A MULHER DO INQUISIDOR
Capítulo 13
Num dia bastante comum e monótono no Santo Ofício (quando não havia denúncias, interrogatórios ou mesmo autos de fé as coisas eram de fato bastante tediosas), Expedito folheava pela milésima vez o Manual dos Inquisidores e pensava em como ia surrar a mulher àquela noite.
"Ela se mostra arredia, será que depois da 'penitência' que apliquei nela vai cooperar melhor?", pensava sem nada dizer, mirando maquinalmente as linhas do livro o qual ele até já quase sabia de cor de tanto ler.
Foi quando um dos guardas surgiu e anunciou a visita de um homem.
- Senhor inquisidor, há aqui um velho o qual deseja lhe falar.
- Velho? Que velho?
- Diz-se chamar Damásio.
O coração de pedra do frei falhou por um segundo - coisa que jamais fazia, sequer quando tinha de condenar a pessoas que ele sabia serem inocentes, apenas por interesse da igreja ou dos que as denunciavam.
Damásio era o nome do antigo noivo de Teodora!
- Diga a ele que espere um instante.
Foi rapidamente até o refeitório, viu se não havia ninguém e pegou, na mesa de refeições mesmo, uma côdea de pão já velho. Os cozinheiros lá andavam desmazelados, não limpavam o local com frequência e quase sempre deixavam tais cascas de pão por aí... de maneira muito providencial a si dessa vez, por sinal.
Após isso, foi até o guarda outra vez.
- Esse tal de Damásio está armado?
- Não. Já foi revistado.
- Pensa que ele seria forte o suficiente a ponto de poder se insurgir contra mim ou qualquer um dos que aqui se encontram?
- Senhor, há guardas em número suficiente no Santo Ofício para conter um destacamento militar caso assim fosse necessário. De resto, é só um velho.
- Meu amigo, eu aprendi a desconfiar dos que aparentam ser mais inofensivos: geralmente são eles que trazem os piores perigos, de forma oculta. Mas debalde! Mande-o entrar, qualquer coisa eu chamo os guardas. Se está desarmado, sozinho não poderá fazer muito contra mim.
O guarda o fez. O tal Damásio entrou, com postura muito humilde, o chapéu na mão. Se um dia fora rico - sua tia falava nele como um "partidão" em sua época - hoje estava vestido de maneira simples, a roupa bastante remendada.
Expedito sorriu a ele, apresentando um semblante afável. Apesar disso, o velhinho se surpreendeu com seu tamanho; não sabia que um sobrinho de Teodora; mulher baixa, socada, medindo pouco mais de metro e meio; pudesse ser tão alto.
- Sua graça é Damásio, meu senhor?
- Sim.
- Em que o Santo Ofício pode servi-lo?
- Bem... não sei se é permitido, mas poderia eu falar a sós com vossa mercê?
- Comigo? Por que não pode falar na frente dos guardas? Eles são de total confiança.
- São assuntos particulares. Caso prefira, posso me dirigir ao senhor quando terminar seu serviço...
Os guardas olhavam espantados pro velho. Como é que um homem que aparentemente era de classe baixa vinha falar em particular com um dos inquisidores mais influentes na corte, como se fossem "amiguinhos"? Mas Expedito não se mostrou incomodado, pelo contrário. Até preferia falar a sós com o raio do velho - se era quem estava pensando.
- Hoje não há muito que fazer. Podemos falar agora. Guardas, já retorno; terei uma palavrinha com este senhor, ambos fechados naquela sala.
O frei apontou o recinto. Eles assentiram, pois ficariam de olho caso Damásio tentasse atacar ou fazer algo suspeito, mesmo estando de fora do local.
Assim que entraram, o frei trancou a porta e ofereceu um lugar para que Damásio se sentasse. Ele o fez, ainda com os olhos muito baixos, o semblante tímido, quase envergonhado. O inquisidor se sentou de frente a si.
- Antes de começar a falar, meu senhor, quero que faça um favor. Tome esta casca de pão. Guarde-a no seu bolso.
- Hã?
- É para dar bom agouro. Ou o senhor rejeitaria o bom agouro de um frade da Santa Madre Igreja?
- Ahn... é claro que não.
Sendo assim, o senhor tomou a côdea e a guardou no bolso da casaca remendada. Expedito sorriu - só depois Damásio saberia do porquê de ele o fazer - e o incitou a falar enfim.
- Diga, meu senhor. Por que me procurou?
- Perdoe-me mais uma vez se tomo seu tempo. Mas era importante lhe falar.
Por um momento, ambos ficaram em silêncio. Mas logo o velho tomou coragem de falar:
- Vossa mercê é o sobrinho de Teodora, não é?
Expedito fechou os olhos e proferiu, ainda sem abri-los:
- Perfeitamente.
- Bem, não sei se sabe... mas ela tinha um noivo.
- Sim. Um noivo, ainda no Brasil. Ele fugiu com uma criada de sua confiança; uma criada que era sua confidente e sabia dos amores que ela nutria por ele. Teodora era louca por esse noivo...! Tanto que morreu virgem, na porta da igreja, cansada de tanto fazer novenas a fim de tê-lo de volta. Seu nome era Damásio.
Após dizer o nome dele, Expedito abriu os olhos e mirou ao velho com tamanho rancor, que o tal teve de desviar os olhos de si, tamanha energia negativa provinha deste gesto.
- Meu senhor, eu...
- Vossa mercê tem a mesma idade que ele teria hoje. Por volta de sessenta e cinco anos?
- Sim, meu senhor.
- Tem também o sotaque abrasileirado. Nunca se perde esse jeito cantado de falar dos trópicos... eu nunca o perdi, pois também nasci lá.
- É verdade.
- Pois sim... apenas diziam que vossa mercê era mais rico... como um homem que minha tia - a minha exigente tia - chamava de um "partidão", agora está desse jeito?
- A minha história é longa. Após partir, vivi amasiado com a criada por um tempo. Seu nome era Genoveva. Ela era mulher muito fértil, me deu dez filhos. E tais filhos me deram o que falar, uns pândegos. Gastadores que só vendo. Após um tempo Genoveva morreu, no parto do décimo primeiro filho. Dos dez que teve, já morreram cinco. Alguns ainda crianças, outros nas brigas de rua; outra morreu no parto também, que o destino cruel parece levar muitas mulheres quando vão a ter filhos. Pois bem... após ter-me morrido a filha no parto, fiquei pensando se não poderia voltar e me casar com Teodora. Afinal de contas, eu a havia abandonado; ela era fidalga, de boa procedência...
-...poderia vir a saldar as dívidas de seus filhos com o dote dela, pois sim?
- Não só por isso, mas por um dever moral.
- Quantos anos tinha nessa ocasião.
- Mais de quarenta. Sei que errei, tardei muito em tentar saldar meus erros. Porém, fiquei sabendo que ela já era também morta, como o senhor mesmo disse. Na porta da igreja, vestindo preto, morrera de repente num esgar. Só por isso não me casei com ela, mesmo que tardiamente.
- Sim. E que mais tem?
- Fiquei sabendo que vossa mercê, o único herdeiro dela, era agora um dos mais influentes inquisidores da Santa Madre Igreja em Portugal. Surpreendi-me, pois ela enviara ao único herdeiro homem para ser eclesiástico...
- Sabe por que ela me enviou para ser frade?
- Não.
- Por uma promessa. Teodora nada fazia da vida, desde que eu era criança, senão rezar para que o senhor voltasse a ela. Rezava, fazia novenas... e odiava aos homens. Sabe quantas vezes eu apanhei quando na verdade era ao senhor que ela queria espancar?
Silêncio. Damásio nada ousava replicar. Expedito continuou:
- Sabe quantas vezes ela disse que a culpa de vossa mercê não voltar era minha? Ora, ela me batizou "Expedito" por causa do santo; o santo para o qual ela fizera tantas novenas a fim de trazê-lo de volta. O santo das causas urgentes e mais difíceis... pois bem, sabia que ela me colocou como frade dominicano a fim de saldar a uma dessas infindáveis promessas?
- Tenho ideia, meu senhor.
- Não, vossa mercê não tem ideia. Hoje sou inquisidor, tenho plenos poderes inclusive sobre a realeza. Só uma coisa não posso fazer: me casar. Pois um rapaz vai ao seminário, estuda com os padres, depois vai ao mosteiro e se ordena como dominicano contando com apenas vinte e um anos de idade; isso, a eles, já bastaria para esse mesmo rapaz ficar sem desejar a uma mulher pro resto da vida?
- Não entendo onde quer chegar.
- Entenderá. Hoje, meu senhor, eu moro com uma mulher a quem eu amo desde o primeiro dia em que vi. Uma mulher lindíssima; era donzela quando a conheci. Fiz tudo nos conformes: a assumi, dei casa, criadas a dirigir, tudo que um fidalgo daria a sua esposa. Mas não posso lhe dar a legitimidade. Não posso dizer a todos que é minha mulher, e sim digo que é minha governanta. As criadas de casa são muito bem pagas para calarem a boca e não traírem o meu segredo.
Damásio o observava, comovido, mas ainda sem nada falar. Expedito continuou:
- Essa mulher recentemente me deu um filho. Sabe que tive de batizá-lo como se fosse filho de um casal pobre? Sabe o que é sair às ruas e não poder chamar a seu filho de "seu"? Vossa mercê teve dez filhos com uma criadinha reles e mesmo assim podia chamá-los de "seus" a todos; é um direito tão básico, que até os animais o tem. Até os animais levam a sua prole junto consigo e todos sabem que é deles. Eu, inquisidor da Santa Madre Igreja, com poder superior ao do próprio rei, não posso fazê-lo. E tudo isso porque um tal senhor Damásio abandonou a minha tia, a qual decidiu fazer promessa comigo por conta disso. Se não fosse por isso, hoje eu seria homem leigo - menos poderoso, é verdade - mas ainda com a herança que minha tia deixara, ainda seria fidalgo e poderia ter-me casado com essa mulher e chamar a meus filhos de "meus". Que tal, senhor?
O frei tentava esconder o ódio em seu semblante, mas não conseguia. O sentimento mau resvalava em suas palavras e atingia ao velho como se fosse um dardo cheio de veneno.
- Senhor inquisidor, eu de coração lhe peço perdão.
- Não pode reverter a situação agora; se voltasse apenas alguns anos após a fuga, certamente Teodora o perdoaria e se casaria consigo. Eu então estaria a salvo desse destino que me atingiu. Porém, hoje é já impossível, por mais que se arrependa. Porém, sei por olhar em seus olhos que vossa mercê não me procurou apenas para pedir perdão. Não se esconde cousa alguma de um inquisidor experiente, senhor Damásio.
O frei sorria, e o velho já via nele as garras que usualmente o sorriso dele trazia.
- Perfeitamente, meu senhor. Mesmo sabendo que, como frade, o senhor deve ter entregado tudo que lhe caberia como herança à igreja, mas... como inquisidor influente, será que poderia me indicar alguma colocação? Fiquei completamente pobre; eu e meus cinco filhos restantes, isso sem contar os netos, passamos fome; algumas filhas costuram para fora, mas o dinheiro não tem dado sequer para a panela; contamos com a caridade alheia para comer. Isso não é posição digna de um fidalgo, muito menos em minha idade...
Expedito sorriu outra vez. Que ousadia a do velho, a de vir lhe pedir guarida ali após toda a patifaria que fizera a Teodora!
- Senhor Damásio, o que falou é verdade. Porém apesar de ter entregue meus bens à igreja, tenho recebido doações dos fiéis que ajudam até mesmo a sustentar a meu filho e minha mulher. Não se engane: apesar de não ser legitimamente casada ela é muito direita, não sai sem mim de casa, é muito guardada. Também tenho o dote dela em meu poder, ela que era fidalga. Portanto, creio que posso, sim, salvá-lo. Os membros da igreja devem ser misericordiosos, não?
O pobre homem sorriu. Ele o compreendia, afinal!
- Sabia que como ministro de Cristo, o senhor me compreenderia!
Expedito se levantou do assento e foi até o homem ainda a sorrir.
- Levante-se, senhor Damásio.
O homem o fez. Mas no segundo seguinte, se viu varado por tamanho soco, que arrancou dois dentes de sua boca. Foram necessários alguns instantes para que ele reagisse e conseguisse falar algo:
- Senhor inquisidor, disse que ia me salvar!
- Sim, eu o salvarei. A salvação do pecado... reside em destruir o corpo em detrimento da alma, senhor Damásio.
Em pânico, o velho percebeu que a sala estava trancada e ele estava totalmente em poder do inquisidor. Então Expedito o surrou tanto, que quase o matou de tanta pancada - com as mãos, sem instrumentos de tortura. As surras que dava em Violante podiam obedecer método, pois ela tinha de se apresentar às criadas depois, e essas não podiam desconfiar que a patroa era infeliz com ele. A tortura de sua mulher era lenta, insidiosa e metódica. Já a tortura de restos de gente como aquele, ah...! Essa era pra ser brutal, visceral de fato. Pra que ter cuidado com semelhante estafermo, cujos filhos e netos eram pobres e estavam quase a pedir esmola? Quem sentiria falta de semelhante biltre, que nada tinha a deixar a parentes, à coroa ou à igreja mesmo?
Após moê-lo bem de pancada, arrastou-o pingando de sangue para fora da sala, pelo colarinho da pobre camisa remendada. Lá fora, os guardas se assustaram; inquisidores costumavam deixar aquele tipo de coisa somente para a sala de tortura; e após alguns "protocolos", como mostrar os instrumentos, usar de astúcia, e aí sim somente usar da tortura.
- Perdoem-me, senhores, por ter utilizado da força bruta com este indivíduo - começou Expedito, ainda tentando manter a imagem pública como algo bom - Mas não pude me conter! Não pude! Este homem é um herege confesso e pediu que eu o acobertasse! Não, eu não posso permitir semelhante ofensa dentro do Santo Ofício sem nada fazer. Chamem aos demais frades e entenderão o que digo.
Os guardas o atenderam prontamente. Os demais frades, alguns também inquisidores, observaram o homem ensanguentado. Expedito disse então:
- Senhores, este homem é um dos últimos cátaros infiltrados em Portugal!
Um "ah" de assombro perpassou por todos, inclusive perante os guardas. Ele continuou:
- Vejam, não posso mentir; revistem-no e acharão a prova.
Revistaram-no. E no bolso da casaca, acharam então - a côdea de pão. Os guardas não se lembravam dela quando o revistaram a fim de perceber e interceptar armas, porém eles procuravam por armas, não por evidências de heresia. Certamente o senhor frade era pessoa muito mais indicada para fazê-lo do que eles, e ninguém o contestaria.
Ora, a côdea de pão era nada menos que o principal símbolo de devoção ao catarismo - uma das heresias mais fortemente combatidas pela inquisição na Idade Média; só não sabiam que ainda havia cátaros espalhados por aí.
- Senhor Expedito, ele confessou?
O velho, espantado e nunca antes tendo passado pelas mãos da inquisição, disse:
- Eu não! Nem sei que diabos é catarismo!
- Cuidado com a língua! Não fale de "diabo" aqui dentro da sede do Santo Ofício, seu herege!
Expedito sorriu.
- Vejam como se entrega por si só, o danado do inferno!
Um dos demais frades se pronunciou:
- Senhor Expedito, como foi ao senhor que o tal homem dirigiu semelhante infâmia, e agora recusa-se a confessar perante testemunhas, deixamo-lo ao seu encargo. Confiamos em vossa habilidade de fazê-lo falar aos registros da Santa Inquisição.
Ele assentiu e, persignando-se diante do enorme crucifixo que havia na sala, ordenou aos guardas que o levassem à sala de torturas.
Lá dentro, com a companhia de mais dois frades escrivãos os quais tomariam notas de tudo que o inquirido dissesse; e de um soldado o qual operaria as máquinas as quais Expedito escolhesse; o inquisidor fez o que quis. Colocou-o primeiro a apertar polegares - e como fora fácil quebrar aqueles ossos de velho da mão dele! - depois o colocara na máquina de evisceração e lhe arrancara os intestinos, lentamente; até que finalmente ele confessou. Nem sabia o que era catarismo, o pobre do homem. Mas confessou, apenas porque Expedito, de maneira suave, a voz como seda, lhe dissera que se confessasse, sua morte seria menos cruel. Se não confessasse, deixariam-no sem o intestino, a sangrar e a definhar por vários dias. Se confessasse, arrancariam o resto das vísceras e ele morreria em poucas horas.
Expedito sorriu. O veredicto estava dado: era mais um herege de quem ele salvava a alma afinal. Disse aos frades escrivãos que podiam ir embora, bem como os guardas; ele observaria a morte dele de perto, o olharia até morrer.
Um dos frades o questionou.
- Meu senhor, o homem não deveria ser queimado como herege, na fogueira?
- Sem intestino já, vai sobreviver até o dia do auto de fé? Ainda vai demorar para ter outro; deixem-no aqui comigo, eu assumo o penoso sacrifício de vê-lo expirar, encomendar a sua alma a Deus - que o Senhor o perdoe! - e então anotar no livro de registros o horário e como foi, o que disse, etc.
Sem contestá-lo, foram todos embora. Expedito, os olhos feros, lancinantes, o rosto a sorrir de uma euforia mórbida, apenas sentou-se diante do homem e o saboreou agonizar até morrer. Era velho já, desnutrido, não tinha saúde. Não ia demorar muito. Mas queria gozar a morte do antigo noivo de Teodora sozinho, sem dividir com ninguém. Haveria como deixá-lo vivo pelo menos até o dia seguinte, a fim de ser queimado em praça pública; mas ele não queria. Não, aquele espetáculo era apenas seu.
Ainda com as mãos cheias de sangue, sem lavar, interrompeu seu prazer apenas para avisar a um dos guardas que fosse até sua casa e avisasse às criadas que podiam ir embora pois ele provavelmente não voltaria no horário de costume, por causa de um interrogatório em especial. O mesmo o fez. Ao recebê-lo, Maria da Graça foi avisar à fidalga:
- Senhora dona Violante, o senhor frei vai demorar para voltar!
- E por que?
- Por causa de um interrogado mais difícil.
- Malditos hereges, a ocupar o homem dessa maneira! Ah, quando eu digo que ele é um santo... mas enfim, não há jeito.
Como não tinha cópias das chaves e o inquisidor ainda a trancava em casa sempre que saía, Violante teve de deixar as criadas sair pelas janelas; apenas esperava que os vizinhos não reparassem. Pouco depois, teve de deixar Josefa, a ama de leite, entrar também pela janela. Então ficaram ambas na sala de estar com o bebê - pois Violante não quis ficar sozinha a esperar o homem.
Roeu as unhas, nervosa, apreensiva; que falta fazia ele ali! Que falta de cear com ele, depois ir ao banho com ele e enfim... ah, céus, ser dele afinal! Mesmo que apanhasse, mesmo que ele a chamasse de nomes feios; gostava dele! Já se acostumara de tal forma com sua companhia, que nem gostava de pensar em um dia, mesmo se fossem já muito velhinhos ambos, precisar presenciar a morte de seu homem antes da sua! Cruz-credo! E já idealizava que morreriam juntos, para que não se separassem nem no além-vida...
Ia nesses devaneios, quando enfim ouviu o barulho da porta a ser destrancada por ele. Levantou-se na mesma hora para recebê-lo... mas se assustou. Ele estava transtornado, diferente; o semblante completamente louco. A ama de leite, a qual estava bem menos acostumada com a presença aterradora dele, simplesmente virou o rosto e se persignou.
- Meu senhor, o que há?
Ainda sem responder, o olhar estático, Expedito tomou a uma postura submissa, a qual jamais tomava com ninguém; beijou as pontas dos dedos de Violante e disse, à meia-voz:
- Finalmente está vingada, minha senhora.
- Vingada?! Meu senhor, que é isso?
Alguns segundos depois, a mente dele voltou à realidade e disse simplesmente para "deixar pra lá", que ele estava a falar tonterias. Mandou a Josefa para o quarto de hóspedes com o bebê, ceou e depois tomou a Violante para que fossem ao banho. Lá, ela perguntou novamente a ele sobre ela estar vingada; se aquilo tinha relação com João Fernandes ou Xica.
- Ah não, minha senhora. É que na penumbra das velas, ao vê-la, pensei estar a ver minha tia. E hoje eu a vinguei.
Parou por aí e não contou mais nada. Não quis dar detalhes. Mas Violante também não quis saber, pois ele não batera nela naquela noite e a amara com carinho, com os beijos dos quais ela tanto gostava. Então desejou que Expedito pudesse "se vingar" mais vezes, caso viesse assim tão terno para casa após fazê-lo.
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
Tive de repente essa ideia de fazer o ex noivo da Teodora cair na mão da inquisição. Ironicamente, por causa de ele ter deixado a noiva o Expedito foi pro mosteiro virar frade; e foi justo na inquisição que o homem caiu. Lei do karma, oi? Rsssss!
Sobre a Violante sentir falta dele mesmo apanhando: a partir daqui aprofundarei mais a "Síndrome de Estocolmo" dela, ou seja, ela vai ficar cada vez mais dependente dele e o verá como um "homem bom", independente de apanhar. Isso porque finalmente ele está conseguindo extirpá-la da vontade própria e transformá-la numa "extensão de si".
Tal acontece por causa do isolamento dos demais, onde ela o vê como a única fonte de contato humano próximo; e com carinho intercalado com agressões. Com o tempo, mesmo com agressões mais fortes, a pessoa tá tão acostumada e "viciada" na "droga", que continua apanhando somente para ainda receber a "droga" de vez em quando, ou seja, o "afeto" falso daquela pessoa. É um mecanismo bastante complicado, muitos não conseguiriam se desfazer facilmente, mesmo que racionalmente soubessem que faz mal. Assim como pessoas viciadas em drogas precisam de tratamento e não conseguem largar somente por saberem que faz mal. A coisa é subconsciente e vai pra química cerebral, de fato.
Abraços a todos os que lerem!
