A MULHER DO INQUISIDOR
Capítulo 9
Xica estava a brincar com a filha Joana, quando uma das mucamas veio dar o recado que ela tanto esperara por todo aquele tempo:
- Sinhá! Sinhá! O seu João Fernandes veio ver vassuncê! Ele veio, vem ver!
Toda feliz, conferindo a aparência na frente do espelho, a assim auto-denominada "Rainha do Tijuco" saiu ao encontro do bem-amado, junto com a filha de ambos. Ao vê-lo, abraçou-o com força, lágrimas cismando em sair dos olhos e borrar a forte maquiagem que ela sempre gostava de usar.
- Ô meu contratador, até parece que foi ontem que se foi pela última vez!
Ambos se beijaram, tomando a filhinha no colo, a qual já se encontrava com quase três anos de idade.
João Fernandes entrou em sua antiga residência, beijou a filha e a mulher que amava inúmeras vezes e após ser muito bem servido pelas mucamas, começou a perguntar as novidades do local.
- Tudo véio, meu contratador - dizia ela, com as mãos nas cadeiras, toda feliz; nunca perdera o hábito de chamá-lo de "contratador" mesmo após ele ter perdido o posto - Única diferença é seu Zé Maria, que tá já no terceiro fio! Quem diria, aquele demorou tanto pra emprenhar a sinhá dona Elvira, e agora que tomou gosto pela coisa, é um atrás do outro!
O fidalgo riu. Adorava aquele jeito espontâneo dela de ser feliz, de dar um ar alegre a tudo que tocava.
Então, após um tempo, Xica disse, com o semblante um pouco mais carregado:
- E a senhorinha Violante? Que aliás, é agora sinhá dona Violante, né? Deve de tar toda empavonada naquela tal de corte portuguesa, se achando a última lacraia do mundo!
Seu companheiro não se eximiu de rir, porém logo em seguida disse:
- As coisas aconteceram de forma bastante diferente com Violante, Xica. Eu me casei com ela na igreja, mas não consumei a relação.
- Mas como assim?! Ela salvou eu apenas pra casar com vosmicê!
- Por isso mesmo não consumei. Ela não merecia que eu fosse um marido num casamento forçado!
- E o que aconteceu?!
- Eu a abandonei numa torre, Xica. Para que nunca mais nos importunasse.
A mulata mais uma vez colocou as mãos nas cadeiras, bamboleando os quadris:
- Pois bem feito! Fez que fez, agora tá lá, largada! Sozinha! Mas que coisa, meu contratador! Sempre pensei que vosmicê não podia era ver um rabo de saia, mesmo que odiasse a aranha seca! Pensei até que ia cumprir com gosto os deveres de... marido!
- Não, Xica. Não quis. Eu sequer toquei nela. Mas a história não termina aí.
- E como não? Vai me dizer que aquela bruaca arrumou um jeito de fugir?!
- Ela, não. Mas alguém mais esperto do que ela, sim.
Os olhos de Xica se arregalaram, ficando sérios por um momento.
- Vai me dizer que quem livrou ela é quem eu tô pensando!
- Não sei em quem está pensando, Xica. Mas foi Expedito, aquele inquisidor que passou por aqui.
- Oxalá me livre! Ele libertou a lacraia, foi?
- Foi pior. Ele a forçou a ser dele.
Dessa vez, Xica riu.
- Sempre soube que pra um padre, aquele ali tinha os zoio maior que a testa! Gostava de oiá as muié toda, até a pobre da Das Dor não escapou dos zoio dele! Ah, mas Violante era a que ele mais zoiava mesmo! Mas quem diria! Sinhá Violante, sempre tão medita a certinha, agora virou muié de padre!
- Sim, Xica. E apesar de eu não gostar nem dela, nem do jeito dela, não queria que fosse forçada. Mas foi. Ele ameaçou nos jogar a todos na fogueira, Xica, porque tínhamos mucamas bruxas, caso eu não a entregasse a ele!
- Credo-em-cruz-ave-maria! Pois se eu torci tanto praquele diabo de homem ruim ir embora daqui! Queimou minhas mucama, matou Jacinto, quase matou eu! Cão danado, mesmo do outro lado do mar ainda quer fazer mal?!
- Ele pôs os olhos em Violante e a queria de qualquer jeito. Então eu tive de dar.
- Pois num tenho dó não, seu João Fernandes! Ela fez que fez, escreveu pro rei só pra fazer mal pra eu e vosmicê! Ela que chamou o tar de inquisidor pra vir aqui! Pois ela que agora se lamba! E bem feito, que deve tar sofrendo com ele agora! Única coisa é que devem de tar lá, gastando os diamante que dei pra ele, pra salvar minha vida! Ora, essa é boa, gastar meus diamante com o maracujá seco da Violante!
- Apesar de frade, ele é um homem bastante influente na corte como inquisidor... e muitas mulheres o acham bonito, bem apanhado. Algumas adorariam ser amantes dele...
- Que meu pai Oxalá me defenda! Não tem boniteza que justifique o sangue ruim daquele sujeito! Eu não queria aquele demo ruim em cima de eu nem que fosse o último homem do mundo! Não conseguia nem ficar na mesma sala que ele, de tão má que a presença dele era! E agora a sinhá Violante tá mermo é tendo que aguentar, que aquele ali tem é jeito de homem safado! Um jeito de homem violento também, bicho ruim! Pois ela tá é pagando os pecado! E deixa ela pagar!
- Ele recentemente me contou que ela está a esperar um filho dele.
Dessa vez Xica quase caiu pra trás.
- Um fio?! A lacraia azeda tá esperando um fio do morcegão desassombrado?! Mai essa é boa! Ainda bem que tão um oceano longe de eu, valei-me meu pai Oxalá! Que uma criança fia dessas duas desgraça aqui no arraiá num ia prestá!
João Fernandes riu.
- Coitada da criança, Xica. Nem tem culpa de nada.
- Mai sendo criada por aquelas duas misera, claro que vai dá em coisa ruim! Deus me livre, meu contratador! Mas vamo vê se sendo mãe agora essa lacraia sossega. E vosmicê, nunca mais viu ela?
- Não, Xica. Nunca mais. O inquisidor me prometeu que eu nunca mais a veria caso a entregasse aos cuidados dele, e tem cumprido com o combinado.
- Ele deve é de tar deixando ela bem ocupada cum ele, cum aquelas tortura ruim que ele sabe fazer! Mas deixa estar! Ainda bem que num é cum eu! Mas vamo falar do que interessa, meu contratador: de nós dois! Vosmicê num vai mais poder voltar pra cá?
- Não. Apenas vê-la vez por outra, mas voltar, não.
- Se são seis meses pra ir, seis meses pra voltar! Vou ver vosmicê de quando em quando?!
- Infelizmente, bem de vez em quando, Xica.
- Que pena! Mas vamo aproveitar que tá aqui e ficar junto, meu contratador!
Ambos sorriram. Xica sabia que ele tinha várias outras mulheres na corte, embora ela mesma não ousasse ter outro homem. Mas era essa a vida que ela escolhera... continuar fiel ao homem que amara quando ainda era escrava. Era um amor difícil de levar com aquela distância, mas eles tentavam.
OoOoOoOoOoOoO
A gravidez de Violante já chegava ao fim. Do meio pra lá, ela começara a sentir dificuldade de dormir e até mesmo de se virar na cama. A barriga pesava, a coluna doía, o centro de equilíbrio se modificava. Havia noites em que Expedito ficava tão incomodado com ela se remexendo de insônia na cama - ela, que sempre tivera o sono leve bem mesmo antes da gravidez - que se retirava para o quarto de hóspedes a fim de dormir sozinho. A ele, que dormira uma vida toda sozinho nas clausuras, chegando-se às mulheres somente para os prazeres da carne, aquilo não fazia mal. E ela, mesmo sendo carente e querendo abraçar, ficar junto; chegara a um patamar em que se sentia tão pesada, tão incômoda, que sequer a ausência de seu homem lhe fez um grande mal.
Enfim chegou o grande dia. Estava ela a verificar os últimos detalhes do enxoval, bordando os últimos babadores, quando sentiu uma água quente descer de si e molhar seu vestido, bem como o assento onde estava sentada. Chamou Maria da Graça. Ela a acudiu, afrouxando as roupas, levando-a para o quarto de hóspedes, o qual já fora previamente preparado para que ela tivesse o filho. As contrações começaram, mas mal sabia ela, mãe de primeira viagem que era, que ainda ia demorar bastante até que o filho nascesse.
Ficou algumas horas daquela forma, fazendo força, mas sem que a criança desse sinal de vir. A parteira a orientava, quando o inquisidor enfim chegou em casa. Contra todas as convenções, tomou assento ali mesmo e fez questão de ver o parto. As mulheres estranharam, pois usualmente os pais esperavam do lado de fora. Mas não teimaram com ele - sabe-se lá do que ele seria capaz de fazer caso fosse contrariado.
Quando pensava já não aguentar mais aquele tormento que durava tantas horas, Violante ouviu Maria da Graça dizer que a criança "coroava", ou seja, já se via a cabeça a sair. Em breve, nasceu toda. Foi um alívio enorme a si, mas algumas das dores ainda permaneceram após ter feito tanta força. Estava muito cansada, muito descadeirada, e então compreendia porque certas mulheres falavam daquele momento como algo tão doloroso.
- É um menino!
Deram-lhe o tapa no traseiro para que respirasse, cortaram-lhe o cordão umbilical, limparam. Entregaram à mãe, que deu de mamar embora ainda se sentisse fraca.
- Um filho...! Um filho, veja, tive um filho! Não morri seca afinal!
Sem demonstrar emoção, Expedito levantou-se e disse às criadas que queria ficar a sós com a moça e a criança. Maria da Graça apenas lhe deu algumas recomendações sobre febres - que poderiam ser bastante perigosas a mulheres que acabaram de ter bebê - e saiu junto com as demais criadas. Assim que se foram. Expedito tomou a criança em seus braços e disse a Violante:
- Se chamará Timóteo. Era o nome de meu pai.
- Ah, sim...! Mas... não poderemos revelar que é nosso filho.
- Não. Farei como fazem todos os demais sacerdotes que tem filhos: direi que foi abandonado por um casal que não pôde criar, o tomarei como meu afilhado e vossa mercê será madrinha da criança.
Mesmo em meio ainda ao cansaço e às dores musculares que o parto lhe deixara, Violante de repente tivera noção plena - uma assustadora noção - de que jamais poderia chamar à criança de "filho", por mais que o fosse. Pois o próprio menino poderia sair a dizer a todos que era filho dela com um frade.
"Céus, quão longe teremos de levar essa mentira? E por quanto tempo?"
Tentou não pensar mais nisso, mas não conseguiu. Aquela ideia a atormentou até a hora em que adormeceu, vencida pelo cansaço - enquanto o frei ainda segurava o filho nos braços, certamente já a traçar todo um futuro a ele, sem sequer imaginar se o filho desejaria esse futuro a si ou não.
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
Resolvi colocar a Xica como alívio cômico, rsssss! Afinal de contas, Violante e inquisidor sempre foram personagens densos, pesados, difíceis. Já a Xica, embora eu não goste dela em diversos aspectos, penso que ela é mais leve, mais fácil de trabalhar e bem mais alegre. Ela fez muitas coisas erradas na novela, mas de algumas até mesmo se arrependeu.
E que esperta ela, viu? Já adivinhou que Violante sofreria o cão com o frei. Xica não tinha muito estudo formal, mas pras coisas da vida era esperta que só vendo. Nem a Viola, que se gabava de ser inteligente, conseguiu prever que o inquisidor seria uma lasqueira com ela também.
Sobre o filho do demônio, digo, do Expedito e da Violante: se a gravidez já foi difícil, imagine depois que a criança nasceu. Chorando toda hora, querendo mamar, ocupando a mãe o tempo todo. O raio do cara só queria atenção pra ele, e agora que a criança nasceu? A coisa enfim sai da fantasia e vai pra realidade.
Abraços a todos que estão lendo!
