AVISO: CONTÉM CENAS DE SEXO, TORTURA, VIOLÊNCIA SEXUAL, LINGUAGEM IMPRÓPRIA. CASO SEJA MENOR DE IDADE OU SEJA MUITO SENSÍVEL AOS TEMAS TRATADOS, FAVOR CLICAR NO "X" ALI EM CIMA.
A AUTORA NÃO ENDOSSA OU CORROBORA COM OS ATOS NARRADOS; PELO CONTRÁRIO, OS EXPÕE A FIM DE QUE SEJAM MELHOR IDENTIFICADOS E EVITADOS.
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A MULHER DO INQUISIDOR
Capítulo 6
Nos meses seguintes, a relação progrediu de forma relativamente estável. Era de fato incrível como Violante esquecera das vinganças ou mesmo de que João Fernandes ou mesmo Xica existiam: para ela, naquele momento da vida, só existia a casa a qual ela chamava de lar e o homem a quem chamava de senhor.
Dois meses após o chá da senhora Amália, e cerca de três meses e meio desde que começaram a relação, o frei já começava a se exasperar. Estava a chegar em seu limite. No começo, com a sensação inebriante da conquista, de finalmente ter à mulher que por três anos quisera sem sucesso, ele estava satisfeito. Havia dias em que acordava e mal acreditava que conseguira mesmo domá-la após aquele período de tempo. E melhor ainda: ela correspondia apaixonada, louca por ele.
Tão louca por ele, que de noite após terem feito sexo, tudo que ela queria era carinho, o tempo todo; ele sempre soubera que a moça era carente por trás de toda aquela "capa" de mulher forte que ela usava no Arraial quando solteira, capa essa da qual agora ela se despia completamente, tendo homem todos os dias e uma rotina parecida com a de "mulher casada", que era o que ela tanto almejava.
Então, naquele período, tudo eram flores para ela: gostava de abraçar, de ficar junto, de fazer declarações de amor - coisas que nunca vivera direito antes, pois seus noivados haviam sido completamente sem demonstrações de afeto e quase mesmo sem beijos. Expedito não sabia como lidar com aquilo, pois as amantes pregressas que tivera eram só para sexo, jamais para aquilo de "carinho". Ele só entendia de machucar, de manipular, até mesmo de se fazer de cortês e educado - mas de afeto genuíno, nada entendia. Sequer de sua tia ele tivera algum sentimento positivo.
De sexo ele entendia, mas após o ato tinha de ficar ali, com Violante "se esfregando nele". Não compreendia como uma pessoa após ter o gozo da carne satisfeito, tinha tanta ânsia e vontade de ficar junto daquela forma. Ela era ainda uma mulher pudica, não se permitia tomar a iniciativa nas relações sexuais ou mesmo nos beijos na boca, mas era sempre quem tomava a iniciativa naqueles "carinhos" que não envolviam sexo e que ela considerava serem lícitos a uma senhora direita: naquilo de beijar no rosto, na testa, fazer afago nos cabelos - tudo isso ela queria, toda noite; e ele se aborrecia, não sabia como lidar. Mas lidava, pois era parte do trabalho que se propusera a fazer.
Ela estava satisfeita com aquilo, mas ele não. Pensara que como a fidalga se parecia com sua tia, ele se contentaria somente em possui-la de forma "normal", mas seu desejo "diferente" já começava a dar as caras outra vez. Quando ela ficava ali, abraçada com ele após o ato - às vezes nua porém nos dias mais frios vestindo a camisola de dormir que usualmente as mulheres usavam à noite - e, segundo ele, roçando em si as suas "curvas macias", como os seios, as coxas, as nádegas, o colo, o rosto mesmo; ele tinha ímpetos de tomar tudo aquilo e destruir. Como fazia nos interrogatórios, com as torturadas. Pensava que seria fácil fazê-lo com as próprias mãos, uma vez que ela era delgada, de compleição tão delicada... mas se continha e a muito custo. Ela teria de ser a sua torturada a longo prazo, portanto não podia ser destruída.
Tinha, no entanto, de descarregar toda aquela tensão, caso contrário não conseguiria se conter. Tinha de arrumar uma forma.
Em breve, conseguiu um jeito de fazê-lo.
Numa certa manhã, o frei acordando cedo como sempre, Violante o abraçou na cama e não o deixou levantar.
- Fique mais comigo... sentirei tanto a sua falta até de noite, meu amado senhor...!
- Não precisará sentir.
- E por que?
- Hoje sairemos juntos. Haverá missa especial outra vez na igreja, mais longa; as pessoas esperam vê-la lá.
O coração da moça deu um salto no peito. Lembrou da última missa na qual fora junto com ele: o tal de Antônio Carlos a cortejara sem que ela sequer soubesse, ela fora castigada de forma brutal - por mais que se esforçasse em pensar que seu homem fazia aquilo por amor, para discipliná-la e torná-la menos pecadora aos olhos de Deus, no fundo de seu peito pensava que não merecera aquilo tudo; que seria necessário somente ele conversar com ela, pedir para que fizesse o jejum mas sem bater; até mesmo as roupas dela quem escolhia era ele! Que mais faltava para ela ser considerada uma mulher direita e indigna de apanhar na cara? - e a seguir o terror da noite passada em penitência, em desespero dentro do quarto, os pesadelos sem fim. Tudo isso a assombrou de tal forma, que teve medo de ir. Na casa de dona Amália não tivera medo, pois haveria somente mulheres; mas, e na igreja?
- Meu senhor, e se houver mais algum homem lá que me mire de forma imprópria, como ocorreu da outra vez?
- Minha senhora, caso esteja de coração puro, não precisará se preocupar; nenhum homem vai mirá-la de maneira imprópria caso sua alma esteja limpa.
Nada mais restou a ela a não ser assentir e levantar-se para ser vestida - mas em seu peito ainda tinha medo, ainda tinha receio de aquele passeio acabar mal como o outro acabara.
Após se vestirem e tomarem o desjejum, saíram para a rua. Na carruagem, Expedito tomava as mãos dela e as beijava - embora não com tanto ímpeto como no começo; nos primeiros tempos era necessário ter o máximo de cuidado com ela naquele quesito. Após algum tempo, tais atenções já se tornavam menos corriqueiras - mas Violante não tinha sossego. Tinha medo, receio do que ia encontrar na igreja, e não conseguia relaxar. Quando chegaram à igreja, Violante quase sentiu pânico. Porem, se conteve; olhou para todos os presentes, os cumprimentou e pensou em quem seria o tal de Antônio Carlos, se é que estaria presente; tentou limpar os pensamentos, as coisas ruins que lhe acometiam a mente, e mantê-la "limpa" a fim de não atrair o olhar indesejado de pessoa alguma.
Por um tempo, nada de tão anormal aconteceu. Expedito passou o tempo todo a vigiar Violante, olhando de longe sem que ela percebesse. Ela se comportava de maneira exemplar: somente a assistir a cerimônia, tomando o terço nas mãos e mal olhando para o lado.
No entanto, no intervalo da mesma, por volta do meio-dia; a fim de que os presentes pudessem comer algo e depois voltar; Violante saíra de seu lugar e procurava com os olhos a figura de seu homem, quando foi interpelada por um senhor de têmporas grisalhas, porém os cabelos no cimo da cabeça ainda pretos, embora começassem a rarear; a fisionomia gentil, a sorrir.
- Muitas boas tardes. Sua graça é senhora Violante, estou errado?
- Ah, não...! Este é de fato meu nome. E o seu?
- Chamo-me Antônio Carlos.
Ao som de tal nome, a fidalga estremeceu. Era ele, e agora ousava vir a lhe falar diretamente.
- Minha senhora - continuava ele - não sei se o senhor frei Expedito, o qual agora é seu guardião na ausência de um pai, marido ou mesmo tio, falou sobre minha pessoa. Assim como vossa mercê, sou viúvo também; e espero casar-me em breve outra vez, com outra senhora também viúva.
Ela sorriu sem graça. Não sabia o que dizer, mas o coração saltava de tal forma dentro do peito em apreensão, que pensava ela todos perceberem de longe.
Antônio Carlos permaneceu a dar corda à conversa:
- Sei que posso parecer impertinente, mas seus modos me pareceram de uma moça muito direita, muito religiosa. E como, bem, como ambos já fomos casados e vossa mercê já não é mais uma donzelinha de dezoito anos... bem, também não a estou chamando de velha; apenas a dizer que é uma mulher feita, que já passou pelo casamento; então, penso que não é necessário passar por tantos protocolos. Senhora, se me permite, após o final de seu período de luto, eu poderia, com todo o respeito, cortejá-la?
Violante sorria de forma amarga; não sabia o que responder. Era claro que devia negar, mas não sabia como. Há muito tempo não era cortejada, não de maneira direta; até mesmo o frei, quando declarara que viveriam juntos dali por diante, o fizera sem cortejar e sim já a declarar que ela como que lhe pertencia a partir de então, pois já tratara tudo anteriormente com João Fernandes. Não sabia como responder, mas não precisou pensar por muito tempo mais.
Logo atrás do tal viúvo impetuoso, ela viu a figura de Expedito avançar a passos largos em direção a si; estava obviamente furioso, o semblante tão fechado que ela se sentia agredida somente em olhá-lo.
Todo o temor, todo o pânico, passou a um nível tal que Violante perdeu os sentidos na hora. O senhor que a cortejara tentou ampará-la nos braços, a fim de que não se estatelasse no chão; mas subitamente sentiu um repelão que quase o fez ir ao chão. Era Expedito que, chegando depressa à moça, sequer deixara que o outro encostasse nela.
Tomou-a o frei em seus braços enquanto ela estava desacordada, ao passo que uma roda de curiosos se formava em volta deles. Perguntavam o que acontecia; o inquisidor, apesar de estar visivelmente irado, tentava sorrir e dizer que "Não era nada de grande monta, apenas achaques de mulher".
Odiava toda aquela atenção; odiava as pessoas vendo a ele ali, exposto, com sua verdadeira e raivosa face à vista de todos. Tinha de se esforçar ao máximo para não se irar e explodir na frente de todos.
Após darem sais de cheiro a Violante, ao que ela acordou, todos ficaram mais tranquilos. Algumas damas se ofereceram para desatacar-lhe o corpete, outras para que tomasse um copo de água. A senhora dona Amália e sua filha, a que estava de barriga, foram as primeiras a lhe dar atenção e a abanar com leques dos quais dispunham.
- Já estou bem - disse ela, ainda pálida, piscando algumas vezes para se sentir mais consciente.
No meio dos primeiros momentos de calor, o frei chamara ao senhor Antônio Carlos de lado e lhe falou:
- Senhor... perdoe-me a intromissão, porém o senhor andou a cortejar a uma dama como a senhora dona Violante assim, diretamente, em plena igreja?
- Desculpe-me por ser tão direto, senhor. Mas sim, a cortejei. Pensei que por ser ela mais velha que as donzelas, e já viúva, que não faria mal...
Expedito sorriu aquele sorriso que transmitia mais terror e metia mais medo que inspirava simpatia - isso de forma inconsciente, seu ódio transbordando por todo seu semblante sem que pudesse disfarçar.
- Meu senhor, é como eu lhe disse: a senhora está fragilizada, ainda sente a falta do marido e o luto é recente. Caso ouça falar novamente de propostas de corte ou casamento, pode ser que passe mal. Por favor, não insista.
- Perdoe-me, de fato; vejo que fui inconveniente.
O frei sorriu outra vez e se afastou, sem replicar, como se com seu silêncio quisesse de fato confirmar a impertinência do outro; foi até Violante, a qual já se encontrava mais corada, as mulheres ainda a abanando e a fazendo se sentir mais confortável.
Ao ver o inquisidor, a fidalga empalideceu novamente. Ele disse então:
- Minhas senhoras, creio que como a senhora dona Violante não está bem, deve ser levada imediatamente para casa. Lá, pode descansar e tomar um escalda-pés, o que a refará. Eu a levarei.
Expedito tomou a mão da fidalga, ao que ela tremeu. A energia que ele desprendia de si era terrível e a fez arrepiar. Não era um arrepio bom.
Sem outra escolha, ela se despediu rapidamente de dona Amália e da filha - as quais sugeriam que fossem à casa delas (a filha de dona Amália, embora casada, morava com o marido na casa da mãe; arranjo muito comum naqueles tempos) para lá tomar o escalda-pés, descansar e poder até mesmo beber um chazinho - mas o inquisidor negou. Não deu muitas explicações, somente tomou a moça pelas mãos e a levou.
Ao chegar na diligência que os levaria, a ajudou a subir - mas sem maiores cuidados; somente porque caso não ajudasse talvez fosse difícil a ela, após o desmaio, subir sozinha sem tropeçar ou dar ainda mais motivo para que os outros falassem. Assim que entraram na mesma, ao fechar a porta, Expedito declarou:
- Como é que me dá esse vexame enorme em plena igreja?!
- Meu senhor, eu-
- Não diga nada. Em casa falaremos.
Aquela frase a fez gelar. Violante ousou olhar para ele de esguelha e viu que sua fisionomia estava carregada como àquele dia em que a deixara de jejum. O Expedito carinhoso e gentil dera lugar ao monstro outra vez.
Silenciosamente, em pensamento, Violante foi rezando o caminho todo até em casa. Pedindo a Deus que amainasse os ânimos de seu homem. Mas a atmosfera no carro continuava pesada, irrespirável. A moça tinha vontade de chorar, mas não o fez; com muito custo segurou as lágrimas e foi em silêncio até em casa, a cabeça doendo, o ar faltando no peito.
Assim que lá chegaram, mais uma vez o inquisidor desceu sozinho. Como já havia passado algum tempo desde o desmaio, a fidalga provavelmente poderia sair da diligência sozinha. Ela se apoiou, foi descendo aos poucos e enfim conseguiu entrar em casa. As criadas, as quais estavam tomando a refeição que haviam preparado a si próprias há pouco, estranharam os patrões chegarem mais cedo.
O inquisidor repetiu a história de que Violante havia passado mal - com a voz afável, já a conseguir se dominar melhor em sua ira. As criadas assentiram, deixaram a refeição pronta aos patrões e saíram, mandadas mais cedo para casa pelo frei.
Naquele meio-tempo, Violante rezara em silêncio o tempo todo, pois assim que as criadas saíssem, seu homem se revelaria outra vez aquele ser rude e mau. Aquele ser que ela nunca mais queria ver na vida.
Assim que fechou a porta da frente, após a saída das criadas, de fato, Expedito apresentou um semblante ainda mais fechado que antes.
- Vamos ao quarto.
- Meu senhor, perdoe-me, eu não quis-
- Ao quarto, sem dar um pio!
Já a chorar, sem conseguir mais segurar as lágrimas, a fidalga seguiu e entrou nos aposentos - ainda a rezar mentalmente, ainda a pedir forças para aguentar a tormenta que certamente viria.
De fato, assim que trancou a porta do recinto, o frei caiu de pancada em cima dela. E dessa vez não foram tapas somente: a tomou pelos cabelos, jogou em cima da cama e a esmurrou nas costas uma, duas, três vezes. Violante tossiu e gritou com a voz falha:
- Misericórdia senhor, que mal consigo respirar!
A muito custo ele parou de bater; se a matasse, se fizesse dano mais grave, seria ruim para sua imagem pública. Por isso dessa vez batera nas costas e não no rosto, pois as marcas não seriam visíveis a ninguém.
- Vagabunda... esse corpo todo a pedir homem, a cheirar como cadela no cio!
Pegou-a pelos cabelos novamente e a lançou no chão, chutando seu ventre em seguida. Ela se encolheu, tentando evitar os pontapés.
- Meu senhor, assim me mata!
As mãos de Expedito tremiam. As tranças de Violante haviam sido desfeitas por seu ímpeto de destruir. Mas ele queria destruí-la toda. Odiava-a, como odiava a sua tia; como odiava a todas as mulheres.
No entanto, havia uma grande diferença entre o Expedito que quase matara a duas amantes no passado e o de agora. O Expedito de antes era somente um aspirante a frade, um rapaz que mal engrolava umas frases em latim e sabia algumas rezas. Naquele momento, doze anos depois, ele era inquisidor experiente. Sabia, como inquisidor que era então, como machucar sem matar. Era essa a sua especialidade: agredir não com o sentimento à flor da pele; mas com método, com frieza.
- Eu devia deixá-la aqui dentro a pão e água, por dez dias no mínimo! Trancada, sozinha!
- Não! Não! Mate-me, quebre-me o braço, arranque minhas tranças fora, mas não me deixe aqui sozinha!
- Pois eu devia deixar!
- Não! Meu senhor, eu não suportarei outra noite daquelas!
Expedito sorriu ao ver o terror dela estampado nos olhos ao ver que ele somente citava o tormento que mais lhe dava medo.
- Não quer ficar sozinha?
- Não!
- Aceita qualquer coisa em troca?
- Qualquer coisa! Digo... apenas não aceitarei algo que fira a minha honra, como... me forçar a ser de outro homem.
O frei a pegou pelos cabelos e falou em seu rosto, respingando saliva nele:
- Tem de ser muito libertina para ter uma ideia dessas! Jamais, nunca jamais, eu deixaria que outro homem a tocasse!
- Pois eu não quero ser de outro homem! Não quero! Porém aceito a penitência que me der, menos ficar sozinha e ser de outro!
O inquisidor sorriu outra vez.
- Ajoelhe-se na frente do oratório, senhora.
Trêmula, pálida ao extremo, Violante foi até o oratório e se ajoelhou. O frei foi até a janela do quarto, observou para fora a fim de ver se havia alguém próximo, e a fechou. Embora fossem pouco mais de três da tarde, com a janela fechada o quarto ficava escuro e abafado.
A fidalga tremia de joelhos, o terço na mão, a imaginar o que ele ia fazer.
- Meu senhor...
Ouviu os passos dele se aproximando. Sentiu quando as mãos dele desabotoaram-lhe o vestido - vestido esse que tinha botões nas costas. Deixou-a com as costas nuas, desfazendo os nós do corpete. Depois acariciou-lhe a pele e beijou de leve os ombros, as marcas que deixara com os socos anteriores.
- Uma pele tão macia, tão imaculada...
Violante chorava. Aqueles beijos a lembravam de quando se amavam; de quando ela o sentia carinhoso a si, e não daquele jeito. Por que ele misturava carinho e castigo? Dessa forma, seria bem mais difícil se entregar às suas carícias outra vez, pois lembraria do martírio sofrido.
Ele se levantou e caminhou em direção à porta. Ela pensou que ele ia embora:
- Não! Não me deixe, por tudo que é mais sagrado!
- Não seja idiota, já falei que não vou sair! Vire-se para a frente do oratório, feche os olhos e não vire para trás, sob nenhuma hipótese. Caso o faça, eu a deixarei aqui sozinha, a pão e água, por dez dias no mínimo, como disse anteriormente!
Ela tremia, agarrada ao terço. Fechou os olhos, fazendo um esforço enorme para não virar para trás. Temia que ele saísse do quarto e a deixasse lá outra vez, porém esse mesmo temor fez com que não se virasse.
O inquisidor sorriu. Queria deixá-la no quarto, pois era o castigo mais doloroso a si; todavia, da outra vez em que o fizera, reparara que ela se debilitara muito rapidamente. Caso a deixasse daquela forma por muito tempo no quarto, sozinha e com pouca comida, temia que enlouquecesse de vez. E de que lhe serviria uma mulher completamente insana? Não; queria ela parcialmente destruída, porém funcional. Por isso tinha de ser metódico, racional.
Foi até o armário e tomou de seu chicote de flagelação. Olhou para Violante; ela de fato não se virara, estava obediente e quieta, apenas seu corpo tremia todo de nervoso. Em passos lentos, saboreando toda a sensação de domínio que tinha sobre ela, Expedito se postou atrás dela e proferiu, a voz novamente sem fúria; macia como seda.
- Senhora, está pronta para receber a penitência?
- Sim...
Ela respondera num fio de voz, frágil, tênue. Era assim que a queria ver: completamente dominada.
De uma vez, ergueu o braço e a chicoteou uma vez, deixando em suas costas uma marca profunda. Violante gritou de dor; ainda não sabia direito com o que ele lhe batia somente em sentir, porém a dor era excruciante.
O frei bateu mais duas, três vezes. Ela gritou; a partir da terceira vez compreendeu que era chicoteada. E então lembrou, mesmo que de forma involuntária, das vezes em que fizera o mesmo com certos escravos no Brasil.
Ele continuou batendo: quatro, cinco, seis. Ela continuou gritando: sete, oito, nove. O sangue começou a brotar das feridas: dez, onze, doze. Finalmente Expedito encontrara uma forma de puni-la fisicamente sem destruir ou matar por completo: treze, catorze, quinze.
Após a décima quinta chicotada, parou. Caso continuasse, o sangramento seria muito intenso e ela poderia desmaiar com o impacto. Expedito suava pelo esforço dispendido; respirava em grandes haustos, dessa vez de prazer e luxúria: à vista do sangue, ficara excitado imediatamente. Largou o chicote de lado, indo até a fidalga e retirando o resto de seu vestido, das anáguas, do corpete. Violante sentia o corpo todo doer; arrebentara o terço nas mãos ao receber as chicotadas, de tanta dor.
O inquisidor passou a mão, suavemente, por suas "curvas macias", como ele as gostava de chamar. Tomou um pouco do sangue das feridas e passou nelas: no bico dos seios de Violante, no umbigo, nos quadris, nas coxas.
Ele sussurrava de prazer, enlevado com todo aquele sangue. E de repente a fidalga percebeu que ele na verdade não estava a lhe aplicar uma penitência: estava a se excitar com sua dor. E fechou os olhos, não querendo enxergar que seu homem, aquele que se fazia de tão santo, era na verdade mais pervertido que a maioria dos outros que ela conhecia.
- Deite-se na cama, senhora...
- Meu senhor, não conseguirei deitar. As feridas não deixarão.
- Deite-se de bruços, com as costas para cima.
- Mas devemos fazer isso no meio da penitência? Não seria pecado?
- Maior pecado será se eu a possuir aqui mesmo, de frente ao oratório. Qual deles prefere?
- Eu temo tanto pecar contra os santos-
Impaciente, o frei endureceu a voz:
- Deite-se na cama ou eu vou embora e a deixo a pão e água, sozinha.
Ao ouvir a palavra "sozinha", a fidalga foi depressa, mesmo com as pernas tremendo. Preferia morrer - literalmente morrer - do que ser abandonada, mesmo que por pouco tempo. Deitou-se, já maculando o lençol com sangue assim que sua pele o tocou. Não ousava olhar para trás: sabia que Expedito devia estar a se despir, e naquela hora ela não queria vê-lo nu. Na verdade, não queria estar ali. Apenas era ainda mais doloroso pensar em ficar só, completamente só.
Como que adivinhando seus pensamentos, o frei, já desnudo pelo que ela podia sentir da pele dele encostando na sua - e como doía quando a pele dele resvalava, se era sem querer ou de propósito ela nunca saberia, em todas as marcas que o chicote lhe fizera, ainda tão frescas - sussurrou em seu ouvido:
- Não tema, minha senhora. Vossa mercê foi muito corajosa. Foi sim; poucas tem essa coragem de dar o corpo à flagelação como um ato de fé. Não há nada mais belo que a pele de uma mulher marcada pelo chicote... e com esse ato, vossa mercê comprou a minha permanência consigo por todo o resto da tarde e pela noite que virá. Não tema: eu a acompanharei por cada minuto, cada segundo. Mas cuidado: vossa mercê desejou tanto estar comigo, que provavelmente ficará cansada de tanto ter a minha companhia... muito antes do final da noite em si.
E ao dizer isto, ele a penetrou; um gemido de prazer resvalando por sua garganta. A fidalga gritou de dor outra vez: com a penetração, o corpo dele roçava sem parar em suas feridas, e ela sabia que dessa forma cicatrizaria bem mais devagar.
Ela também estava sem lubrificação, sem vontade de continuar; não sentia a mínima inclinação ao ato sexual àquela hora, não com aquele monte de machucados e com o frei parecendo um louco, e não o seu amante devotado. Violante fechou os olhos e esperou: ele não devia demorar tanto assim para acabar.
Expedito, no entanto, não dava mostras de que ia se cansar em breve. Estava afoito, passando a mão em suas "curvas macias", beliscando o bico de seus seios, não satisfeito com o efeito das chicotadas somente. Então, de forma inesperada, ele parou de penetrá-la e saiu de dentro de si. Com a experiência anterior que tinha, Violante sabia que ele não acabara; já se deitara vezes suficientes para saber quando ele atingia o ápice em si.
Sem ousar olhar, pelo que ouvia a moça depreendeu o que ele fazia: provavelmente se abanava com algum objeto plano que encontrara no quarto; a seguir bebeu um pouco de água e respirou mais um pouco. Depois, subiu em cima dela outra vez e continuou a penetração.
De repente, ela entendeu porque ele havia parado: Expedito queria prolongar o tempo de ereção e não gozar muito depressa. Afoita, querendo dizer "não" porém com medo de que ele saísse e a deixasse a pão e água, nada falou. Apenas travou os dentes e aguentou toda aquela dor, as feridas dela ainda sendo abertas pelo corpo dele em contato com o seu.
Após mais alguns minutos, ele saíra de si novamente sem atingir o ápice. Novamente se abanou, tomou água, sentou na cama. Que pretendia ele? Por quanto tempo ainda prolongaria aquilo?
Novamente ele voltou a possui-la, e novamente parou para descansar sem gozar. De repente, de forma involuntária, Violante se lembrou de Micaela, sua madrasta. De repente, sentia algo semelhante ao que a madrasta sentira. Queria parar, mas não podia. Não era ela quem determinava. E enfim, percebera o horror de seu ato para com Micaela: se ela, Violante, estava a achar aquilo horrível com um homem que ela amava mais que tudo; com um homem que ela simplesmente adorava beijar, acariciar e deitar junto; com um homem com o qual ela sempre sentia prazer em condições "normais"; que se diria de ser forçada por um homem que nunca se quisera, que nunca se desejara, que nunca se amara?
Começou a chorar e em seu íntimo, rezou pela alma da madrasta. Era certo que ela, Micaela, agira de maneira reprovável: mandara matar a seu pai, traíra a ele com o próprio enteado. Mas agora Violante percebia, ao menos um pouco, o que era a violação que Micaela sofrera por meses a fio na senzala.
Enquanto pensava nestas coisas, o frei gemia e resfolegava em cima de si. Seu corpo ainda roçava nas feridas de Violante, e para piorar ela começou a sentir o atrito da penetração ainda mais intenso, pois não estava lubrificada e o ato já se prolongava por um longo período de tempo.
Outra vez ele saiu, e dessa demorou para voltar. Pelo que ouvira, ele saíra do quarto. Violante já não temia ser abandonada, pois como ele dissera, ela se cansaria da companhia dele mais rápido do que podia prever.
Expedito se vestiu, tomou a ceia, se banhou ligeiramente e depois voltou a Violante. Ela nesse meio-tempo sequer se movera, com medo do que ele falaria ao voltar. A si, ela estava magnífica: as feridas já ficando amarronzadas pelo sangue coagulado, os cabelos desgrenhados... ah, ela se parecia tanto com uma torturada do Santo Ofício! E então o frei realizara a uma antiga fantasia sua: fazer sexo com uma mulher toda ferida, toda machucada, sangrando, coisa que antes não conseguira realizar por completo, pois ou elas fugiam, ou ameaçavam dar parte dele, ou ambas as coisas.
A noite caiu. E Expedito continuou naquela loucura de penetrá-la sem gozar, parar para descansar e depois voltar. Por quanto tempo, Violante não soube. Apenas de uma coisa ela teve certeza: no meio de toda aquela dor, daquela penetração indesejada e dolorosa, daquelas feridas sendo abertas pelo corpo do homem em cima de si, seu pensamento vagueou e passou a delírios de terror outra vez; como no dia em que ela fora presa no quarto sem comida. E de repente, delirou que estava a ser possuída não pelo Expedito que a amava, que a beijava e dizia palavras ternas; mas por um monstro pervertido, ávido por sangue e dor.
Fechou os olhos ante tal pensamento nefasto, pois ele lhe transmitia a ideia de adultério, de estar a se deitar com outro ser que não o seu homem. Porém, em sua mente ficara a dúvida: Violante estava a ter um delírio, ou simplesmente a enxergar quem Expedito verdadeiramente era por trás daquela fachada de afabilidade?
Foi então que ela sentiu: os dedos dele passaram a tocá-la em sua feminilidade, a fim de fazê-la gozar. Céus, não conseguiria gozar naquelas condições! Raio de homem vaidoso, que só conseguia terminar a uma relação sexual sabendo que ela havia gozado! Mas não tinha condições; daquele jeito não tinha!
Então Violante esperou um tempo e fingiu gozar. Ledo engano: ele percebera. Sempre percebia tudo. Não parou de estimulá-la, porém ela pensava não ser possível.
Demorou mais do que o normal, pois ela estava cansada, ferida e tudo, menos disposta ao prazer. Mas a necessidade de que aquilo terminasse, enfim fez com que ela gozasse de fato. Era um paradoxo: não era prazer o que ela sentia e sim somente necessidade de sair de uma situação. De qualquer forma, Expedito dessa vez percebera que ela atingira ao ápice de fato e então se sentiu livre para enfim ter o seu.
E foi com um alívio imenso que Violante o sentira ejacular dentro de si; enfim o martírio terminara. O frei então saiu de dentro dela, ainda a resfolegar, e deitou a seu lado.
- Estou exausto...!
Ela então, encontrava-se totalmente exaurida, ferida, cansada. Pensava em como e quando conseguiria enfim se recuperar plenamente.
O inquisidor riu. Riu como poucas vezes na vida fazia: até mesmo a fidalga estranhou, pois ele nunca era de rir.
- Muito obrigado, senhora dona Violante... acabou de me dar a melhor noite de toda a minha vida!
Pegou a mão dela e a acariciou de leve, mas esse gesto a enojou. Não queria ficar perto dele, não queria nada dele. Apenas queria que aquela noite nefasta tivesse fim.
- Vamos nos banhar, senhora. Eu já tomei um banho antes; porém preciso de outro, sim?
A moça tentou levantar da cama, mas era inútil: as pernas não respondiam, os membros estavam fracos. Vendo como ela se encontrava, o frei foi até ela e a ajudou a se levantar. Levou-a passando o braço em seu ombro até o lavabo, onde se banharam enfim. Ela gemeu de dor várias vezes, pois a água em contato com as feridas machucava profundamente. Isso sem contar a genitália, a qual estava ainda toda dolorida pelo longo tempo de penetração.
Expedito dizia-lhe: "Calma! Já vai passar!", como se fosse fácil; como se se tratasse somente de um pequeno corte ou escoriação, e não de feridas fundas.
Após se banhar, o frei fizera nela alguns curativos; aprendera a estancar sangue quando precisasse manter o interrogado para inquérito no dia seguinte. Ferir sem matar: era algo que ele aprendera com perícia nos últimos anos.
- Vamos... agora já acabou.
Uma revolta, uma dor no peito, tomou conta de Violante. Tinha vontade de protestar; que raio de penitência era aquela, com sexo a noite toda? aquele homem era louco, e ela enfim começava a ver quem era.
Mas algo dentro de si fazia com que o desculpasse. Afinal de contas, quem estudara tantos anos no seminário? Quem era inquisidor do Santo Ofício? Quem sabia falar e escrever fluentemente grego, latim, português e espanhol? Talvez ele soubesse do que fazia. Talvez, mesmo com todas aquelas feridas, ele a amasse.
Após se vestirem com as roupas de dormir, ele a abraçou contra si - sabia que naquele momento ela precisava de carinho, de se sentir amada. Afinal, tinha de lhe adoçar.
Nada disse, e Violante também nada sentiu - ela, que adorava dar e receber carinho. Apenas ainda se sentia ferida, porém aquela dor não impediu que o cansaço a tomasse e ela enfim adormecesse quase sem perceber.
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
Ome louco da porra. Acho que depois dessa eu se fosse Violante fugia pra qualquer canto...
Ele a chama de vagabunda, mas olha aí o que faz. Tem tesão em sangue, em ferir, em machucar.
Além disso, reparam que a violência escalona, né? Primeiro ele a deixou sem comer após alguns tapas; agora ele a chicoteou, a socou e transou a noite inteira com ela toda ferida. E sim, se deixar caminha em direção à morte.
Não sei se esse ato chega a ser um estupro, pois ele conseguiu o consentimento dela através de coerção - ou ela fazia, ou ele a deixaria sozinha, que era o que ela mais temia. Na verdade, o co-dependente tem um buraco tão fundo na alma, que prefere sofrer a tê-lo esvaziado pelo abandono. Sim, é uma doença e deve ser tratada, pois qualquer pessoa sã preferiria mil vezes estar só do que ficar desse jeito.
Espero que o capítulo não tenha ficado muito pesado, mas como na novela ele de fato diz essa frase: "Não há nada mais belo que o corpo de uma mulher ferido pelo chicote como prova de fé", pensei em colocar na fic. Louco, psicopata. E ainda tem gente que diz: ah, se a Violante ficasse com ele, ela seria feliz. Que nada. Sempre soube que ela só atraía cara ruim, e o Expedito é um deles.
Já o caso da Micaela: ela era madrasta da Violante e traiu o pai dela com o irmão da Violante, o Luís Felipe. Foi o inquisidor inclusive que mandou ele pro degredo dizendo que era pra ele não morrer, mas "viver um inferno em vida". Micaela incentivou o amante a matar o próprio pai, e a Violante se vingou ao comprar um escravo o qual estupraria a madrasta dela todos os dias na senzala.
Nenhuma das duas tava certa, né? Mas enfim, Violante nesse cap sentiu na pele o que a Micaela sentiu e também a dona Maria, a mãe da Xica, que era escrava dela na época e ela chicoteava sempre que podia.
Não, Violante não é boazinha. É bem ruim e tá pagando pelos pecados todos ao lado desse doido. Ao menos na fic. Já disse que jamais conseguiria escrever essas cenas de violência com um personagem que não fez mal a ninguém? Com a Violante até consigo... rs.
Abraços a todos que lerem!
