AVISO: CONTÉM CENAS DE SEXO, TORTURA, VIOLÊNCIA FÍSICA E PSICOLÓGICA, MISOGINIA, GATILHOS DE TRAUMA, SADISMO, LINGUAGEM IMPRÓPRIA, PARAFILIAS.

A AUTORA NÃO ENDOSSA NEM CORROBORA COM AS PRÁTICAS AQUI NARRADAS; PELO CONTRÁRIO, APENAS TENTA DEMONSTRÁ-LAS PARA QUE SEJAM MELHOR IDENTIFICADAS E EVITADAS.

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A MULHER DO INQUISIDOR

Capítulo 5

Após aquele dia, as coisas voltaram a seu ritmo normal: o frei saía de manhã para seus afazeres no Santo Ofício (nem sempre havia autos de fé, mas sempre algo a se fazer) e Violante ficava em casa, dirigindo as criadas, cuidando das roupas e rezando. Com alguns dias dessa rotina, a penitência e os tapas que vieram de seu homem pareceram mais com um pesadelo: um pesadelo que passara e do qual ela se re-erguera afinal.

Pedira mais uma vez para ir ao chá da senhora dona Amália, a senhora que convidara as demais mulheres para ir em sua casa na igreja. Já mais calmo, o inquisidor perguntou à fidalga:

- Haverá homem nesse chá?

- Provavelmente, não. A senhora dona Amália somente convidou mulheres, e além disso mesmo que houvesse homens... pode confiar em mim! Eu jamais olharia a outro senão a vossa mercê.
Expedito a olhou sério e disse, a voz sinistra outra vez:

- Minha senhora, se eu souber que houve um único homem nesse negócio... vossa mercê nunca mais pisa na casa dessa mulher! E acredite: tenho meus modos de saber! Porém, darei a si um voto de confiança. Pode ir ao chá, mas com uma condição: eu a levo e a busco quando terminar.

Violante sorriu, enternecida, e o agradeceu.

- Meu senhor, não se arrependerá!

O frei no fundo não queria deixá-la ir. Ela podia dar com a língua nos dentes sobre ser amante dele; podia deixar passar que não era viúva de fato; várias coisas. Porém, se a mantivesse trancada o tempo todo também não seria bom. Todos comentariam, reparariam que ela era como uma prisioneira. E ele prezava a sua imagem pública. Então a deixou ir. Até porque nos últimos anos Violante, como pessoa praticamente obcecada por acabar com a vida de Xica, se esquecera como era simplesmente ser mulher, num evento de mulheres, sem tramar o mal a pessoa alguma. Era bom para adoçá-la, lembrar de sua feminilidade afinal.

Levara-a no dia combinado e em seguida rumara ao trabalho. Nele, havia diversas deliberações sobre o que considerariam heresia ou não dali para frente. Aquele tal de "iluminismo" francês começava a dar as caras em Portugal; apareciam muitos hereges, ateus, a igreja ameaçava perder o poder.

"Deixe que eu cuido deles", pensava o frei sem dizer. "Enquanto houver homens assim como eu, determinados a fazer valer o poder da igreja, jamais essa cambada prevalecerá".

Na volta, quando buscou a fidalga, ela estava alegre, folgazã; abraçara efusivamente a dona Amália, como se fossem velhas amigas.

- Venha mais vezes em minha casa, senhora dona Violante! Será sempre bem vinda!

Ela agradeceu e subiu na diligência, logo atrás do frei.

- Ah, meu senhor...! Fazia tempo que eu não folgava assim!
Quando estava no Arraial do Tijuco, minha vida era só amargor! Era só pensar em vingança! Mas aqui...! Me tratam tão bem!

- E do que estas boas senhoras falaram?

- Ah...! Cousas de mulher! Tonterias! Não quero incomodar a um senhor tão importante como a vossa mercê com tais tolices!

- Pois eu quero saber. Do que falaram?

- Bem...! Das missas, das novenas que a senhora Amália quer rezar para a filha... a filha mais velha dela, casada, está de barriga; estão a fazer o enxoval, um primor! Foram destas cousas que falamos a tarde toda...

Violante estava corada, a pele mais lisa. Parecia rejuvenescer. No Brasil, estava tão seca, tão amarga. Agora aparentava novamente ser uma senhora feliz, como certamente o fora antes de perder a João Fernandes e começar sua sanha contra Xica.

Ao chegarem em casa, a noite já caía. Expedito foi conferir a ceia e depois dispensou as criadas. Após comerem, Violante pediu para rezar.

- Meu senhor, com o chá na casa de dona Amália sequer rezei hoje! Preciso rezar, se me permite...

- Ah, claro! Vá sim, minha senhora. É bom jamais esquecer de seus deveres para com Deus.

Com uma breve reverência a ele, Violante foi ao oratório, acendeu as velas e passou a rezar o terço, ajoelhada, contrita.
Expedito a observou daquela forma por um tempo. E de repente ela lhe lembrou a sua tia, a mulher que o criara.

Teodora.

OoOoOoOoOoOoO

Expedito perdera os pais muito cedo; assim que nascera, sua mãe morrera no parto. Seu pai, muito apegado a ela, cometera suicídio uma semana depois.

Sua sorte (ou azar) fora ter uma tia, bem de vida, solteirona, a qual se prontificara a criá-lo, uma vez que não tinha seus próprios filhos. Seu nome era Teodora, e na época era ainda bastante jovem, com vinte e sete anos de idade quando tomara-o sob sua tutela. Considerava o suicídio um pecado mortal e queria salvar a seu sobrinho de pagar pelos erros do pai.

Amarga, carola,Teodora tinha o cheiro das velas que queimavam no altar da igreja e do incenso dos turíbulos. Só saía para rezar e fazer novenas. Não usava outra cor senão preto, nem outro adereço senão um colar com um enorme crucifixo no pescoço.

Dizia-se que sua tia tivera a um noivo na juventude, o qual amara muito; porém ele fugira para Portugal (Expedito nascera no Brasil) com a criada de confiança de Teodora. Ela, coitada! Nunca mais se recuperara. Desde que perdera o noivo, rezara tantas e tantas novenas, que já as sabia de cor; todos os padres e sacristãos já a conheciam de longe, só de ver seu vestido preto a assomar na porta da igreja. Era a mais solteirona das solteironas, a beata das beatas. Foi assim que Expedito crescera no meio da igreja, e era aquele o único ambiente com o qual se sentira familiar durante toda a vida.

A tia o batizara com o nome de Expedito por causa do santo homônimo, o qual era o "Santo das causas impossíveis". Era tanta promessa, tanta novena, tanto joelho no chão pedindo pelo noivo de volta, que Expedito nunca a via fazendo outra coisa.

A obsessão fora tanta, que Teodora vendera todos os seus bens, os quais foram deixados de herança por seus pais e seu irmão, e se mudara para Portugal quando o menino ainda não contava com seis anos de idade, a fim de descobrir o paradeiro do noivo e reatar a relação. Muitos pensavam que ela era viúva e Expedito, seu filho.

Mas apesar de criá-lo como mãe, Teodora não era carinhosa. Dava-lhe muitos bofetões desde bem pequeno, beliscava, criticava, era extremamente rígida. Parecia direcionar o ódio aos homens - e a seu noivo que partira - todo em cima dele.

Quando o sobrinho passou a ficar maior, Teodora mandava buscar pão. Cuspia no chão e dizia:

- Se voltar quando o cuspe estiver seco, apanha!

Ele ia e voltava correndo. Mas mesmo quando o cuspe ainda estava úmido, ele apanhava. De vara de marmelo, de cinta, de tamanco, de cabo de vassoura. De tudo que sua tia tivesse à mão e pudesse usar para machucar. Achava que ele era a causa de seu noivo não voltar, e portanto um dia prometeu ao santo que lhe dava o nome:

- Santo Expedito, ó meu santo de devoção! Se meu noivo voltar, eu envio esse menino para ser frade dominicano! Usualmente se fazem essas promessas com meninas, enviando-as ao convento; mas como não tenho uma, vai esse mesmo!

Naquele tempo, o sobrinho, pobre criança, mal sabia o que era "convento", "frade" e tudo isso. Apenas ouvia e esperava que ela não ficasse aborrecida a ponto de bater em si.

Quando Expedito completou doze anos de idade, o noivo de Teodora ainda não voltara; porém ele fora enviado para ser frade mesmo assim.

Estudara por um período junto com os que viriam a ser padres; porém sua rotina era ainda mais rígida. Os frades eram muito mais cobrados que os padres, mesmo os noviços, que ainda não haviam prestado votos. Ele apanhava também dos superiores; apanhava quando errava as lições, apanhava quando se atrasava, apanhava às vezes só por olhar diferente para um dos preceptores. Caso contasse algo a Teodora quando a tia ia visitá-lo aos domingos, ela dava de ombros e dizia:

- Educação boa é essa: dura, rígida. Não quero um moleirão! Obedeça aos padres e será um homem de caráter! Não quero ouvir reclamações a seu respeito!

Eternamente donzela, cada vez mais amarga ao começar a adentrar a meia-idade, Teodora não permitia a ele nenhum afago, carinho, abraço ou mesmo beijo no rosto; o único cumprimento que lhe tornava lícito era um beijo na ponta de seus dedos, quando ele ia pedir a bênção:

- A bênção, madrinha.

- Deus te abençoe, meu filho.

Assim ele crescera na igreja, no seminário e depois, mais tarde, no mosteiro para os que já se preparavam a ser frades. Sua tia dizia que era bom jamais se casar; assim não daria desgosto a mulher alguma!

Mas viver na clausura não o impedira de quebrar o voto de castidade - voto esse que ele sequer fizera, pois ainda não era ordenado, mas enfim. Havia na região meninas soltas na vida, as quais eram chamadas pelos internos de "pastorinhas". Nem todas eram pastoras ou viviam na zona rural; algumas eram lavadeiras, outras criadas, outras arrumadeiras. Todas mulheres de classe baixa, operárias sem dote. Das moças pobres, a virgindade não era tão estrita ou exigida quanto das ricas e dotadas. Casavam mais tarde, eram mais livres e de mais a mais, era só fingir ser virgem no dia do esponsório - como, Expedito não sabia muito bem. Mas davam lá seu jeito.

Um belo dia, outro dos internos o chamou para ver as "pastorinhas". Eram bonitinhas, engraçadas, mas ele fora com elas apenas por curiosidade; não se atinha às mulheres e mesmo as odiava no fundo de seu peito. Fora apenas para não ser chamado de "mariola" pelos outros.

Ele era bonito, alto, as meninas o disputavam. Mas com o tempo, tudo se tornara enfadonho; Expedito queria mais do que se deitar com elas. Um dia, puxou com mais ímpeto o cabelo de uma. No outro, segurou com mais força o braço de outra. Depois, batera na cara de outra. Elas achavam graça, pensando que "aquilo sim era macho de fibra!"

Até o dia em que ele estrangulara uma delas, a ponto de deixá-la sem respirar por mais de um minuto. A moça quase desmaiara e, assustada, saíra correndo a contar as outras o que Expedito, o rapaz bonito, quieto e alto, fizera a ela.

Ficaram todas com medo. Não quiseram voltar mais com ele. Afastaram-se e, com o tempo, até mesmo os demais internos também se afastaram. Se tornara um rapaz violento, mau. Seu olhar assustava a todos. Era a forma que ele encontrara de se defender: causar medo nas pessoas, pois toda relação mais próxima que tivera havia sido dolorosa.

Conseguira ainda algumas mulheres após o tal episódio, mas elas não voltavam após conhecê-lo. Tinham medo da violência dele, do ímpeto dele. E ele, que já odiava às mulheres, passou a odiá-las ainda mais. Sabia que seu desejo não era normal: a maioria dos rapazes tinha volúpia nos seios, no traseiro, no colo das mulheres. Ele também, mas com um adendo: queria destruir tudo aquilo que via. Seu gosto era por despedaçar às moças, mas sabia que era errado. Continha-se com muito custo, por isso ele próprio acabara se afastando de se deitar com amantes avulsas - não por religião ou medo do pecado, mas com receio de que se descontrolasse, matasse uma ou duas e pudesse até mesmo ir preso.

Quando contava com dezoito anos, soubera que sua tia, Teodora, morrera. Saía ela da igreja, como sempre, e tivera um esgar repentino. Morrera estirada no meio da rua. Acudiram, mas já era tarde demais.

Não sentiu a falta da tia. Pensava que agora era sozinho no mundo, mas que importava? No fundo, nunca tivera o amor dela.

Aos vinte e um anos, se ordenara como dominicano. Poucos dias antes da ordenação, tivera a sua última experiência com mulher antes de conhecer a Violante; surrara tanto a moça, deixara-a tão roxa, que ela ameaçara dar parte no juiz. Ele deu de ombros e disse a ela, a voz sinistra:

- E quem disse que morto dá parte de alguma cousa?

Assustada, ela saíra correndo e nunca mais voltara - como muitas outras desde o seu tempo no seminário.

A partir dali, ele se ordenara e deixara as mulheres de lado. Ia acabar matando uma, caso continuasse a vê-las. Desejava-as mas ao mesmo tempo as odiava profundamente. No entanto, sua mente projetara a si um plano: queria uma mulher para ser só sua, independente de ser frade ou não. Mas não seria qualquer uma. Queria uma virgem, já mais velha, com mais de vinte anos; uma mulher a quem ele pudesse domar, retirar a essência e transformar em somente sua, até nos pensamentos.

Não era desejo de amor e sim de dominação.

Dos vinte e um aos vinte e três anos, dedicara-se com afinco aos estudos e à doutrina. Era conhecido como moço rígido e por isso, após apenas dois anos de ordenado, ele fora convocado para ser inquisidor.

Geralmente os inquisidores eram chamados dentre a ordem dos dominicanos; e ele, que ouvira falar ligeiramente sobre a inquisição, ainda não conhecia muito bem sobre como funcionava.

Então ficara maravilhado ao ler os manuais, os autos de processos, os métodos de tortura.

Finalmente, de maneira totalmente lícita, poderia esfacelar uma mulher inteira em suas mãos. Homens também, era verdade. Mas mulheres torturadas acima de tudo lhe agradariam bastante.

Começara com seu trabalho e surpreendera a todos. Aquele jovem de boa aparência arrancava as piores confissões de todos os torturados, até mesmo dos mais difíceis e duros de abrir a boca. Às vezes só a visão do frei em si, e sequer dos instrumentos de tortura, os fazia confessar. Ele era sinistro; nos últimos anos, todos se afastaram dele. Não tinha amigos e sim somente aliados. Não confiava em absolutamente ninguém.

Permanecera desta forma, entregando-se de corpo e alma àquele trabalho que tanto o agradava e dava prazer, até se tornar um dos inquisidores mais próximos da realeza; tornara-se mesmo um dos principais confessores dos nobres de Lisboa. Escutava cada coisa... mas se nos autos de fé era cruel, nas confissões ele era doce, terno, falava com uma voz de seda e, principalmente, com persuasão. Fizera assim bastante aliados - porém, reiterando, nenhum amigo.

Muitas das confessas, a maioria casadas ou viúvas, quiseram se deitar com ele; mas ele, já acostumado ao celibato desde a ordenação, negava. Pois além do medo de matar a uma mulher como quase matara a algumas em seu passado, agora tinha suas perversões sexuais em outro lugar: nas torturadas. Arrancar os seios, extirpar os órgãos, arrebentar com orifícios anais e vaginais, já lhe dava prazer suficiente; prazer que sexo "comum" jamais daria. Sempre se excitava diante dos torturados, embora não desse para ver por causa do hábito ser largo; e sempre, na clausura, se masturbava ardorosamente ao pensar nas costas dilaceradas, nos membros arrancados, no sangue a correr solto nas torturas prévias.

Era mais seguro assim.

De mais a mais, ainda desejava a sua "virgem ideal", mas não tinha muita esperança de consegui-la; era frade, ironicamente uma das poucas coisas que lhe eram privadas como inquisidor era justamente casar-se; as que se dispunham a ser amantes eram todas usadas, fossem nobres ou plebeias; havia famílias pobres que vendiam virgens de doze ou treze anos a quem quisesse comprar, mas eram muito novas. Ele queria uma mulher assim, com vinte e poucos anos ou até mais, quase trinta; como era Teodora quando o adotara.

Não havia coisa mais impossível, no entanto, do que conseguir a uma virgem dessa idade disposta a ser amante de um eclesiástico. A maioria das que se conservavam castas até essa idade não aceitariam ser de um homem senão dentro do casamento. Colocara portanto a virgem ideal no plano das ideias e voltara seus esforços às torturas e demais trabalhos que o Santo Ofício lhe proporcionava.

Então, aos trinta anos de idade, com nove de ordenado e sete de inquisidor, fora convocado para voltar ao Brasil.

Informara-se do caso; era enviado para Minas Gerais, com a suspeita de cristãos-novos que ainda praticavam a sua fé às escondidas da igreja; no entanto, também ia por causa do contratador João Fernandes, o qual se exaltara ao dar poder demais a uma manceba sua; uma tal de Xica da Silva, escrava forra, a qual gostava de se fazer "rainha" da região.

Havia também especial recomendação de uma senhorinha, uma tal de Violante Cabral. Solteira, filha de fidalgos, era conhecida como uma das mulheres mais direitas do local, o Arraial do Tijuco. Ela tomava muito a frente dos assuntos políticos na região, uma vez que o contratador deixava tudo correr à solta como Xica queria.

Expedito sorriu, irônico:

- Uma terra onde duas mulheres brigam para mandar? Ora vejam, isso está é precisando de homem para botar ordem na casa! Quando parto?

Partia em breve, ele e mais alguns frades subordinados seus. Assim que chegara ao local, conhecera João e Xica - uma mulherzinha aparecida, petulante, com ares de "sinhá" sem saber falar direito. Mas manteve silêncio; haveria a sua hora de lhe dar o devido quinhão.

O arraial andava uma balbúrdia; integrantes do quilombo próximo haviam arrasado com tudo recentemente. Havia muitos mortos e sangue pelas ruas. Mas como aquele era assunto laico, ele deixou para que o braço secular o resolvesse.

No primeiro dia, conhecera os padres da paróquia e logo reparara que o mais moço deles olhava com langores a uma moça que estava acoitada na igreja. Sorriu de canto. Todos eram assim, por mais que dissessem não o ser.

Logo no segundo dia, estava na igreja quando uma mulher pediu para sentar a seu lado e conversar consigo. De primeira, levara um susto: era o espírito de Teodora, certamente, só que mais jovem, que vinha atormentá-lo naquela hora. O mesmo vestido preto, a mesma mantilha, o mesmo ar amargo no semblante - embora ela tentasse ser educada e gentil, muito religiosa, fazendo o sinal-da-cruz. O mesmo crucifixo enorme no pescoço. O mesmo cheiro das velas que queimavam no altar da igreja.

Mas logo a ilusão se desfizera: ela se apresentara afinal.

- Sou Violante Cabral. Devo ter-lhe sido recomendada.

Era ela a solteirona que disputava o mando do povoado com a tal de Xica?! Céus, era Teodora todinha! Jamais pensara que uma mulher fosse tão semelhante à sua tia!

Violante falava e falava, mas ele "escutava" muito mais a sua linguagem corporal que suas palavras, inquisidor experiente que era. Por trás daquele discurso de "colocar ordem no arraial" e "extirpar o pecado", havia uma razão muito mais secreta, muito mais profunda por tê-lo chamado, que ela não ousava lhe revelar.

E por trás daquele amargor, havia uma mulher sofrida e também muito bela. Reparando bem, sua tia era mais atarracada, os cabelos mais escuros e bastos. Violante tinha os cabelos castanho-claros, porém usava o coque usual das solteironas, e junto com ele um complicado penteado de tranças - que ele logo idealizara em desfazer enquanto a possuía.

Sim, ele a desejara loucamente desde o primeiro dia em que a vira. Era bonita, podia adivinhar as formas bem feitas de seu corpo por baixo do vestido negro e recatado. Era mais que simplesmente um corpo bonito: era a mulher, a "virgem ideal" que ele quisera a si desde o tempo do seminário, e que pensara não existir.

Após aquele dia, passara a perguntar sobre a sua história ao padre Aguiar - um velhinho muito simpático, muito amigo das beatas, porém também muito ingênuo. O senhor respondera tudo, sem sequer desconfiar dos verdadeiros propósitos de frei Expedito. Dissera que Violante, coitada, havia sido abandonada por dois noivos. Um deles fora morto na forca por tráfico de diamantes enquanto tentava fugir com uma prostituta; o outro, o tal de João Fernandes, a abandonara para se amancebar com Xica da Silva, à época escrava, a qual depois dera alforria.

Era Teodora escrita, até mesmo no drama do noivo.

Perguntara se era moça honesta. Era; até nos noivados não queria beijos na boca, se bem que houvesse sido beijada talvez algumas vezes; mas nunca permitira abusos.

Era ela! E então Expedito substituíra às torturadas por Violante em seus sonhos eróticos; passara a se masturbar pensando nela, com vontade de possuir aquele corpo e depois trancá-la para ser apenas sua, não só no corpo mas também na alma. Queria fazer dela o seu experimento de extensão de si; queria tomar a Violante em todo seu âmago, extirpá-la de si e de suas vontades.

Mas ela, assim como sua tia, era voluntariosa. Ele ainda não tinha poder suficiente para prendê-la e dominá-la fisicamente, então a dominaria por favores. Faria tudo que ela quisesse - desde que ela pagasse com sua dignidade depois. Era difícil uma mulher daquela idade e posição social se transformar em amante de eclesiástico, ainda mais sendo tão pudica e recatada, mas ele tinha que tentar antes de desistir.

Ela o convidava para ir à sua casa e deliberar sobre as bruxarias do arraial - principalmente as de Xica. Ora, Expedito sentira que Xica era uma mulher de gênio forte - assim como Violante também o era - mas não via nela uma bruxa. Percebia, isso sim, uma vontade enorme da parte da solteirona em condenar à mulher que supostamente roubara a seu noivo de si.

O frei não se importava em condenar inocentes, desde que lhe fossem úteis em algum propósito. Não teria escrúpulos em matar Xica, desde que tal morte lhe jogasse Violante nos braços. Armou junto com a donzela contra Xica, até mesmo contra padre Eurico - o padre mais moço que gostava de Eugênia, a moça acoitada na igreja.

Com o tempo, o frei percebera que a fidalga tinha uma característica diferente de sua tia, além das que já havia percebido.

Violante ainda tinha alguma esperança de ser amada, não era puro amargor. Ela sorria a ele, gostava quando ele beijava a ponta de seus dedos; e quando Expedito, de propósito, lhe tocava o rosto, ela fechava os olhos de prazer e dizia:

- Gosto tanto de seu toque... é cheio de bondade para comigo...

Estava quase no papo. Apenas não se entregara ainda por ser "direita", por temer a desonra; mas o frei lia claramente em seus olhos que o desejava já. Era uma mulher carente, já sem pai nem mãe, alguns dramas bastante difíceis com os irmãos. E ainda havia aquela tal de Xica e a rivalidade entre ambas. João Fernandes desprezava a donzela abertamente, dizendo que preferia morrer a se casar com ela. E ela insistia nele:

- Um dia virei a me casar com o contratador!

Ah, que tolice...! O inquisidor ali, com os braços abertos a ela; a virgem ideal que ele tanto desejara na juventude, e ela só tinha olhos praquele infeliz que nada entendia de mulheres beatas como a si! E assim como Violante dizia: "Um dia me casarei com João!", o inquisidor em seu íntimo repetia: "Um dia possuirei essa mulher!"

Algumas vezes, Expedito se excedera e praticamente a convidara a ser sua amante. Como no dia em que dissera desejar ter filhos, assim como ela desejava. Perguntara diretamente se ela gostaria de se casar com um homem como ele! Mas então vira o pejo no rosto dela, que se afastara:

- É um sacrilégio somente pensar nisto, meu senhor!

Inferno! Podia tudo - até mesmo torturar o capitão-mor da vila sem sofrer sanção alguma - porém não podia justamente ficar com ela! E a cada noite se tocava pensando em Violante - em dominá-la, em possui-la por inteiro.

Continuou a frequentar sua casa sempre que podia - mais ainda do que João Fernandes frequentara no tempo em que fora noivo dela. Violante o ajudava e ele também fazia o mesmo por si. Eram muitas as vezes em que quase se excedera, com ímpeto de possui-la ali mesmo, na sala de visitas. Mas jamais poderia se dar ao luxo de tal escândalo; prezava muito por sua imagem pública.

A moça também não ajudava: a cada dia o elogiava mais, dizia que ele era um homem admirável; que há tempos não chegava no arraial um homem de seu porte! Céus, era só ela querer! E ela não queria, insistia naquele inferno de pejo, de recato. Se soubesse quantas na corte, dentre suas confessas, quiseram ser suas amantes! Justo a mulher que ele queria ardorosamente, negava!

Se ela quisesse ser sua amante, as coisas poderiam ser feitas com discrição; mas resistia! Ficava naquele "namoro" velado, com elogios e olhares de desejo, mas não passava disso. Estava já a ficar louco!

Até o dia em que João Fernandes fora embora para Portugal. Não era possível que ela continuasse com sua sanha de querê-lo. Não! Expedito ficaria com ela afinal; apenas precisava convencê-la de que não era indigno ser sua amante, e a teria nas mãos.

- Agora, com a partida de João Fernandes, vossa mercê pode pensar em outro homem...

- Engana-se ao supor que não penso em outro homem. Eu penso... mas só sinto admiração por homens fortes... como o senhor. Porém, justamente vossa mercê não deve ser visto como homem!

- Vejo fagulhas em seus olhos quando me mira...

Sim, ela não podia negar. Violante o queria, e se privava à toa, perdendo tempo. E ela:

- Sim, eu o admiro profundamente. O senhor é o único que poderia me salvar...

Salvá-la, possui-la, tomá-la toda para si... fazer dela uma extensão de si, como planejava!

-... mas não pode! É sacerdote, então paremos de falar sobre isso.

Inferno! Mil vezes inferno, raio de mulher que defendia a honra com tanta insistência!

Fora quando Violante ultrapassara a todos os limites do aceitável: para condenar Xica, pagara a uma escrava a fim de esconder um vaso pagão em um baú na casa dela. Quando a fidalga fingiu saber da informação como se fosse fidedigna, Expedito dissera-lhe que era condenação garantida. E ela sorrira a ele, já sabendo que tudo ia dar certo.

Dera. Muitas pessoas depuseram contra Xica - as que a odiavam porque ela era de fato petulante e as que foram compradas por Violante em sua ânsia de condenar a rival. A ex-escrava fora condenada, porém... tempos depois, a moça fora até Expedito, o ar descomposto:

- Eu me enganei, não foi ela quem praticou bruxaria! Foram suas mucamas. Tenho uma escrava como minha testemunha!

Era demais. Afinal de contas ela queria ou não matar a outra?! Não gostava que brincassem consigo; Violante podia ser a mulher que ele desejava, mas não o faria de bobo. Descarregara aquela raiva ao torturar a escrava que mudara o depoimento, com raiva, com ânsia de exercer poder.

E após isso, cobraria a seu "preço" afinal. A fidalga não salvava a Xica à-toa; havia alguma coisa que queria ganhar, isso ele sabia bem. Mas os serviços de um inquisidor, principalmente os dele, não eram gratuitos. Ela não o manipularia daquela forma sem que ele ganhasse algo em troca.

Adentrou o quarto de dormir da donzela, fizera com que a mucama saísse e a beijara ardorosamente na boca. Tinha certeza de que a moça jamais fora beijada com tamanho ímpeto em toda a vida.

- Meu senhor, que pecado é esse?!

Então o frei se revelou. Sabia da mentira: Violante colocara o vaso na casa de Xica e a acusara em falso! Todos sabiam que mulheres desejadas por inquisidores somente tinham um destino: ir para a cama com eles ou à fogueira. Ainda mais num caso claro daqueles de difamação.

Declarara que a amava, mas não era verdade. Não; ele sabia que não podia amar como os demais. Era outro tipo de desejo: uma dominação, uma obsessão, mas jamais amor. Esse era um sentimento que ele nunca conheceria. Mas o nome "amor" adoçava até mesmo os ímpetos mais duros, como os de Violante.
- Vai me forçar a ser sua?!

Quisera saber onde ela queria chegar. Para que libertara a sua rival, uma vez que já estava condenada?

E a moça - só então ele reparara, estava radiosa; largara o preto e vestira lilás, estava fresca como uma donzela de dezoito anos, embora à ocasião contasse com cerca de vinte e seis - lhe dissera:

- Vou a Portugal me casar com João Fernandes.

O inquisidor então percebera tudo: ela fizera com que Xica fosse condenada e depois trocara a vida dela por aquele casamento. Enfim, a fidalga conseguira o que sua tia não: casar com o noivo que a abandonara.

Pela primeira vez na vida, o implacável frei Expedito fraquejou. Podia dizer a ela que somente liberaria a Xica caso sua primeira noite fosse dele. Podia dizer que a denunciaria caso não fosse sua amante. Era o que os inquisidores faziam usualmente com mulheres bonitas as quais desejavam.

Mas não foi o que ele fez. Ao ver Violante com um vestido fresco, luminoso, o olhar de alegria novamente em seu rosto, pensou que negar o casamento fidalgo que ela queria era o mesmo que condená-la a morrer de negro na porta da igreja, como sua tia Teodora morrera. Negar o noivo a ela seria o mesmo que negá-lo à tia, a qual sempre o culpara por seu noivo não ter retornado.

- Não. Eu nunca a denunciaria. Eu a amo, senhora dona Violante.

Não amava, era essa a verdade. Mas na hora de "cobrar o seu preço", fraquejara pela primeira vez na vida. Diante de uma mulher. Coisa que jamais imaginara fazer.

Deu-lhe mais um beijo e saiu do quarto. Aquele segundo ósculo fora tão pungente, que ele tivera certeza de que se não fosse pelo recato e pelas "normas sociais", ela se entregaria a ele naquele mesmo momento. Violante, embora noiva de outro, correspondera tão ardorosamente, que ele tinha certeza de que ela se casaria com ele próprio caso não fosse sacerdote. E justamente seu sacerdócio, o que ele ironicamente tanto gostava de exercer por causa do poder de clérigo e inquisidor, era o que a negava a si.

Libertara a Xica. Despedira-se de Violante no dia da partida, afinal de contas. Ela o agradecera, pois creditava grande parte de sua felicidade ao fato de ele ter sido eficiente como inquisidor.
Então Expedito a vira ir embora. Então ofendeu as mulheres intimamente, como se fossem todas umas vagabundas. Todas lixo. Todas o mal do mundo! Iria torturar umas vinte delas, acusadas de bruxaria, somente para descontar nelas toda a raiva que sentia também de Violante, mas principalmente de si próprio por tê-la deixado partir.

Por meses, ficara naquele tormento. Ainda se masturbava pensando nela, porém dessa vez concluindo que jamais encontraria alguém tão próxima de sua "virgem ideal". Jamais! Nem na idade, nem no pejo - pejo esse que a negara a si - nem na correspondência com Teodora. Jamais! Que grande idiota fora!

E então involuntariamente vinham-lhe imagens da moça se deitando com o marido, dela sendo feliz com ele - feliz como ele jamais fora com ninguém. Percebera que nunca fora íntimo de pessoa alguma; nem das amantes, nem de sua tia, nem dos colegas ou preceptores no seminário. Violante fora a pessoa mais próxima de si, e nem ela de fato fora próxima. Expedito não deixava que pessoa alguma ficasse muito íntima de si.

Após certo tempo, o rei o chamou de volta a Portugal. Ele fora, e lá voltara a assumir seu posto como confessor dos nobres e como inquisidor - lá inclusive havia bem mais almas a torturar e julgar que no Brasil. A inquisição sempre fora mais forte e mais prolífica na Europa; e naquele momento, principalmente, na península ibérica.

Numa ocasião, ouvira algo em uma confissão que o exasperara:

- E a última daquele tal de João Fernandes?

- João Fernandes?

- Sim, o que fora contratador dos diamantes nas Gerais, no Brasil. Falam que ele fez tanta bobagem, que foi destituído do cargo.

- Eu soube disso. Estive no local onde ele foi contratador e pude bem ver as asneiras de que é capaz!

Expedito tentava brincar com as palavras, porém no fundo temia escutar qualquer coisa sobre ele. Afinal de contas, estava casado com a mulher que ele desejara...

- Dizem por aí que ele abandonou a esposa numa torre, trancada, sem vê-la!

- Esposa? Qual o nome dela?

- Violante Cabral de Oliveira. Dizem que enlouquece a olhos vistos.

O frei piscara algumas vezes. Sempre soubera que o casamento de Violante e João Fernandes não seria grande coisa: por ser confessor dos nobres, sabia que a maioria dos casamentos fidalgos eram complicados e infelizes. Ainda mais João Fernandes sendo praticamente forçado a casar com uma barganha daquele tipo. Mas no começo, ao menos, pensava que ele faria uma "boa figura". Abandonara a Violante assim tão cedo?!

- Como assim, ela enlouquece?

- Ora, segundo os convidados da festa de casamento, ele a abandonou logo em seguida à cerimônia. Sequer consumou a noite de núpcias. Já a chamam de "a noiva virgem" nas rodas, pois sabem que a pobre coitada, se continuar desse jeito, nunca conhecerá homem na vida.

- Mas isso é um despropósito!

- Pois não digo? Esse João Fernandes só faz tolices. Dizem que o rei o tem cada vez mais em má conta; não me surpreenderia se o expulsasse da corte em breve.

Por mais algum tempo, Expedito deu corda ao assunto daquela confissão, porém logo sentiu necessidade de sair dali e "colocar as coisas para funcionar".

Àquela noite, não dormira; tomara os livros de direito civil, direito canônico, os manuais da inquisição e lera e relera determinados trechos deles muitas vezes. Também lera as atas do processo que condenara primeiro a Xica na fogueira e depois a suas mucamas, por bruxaria. Então riu. Riu como poucas vezes aquele seu coração de pedra o permitira rir na vida. Riu porque Violante já era praticamente sua.

Após todas as esperanças findas, finalmente a teria!

Era fácil: primeiramente, pedira a anulação a João Fernandes por carta; o caso da noiva abandonada era conhecido, todos sabiam dele na corte e havia testemunhas. Juntava-se a isso o fato de ele estar com a moral tão baixa perante o rei, que provavelmente nada poderia salvá-lo.

Como já previra, João Fernandes negara a anulação. Alegara que Violante poderia persegui-lo caso estivesse livre, como fizera por três anos seguidos no Tijuco. Expedito lhe prometera que ela jamais o procuraria outra vez. João negara outra vez.

Então o inquisidor teve de usar de outros meios. Dissera a ele que como Xica fora mandada à fogueira por bruxaria e depois suas mucamas, que seria impossível que ele próprio, João, não soubesse das atividades mágicas delas em casa; tanto ele quanto Xica. Eles poderiam ser, inclusive, indiciados por serem cúmplices de bruxas confessas e acobertá-las!

Não só ele e Xica, como também a filha dele que nascera no Brasil e devia ter menos de dois anos de idade. Não, a inquisição não poupava sequer crianças. Se não lhe desse a anulação, destruiria àqueles a quem mais amava, além de si próprio.
João Fernandes empalidecera. Quando Xica fora condenada, sequer o rei pudera intervir; apenas Violante, com sua influência, sabe-se lá como, interviera e fizera com que ela fosse salva.

Procurara o rei. O mesmo fez um gesto de desdém ao ler aquelas cartas:

- Inquisidores não fazem caridade. Expedito quer sua mulher é pra ele, na cama dele. Isso é o que ele quer.

- Como eu poderia fazer isso?!

- Entenda uma coisa, senhor dom João Fernandes: homens como o inquisidor Expedito fazem as coisas "à fidalga". Ele já conhecia a senhora dona Violante?

- Conhecia. Eles tiveram um relacionamento próximo quando o frei fora designado inquisidor no Tijuco.

- Ora, está explicado! Sendo Expedito do jeito que é, nem sei como a deixou partir para casar-se consigo. Mas agora que descobriu que o casamento nunca passou de pura fachada, quer a mulher pra ele. Nada mais natural entre inquisidores, são sempre assim. A única coisa é que ele deve ter percebido que se a tomasse quando era ainda fidalga, donzela e noiva no Tijuco, acabaria por manchar a imagem pública perante a corte e o clero. Agora, ele tem a oportunidade perfeita de tomá-la discretamente, como no geral os da classe dele o fazem. Senhor João Fernandes... se houvesse se deitado com sua mulher ao menos no primeiro mês de casados...! Ele não conseguiria a anulação tão facilmente. Mas agora ele posa de "benfeitor", um clérigo que quer salvar a uma pobre moça de ser solteira dentro do casamento. O que não é a verdade em relação às intenções dele, mas...

- Vejo que é tão difícil entregá-la...

- E por que? Não a detesta? Não a abandonou naquela torre enquanto ela corria atrás de si, implorando pra que não se fosse?

- Eu sei. Mas... pensei em dar um castigo a Violante após tudo o que me fizera. E agora o inquisidor a liberta!

- Quer castigo pior a uma fidalga que ser mulher de frade? Nunca ter filhos legítimos, nunca passar o nome da família adiante?

- Sempre pensei em isolá-la, mas nunca em forçá-la a ser de quem não desejasse.

- Aí é entre eles. Na prática, ela indo para a casa de Expedito, ele simplesmente a força a ser dele dentro de casa, pois estará no território dele. E não há lei que possa impedi-lo: na superfície, ele simplesmente a salva de um casamento falido e a põe como governanta de sua casa. Ninguém vai se meter sobre o que acontecer lá dentro. Ele é esperto: sabe como e quando agir. Homens assim somente abrem o jogo quando ele já está armado, prestes a dar o bote certeiro. Não são como o senhor, que espera se desgraçar publicamente para então, e somente então, fazer algo a respeito...

João Fernandes olhou feio ao rei, mas nada disse. Não estava em condições morais de replicar.

- Que me aconselha a fazer?

- Se não quer perder a vida, nem ver a sua antiga manceba e sua filha na fogueira, entregue Violante a ele. Eu que não me meto com a inquisição. Eles podem mais que a realeza, ainda mais com provas e atas antigas de processos como ele tem. De mais a mais, poucos homens no reino são tão implacáveis, cruéis e inteligentes como o inquisidor Expedito. Eu não me meto com um homem como ele; não me meteria se fosse o senhor. Quando pega algo em suas garras, não larga nunca mais.

Não houve portanto escolha a João Fernandes - aquele homem libertino, que sempre desfizera do amor de Violante, mas que contava com ele seguro para sempre a si. Agora tinha de entregá-la a outro, mas paciência. Apenas exigiu de Expedito que fizesse com que ela jamais procurasse à sua pessoa outra vez.

O inquisidor garantiu que ela jamais passaria pelo caminho de João Fernandes, ou Xica, ou qualquer outra pessoa próxima a eles enquanto ele próprio vivesse. E assim, com o sorriso de vitória nos lábios, entrara com o processo de anulação do casamento - junto com a autorização do antigo contratador de diamantes para que tudo corresse com seu consentimento.

Ah, como antegozara aquele momento em que ela finalmente seria sua...! Algo dentro de si reverberava para que não a forçasse; queria que a moça cedesse ao recato e o aceitasse. Como a história com João Fernandes finalmente estava terminada, e em definitivo, era só convencê-la de que era lícito ser amante dele - sem pecado, sem pejo, como se fosse a posição de uma mulher direita.

Por isso escolhera bem a casa a qual comprara, com a ajuda dos diamantes que a própria Xica lhe dera tempos antes; as criadas que cuidariam de tudo, uma vez que jamais colocaria outro homem na mesma casa em que habitaria com Violante; e enfim, pedira a João Fernandes avisar aos criados que a possuiria dentro de seus aposentos, como se ele fosse então seu marido por direito.

Foi a contragosto que o fidalgo o fez, pois não gostava de violações. Ele próprio tinha muitas mulheres, mas não forçava a nenhuma. Só que em seu caso não havia jeito: era da inquisição que se tratava, e o jogo, como o rei mesmo lhe alertara, estava bem armado e não tinha falhas.

Expedito sabia que Violante estava fragilizada, implorando por amor em seu íntimo, mas não sabia que seria tão fácil. Esperava inclusive levá-la para casa, previa que talvez ela não se entregasse já no primeiro dia, no castelo; ficaria um tempo com ela ainda virgem por lá; pediria para deitar ao seu lado "sem nada fazer", apenas acariciar; um beijo, quem sabe? Um abraçomais apertado, quem sabe? Uma mão em seu seio, quem sabe? E então, um dia, já tão carente de homem, com todo aquele desejo que ela tinha de macho e que ele sempre pressentira em si, ela se entregaria de livre e espontânea vontade.

Mas não fora necessário esperar; aquele ano trancada na torre mudara muitas disposições da parte dela. Se no arraial Violante se negava baseada no recato e na vontade de se guardar a um casamento fidalgo, após aquele período de aridez e sandice; com medo de enlouquecer e morrer sem nunca ser amada; o frei lhe aparecia não mais como um sacerdote que pervertia a honra... mas uma luz no fim de um mundo de escuridão e tristeza; a única salvação possível, o único regato de água após uma seca indescritível e dolorosa.

Portanto, fora logo no primeiro dia. Ela quisera logo, afoita, louca pra ser de homem como ele sabia que ela era. E enfim a desvirginara, a possuíra por completo. Finalmente tinha o direito de levá-la para casa e a trancar, mandar nela, fazer com que abaixasse todo aquele orgulho de mulher voluntariosa que tinha.

Era como se, inconscientemente, dominasse a sua tia, a qual na infância sempre o dominara; era como se, ao desvirginar uma donzela já temporã, ele consertasse o destino de Teodora, a qual morrera ainda intocada, aos quarenta e cinco anos, na porta da igreja.

Mas o trabalho completo ainda demoraria para vir. Fazê-la sua, escolher o que vestia, deitar-se com ela todas as noites, era pouco. Trancá-la em casa sem poderes, sem visitas, era ainda muito pouco. Queria possuir sua mente, seu ser. O trabalho apenas começava, e talvez demorasse para ser concluído.

OoOoOoOoOoOoO

Quando terminou de rezar, Violante foi até o inquisidor. Recatada como ainda era, apenas ousava tomar sua mão entre as dela; não achava direito mulher de família pedir para que o homem a beijasse na boca, muito menos que a tomasse. Achava que isso era papel de mulher devassa. Pensava que era sempre o homem quem deveria tomar todas as iniciativas naquele âmbito.

O inquisidor sorriu a ela e a beijou nos lábios.

- Já rezou?

- Sim. Agradeci tanto por tê-lo, meu senhor.

- Se pudesse, seria casada com outro homem?

- Não! Tenho certeza de que nenhum me faria feliz assim.

Expedito sorriu outra vez. Violante, mesmo esperta como era, em meio à sua sede de amor não percebera que o sorriso dele tinha garras - como na maior parte das vezes em que ele sorria.

Tinha garras, pois o trabalho estava a ser muito mais fácil do que ele esperava; ela se entregava completamente, sem que o frei precisasse fazer muito ou praticamente nada. Soubera assim que a vira, de preto na igreja àquele dia, que Violante seria a mais fácil de transmudar em uma extensão de si. E não se enganava: os ventos sopravam todos a seu favor.

To be continued

OoOoOoOoOoOoO

Há nesse "flashback" cenas da novela e algumas que inventei. Teodora, por exemplo, não tem na novela. Coloquei dessa forma porque penso que ficaria mais verossímil ambos retomando a seus passados numa relação completamente desequilibrada e não-funcional.

Dizem que sociopata já "nasce" sociopata, mas algumas coisas ajudam a solidificar o comportamento.

E pior que na vida real tem gente que de fato tem mais tesão em machucar do que em outra coisa. São parafilias bem pesadas. Na fic, coloquei que ele só consegue "gostar" de dar uma com a Violante porque ela lembra a tia dele. É, é meio sinistro, incesto "indireto", mas e agora. Assim como o inquisidor lembra o pai dela (nos modos, não na aparência - o inquisidor embora fosse um capiroto de ruim era bonitão até, já o pai da Violante era feio que nem o cão chupando manga, mas os abusos eram bem parecidos).

Há algumas coisas que não coincidem com a realidade, como por exemplo: os inquisidores nunca poderiam ser tão jovens; apenas a partir dos quarenta anos. Porém, na novela mesmo, na época o Dalton Vigh, ator que interpretou o frei, não aparentava ter quarenta de forma alguma (se bem que hoje tem mais de cinquenta, mas enfim, o tempo passa para todos, rssssss).

Assim como em toda história de época não consigo colocar o povo porcalhão e sempre ponho uns banhos no meio. Já imaginou, além de apanhar e se ferrar toda, a Violante tivesse de ficar fedorenta e aguentar homem sujo em cima dela de noite? kkkkkkkkkkk! Também o povo não costumava ficar pelado pra fazer "aquilo" na época, mas ela tava tão necessitada que né... rsssss!

Também, única coisa que tá compensando pra ela é que finalmente tá tirando as teias de aranha "lá debaixo", porque no resto... e aliás, sexo por sexo, podia tar fazendo com outro! Não compensa jamais ficar numa relação desse nível de baixaria e violência por causa de sexo, dinheiro ou qualquer outra coisa. Sua dignidade em primeiro lugar.

No próximo capítulo, a história em si continua. Abraços a todos que lerem!