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A MULHER DO INQUISIDOR

Capítulo 3

Quando a moça despertou e não viu o homem a seu lado, pensou que estava ainda na torre, sozinha. No entanto, quando o viu de pé, já vestido para sair, percebeu que era realidade: ela estava a morar com ele. Não era sonho.

- Senhor inquisidor, eu...

- Muitos bons dias, senhora dona Violante. Dormiu bem?

- Um pouco sobressaltada, mas enfim...

- Percebi. Vossa mercê tem o sono leve?

- Infelizmente, sim.

- Deixarei algumas orações a mais a si no oratório para afastar esse tipo de maleita.

- Percebo que já está de pé.

- Desde o tempo do seminário, me acostumei a levantar muito cedo, assim que o sol nasce. Nos autos de fé, sou o primeiro a chegar e o último a sair. Chego uma hora mais cedo.

- Entendo. Mas...

- Caso queira, pode dormir mais um pouco.

- Ah, não! Já que viverei com vossa mercê, devo me acostumar com seus horários também.

- Vossa mercê é quem sabe. Até porque... embora tenha uma criada para vesti-la, é até bom que tenha se levantado cedo. Pois quero vesti-la eu mesmo...

O eclesiástico fez com que ela se levantasse, então curiosa para saber o que ocorreria. Ele tomou a roupa que anteriormente já havia separado para ela e, com um desvelo excepcional, a vestiu toda, como se fosse uma boneca em tamanho real. Depois, com ainda mais desvelo, penteou a seus longos cabelos, até não sobrar um único fio fora do lugar.

- Somente não faço-lhe aquele penteado de tranças porque não o sei fazer - disse ele, um sorriso nos lábios - Peça para a criada fazê-lo em si, pois à noite... quero desfazê-lo outra vez.

Violante sorriu. Em seguida, ele colocou a mantilha sobre os cabelos soltos dela e a convidou para o desjejum. A levou pela mão até a mesa de refeições, onde se sentaram e comeram, entre sorrisos e olhares velados.

A arrumadeira e a mucama foram ao quarto, ajudar a desfazer as malas de Violante as quais foram trazidas no dia anterior e fazer a cama. Bem baixinho, uma para a outra, declararam em voz velada:

- Eles saíram juntos do quarto...

Assentiram uma à outra, dizendo mais com gestos que com palavras. As criadas "de dentro" já sabiam que eram amantes, e em breve todos na vizinhança saberiam - porém se o inquisidor mantivesse a discrição, não seria repreendido. Quantos outros não faziam o mesmo? Apenas repreendiam aos sacerdotes quando tal comportamento causava muito escândalo; mas quando era feito daquele jeito, discreto, ninguém dizia coisa alguma. Até achavam graça.

Logo o frei levantou-se da mesa de refeições e declarou que precisava sair.

- Acordei bastante cedo, mas agora falta pouco para começarem as audiências. Senhora dona Violante... suas orações já estão no oratório, as roupas para cerzir já se encontram disponíveis e de resto, creio que cuidará bem da casa como o fez ontem. Até mais ver.

- Senhor, posso acompanhá-lo até a porta outra vez?

- Pode, sim. Venha.

Ele a levou, beijou suavemente sua mão como fizera no dia anterior e saiu, trancando a casa. Violante o observou outra vez pela janela a partir pela diligência, o sorriso voando solto em seus lábios, ao passo que as criadas se entreolhavam ao vê-la "com cara de quem havia visto passarinho verde".

Porém, logo após observá-lo partir, voltou-se para dentro, fechou a cara e passou a dar ordens às criadas:

- Vamos! Vamos, ao serviço, vamos! Quero que lavem umas roupas e batam uns tapetes na área de serviço. Teresa, pode fazer meu penteado enquanto as outras trabalham. Vamos, nada de moleza!

Aquele dia fora muito semelhante ao anterior, tirando o fato de que neste havia roupas de homem a cerzir, e Violante deixara essa tarefa por último, após as orações e após chefiar às criadas até elas deixarem tudo arrumado. "Um brinco", pois a fidalga não aceitava nem exigia menos.

Quando Expedito chegara, a fidalga se encontrava a costurar seus hábitos, olhando-os com tamanha ternura que era como se quisesse acariciá-los; como se ao tocar a eles, tocasse ao próprio frei em si.

- Muito boas noites, senhora dona Violante.

- Ah...! Senhor inquisidor, já chegou?

- Até que me demorei um pouco... hoje lidei com um grupo de pecadores talvez um pouco maior que os demais. Havia muita gente.

- Sim? Caso queira me falar sobre eles...

- Usualmente os inquisidores não falam disso com mulheres. Mas como vossa mercê é uma mulher tão honesta, tão religiosa e tão direita... penso que é até um dever.

Ela sorriu, lisonjeada. Lembrou de quando ela e ele exorcizavam almas perdidas no arraial, juntos. Seu coração naquele tempo já batia por ele, mas ela não se atrevia naquele tempo a permitir aquele amor, pois sua ambição era casar com João Fernandes...

Ah, se soubesse ela que seria tão feliz nos braços dele! Teria se permitido viver aquele amor ainda mais cedo.

O sacerdote conferiu se a ceia estava já posta e preparada. Como estava tudo nos conformes, ele mandou as criadas para casa, ficando enfim a sós com a fidalga.

- Minha senhora. o povo desse reino anda a cada dia mais pecador. Acredita que hoje lidamos com um grupo de pessoas que diz que pode fazer curas com determinadas ervas proibidas pelo Santo Ofício?

Violante largou a costura por um momento, fazendo o sinal-da-cruz, horrorizada.

- Credo-em-cruz, meu senhor! E eu pensava que aqui em Portugal as pessoas tinham hábitos mais sãos...

- Pessoas são pessoas em qualquer lugar. Há muitos pecadores!

- E eles foram condenados?

- Ainda não. Amanhã continuaremos o inquérito.

Ficaram por um tempo assim, ela costurando à luz do candeeiro de querosene, a noite recém-chegada lá fora, ele falando com prazer e brilho nos olhos sobre todas as torturas que impingira ao grupo de presos. E ela toda admirada por ele, toda quente por dentro, cheia de desejo por aquele homem que julgava as almas de maneira tão dura. Quase um santo!

Após terminar as costuras, mostrou a ele:

- Veja, senhor. Estão boas?

Ele as observou minuciosamente. Violante sabia que ele era homem difícil de agradar e exigente, por isso se esmerara ao máximo.

Ao fim de um período de tempo, Expedito sorriu.

- Tem mãos abençoadas, certamente.

A fidalga sorriu.

- Não exagere. Costuro bem, é verdade, mas não tão bem assim.

- Costura muito bem. Ninguém nunca antes o fez com tamanha perfeição em meus hábitos.

- Verdade?

- Sim. Agora, vamos cear.

Feliz, Violante foi tomar a refeição, e na mesma ambos se beijaram de leve, tomaram as mãos um do outro, novamente num namoro velado, cheio de pequenas carícias que nunca antes ela experimentara. A cada gesto daqueles se sentia mais amada, mais querida. Sentia que ele era um homem vindo dos céus a si.

Por volta das oito da noite, foram se deitar. E fizeram amor com um deleite tão grande, pois os autos de fé apenas faziam com que eles se sentissem muito "santos" perto do resto do mundo. E isso aumentava drasticamente o tesão que sentiam um pelo outro.

OoOoOoOoOoOoO

Os dias seguintes foram muito semelhantes. Embora Violante no Brasil fosse mulher muito independente, já dona de sua herança e tomando muitas vezes frente a assuntos políticos, após um ano presa no castelo no qual seu primeiro marido a confinara; sem ser seu marido de fato; sem deixá-la sair; sem fazer coisa alguma a não ser pensar em suas desgraças; aquele novo cárcere era acolhedor, até bom. Era regrado, com atividades que a deixavam feliz, com o oratório cheio de santos, as criadas nas quais mandar... e aquele homem por quem seu coração batia tão intensamente, que mexia tanto consigo... e que nunca negava fogo, uma noite sequer. Em algumas, a tomava mais de uma vez. Nem sabia como ele tinha energias para chegar tão disposto ao tribunal no dia seguinte .

E ela, como mulher direita, nunca se negava. Pensava que mulher com homem dono de si nunca devia se negar, a não ser em caso de doença extrema. Para que ele não arrumasse motivo pra buscar fora o que não tinha dentro. E seu coração batia forte, pois um dia tivera uma conversa com ele que confirmara ainda mais a si que era o homem certo a sua pessoa. O homem que Deus lhe enviara.

Um dia, após se amarem, quase ao dormir já, ela, com a cabeça recostada no peito dele, ainda se recuperando do imenso prazer que tivera nos braços dele, perguntara afinal:

- Meu senhor, uma vez me disse que ao se ordenar se abstivera de mulheres, pois tinha medo de ir ao inferno. Não teme que possa ir a ele por... se deitar comigo?

- Minha senhora, penso que um homem pode ir ao inferno por amar a uma mulher perdida, uma libertina. Ou várias. Mas vossa mercê...! Uma mulher que ficou pura por tanto tempo, e que vive só para a casa e para seu homem... que mal haveria?

- Mas é um sacerdote...

- Nunca concordei totalmente com o celibato. Alguns podem dar lugar a ele; eu, que sou homem de sangue quente como vossa mercê bem já percebeu, não consigo. Consegui por doze anos, mas a muito custo, com muita penitência. Penso que Deus me compreende e me absolve até, sendo que tenho a uma mulher a quem respeito como se fosse mais que uma esposa: uma extensão de mim. Eu a trato como mulher de respeito e vossa mercê se comporta como a mulher direita que deve ser.

- Então... bem... não seria como os demais? Que tem a esposa em casa mas vão ao meretrício?

Ele tomou o rosto dela com as mãos e a beijou docemente.

- Minha querida senhora, como um eclesiástico poderia julgar a outrem procurando as marafonas? Tenho sangue quente, minha senhora, mas entre ser homem e ser um pervertido há uma diferença muito grande. Quero manter nosso leito conjugal imaculado. Somente tenho o direito de amar a vossa mercê e a ninguém mais. Apenas de olhar a outra já seria adultério, como Nosso Senhor mesmo disse.

Violante sorriu, enternecida. Era mesmo o homem que ela esperava! Pois quando via a seu irmão Santiago a frequentar as meretrizes, bem como os demais homens, pensava que era um desrespeito! Que o homem casado deve sim ter seus desejos de homem, deve procurar a esposa e ela nunca deve se negar a ele, cumprir com seus deveres de mulher... mas também o homem não deve macular o leito com outras! E pensou que jamais encontraria a um homem assim, pois o próprio João Fernandes ficava com várias outras além de Xica...

E ele, o frei, ali querendo apenas a ela! Oh, como não quisera ficar com ele antes?

Violante viveu nesse idílio por cerca de um mês e meio. Nem sentia falta de sair às ruas. Ficara guardada, trancada dentro de casa por todo esse período e dava mostras de que não desejava sair. Apenas ia vez por outra tomar a fresca na área de serviço, bem como algum sol, mas não mais do que isto. E assim iam vivendo aquele namoro constante, austero mas cheio de carinho. O frei não cansava de a elogiar, de se demonstrar enamorado de si, e mesmo vez ou outra trazia da rua um presente a si: uma nova mantilha para os cabelos, um sapato novo, um terço ou mesmo um docinho comprado de algum feirante nas ruas. Enchia a banheira de casa com sabonetes finos, era quase obcecado com a limpeza; e ela também, vigiando o asseio das criadas com pulso firme.

Até o dia em que tudo começou a mudar.

Um dia, acordando cedo como de costume, o frei disse a Violante que dessa vez ela sairia com ele.

- Minha senhora, hoje haverá uma missa especial para as mulheres. Muitos já souberam que a tenho como governanta em casa e pretendo apresentá-la a todos que lá estiverem.
Violante sorriu, surpresa.

- Que bom! Confesso que gosto muito do oratório que tenho em casa, mas sinto falta de rezar na igreja.

- Pois hoje poderá rezar o quanto quiser por lá.

Como nos outros dias, ele a vestiu e a penteou. Apenas a mucama fez o penteado nos cabelos dela e a guarneceu com a mantilha; nunca entendia porque a senhora sempre estava quase toda pronta, vestida e calçada; sem precisar fazer nada a não ser arrumar seus cabelos.

Era a obsessão do frei pela aparência dela, de controlar até mesmo o que ela vestia, comia ou mesmo falava. Até o que pensava.

Após estarem prontos, tomaram o desjejum e saíram. Como no dia em que Violante saíra do castelo de João Fernandes, Expedito a auxiliara a subir na carruagem, também dessa vez totalmente fechada. E como daquela vez, ambos apertaram as mãos dentro do carro, se beijaram - mesmo que Violante temesse o escândalo caso alguém soubesse - e enfim tentaram se acalmar um pouco a fim de que quando chegassem à igreja, não estivessem mais tão "afogueados" e as pessoas percebessem.

Ao descerem do carro, ele a tomou pela ponta dos dedos - um cumprimento que seria permitido a um sacerdote em relação a uma governanta - e entraram na igreja. Violante quase havia se esquecido como era o ar da rua, o sol brilhando diretamente em sua face, o convívio com as pessoas.

Na igreja, havia muitas pessoas. Algumas mulheres já tomavam assento e começavam a rezar. Já um outro grupo, de homens, tanto sacerdotes quanto leigos, estava do outro lado da igreja. Frei Expedito fez questão de apresentar a Violante a ambos os grupos. Disse que ela era uma viúva órfã e sem filhos a qual ele, por caridade, tomara como governanta; ficaria melhor que a história do tal casamento anulado com João Fernandes.

Ela estava toda de negro, como se de fato fora uma viúva; como no Brasil vestia muito preto no passado, estava habituada a isto.

Após deixá-la com o grupo de mulheres a rezar, o inquisidor foi ao grupo de homens e lá ficou por um tempo, até um sujeito vir a ele.

- Muito boas tardes, senhor frei Expedito.

- O mesmo ao senhor, dom Antônio Carlos.

O tal Antônio era homem com cerca de quarenta e cinco anos, bem apessoado, comerciante de grande fortuna. Não era sujeito de muitas rezas, mas frequentava a igreja nos últimos tempos com uma finalidade específica... a qual diria ao frei naquela mesma conversa.

- Senhor, a dona que trouxe consigo... qual é mesmo o nome dela?

- Violante.

- Sim. A senhora Violante, ela está viúva faz tempo?

O frei fechou a cara - mais do que já fechava naturalmente. Era óbvio onde o tal viúvo queria chegar.

- Não senhor. É bem recente, se quer saber. Viuvinha fresca, como se diz.

- É que, bem... eu também sou viúvo, se bem que há alguns anos já. E de um tempo para cá, tenho sentido a falta de ter uma mulher em casa... um ruge-ruge de saias... alguém para cuidar dos criados e até mesmo para me dar um filho. Já tenho três filhos de meu anterior casamento, mas casei recentemente a mais nova; conta com dezesseis anos de idade, uma moça muito boa. Os dois mais velhos já eram casados e portanto minha casa ficou vazia. Só eu e os criados.

- Que mal lhe pergunte, senhor dom Antônio... por que não se casa com uma donzela?

- Ah, não! As donzelas tem idade pra ser minhas filhas; e de mais a mais, prefiro mulher que já tenha experiência em dirigir uma casa, que saiba ter pulso com os criados. Às meninas novas tem de se ensinar tudo, não é? Pois então... a senhora dona Violante tem parentes vivos?

- Tem irmãos no Brasil; em Portugal, só tem a mim. Seus pais já estão com Deus.

O homem persignou-se.

- Que Deus os tenha! Então, penso que o senhor sendo o guardião dela, devo fazer o pedido a si, na ausência de um pai ou mesmo um tio dela. O senhor me permite fazer a corte à senhora dona Violante, com propósito de casamento?
O frei sorriu, mas com tamanha dificuldade, que o sorriso provavelmente saiu uma careta que mais botava medo que outra coisa.

- Meu senhor... a senhora dona Violante sequer terminou seu período de luto.

- Oh sim, mas... veja, quando terminar, será que eu poderia já ter como garantido o meu lugar?

- Senhor... a senhora ficou bastante contristada com a morte do marido e, portanto, nos próximos meses deseja levar vida de penitência. De oração, de jejum. Ela não planeja um outro casamento tão já.

- Mas... ela é nova ainda, não tem filhos. Certamente deseja ter um ou dois, não é?

- Não para agora, se é que me entende.

- Para quando, então?

O frei se segurou para não dar uma bofetada no rosto de tal impertinente homem na mesma hora.

- Não temos certeza, senhor dom Antônio. Nem eu, nem ela. Agora, se me permite... voltarei a rezar.

- Sim, senhor, Desculpe o incômodo. Mas, se me permite também, considere com carinho as minhas palavras... eu faria um bom casamento a ela, daria tudo de que necessita, e o livraria desse fardo de sustentar a uma mulher que não é uma parenta sua.

- Não me é fardo de forma alguma, senhor dom Antônio. E agora... boas tardes.

Expedito se despediu do viúvo, porém seu olhar se encheu de rancor. E de repente, todos aqueles homens - todos, todos - lhe pareceram como inimigos, como lobos prestes a querer devorar a sua ovelhinha. A mulher que por tanto tempo ele esperara, a mulher que ele tivera a sorte de encontrar ainda virgem mesmo após casada, a mulher que ele guardara trancada com tanto esmero - podia lhe escapar das garras num piscar de olhos.

E pior ainda: ele não poderia reclamar. Ela podia muito bem passar por viúva - até que fosse "tarde demais" e o pretenso noivo já houvesse se casado. E casamento consumado não podia ser anulado ou desfeito com tanta facilidade.

Além do mais, com homens solteiros ou viúvos a lhe oferecer casamento, posição digna, filhos legítimos - que faria ela ao lado de um sacerdote que mal e mal podia lhe dar um amor clandestino?

Sentiu-lha escapar por seus dedos como areia fina escorre sem que possamos impedir - e seu coração se encheu de raiva.

Pensou que era fácil resolver o impasse: antes que os predadores se fizessem presentes, ele mesmo se casaria com ela oficialmente; largaria o hábito, ficaria como homem leigo, os diamantes de Xica e o dote de Violante podendo sustentar a ambos com largueza pro resto de suas vidas - e dos filhos que poderiam vir.

Mas como se afastar do Santo Ofício? Daquele que era o prazer máximo da sua vida - de prender, julgar, torturar? Como?!

Só havia um jeito: como não podia doutrinar aos homens, doutrinaria a ela. Faria com que ela se esvaziasse de vontade própria e só seguisse a dele mesmo.

Foi com muito sacrifício que o frei seguiu na igreja até o final da missa, pois seu ímpeto era tomar a Violante e levá-la para fora imediatamente, de arrasto pelos cabelos até em casa, para trancá-la em território que ele conhecia seguro.
Mas não. A sua reputação pública era tudo, e ele zelava muito por ela. Portanto, esperou até o final.

Quando enfim tudo acabou, ele se despediu superficialmente de todos os presentes e lançou um olhar para Violante. A mesma vinha feliz, pois travara conversações com as mulheres e algumas delas até lhe faziam convites para visitar suas casas. Mas o que a deixava de fato feliz era voltar para casa, para aquele que por mês e meio vinha sendo seu lar - lar de uma forma que ela não conhecera após a morte do pai; lá havia amor, havia roupa de homem para consertar, havia as criadas para dirigir. E havia Expedito para ser seu senhor. Durante a missa, ela agradecera tanto por estar com ele. O amava de tal forma, que quase chorara durante as orações de tanta comoção.

E fora com esta mesma comoção que se dirigira até ele, após se despedir das mulheres.

- Meu senhor, estas mulheres foram tão boas comigo!

A mirada com a qual o frei a recebeu, no entanto, foi tão gélida, que ela se sentiu batendo contra uma parede.

- Meu senhor, aconteceu algo de errado?

Ele simplesmente não respondeu: virou-lhe as costas e foi até a carruagem, sem esperar para ver se ela vinha atrás.

Estranhando aquele comportamento, ela o seguiu, ainda sem nada entender.

Diferente das outras vezes, ele entrou no carro e a deixou lá fora, sozinha. Ela esperou por alguns segundos, pois das outras vezes ele a ajudara a subir, mas...

...ele simplesmente a olhara com a mesma mirada dura e seca, e dissera rispidamente:

- Suba, ande! Não tenho o dia todo.

Surpresa, pois ele não parecia o mesmo homem enamorado do último mês, ela subira sozinha, tomara assento ao lado dele e fechara a portinhola. Assim que o carro passou a andar, ela sentiu um frio gelado dentro do mesmo, e para tentar dissipar tal ar espesso, começou a falar:

- A senhora dona Amália foi muito boa comigo, me convidou para ir à sua casa tomar um chá com as mulheres na semana que vem... vossa mercê permite que eu vá?

Nada. O frei fazia como se não a ouvisse. Olhava para frente, duro, seco, como se fosse feito de pedra. Numa última tentativa de quebrar aquele mal estar, ela disse:

- Meu senhor, há algo de errado?

- Em casa conversamos.

Tal resposta fora dada de forma tão seca, tão cortante, que Violante nada se atreveu a dizer até chegar em casa. Foram o caminho todo em silêncio, ele sem sequer tocá-la ou olhá-la; ela, com medo até de se mexer.

Quando o ar dentro da carruagem parecia estar insuportável de respirar, eles chegaram afinal. Novamente, ele desceu sozinho e a deixou descer também sozinha, sem ajuda. Sem apertar suas mãos. Sem lhe dar o olhar doce e apaixonado que dava todos os dias ao chegar em casa.

Expedito destrancou a porta da casa, deixou as criadas saírem mas sequer verificou a ceia, como fazia todos os dias. Violante mirou seu assento na sala, onde ela costurava os hábitos dele, e uma lembrança boa perpassou por sua memória. Os serões passados juntos, os beijos trocados à mesa das refeições, as noites tão quentes passadas no quarto, as declarações de amor. Mas tudo isso de repente foi varrido pela frase cortante que o frei proferiu logo em seguida.

- Vamos ao quarto.

- Mas ainda é cedo para se deitar, o sol ainda nem se pôs-

- Eu não disse que é para nos deitarmos. Vamos ao quarto, sem discussão!

Violante engoliu em seco. Ainda não entendia o que ocorria, só sabia que queria que aquilo parasse. Queria aquele homem enamorado e cheio de elogios de volta, e não aquele homem rude, seco, mau. Até porque, ele podia até ser rude e seco com os outros que eram pecadores; mas não com ela, que era tão direita, tão cumpridora de seus deveres; não a ela, que ele encontrara pura ainda, ela que jamais ousava sequer pensar em outro homem, quiçá olhar a outro.
Foram ao quarto. Ao entrar lá, ele trancou a porta a chave como sempre fazia. Violante ia começar a falar, perguntando afinal o que tanto o aborrecera na missa, mas antes que pudesse sequer voltar-se a ele, sentiu tamanho bofetão lhe varar a face, que somente teve tempo de gritar e cair na cama, aturdida.

- Meu senhor! O que é isto?!

- Cale-se e receba o castigo quieta!

O frei deu-lhe mais dois tapas na cara. Não tapas simples, mas sim tão fortes, que seriam capazes de derrubar um homem grande. Quiçá a ela, que era mulher esguia.

As lágrimas brotaram sem que ela pudesse controlar.

- Meu senhor... o que é isto?!

- A mulher sempre sabe porque apanha!

- Mas eu não sei... eu não sei!

- Sabe, sim. Libertina! É capaz, já haviam me dito que mulher assim que conhece homem, logo quer conhecer outros! Não se contenta com um só! Ah, mas vossa mercê vai ver...!

E ao dizer isto, bateu nela mais vezes. Ela tentava se proteger com os braços, mas era inútil.

- Por favor, ao menos me explique! Por favor! Por favor!

O sacerdote respirava com força. Queria era arrebentá-la de pancada, mas era conhecido como homem metódico, frio. Se se deixasse levar pela raiva, ia deixá-la marcada. As criadas saberiam, todos saberiam pelas fofocas. Melhor não. Melhor era castigar de outra maneira.

- Minha senhora, sabe o que aconteceu hoje na igreja?

- Não! Estou a tentar saber desde que o vi com a cara fechada! Por quem é, senhor Expedito! Diga a mim, o que o aborreceu?

- Eu não devia dizer. Não, pois toda mulher no fundo sabe porque é uma libertina, uma marafona, uma...! Uma reles vagabunda!

Aquelas palavras feriam Violante em seu âmago mais fundo. Pois ela sempre se considerara tão honrada, tão honesta. Mas ele continuou:

- Como sou um homem condescendente, eu vos direi. Senhora, havia um tal de dom Antônio Carlos na igreja... ele a cortejou!

- Não, meu senhor, ele sequer falou comigo! Eu não sei quem é esse homem!

- Ele não a cortejou diretamente. E sim falou comigo, como se eu fosse seu guardião. Ele... a pediu em casamento a mim!

- Eu não tenho culpa, eu-

- Claro que tem! A culpa é sempre da mulher!

A fidalga chorava, sem palavras. Essas eram as coisas que ela falava em seu passado, quando condenava sua madrasta ou outras que ela considerava "perdidas". Mas ela...! Nunca pensara ser digna de ouvir a tais coisas.

- Meu senhor...! Perdoe-me, eu não quis atrair o olhar de um homem, eu só tenho olhos a vossa mercê! Eu não quero outro homem, eu só penso em vossa mercê, eu...! Agradeci tanto hoje na missa por tê-lo!

E então as lágrimas e os soluços vieram com mais força. Pois ao falar daquele agradecimento, ela se lembrava do frei ainda enamorado, do frei a elogiando como mulher cheia de virtude, e não do homem que agora a chamava de "vagabunda".

- Pode não ter desejado atrai-lo. Mas se atraiu, é porque o demônio ainda se encontra aí dentro, em seu corpo! Precisa ser purificada, minha senhora.

Aquelas palavras, "purificar" e "demônio", despertaram o antigo sentimento de culpa nela. Afinal, ele a tranquilizara tanto sobre conviver com um sacerdote não ser pecado, que ela quase se esquecera de tal sentimento.

Submissa, ela levantou-se da cama e se ajoelhou perante ele - ele, que ela via como um santo.

- Meu senhor...! Sim, mereço ser castigada! Por favor, me dê a penitência!

Aquele gesto surpreendera a Expedito. Afinal de contas, ela assentia e se submetia. Sorriu de maneira sinistra e ordenou:
- Ajoelhe-se em frente ao oratório.

Ela de pronto obedeceu. A vontade dele era terminar a surra, mas se conteve. O que faria, a Violante, seria ainda pior que uma surra... ainda pior.

- Passará até de manhã sem comer, em jejum. A rezar. Reze, minha senhora, peça a orientação divina. Fique no escuro, sem velas ou lumes. Agora, sairei. Esta noite, vossa mercê não ficará comigo.

Os olhos da fidalga se arregalaram. De fato, o frei pegara justamente no ponto fraco dela.

- Meu senhor, não! Não me deixe aqui sozinha!

- É a penitência, pela salvação de sua alma.

- Não!

- É o melhor a se fazer, senhora.

E já ia se retirando, quando desesperada a moça se agarrou à barra de seu hábito - hábito esse que ela própria consertara com suas mãos dias antes.

- Senhor, por favor, não! Não! Bata em mim, surre a meu corpo, tire o demônio de mim a pancadas, mas não me deixe sem vossa mercê!

As lágrimas brotavam com mais força ainda. Frei Expedito sorria de forma sádica.

- Conforme-se, senhora.

Virou as costas, arrancando de suas mãos a barra do hábito ao qual ela ainda se agarrava com força, quase até rasgar, e foi até a porta. Violante se arrastou até lá, num último gesto segurando a porta com seus dedos.

- Não! Misericórdia, senhor! Tudo, menos deixar-me aqui a noite toda sozinha no escuro!

- Senhora - respondeu ele, numa voz já tão calma como não havia igual em todo o reino - Caso não retire seus dedos da porta, serei obrigado a fechá-la neles, até arrancá-los de suas mãos. Ficará sem eles para o resto da vida. Seria uma pena.

A moça olhou nos olhos dele e percebeu... que ele seria capaz de cumprir com o prometido. Que não blefava de maneira alguma. Que arrancaria aqueles dedos que nos últimos quarenta e cinco dias, beijara e louvara por vezes sem conta.

Retirou portanto a mão, com medo de se ferir... e no mesmo instante, Expedito bateu a porta com força, trancando-a a chave logo em seguida.

Violante gritou de dor. Não de dor física, mas da alma. De uma só vez, aquela ferida que no último mês ia pouco a pouco se fechando e se curando com os cuidados do frei, de repente fora aberta e exposta. Como uma pessoa que costura a um corte e depois puxa o fio, somente para abrir um rombo duas vezes maior na pele.

Lembrava não somente de quando José Fernandes a abandonara na torre logo após o casamento, mas também de quando seu primeiro noivo declarara deixá-la por uma prostituta; quando José Fernandes, ainda sendo noivo, a abandonara por Xica; e enfim, de abandonos ainda mais fundos, ainda mais inconscientes, da infância.

Lembrava ainda dos beijos provados da boca do frei, logo pela manhã. Pouco antes de chegarem à igreja. Ele também a abandonara. Ele ia deixá-la - e em sua mente desvairada, já à beira da sandice mais uma vez, ele a abandonava para sempre, como seu marido fizera.

Gritava e batia na porta. Aquilo doía como uma faca em seu peito jamais doeria. Preferia morrer do que sentir aquilo. Arranhou a porta, até sair sangue da ponta de seus dedos. Depois, passou a arranhar a si própria. Era inútil. Toda aquela dor continuava ali, viva, sangrando por dentro, numa hemorragia de sentimentos que parecia afogá-la em dor.
Uma dor horrível, pois se antes nem Amadeu, seu primeiro noivo; e nem João Fernandes, a amaram de fato; se deles mal tivera um beijo mal dado; do frei ela tivera o mundo, ela tivera os elogios, o amor que sempre sonhara; arrebatado de si de repente. Pior que nunca ter, era ter tido e de repente perder, sem aviso prévio.

Do lado de fora, o frei escutava os gritos da mulher. Pensara em subir para um dos quartos de hóspedes, mas preferiu escutar. O som daqueles gritos era irresistível; ele não podia dormir sem aquela doce música para seus ouvidos.
Sim, era o pior não gritara assim quando ele a esbofeteara; e a sorte era que o abandono não deixava marcas físicas, como os tapas.

O som dela implorando para que ele abrisse a porta era muito, muito semelhante ao som dos presos investigados do Santo Ofício a serem torturados em suas mãos.
Sim, ela também estava em suas mãos.

Satisfeito, Expedito subiu os degraus, ainda se demorando para escutar mais um pouco daqueles gritos de louca ensandecida que era Violante. Uma deliciosa louca, mas louca mesmo assim.

Sorriu mais uma vez.

Nada lhe dava mais prazer do que quando imploravam por si.

To be continued

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Agora começou o balacobaco! Frei Expedito mostrou a que veio.

São muitos os abusos relatados neste capítulo: além do cárcere privado e do total controle do dinheiro, da comida, do cotidiano e das roupas dela, ainda há a violência física (óbvia), porém também a violência passivo-agressiva, ou seja, quando a parte abusiva corta relações repentinas com a outra parte apenas com a finalidade de "castigar", de "privar". Hoje em dia tá mais fácil de fazer: é só bloquear no facebook ou no whatsapp. Tem gente que bloqueia e re-aparece depois de alguns dias como se nada houvesse acontecido.

Algumas pessoas, principalmente mulheres, pensam que se forem "corretas" e fizerem tudo "certo", não sofrerão e conseguirão "dobrar o homem". Ledo engano, conheci pessoas que quanto mais faziam pra relação dar certo, mais a parte abusiva folgava.

A impressão é que nunca nada tá bom, nada mesmo. A parte abusiva sempre tenta passar dos limites mais um pouco, como se o abuso anterior nunca fosse suficiente.

Sobre a Violante sofrer horrores só de ele passar a noite longe dela: pra alguns pode parecer exagerado, mas imaginem que ela foi abandonada um ano numa torre em cárcere privado pelo próprio marido, bem como sofreu uma série de outros abandonos na vida. Para ter uma ideia do que ela sentiu, pense em uma pessoa que tem fobia a baratas sendo trancada em uma sala cheia delas. Ou ainda, uma pessoa com pavor de altura abandonada num parapeito transparente, daqueles que algumas atrações em altitude grande tem, pra ver lá embaixo.

Ele fez de propósito, "apertando" justamente onde mais doía; se fosse outra coisa seu pior medo, ele faria.

Sobre ela se arranhar: a auto-mutilação é comum em co-dependentes e é uma forma de, através da dor, tentar controlar a sua realidade, já que não consegue controlá-la de outra forma.

Abraços aos que lerem!