalheirismo mil. Nem parece sociopata, né?

Parece sim. Todo sociopata que se preze é perfeitamente encantador, principalmente no começo da relação. Eles utilizam a uma técnica chamada de "bombardeio de amor", com elogios, presentes e um mundo perfeito, ao passo em que sutilmente vão começando a controlar, isolar da sociedade, de maneira "açucarada" para a pessoa não perceber. Quando notar, já está "presa".

Ele a encantou usando, além do sexo e dos elogios, uma técnica chamada de "espelhamento", ou seja, dando a ela exatamente o que ela queria - tanto nas palavras quanto nos gestos. Ao montar uma casa com oratórios e regras rígidas, faria Violante esquecer que era concubina e não esposa - e nos tempos nos quais a fic se passa, isso era de extrema importância. Não é que nem hoje, que todo mundo mora junto sem problema nenhum. Ser casada, principalmente para a mulher, era de suma importância.

Depois há a identificação com o pai. O inquisidor não conhece o pai de Violante, pois quando ele aparece na novela o pai dela já havia morrido. Mas ele conhecia os hábitos austeros da própria Violante, bem como a necessidade que ela tinha de se sentir como "mulher direita". Note-se que mulheres co-dependentes geralmente vem de famílias abusivas e muitas vezes repetem o abuso dos pais nos maridos ou companheiros. É exatamente isso que Violante vai fazer nessa fic. Na novela, ela diz com todas as letras que queria se casar com um homem igual o pai dela - sendo que ele arregaçava a madrasta dela de porrada, dentre outras "finezas" do gênero.

Acerca da casa montada: o frei, apesar de ser frei, era inquisidor; alguns freis são ordenados padres também e são responsáveis por paróquias e demais instituições e não precisam ficar em mosteiros - o que provavelmente era o caso dele.

O inquisidor também tinha em seu poder tanto o dote de Violante (na fic, graças ao acordo que fez com o anterior marido dela - esse acordo não existe na novela; na versão "oficial" Violante morreria louca, virgem e sozinha na torre citada logo no primeiro capítulo; isso de o frei buscar fui eu quem inventei) quanto o baú cheio de diamantes que Xica deu a ele no final da novela. Só esse baú já seria suficiente para comprar a casa, sustentar a Violante e as criadas por muitos anos.

No mais, o controle dele parece assustador, não parece? Para os dias de hoje, sim. Para aquele tempo era até normal, porém mesmo assim ela viver trancada dentro de casa o dia todo era exagerado até praquele tempo.

Sobre Violante ser cruel com as criadas: na novela ela é cruel com todo mundo, menos com o João Fernandes (o cara que a abandonou no castelo, ele era ex-noivo dela). Dele ela perdoava tudo. É comum também co-dependentes serem abusivos ou abusivas com pessoas de hierarquia inferior, como filhos, subordinados ou etc, ao passo que com os objetos de suas obsessões são altamente tolerantes.

Não, co-dependentes não são sempre bonzinhos e santinhos. Alguns cometem crime passional.

Lembrando que há psicopatas/narcisistas mulheres também, que abusam de homens, dos filhos ou mesmo de outras mulheres.

Não é sempre que é o homem o "ruim" da história.

No próximo capítulo, a coisa vai ficar ainda mais feia.

Abraços a todos que lerem!