A MULHER DO INQUISIDOR

Capítulo 12

Na manhã seguinte, a moça acordou ainda mais cedo que seu homem. Estava com olheiras fundas debaixo dos olhos, mal dormira e sua cabeça rodava em pensamentos ruins. Levantou-se, tomou um copo d'água e começou a chorar. O sol ainda não havia se levantado; deviam ser menos de cinco da manhã ainda, porém Violante sabia que Expedito acordava fácil, principalmente quando mesmo ainda em sonhos desconfiava que ela estava em outro lugar que não ao lado dele na cama. Ele simplesmente não a deixava ter vida longe dele, mesmo que fosse para tomar água ou comer algo caso sentisse fome sem estar em sua companhia.

Ela voltou para a cama, deitou-se novamente ao lado dele e reparou que o inquisidor estava acordado, como se houvesse sentido que ela se levantara. Expedito, por sua vez, sentia que tinha de ser cauteloso: desde que retomara as relações sexuais após o nascimento do filho, batia nela todos os dias; se não lhe desse mais carinho ou afeto, ao menos um pouco, ela não ia fazer boa figura perante as criadas ou mesmo quando voltassem a frequentar a igreja. Não podia dar chance de que pensassem nela como alguém infeliz ao seu lado.

Então a abraçou e a beijou no rosto - carinhos que usualmente era ela quem fazia, mas enfim, ele agora precisava fazer.

- Acordou cedo hoje, minha querida?

- Como posso dormir com o corpo todo dolorido?!

Ela continuava geniosa, a questionar seu tratamento para consigo. Pois bem, a dobraria de uma forma ou de outra.

- Meu bem, já lhe disse que diante de sua beleza é difícil que um homem venha a se conter...

E a beijou novamente, mas ela o repeliu, magoada.

- Por que não me deu esses beijos ontem? Hein, eu pedi tanto! Pedi para que me possuísse com amor e então vossa mercê me disse que eu tinha de aguentá-lo violento mesmo!

- No ímpeto de possui-la eu fico assim... que posso fazer?

- Pois eu só queria ser amada...!

Violante começou a chorar. Expedito achava aquilo extremamente aborrecido, mas tinha de consolá-la para que ela ainda acreditasse que ele a amava.

- Vamos, meu amor... eu a amo. Sou o único que a amou até hoje! Quem além de mim a amou mais do que eu?

- Ninguém. Só meu pai.

- Pois então! Já me disse que eu tinha total correspondência com seu pai... que eu era o homem que vossa mercê pedira aos céus de joelhos!

- Mas vossa mercê não me batia nesse tempo! E meu pai não me batia!

- Ah, minha senhora... se sair às ruas e perguntar a qualquer senhora se seu marido não bate em si... todas dirão que sim!

- Mas não gosto! Não gosto! Quero me sentir amada por vossa mercê, não apanhar! Eu não mereço apanhar!

- Acalme-se. Escute, ficarei um tempo sem bater pois farei uma abstinência de conjunção carnal por cerca de dez dias.

- Sim?

- Sim. Todos de meu grupo também farão.

- Pois eu pensava que a maioria dos frades fazia voto de castidade!

- Ah, minha senhora... fazer votos é uma coisa, cumprir é outra! Pois sou o único que conheço o qual fez os votos e os cumpriu por anos a fio... a maioria não cumpre nem no primeiro mês! E quando os quebrei foi pra ser de uma mulher só, para viver uma vida conjugal imaculada, como a que vivemos...

- Comigo a apanhar!

- Ora, vamos! Esqueça disso!

- Minhas feridas não me deixam esquecer!

- Pois sim. Faremos essa abstinência e por dez dias não a tocarei, nem baterei mais. Mas posso lhe dar o carinho que tanto quer...

Tomou-a nos braços e a beijou nos ombros, no rosto, no colo. Ela ainda estava aborrecida, mas cedia aos poucos aos afagos dele. Enfim deixou-se ser beijada na boca e não o impediu quando sua mão deslizou para debaixo de sua camisola e a tocou em sua feminilidade...

- Un... meu senhor, a abstinência, esqueceu?

- Pois eu farei a abstinência... apenas quero lhe dar algum agrado...

- Não será pecado, no meio de uma penitência assim?

Ele nada respondeu; apenas a estimulou, arrancando de si gemidos de prazer.

- Ah, meu Deus...! Se for pecado, que pecado bom é esse!

A moça passou a se deixar manipular, enquanto o homem ria, beijando-a na boca. Era tão fácil fazer com que ela esquecesse das agressões que ele lhe fazia...

Mas o jogo seria ainda mais insidioso: quando viu que ela começava a ficar ainda mais excitada e seu prazer se intensificava, retirou as mãos dela, levantou-se e começou a se aprontar pra sair. Lavou as mãos no recipiente com água e sabão que as criadas deixavam em cima da cômoda, para que os patrões fizessem a "toilette" pela manhã, e logo passou a se vestir.

Violante, coitada! Ficou ali na cama, paralisada, sem nada entender.

- Meu senhor...!

- Levante-se, vou vesti-la como sempre faço.

- Mas...! Não vai terminar?

- Ah, não. Por hoje é só. Não é bom que nos excedamos no meio de uma penitência como essa.

Frustrada, a moça se levantou, fez a "toilette" e deixou que ele a vestisse. Mas aquilo ficou o dia todo martelando em sua mente: o desejo insatisfeito.

No dia seguinte, foi igual. O homem acordou pela manhã, a estimulou de novo e nem terminou. Dessa vez ela quase chorou de vontade:

- Meu senhor, por que não pode terminar...?

- Porque estou em penitência. Agora, vamos nos arrumar.

No terceiro e quarto dias, ela não aguentava mais. Ficava o dia todo pensando em coisas sexuais, em ser possuída pelo seu homem, em saciar toda aquela vontade afinal. Mas ainda considerava pecaminoso demais se tocar sozinha; se ele a tocasse, era seu homem exercendo seu direito de marido (ou quase isso). Se ela se tocasse, se sentiria uma perdida, uma devassa.

No entanto, toda aquela energia guardada fazia com que ela se abanasse, a suspirar. Maria da Graça percebeu e pensou que a patroa estivesse passando mal.

- Minha senhora, ainda é muito nova para ter os calores de quando cessam as regras!

- Não, não é isso! É outra cousa... mas deixe pra lá! Eu me resolvo sozinha, sim?

Tomava água, passava os lencinhos da "toilette", umedecidos, pelo corpo a fim de desafogar aquele desejo; mas não conseguia. E quando Expedito voltava de noite, então? Quase desmaiava só de vê-lo; ao deitar do lado dele na cama, sentia-se tão quente, que quando ele a abraçava e a beijava - esperto, ele; dava-lhe o carinho que ela tanto ansiava mas sem fazer nada além disso, a fim de acendê-la ainda mais - perguntava a si:

- Está com febre?

- Não sei, meu senhor...!

- Amanhã peça para que Maria da Graça lhe faça um escalda-pés.

Mas ele sorria por dentro, sabendo que ela se pelava toda assim era de desejo insatisfeito. Estava a dar certo afinal...

Do quinto dia para lá, nem dar de mamar pro filho Violante conseguia direito; pensava que era pecado demais amamentar pensando naquelas coisas todas; ela não tinha o direito de desfazer a inocência do filho daquela forma, pensava que tais pensamentos podiam passar a ele de alguma forma através do leite!

Tentava pensar no filho como um ser inocente, como seu bebezinho; mas olhava a criança e via que, tirando os olhos (que vieram muito parecidos com o formato dos seus) o nariz e a boca eram de Expedito direitinho; e então lembrava como havia "feito" a criança; todos aqueles pensamentos lúbricos a invadiam outra vez.

E de noite a presença do homem ali, inabalável, enquanto ela se contorcia toda de vontade na cama. Por incrível que parecesse, ele, que paradoxalmente a procurava todos os dias quando podia fazer sexo, no meio da penitência exibia um controle impecável. De manhã, novamente, ele a masturbava quase até gozar, mas nunca concluía o que havia começado. Mais de uma vez ela quase chorara, implorando para que ele terminasse.

- É a penitência. Sinto muito, minha senhora.

E sorria, por dentro e por fora. Que penitência que nada, aquilo havia sido apenas um pretexto para deixá-la mais louca ainda do que já era, para controlá-la completamente, para de forma implícita lhe dizer que quem mandava no prazer dela era ele; e que se ele quisesse, tirava dela e ela ficava sem. Que se o quisesse, tinha de aguentar apanhando mesmo! Que como mulher dele não tinha escolha.

No décimo dia afinal, beijou-a longamente na cama e enfim a tomou. Ah, como estava quente ela! Agarrou-o a ponto de deixar marcas de unhas, gemeu tão alto que ele temeu Josefa, a ama de leite, ser capaz de ouvir no quarto de hóspedes com o bebê...! E a possuiu com ardor, com vontade; mas a melhor parte fora quando a fizera implorar por si, senão ele não terminaria de a estimular. E ela implorou, chorando, gemendo de prazer quase até gritar. E ele bateu nela enquanto a estimulava; e ela continuou a implorar, até que ele deu prazer a ela a ponto de ela gozar três vezes, praticamente uma seguida da outra.

No dia seguinte, já saciada e composta com roupas recatadas, Violante finalmente se sentiu livre para pensar em outra coisa que não fosse sexo. Seu homem a deixou acompanhá-lo até a porta, respeitosamente a beijou na ponta dos dedos e partiu. Ela o olhava com "cara de quem havia visto passarinho verde"; de todo aquele ímpeto sexual, ficara a paixão; a emoção a tomara de tal forma, que esquecera completamente das violências dele. Apenas pensava em todo aquele sentimento que a tomava. Ora, ela gostava sim de se deitar com ele, mas também tinha ânsia de se sentir amada, de ser mulher de família, de ser "a esposa exemplar". Então, após o ímpeto sexual, lhe ficava a vontade de ser mulher dele, de receber carinho, de ser a sua companheira de vida.

Foi com gosto nesse dia que tomou a Timóteo no colo e deu de mamar, dessa vez pensando apenas na maternidade, em como era bonito haver uma junção de si e de Expedito no mundo! Em como o filho era parecido com o pai, saíra lindo como ele, um primor de criança!

E quando Maria da Graça passara pela sala a varrer, Violante estava a dar de mamar ao filho e disse, a suspirar de enlevo:

- Maria da Graça, o senhor Expedito pode ser frade, mas me faz tão feliz! Nunca me senti tão amada na vida quanto ao lado dele!

A criada sorriu. Era difícil uma mulher se sentir assim, a maioria tinha casamentos de vantagens ou mesmo sem amor, apenas conveniência. E ela pensou, afinal, que se a patroa se sentia assim tão bem numa relação de concubinato, Deus também não devia ver com tão maus olhos assim.

Já Expedito, não tinha ânsia de nada daquilo. O sexo o satisfazia, mas o sexo sozinho não fazia grande diferença; tinha de haver aquele ímpeto de controlar e destruir, caso contrário nem valia a pena. E amor? Aquilo era algo desconhecido a ele, era uma palavra e um sentimento que ele forjava existir apenas para alcançar seus objetivos de controle e dominação.

E no caminho a seu trabalho no Santo Ofício, ia matutando consigo mesmo: "Sempre mostra que é uma cadela no cio; me goza três vezes, grita a noite toda e ainda cisma de se fazer de mulher direita! Pois sim, não existe mulher direita. Existe, sim, mulher para se dominar e controlar, mas direita? Fosse eu relaxar na vigilância para ver quantos homens ela não haveria tido na cama".

OoOoOoOoOoOoO

Alguns dias depois, o inquisidor acordou, vestiu-se e vestiu a Violante e declarou:

- Hoje vamos à igreja batizar o nosso filho.

- Como será?

- Levaremos Josefa conosco. Diremos que ela é a mãe da criança; eu e vossa mercê seremos os padrinhos.

- Então teremos de tomar cuidado para não revelar que somos os pais...

- Naturalmente.

Tomaram o desjejum e o frei apenas esperou que Teresa terminasse de fazer o penteado em Violante para que saíssem. Foram então na diligência, Josefa levando a criança no colo.

Ao chegarem à igreja, a fidalga percebeu - não sem espanto - que estava há um ano sem sair de casa. Segundo o que seu homem dissera, o batizado demorara a acontecer porque se fosse feito muito cedo, as pessoas reparariam no período de nove meses da ausência de Violante e somariam "um mais um", sabendo da verdade afinal. Mas ao esperar um ano inteiro, disfarçavam mais.

Ao ver outras pessoas, Violante se sentia estranha; ficara um ano tratando apenas com as criadas e com seu homem; era estranho. Sentia até mesmo uma certa ojeriza ao lidar com as pessoas, como se não conseguisse fazê-lo ou tivesse se esquecido de como era.

Ao vê-la, dona Amália a abraçou, bem como a filha mais velha - a qual já tinha um bebê mais velho ainda, com cerca de seis meses de idade.

- Senhora dona Violante! Pois nem pôde vir ao batizado de meu neto! Que aconteceu?

- Estive muito doente.

- Mas sem vir à igreja? Céus, como ficou diferente! Está mais corada, engordou, o período de repouso certamente lhe fez bem!

- Fiz as orações em casa, o senhor frei me deu toda a assistência espiritual.

- Que bom! Mas o batizado hoje é de um afilhado seu?

- Sim, serei a madrinha do filho de Josefa, uma senhora pobre que nos pediu auxílio.

- Mas que gesto bonito! Eu o admiro muito! Pois bem, senhora dona Violante: ainda está em tempo de se casar e ter os seus! Ou quer morrer sem ser mãe?

A fidalga sorriu de canto de boca.

- Quem sabe, não é? É assunto para se pensar...

- Pois se dizem que até a senhora dona Mirtes, a esposa do senhor Antônio Carlos, está de barriga do primeiro filho da união deles! E ambos já tem filhos de outros casamentos, imagine a senhora que não os tem!

Violante sorriu outra vez, mas nada disse. Em seguida foi até a pia batismal, já a se preparar para os sacramentos do batismo da criança.

Durante o mesmo, segurou a criança por alguns momentos; Timóteo então procurou com as mãozinhas os seus seios, querendo mamar, chorando. Observando tudo aquilo com apreensão, pois o menino dava mostras de que era filho dela, com um gesto o frei chamou a Josefa para que desse de mamar à criança - "fora da igreja, pois isso de mostrar peitos dentro da mesma não era direito nem para alimentar a um bebê".

E foi o que ela fez. Após isso, trouxeram a criança e o batizado foi concluído.

No entanto, todos perceberam que a fidalga estava mais "grossa de quadris", com os peitos maiores e que o bebê tinha muito mais correspondências de traços com ela - e com Expedito - que com a pobre Josefa.

Então, de forma velada porém certeira, todos de repente tiveram a confirmação de que o filho era deles dois. Ninguém disse coisa alguma, mas todos de repente souberam. Sem que nada precisasse ser dito.

Ao chegarem em casa, Violante entregou o filho à ama, enquanto o frei ia ver o trabalho de Ana na cozinha. E enquanto de repente se viu sozinha na sala, a fidalga chorou. Chorou, pois não pôde dizer a ninguém que aquele filho era seu, mesmo quando ele, criança inocente, procurava seus peitos para mamar em pleno batizado.

To be continued

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Apesar de parecer "gostoso", o que ele fez no começo da fic foi equivalente a dar uma dose controlada de drogas a ela. A paixão e o sexo funcionam de forma semelhante à cocaína, e quando são manipulados dessa forma, pode dar em ruim bem grande. Some-se a isso o fato de que ela está sozinha, não tem parentes próximos; pessoas isoladas por longos períodos de tempo desenvolvem uma espécie de "lealdade" a seus captores, e isso é chamado de Síndrome de Estocolmo. Os captores dão pequenas gentilezas mescladas com ameaças de vida e deixam implícito que eles são a única forma de sobrevivência da vítima: são eles quem dão comida, eles quem dão tudo.

Foi exatamente o que este capiroto fez com ela. Por isso de vez em quando ele mescla carinhos com violência.

Expedito é um FDP, sim ou claro?

Outra coisa que estou achando ótimo é que ninguém está shippando esse negócio - muita gente shippa essas merdas loucamente, como fazem com "Crepúsculo" (que é relação abusiva mais velada) e com "Cinquenta tons de cinza" (muito mais explícita). Não é bonitinho e não é shippável. Felizmente todos os que leram "A mulher do inquisidor" estão esculhambando o frei do jeito que ele merece ser esculhambado.

Abraços a todos que lerem!