A MULHER DO INQUISIDOR
Capítulo 11
A moça passou as mãos pelas têmporas, entrando às raias do desespero.
- Meu Deus do céu...!
Não fazia nem um ano que havia engravidado de Timóteo. Naquele tempo, ficara tão feliz! Pois não morreria seca, teria um filho e se sentiria "mulher" como todas as outras.
Porém, após a experiência vivida, sabia que não era tão fácil. A gravidez fora muito difícil, as pernas doíam, os enjoos atrapalhavam, as mudanças do corpo eram incômodas... e depois aquela barriga enorme, não a deixando dormir - ela que já tinha tanta dificuldade de sono sem estar prenhe... e depois o parto que durara horas intermináveis, o resguardo, a amamentação tão difícil, os seios a rachar e doloridos. Expedito com aquela vontade enorme de tomá-la todos os dias, e de repente, quando começava a se recuperar enfim... grávida de novo!
Não, não era possível! Começar tudo de novo, os enjoos, a dor... não teria um alívio?
- Ah, meu Deus!
Começou a chorar, desolada. Pensava que devia aceitar os filhos que Deus mandava; não era assim que se ensinava na doutrina? Mas aquilo era mais do que seu corpo podia aguentar. Ainda estava a amamentar um, precisava ter outro logo em seguida?
Maria da Graça, a qual fazia a limpeza na sala, mirou a patroa daquele jeito e decidiu perguntar o que era. Não se intrometia muito na vida dos patrões, mas ao vê-la daquele modo não conseguiu se conter.
- Minha senhora, há algum problema?
Ao ser interpelada pela criada, Violante ergueu os olhos a ela e limpou as lágrimas. Não gostava que sentissem pena de si.
- Ah... Maria da Graça, eu só estava pensando... é possível engravidar assim, seguidamente, pouco depois do parto?
- Sim e não. Suas regras já voltaram?
- Não.
- Era o que eu pensava, pois mulheres que amamentam sempre, como a senhora faz questão de fazer com seu bebê, usualmente tem as regras adiadas por mais tempo. Algumas ficam até um ano sem as regras! E portanto a capacidade de engravidar é adiada...
- Será? Ah Maria da Graça, então é normal não virem as regras assim, no começo?
- Sim, é normal, ainda mais a dar leite ao pequeno.
- Então a probabilidade de eu estar grávida é baixa?
- Sim, muito baixa. Minha senhora, não desejava ter outro filho agora?
- Não. Sinto muito, Maria da Graça, mas não. Gostaria de esperar mais um ou dois anos antes de ter outro filho. Como sou mãe de primeira viagem, não sabia que todo o processo de gravidez e parto seriam tão complicados. Preciso de um tempo para me recuperar! Pareço ser forte, mas sempre fui mulher de saúde frágil, desmaio fácil... ah, não sei se aguentaria ter um filho por ano, como fazem outras por aí!
- Decerto, muitas morrem ao ter um filho seguido do outro. Eu mesma fui casada por vinte anos antes de enviuvar e felizmente tive somente cinco filhos. Conheço algumas que de fato tiveram dez, quinze ou mesmo vinte...
- Valha-me Deus, Ele que me perdoe se for um pecado não querer outro tão-já... mas o que determina assim a fertilidade de uma mulher?
- Não sei bem. Algumas simplesmente engravidam uma vez por ano, outras tem apenas dois ou três durante toda a vida, já outras engravidam a cada três ou quatro anos... creio que é de acordo com a vontade de Deus mesmo.
- Ah, Maria da Graça... até que idade uma mulher pode normalmente ter filhos?
- Algumas param de ter por volta dos quarenta anos, outras quase aos cinquenta. Conheci uma que teve filhos direto até os cinquenta e três! Depende de quando cessam as regras; para algumas a cessação vem mais cedo, para outras mais tarde.
- Valha-me a Virgem Santíssima! Que estou com vinte e nove, até os cinquenta são vinte e um anos! Que Deus me dê só mais dois ou três filhos, pois não aguentarei parir mais cinco, quiçá mais dez!
- Acalme-se, minha senhora. Deus sabe o que faz. Assim como soube o que fez ao colocá-la como... mulher de um frade. Desculpe-me se a observação lhe parece muito atrevida, mas...
- Não, não, tudo bem. Sei que não é usual, nem eu esperava que assim acontecesse, mas enfim... há alguma forma de evitar filhos?
- Haver, há. Mas não sei se o senhor Expedito concordaria... ele é homem da igreja, e os homens da igreja não são a favor disto...
- Compreendo.
- O bom é que vossa mercê começou a ter filhos tarde. Muitas começam aos catorze, quinze anos. Não teve nenhum de seu primeiro marido?
- Maria da Graça, eu lhe direi algo que não pode sair daqui. Por favor, não deixe nem que o senhor inquisidor - e muito menos ele, que não gosta de escândalos - saiba que lhe disse isso. Eu nunca fui viúva. Já fui noiva e até casada, mas esses homens nunca consumaram relação comigo. Expedito foi meu primeiro e único homem de fato.
Desta vez a parteira não se eximiu de fazer uma expressão de espanto.
- Mas, minha senhora...! Sendo donzela e abastada, como foi parar nisto?
- Nem eu sei. Nunca foi minha intenção, mas foi como dissemos antes: foi Deus quem mandou. De qualquer modo, creio que já falei demais. Apenas espero não estar a esperar outro filho tão cedo. Agora vá; precisa cumprir com suas obrigações.
A criada fez uma reverência à senhora que, de resto, tinha idade para ser sua filha; voltou ao serviço, mas não parou de matutar. Como uma donzela fidalga e de porte vinha parar na concubinagem com um frade - por mais que esse frade fosse inquisidor influente na corte?
Embora tentasse ser discreta, os fuxicos acabaram por acontecer. E Ana, a cozinheira, a criada mais nova e ainda menina, quando soube daquilo quase caiu para trás. Ela, então com dezoito anos, sonhava em trabalhar pra juntar dinheiro a um dote e casar. Pois se nem uma senhora de bom dote escapara daquele destino de ser amante do frade...! Que se diria dela?
Com os dias a passar, Violante tentou não pensar mais naquilo. Mas o homem permanecia a procurá-la sempre, a bater nela sempre, e de repente foi acometida por uma tristeza sem fim. Por mais que tentasse dizer a si que era feliz, que estava bem, havia muitas coisas que não estavam de seu acordo. Não gostava de quando seu homem voltava para casa e a tomava com tanta violência; no começo o esperava todos os dias com entusiasmo, mas depois que ele começara com aqueles tapas, aqueles roxos todos em seu corpo, ela tinha até medo da hora de ele voltar. Mas mesmo assim não se negava a ele; se entregava, como era seu dever de mulher.
Porém, sabia que não aguentaria viver daquela forma se engravidasse outra vez. O homem ali, louco para tê-la sempre, e ela grávida outra vez, não ia suportar. Então fez a única coisa que lhe restava: arriscou perguntar a seu homem se era lícito evitar gravidez.
Pois só faltou o homem virar bicho.
- Quem lhe pôs estas ideias na cabeça?!
- Ahn... foi a cozinheira Ana, ela me perguntou se era possível evitar...
- A cozinheira Ana é menina solteira! Todas as criadas desta casa - com exceção da ama de leite - são mulheres sem homem, portanto se eu souber que alguma está a procurar homem fora de um casamento, coloco na rua na mesma hora!
Violante colocou as mãos nas têmporas, pensando que a situação ficava cada vez pior.
- Meu senhor, ela perguntou não a si própria, mas à sua irmã mais velha, que é casada!
- E a irmã dela, como boa cristã, deve saber que toda mulher casada que se preze deve aceitar a todos os filhos que Deus manda! Sem exceção!
- Mas-
- Nada de "Mas"! Não projeta a essas hereges! Ana! Ana, venha cá!
Violante suspirou, terrificada. Céus, que homem horrível!
A pobre cozinheira, sem saber sequer do que acontecia, respondeu ao chamado.
- Sim, meu senhor. Há algo de errado com a comida?
- Não é com a comida e sim com coisa muito pior! A senhora dona Violante aqui disse que sua irmã pretende evitar gravidez?!
Por dois segundos, a menina olhou a ambos como se nada entendesse. Mas ao ver o olhar suplicante de Violante, entendeu tudo num lampejo: a patroa perguntava aquilo em relação a si mesma, mas diante da indignação do inquisidor, tivera de arrumar um pretexto diferente.
- S-sim, meu senhor, pois ela já anda no sexto filho...
- Se não quisesse cumprir com seus deveres de mulher, que nem casasse! Pois diga a ela que eu - sim, eu mesmo - mandei que rezasse pelos filhos que ela em pensamento repudiou. Somente em fazê-lo já é um pecado. Sabes ler?
- U-um pouco, senhor.
- E sua irmã, sabe?
- Um pouco, também.
- Pois vou mandar por si uma lista de orações para que faça, e depressa. Assim quem sabe Deus a absolve. E por favor, Ana! Nada de ficar com esse tipo de conversa com a senhora dona Violante. Ela é, como já bem viu, uma mulher de casa, guardada dos perigos e das maldades do mundo. Não tem de ficar escutando essas cousas imundas, nem de sua boca, nem da boca de mais ninguém! Esta é uma casa de respeito! Não chegarão a seus ouvidos palavras senão de recato! Não quero mais saber de vossa mercê ou qualquer outra das criadas a falar porcarias pra minha mulher!
- Sim, meu senhor - disse Ana, os olhos baixos, a fazer uma reverencia submissa.
Enquanto o inquisidor ia buscar papel, pena e tinta a fim de escrever as tais orações à irmã de Ana, Violante ficou num canto da sala, espantada. Pois ele a chamava de "sua mulher" pela primeira vez na frente das criadas...! Não de "governanta" ou "senhora dona", e sim de "minha mulher"! Que sentimento doce, reconfortante, ela não sentiu ao ouvir aquilo.
Por um breve momento, aquele ditame fez com que ela esquecesse do que sofria e do que a importunava. Como se ser mulher dele fosse a si mais precioso que tudo.
Naquela noite, quando ele a procurou, a fidalga se sentia nas nuvens; como se estivesse de novo na primeira fase do relacionamento, quando era amada, abraçada e beijada - e não surrada ou mesmo desprezada com palavras baixas - ele, que repudiara tão abertamente as palavras faltosas de recato na frente de Ana, por sua vez lhe dirigia um palavreado tão porco, principalmente na hora do sexo, que ela até se envergonhava. Mas não o questionou naquilo: simplesmente o tomou nos braços, ainda enlevada pela ideia de ter sido chamada de sua mulher.
- Meu amor...!
- Ah, vossa mercê está bem doce hoje?
- Sim... quero ser amada por vossa merce...
- Deve de estar bem úmida aqui embaixo, hein?
E tendo dito isto, sem muito cuidado, tocou-lhe no meio das pernas a fim de ver se o que supunha era verdade.
- Hun... senhor...! Posso fazer um pedido a si?
- Pois diga...
- Quero que me possua com amor...! Com carinho, com beijos, como fazia no começo!
- Quer?
- Quero...! Que me tome nos braços e me chame de bela! E diga que nosso amor foi traçado por Deus, pois se nenhum homem me quis antes foi porque eu estava sendo guardada a si! Ah, me encanta tanto...!
- E quando eu a beijo assim no pescoço?
Ele então a beijou. Violante gemeu de prazer e paixão.
- Ah, isso...!
- E quando eu a beijo nos lábios de forma pungente, assim?
Ele então a beijou e a fidalga, ah! Quase derreteu nos braços dele. Aquela sensação incrível, maravilhosa, do começo da relação; de quando se sentia a flutuar, a ter algo que não era deste mundo; ah, era daquilo que ela sentia falta!
Gemeu dentro do beijo várias vezes, apertando-o nos braços; então passou as pernas por seus quadris, a fim de lhe sinalizar que estava pronta a ser sua; que se entregava de corpo e alma a ele.
- Meu amor...!
- Feche os olhos, minha senhora.
Ela fechou, imaginando que surpresa ele lhe faria. E de fato se surpreendeu grandemente...
...pois logo em seguida sentiu um tapa muito forte varar-lhe a face.
Violante gemeu, abrindo os olhos e os piscando várias vezes, de surpresa. As feições de Expedito eram de alguém que sentia prazer com sua dor - como sempre nos últimos tempos, aliás.
- Minha senhora, desde a primeira vez em que a tomei, eu o fiz com violência; com força. Lembra do que me disse, que só admirava aos homens fortes?
- Mas meu senhor-
- Nunca escondi minha verdadeira natureza, portanto... não se surpreenda! Logo mesmo em sua defloração rasguei seu vestido todo em minhas mãos... para que soubesse do que sou capaz. Para que compreendesse... que na verdade eu não queria rasgar o vestido. Eu queria arrebentar era vossa mercê toda nas minhas mãos!
E então bateu nela outra vez; e outra, e outra, até que para ela todo aquele encantamento de antes se desfez; e sobrou apenas o monstro mau, sedento de sangue e dor, novamente a possui-la em seus braços, a tomá-la enquanto re-abria feridas antigas e fazia novas. E então Violante percebeu... que o Expedito carinhoso do começo nunca mais voltaria, dando lugar eternamente ao monstro que a surrava e se comprazia com sua dor.
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
Coitada da Ana, quase pagou o pato por causa da curiosidade da Viola! Mas até que na fic ela tá boazinha com as criadas. Fosse em outro tempo, já tinha mandado açoitar. Acho que estar nessa situação fez com que ela colocasse mais a mão na consciência e tratasse melhor os subordinados.
No próximo capítulo: o batizado do filho do demônio, quer dizer, do Expedito e da Violante. E vai ter mais participação da Ana!
Abraços a todos que lerem!
