A MULHER DO INQUISIDOR
Capítulo 8
A fidalga piscou algumas vezes. Já tinha ideia de que poderia ser aquilo, mas escutar a Maria da Graça, uma parteira, confirmar o seu estado, era "acordar" de vez para o que ocorria consigo.
- Esperando um filho?
- Sim - a criada confirmou.
Expedito sorriu e disse a ela:
- Há alguma chance de ser alarme falso?
- Chances sempre há, mas muito provavelmente está de fato.
- Está muito bem. Buscarei a si uma gratificação por isso.
- Sou muito agradecida!
O eclesiástico voltou não só com algo em dinheiro para Maria da Graça, mas também para Ana e Teresa. A soma não era de se desprezar, e elas entenderam que tal lhes era dada para que ficassem quietas sobre o "estado interessante" de Violante - afinal, elas saíam às ruas, tinham acesso aos demais e poderiam dar com a língua nos dentes.
As três agradeceram efusivamente e logo em seguida foram dispensadas para ir a suas casas. Enquanto tudo isto acontecia, Violante ainda se encontrava totalmente surpresa. Sentou-se ao leito e sua mente começou a trabalhar.
- Um filho!
Dizia isto de si para si, quando seu homem voltou, sentou-se ao lado dela na cama e a abraçou pela cintura.
- Eu me perguntava, senhora dona Violante, quando me daria um filho afinal. Já estamos juntos há quase seis meses e nada...! Começava já a pensar que tinha a madre seca.
- Pois eu sequer esperava que isso fosse acontecer!
- E como não? É mulher, tem homem sempre em seu leito, tem idade para conceber e dar à luz. Por que não esperava?
- Ah...! Foram tantos anos pensando que jamais teria um filho, que seria para sempre seca! Nesse meio-tempo, sequer parei pra pensar sobre meu destino nesse aspecto. Mas...! Um filho! É isso, não morrerei seca!
Ela sorria, feliz. Em seu íntimo, sempre quisera um filho de João Fernades. Sonhara muitas vezes com um filho de olhos azuis, já que seu antigo noivo os tinha. Agora obviamente não o teria, pois tanto ela quanto o inquisidor tinham olhos castanhos. Mas que importava! Seria mãe!
- Ah, se Xica soubesse disso! Ela, que sempre se vangloriava de ter tido filhos e eu não!
- Ainda pensa em Xica, pois sim?
- Não, apenas lembrei dela repentinamente. Mas que seja! Ah, senhor, que felicidade!
- Lembra daquele dia? Em que eu disse querer ter filhos?
- Aquele, quando procurávamos o bebê de Das Dores?
- Sim. Naquele tempo, eu já queria um filho seu...
Ele a beijou no pescoço, ao que ela riu.
- Sim, lembro também que me disse se eu não queria me casar com um homem como a vossa mercê! Ah, se eu soubesse que ia ser tão feliz consigo! Teria me entregado antes a esse amor...
- Não importa. Agora teremos um filho juntos, eu e vossa mercê.
Beijaram-se na boca, a fidalga esquecendo temporariamente das violências as quais seu homem já lançara mão em menos de seis meses de relação; sequer pensando que poderia ele usá-las contra o filho que viria.
- Minha senhora, sei que está feliz. Mas sabe... essa gestação não será como outra qualquer.
- Ah, não?
- Por enquanto as pessoas não poderão saber que está de barriga. Portanto, terá de passar os nove meses trancada em casa.
- Ah... bem, e o enxoval?
- Deixarei as compras de material ao encargo de Maria da Graça. Ana é solteira ainda, Teresa nunca teve filhos. Maria da Graça tem pelo menos uma filha casada que eu sei; se ela comprar os itens do enxoval, poderá se passar como uma avó que deseja fornecer à filha todos os itens necessários para que ela faça roupas a seu rebento.
- Mas eu farei as peças, não? Ah, como sonhei com este dia! Desde muito novinha que me ensinaram a fazer meinhas, sapatinhos, babadores, cueiros... tudo isto a meu futuro filho! Mas não casei com meu primeiro noivo, por isso demorou...
- E que bom que não casou. Mas enfim, poderá e deverá fazer todo o enxoval da criança. Apenas espere mais um pouco, até a criada comprar tudo.
- Ah, estou grávida ao mesmo tempo que a filha mais velha da senhora dona Amália! Apenas com alguns meses de diferença! Será algo de fato a se comemorar!
- Naturalmente, vossa mercê sabe que não pode sair falando nem pra dona Amália, nem pras filhas dela, a mais velha ou a mais nova, que está de barriga...
- Ahn... é verdade. Mas, meu senhor...! Se nossa relação não é pecaminosa, como sempre me diz... por que esconder?
- As pessoas ainda julgam. Pode não ser pecado diante de Deus, porém os homens tem a língua grande.
- Xica vivia amancebada com João Fernandes e nunca precisou esconder os filhos.
- Ela é uma mal educada, não uma senhora da corte como vossa mercê. Ela e o tal de João Fernandes nunca se incomodaram de viver no escândalo...
- Vossa mercê pensa que nossa relação é digna de ser chamada de escândalo, meu senhor?
- Ah não, minha senhora. Houve um período em que religiosos podiam se casar, desde que o fosse com uma mulher virgem e não fossem bígamos - e foi exatamente como eu fiz, não foi? Depois isto mudou, mas enfim...
- Ainda tenho medo de estar sob pecado por ser sua mulher. Tal medo se evidencia quando não posso sequer dizer aos outros que terei um filho seu!
- Pois deixe disso. O que a mão esquerda faz, a mão direita não deve saber!
Sendo assim, encerraram a conversa e foram cear. E algum tempo depois, quando foram se deitar - que paciência o frei não teve de ter para convencer a Violante de que não era pecado fazer sexo enquanto já estava grávida! Pois tudo ela achava que era pecado, pensava que ter conjunção carnal sem gerar um filho ou já tendo um filho no ventre seria algo errado. Mas acabou cedendo: no fundo não queria se abster de sexo por nove meses seguidos e só precisava de um aval para não fazê-lo.
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Embora feliz com a notícia do filho que vinha por aí, a fidalga teve de lidar com as partes "reais" da coisa: estar grávida não era tão fácil quanto parecia quando ela via de fora. No começo foram aqueles enjoos que não passavam, ou vinham quando ela menos esperava. Com o tempo veio a aversão ao sexo e mesmo a seu homem: só o cheiro dele já a incomodava. Depois, aquelas mudanças estranhas no apetite: às vezes não queria comer nada e às vezes queria, mas lhe vinham desejos de comer coisas estranhas.
Isso quando a barriga não começou a crescer. Lá pelo quarto ou quinto mês, já estava grande o suficiente para que vissem a prenhez. As criadas haviam entendido muito bem o recado da anterior gratificação e não declararam a ninguém de fora que ela estava a esperar um filho. Na igreja estranhavam a ausência da moça, principalmente dona Amália e as filhas, mas Expedito inventara uma doença que teria de deixá-la dentro de casa.
Um belo dia, vendo que Violante estava a fazer as roupinhas do bebê, já cansado de não haver conflito algum na relação e sequer podendo castigá-la fisicamente por causa da gravidez, começou a entabular uma conversa muito esquisita.
- Sabe quem vi eu esses dias?
- Quem?
- João Fernandes.
A moça fez um gesto de desdém com a mão, a qual ainda segurava a agulha de tricô:
- E eu lá quero saber dele?
- Sei que não quer, minha senhora. Mas ele me chamou de lado.
- Sim?
- Perguntou sobre vossa mercê!
- E que quer esse infeliz saber de mim? Sempre me desprezou; quando era meu noivo deixava de me visitar, adiava visitas para... para dormir com aquela decaída da Xica!
- Ele subitamente quis saber se estava feliz ou triste em minha companhia.
- Pois diga a ele que estou muito feliz. E se puder - se não crer que vai causar os escândalos que tanto teme - pode dizer que espero um filho seu! Ele vai é cair com as fuças no chão, ele que nunca me creu capaz de ser amada a ponto de gerar um filho. Pois fui! Fui sim, e terei um filho, por que não? Não sou menos do que as outras.
- Eu disse a ele já.
- Disse?! Ele sabe que estou a esperar um filho seu?! Ah, que felicidade!
- Ele disse que não tem mais mágoa de vossa mercê, e lhe desejou felicitações. Que se arrepende de ter-lhe prendido na torre e apenas queria ter-se visto sem as suas tramoias. Mas agora que está sem elas, diz que até mesmo lhe deseja o bem e à criança que espera.
- Pois eu desejo que ele vá ao raio que o parta. Não desejo bem algum a ele! Pois se não queria meu mal, que não noivasse comigo naquele tempo. Teria eu sido muito mais feliz se nunca o houvesse conhecido.
- Se não o conhecesse, provavelmente vossa mercê jamais teria pedido ao rei que enviasse um inquisidor ao Brasil...
- É verdade. Ao menos para nos conhecermos isto serviu.
- E sabe do que mais?
- Sim?
- Além de inquisidor, sou confessor de uma boa parte dos nobres. Escolhi justamente que frequentássemos a uma igreja que fica longe dos nobres da corte, pois eles sabem de sua história e do desfecho que ela teve. Vossa mercê sabe... os escândalos e tudo mais.
- Sei.
- Mas mesmo não frequentando a igreja dos nobres, ainda sou confessor deles. Até o rei vez por outra se confessa comigo.
- Isto é bom, não é? Ser amigo da corte...
- É bom, minha senhora. Mas é cada coisa que se escuta... tem-se de ser muito forte, opor-se muito ao pecado pra não se deixar contaminar pelo que lá vai.
- Ainda bem que não preciso lidar com isto.
- Mulher direita tem de ficar em casa, longe das tentações, dos termos pecaminosos, da luxúria, da sujeira que vai no mundo. Não deve jamais perder o recato. Mas eu, como homem, devo lidar com estas cousas todos os dias. Ainda bem que sou forte o suficiente para passar por elas sem me sujar... pois sabia a senhora que várias das nobres da corte vez ou outra pedem para ser minhas amantes?
Dessa vez Violante parou de tricotar na hora e olhou para seu homem.
- Elas pedem?
- Pois pedem desde que comecei a ser confessor.
- E vossa mercê, que faz?
- Nego, oras! Se cobro fidelidade de si, que é mulher e leiga, que se dirá de mim que sou homem e tenho muito mais responsabilidades do que vossa mercê?
- Mas que mulheres mais perdidas há na corte! Como eu nunca fiz parte da mesma por estar sempre trancada numa torre, não sabia que era assim!
- Pois é daí pra baixo! E é bom que não precise se contaminar com essas cousas; deixe que eu viva no mundo por si e apenas traga a si palavras que jamais lhe ferirão o recato!
Ele sorriu e a beijou nos lábios, enquanto ela continuava a tricotar o enxoval. Mas em seu íntimo, Violante se indignava. Pois se ela era cortejada, apanhava e sofria penitência. E ele, por que podia ser requestado por várias mulheres sem nada sofrer - e ainda dizer em sua cara? Qual era a diferença, já que ela também negara as anteriores investidas de Antônio Carlos?
Quanto a Expedito, sorriu... pois sentia que ela se sentia insegura face às investidas das outras. E era bom que a moça soubesse que havia outras... que caso ele quisesse, poderia ter muitas outras.
Pois quem ela achava que era afinal? Uma mulher já passada da idade de casar, que ninguém quisera antes dele... muitas mais bonitas e mais novas aguentavam cada marido horroroso, fedorento, dias sem tomar um banho... quem ela pensava que era afinal? Ela que agradecesse o fato de ele ser belo, de sempre ir limpo a ela, de saber como fazer uma mulher feliz na cama, de não ter outras amantes. Era mais do que ela merecia!
Violante era fidalga sim, tinha dote... mas quantas outras também não tinham? Única coisa que a diferenciara das outras a si era o fato de ser tão parecida com sua tia... e o fato de ela ter aquela chaga enorme na alma, aquela chaga que ele previra ser fácil de preencher e portanto fazia com que ela fosse a mulher ideal para ele extirpá-la de vontade própria.
Sim, João Fernandes fora tão tolo... era tão fácil ter mantido a Xica e a Violante ao mesmo tempo. E o trabalho com ela lhe era tão agradável... era tão fácil. Mas o outro não quisera. E ainda bem que fora assim! Pois ele próprio vira nela essa facilidade e a tomara a si. Pobre João Fernandes... somente sabia de como lidar com marafonas, mulheres da vida, ou ainda pobres-coitadas como Xica, que sem ele não era nem nunca havia sido nada. Mas daquele sutil trabalho, de dominar e torcer, de invadir e controlar... ah, esse ele próprio, Expedito, conhecia muito bem!
E o exerceria sem sombra de dúvidas mesmo após o filho de ambos nascer.
To be continued
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Esse capítulo foi mais "light" em relação aos outros, mas mostrou mais uma faceta da violência psicológica: a triangulação. Todo e qualquer abusador que se preze usa da triangulação: compara você com outras pessoas, fala que há mulheres a fim dele, que você pode perder o posto a qualquer instante. Como se você sempre devesse "se provar" ou se sentir insegura.
Acontece com homens também, independe do gênero.
Não precisa ser sociopata pra fazer esse joguinho. Qualquer pessoa manipuladora pode fazê-lo, inclusive os próprios co-dependentes que muitas vezes chegam a um nível absurdo de baixa auto estima que pra manter o outro (ou outra) interessado, começam a triangular. Fazem por carência mesmo, e por vontade de controlar.
Sociopatas e co-dependentes, se forem extremos e descontrolados, se parecem muito uns com os outros. A diferença é que o co-dependente tem muitas emoções (às vezes negativas) à flor da pele, não consegue controlá-las e lida com elas de maneira desfuncional. Já o sociopata não tem empatia, sentimento, não tem nada. Porém, as estratégias de controle são parecidas. Qual maior mestre da chantagem e do jogo de colocar a culpa no outro que o co-dependente extremo?
No próximo capítulo, o parto e o pobre do bebê no meio desse forrobodô. Abraços a todos que lerem!
