A MULHER DO INQUISIDOR
Capítulo 14
Ao decorrer do dia, Violante em casa, somente com as criadas e o filho, começava a sentir uma melancolia sem fim. Tinha ganas de chorar, de se jogar à cama e ficar lá o dia inteiro. Nem a volta de seu homem a dava mais ânimo, embora nos últimos tempos ele não batesse mais nela. Não sabia de onde vinha aquela angústia, afinal de contas ela não tivera seu filho? Não tivera exatamente a vida que almejara? Apenas não era casada na igreja, mas... quantas não o eram e viviam vidas de libertina, com amantes sem conta? Ela era mais guardada que muitas, e também jamais dava motivos para reclamação.
Então de onde vinha aquela tristeza?
Olhava para o rosto de Timóteo e se sentia deprimida. Não sabia porque, mas a tristeza era uma constante em sua vida.
Expedito, obviamente, percebeu o que ia no coração dela e passou a lhe agradar como no começo: a beijava, dizia que ela era o amor de sua vida, que o amor deles havia sido traçado por Deus. E ela assentia, aproveitava os beijos, mas a tristeza não se ia de todo.
Passou também a levá-la mais vezes para a igreja, junto com o bebê e Josefa, a fim de amamentá-lo. A ama não reclamava, pois ganhava muito bem e ainda tinha permissão de comer na casa dos patrões. Uma de suas irmãs ficava a amamentar seu próprio filho enquanto ela estava a trabalhar e o nível de vida dela e da família subira bastante, tudo por causa do dinheiro que lhe era pago para manter àquele segredo funesto do fruto da concubinagem do frade com a fidalga.
Na igreja, todos ainda os tratavam de maneira afável; porém todos já sabiam que Violante era a "mulher do inquisidor" e que o filho era deles. Expedito não recebera nenhuma repreensão e ninguém se surpreendia: era ele o principal e mais eficiente inquisidor de Portugal; era para o século dezoito o que Torquemada fora no século dezesseis na Espanha. Onde, em pleno "século das luzes", com aquele monte de heresias e ateus brotando e vicejando, a ameaçar o poderio da igreja cada vez mais, achariam outro daqueles? Se ele quisesse ter mulher, que tivesse; desde que fosse discreto, a trouxesse também discreta, e não desse escândalo.
Porém, se o desculpavam, não faziam o mesmo com Violante. Ela vinha sempre bem recatada, com vestido sem decote e muitas vezes de cores sóbrias, como negro ou marrom, sem maquiagem ou perucas, sem olhar pros lados, apoiando-se no braço do inquisidor como se não pudesse mais se suster nas próprias pernas sem ele. Sempre a rezar, com o terço nas mãos, passando as contas nervosamente por seus dedos de mulher ansiosa.
Viam a ela e pensavam: como uma mulher dessas se tornou amante de frade? Por que não se casava? Será que ela tinha alguma "dívida" com a inquisição a ponto de ter sido obrigada a ser dele?
Era quase isso. Mas o que todos não sabiam era que ela, além de dívidas, tinha também aquela chaga, tão facilmente manipulada por Expedito.
Mesmo os comentários recaindo mais sobre ela, que era mulher, do que sobre ele, que era clérigo, as pessoas não conseguiam maldizer dela por muito tempo ou de maneira demasiado mordaz. A mulher era tão recatada, trazida tão "na rédea" por Expedito, que ninguém conseguia associar a imagem dela à de uma amante ou de uma marafona; tinha mais ares de beata, de mulher legítima, do que muitas que lá casaram com todos os sacramentos necessários.
E até mesmo dona Amália, que assim que começaram os comentários se surpreendera grandemente e adivinhava aí a razão de Violante não vir a se casar (por já ter homem de outra maneira), não conseguira negar a sua casa a ela.
Como andava saindo mais, Violante também ia mais vezes na casa de dona Amália. Lá ela ria, brincava com o filhinho de Conceição, a filha mais velha dela; dava conselhos de castidade e de esperar marido à Beatriz, a mais nova; e um dia mesmo levara a Timóteo lá para que todas vissem.
O frei consentira com essas coisas todas não só por causa da melancolia da mulher, mas porque ele próprio já fora informado de que muitos falavam da concubinagem dele com a fidalga, e para disfarçar ele queria dar a ela algo próximo de uma "vida social normal" para uma mulher de sua idade.
Quando ela ia embora, Amália mandava Beatriz pro quarto a olhar o sobrinho "pois aquele não era assunto de se conversar com menina-donzela, a quem ainda não fora dado homem", e chamava a Conceição para que ambas confabulassem. Observaram a moça pela janela a partir.
- Veja como lá vai ela, até a diligência do frei. Vai toda direita, nem olha pros lados. Com a mantilha a lhe cobrir, dá a mão para ele e sobe no carro como se fosse senhora de família. Que é isso? Não tem jeito de barregã ela, não...!
- Minha mãe, não tem de forma alguma; mas se mora com o frade e teve um filho com ele... é porque não pode ser considerada uma senhora casada.
- Não pode. Mas veja que modos! Como chamar a uma mulher dessas de concubina? Já surgiram rumores de que ela na verdade não é viúva; fora casada com um homem que nunca a amou, que a deixou ainda donzela dentro do casamento; e o frade, que já era apaixonado por ela, pediu a anulação do casamento e a chamou para viver com ele. Dizem que ela se sentiu tratada como mulher tão digna, que aceitou mesmo sem ser casada com ele...! Pois ele a trata assim de forma tão austera...
- Não sei, minha mãe. Pode até ser, mas esse frei não me parece boa bisca. Raramente sorri, e quando o faz dá medo. Não fala com quase ninguém na igreja...
- Pois, minha filha...! Não deixe que te escutem a falar assim, ele é inquisidor influente! Com gente assim não se mexe!
E assim a fidalga ia passando a vida; no entanto, a tristeza não passava. Às vezes se punha a chorar de tarde, quando estava sozinha, sem Expedito e o menino dormia; sua vida se tornara Expedito e o bebê, nada mais fazia sentido. Quando se via assim sozinha, sentia ímpetos de rezar ainda mais, mas não se concentrava no rosário; também não conseguia ler, nem podia sair sem o homem, que a essa hora estava no Santo Ofício, a fazer sabe-se lá Deus o que com aqueles hereges. Então se distraía a comer, pedia cada vez mais comidas rebuscadas a Ana; pedira até para olhar o livro de receitas, e já começava a ganhar peso.
A cozinheira, reparando na angústia da senhora, uma tarde resolveu conversar com ela.
- Minha senhora, perdoe-me se sou intrometida; sei que assim que a senhora veio para esta casa me puniu pois falei mal do senhor frei, mas não aguento mais vê-la dessa maneira. Que tem?
- Eu? Ora, estou ótima! Tenho um filho, uma casa bonita, grande, arejada... um homem que me dá de tudo... que mais quero eu?
- Mas de vez em quando parece estar tão sofrida, minha senhora...
- Bem... é a vida, filha! É a vida, que quando era solteira eu reclamava de não ter homem, de não ter filho, e sofria do mesmo modo! Agora que os tenho, sofro também! É a vida, talvez se eu tivesse um outro filho as coisas pudessem se arranjar...
- Outro filho não resolve, minha senhora, se me permite a ousadia de opinar. Minha irmã a cada vez que tem filho novo se multiplicam os problemas!
- É, tem razão. E ainda está cedo para ter outro...
- Minha senhora, que mal lhe pergunte, mas o senhor Expedito a faz feliz?
- Claro que faz! Me dá de um tudo, já lhe disse!
- Mas ele não é frade? Ele não deveria ser celibatário?
- Ahn... minha menina, as coisas não são assim que acontecem. Muitos homens da igreja precisam também tem lá a sua mulherzinha, sentar-se ao pé dela para conversar na hora dos serões... que mal há nisso?
- Eu cá não vejo mal algum, apenas penso que se a igreja ordena... e por que ele não deixa de ser frade?
- O trabalho que ele executa no Santo Ofício é muito importante pra ser largado assim.
- É verdade... que vossa mercê não era viúva antes de conhecê-lo, e sim casada?
Violante a olhou com olhos lancinantes, como no tempo em que era solteira e tratava aos escravos em casa de seu pai com o maior rigor.
- Quem te falou?
- Ahn... comenta-se!
- Pois Maria da Graça abriu o bico, não? Dêem graças aos céus de minha pior fase ter passado, pois se fosse em outros tempos estavam ambas na rua! Mas de qualquer modo... é verdade, sim. Eu era casada, mas meu marido nunca consumou relação comigo.
- E por que? Uma senhora de dote, tão bonita...
- Ora, Ana... mesmo eu sendo tudo isto, já era passada da idade de casar... meu noivo sempre me odiou...
As lágrimas cismaram em sair dos olhos de Violante, sem que ela pudesse contê-las. Ana a abraçou, mas a fidalga a repeliu.
- Não tenha pena de mim!
- Não é pena, senhora! É uma caridade que se faz a qualquer cristão, pois sim?
- ...ele me odiava e me trocou por uma escrava no Brasil. Foi então que escrevi para o rei a fim de ser trazido um inquisidor e... bem, Expedito se apaixonou por mim. Eu praticamente forcei a meu antigo noivo a casar comigo, mas ele de raiva me trancou numa torre, sem consumar a relação. É isso! O frei então soube e pediu a anulação do casamento, para depois me trazer para cá.
- Mas, minha senhora! Chamar a um inquisidor! Todos temem os inquisidores; apenas aceitei trabalhar aqui porque o salário é quase o dobro do que se paga e preciso do dinheiro para ter um dote; tirando isso, se não precisasse eu não passava nem pela mesma rua que ele!
- E por que? Por que tem essa ojeriza dele? Expedito é um homem tão bom!
- Pois me desculpe, mas não é! Não é! Ele tem uma energia pesada, má, não consigo ficar mais que quinze minutos debaixo do mesmo teto que ele! Acho mesmo é sorte que quando ele chegue aqui já nos dispense, pois não aguentaria ficar como Josefa, a noite toda trabalhando debaixo do mesmo teto em que ele está. E a senhora me desculpe, mas... como consegue... ter coragem de se deitar com ele?
Violante a mirou com olhos feros outra vez. A tal de Ana era deveras bastante atrevida!
- E isso lá são modos ou conversas de moça-donzela, a qual ainda não foi dado homem?
- Desculpe-me, mas nós de classe mais pobre somos criadas de maneira mais livre. Minha irmã casada já me falou bastante sobre como um casal se porta quando está na intimidade, e diz que faz isso para me instruir, quando chegar a minha vez.
A fidalga se persignou, horrorizada.
- E como falam destas coisas?! Mas que pouca-vergonha!
- Desculpe-me, mas a senhora... sem ser casada, a co-habitar com um frade... não pode falar muito em "pouca-vergonha".
- Ora! Lave essa boca com sabão! Pois posso não ser casada, mas sou apenas dele, mais guardada que as demais damas da corte! Uma mulher direita deve ser inteiramente pura antes do casamento; depois dele, deixar que o homem a instrua completamente, sem aprender nada de terceiros, pois ele é dono de si! Posso não ser casada na igreja, mas quem me ensinou tudo que sei hoje neste aspecto, foi ele e mais ninguém!
- Pois sempre estranhei o fato de não poder sair à rua acompanhada de uma aia, como as demais. Só sai com ele.
- Expedito faz isso para me guardar, para me deixar pura em face do que lá vai fora. Devo viver para ele, somente para ele; ser somente dele e pronto.
- Senhora dona Violante, me perdoe a pergunta, mas... ele já lhe bateu?
Ela ficara tão surpresa, que até mesmo engoliu em seco.
- E por que pergunta?!
- Porque ele tem olhos de homem mau, que quer destruir tudo com as mãos.
- Percebe isso nele?
- Sim. As outras também. Reparam que ele não traz ninguém em casa, sequer os outros clérigos. Talvez com medo de trair o segredo que tem com vossa mercê, mas... de qualquer forma, todos já comentam.
A fidalga abaixou os olhos, mas nada respondeu.
- Escute, Expedito é um homem bastante austero, regrado. Por isso mesmo não o criticam, pois a vida que vivemos aqui dentro é santa. É isso mesmo, é santa! Veja, a casa cheira a velas e a incenso da igreja mais que qualquer outra casa que eu já conheci. As pessoas reparam nisso, reparam em meus modos de mulher recatada na igreja em nos demais lugares. Ele pode ser regrado, mas não é um homem mau. Como um homem que serve ao Santo Ofício pode ser mau?
- Ah, senhora... alguns até mesmo dizem que as torturas estão ultrapassadas, que neste século de luzes outras formas mais humanas de castigo deveriam ser instituídas...
- Ora vejam! Se sabem que a própria cozinheira do senhor Expedito tem essas ideias! Ora vá, vá pra cozinha que é teu lugar, pare de me apoquentar!
A criada o fez. Mas aquelas coisas que ela lhe falara; ela, uma moça onze anos mais nova, e no entanto falara de forma tão perspicaz... ela estava de fora, e ademais vivia como pobre, uma vida mais sofrida e mais em contato com as coisas do mundo.
E à noite, quando o homem a procurara, ela, pensando que ia ser amada de forma mais dócil outra vez, finalmente após um "jejum" de meses, apanhara dele outra vez. Então lembrou das palavras que Ana lhe dissera: de ele ser um homem mau, com jeito de quem quer destruir.
E após os deveres conjugais, já ambos tomados banho e vestidos para dormir, Expedito a abraçou na cama e disse que a amava. Ele agora estava a mesclar ambas as atitudes, carinho e agressões, caso contrário era capaz de ela nunca se levantar daquela tristeza na qual se encontrava recentemente.
Mas o carinho já não adiantava. Após o frei dormir, Violante não conseguiu fazê-lo e foi tomar um copo d'água. Na cozinha, sozinha, apenas contando com a luz do candeeiro, chorou copiosamente, até cansar e dormir sentada na mesa, debruçada, sobre as próprias lágrimas.
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
Violante na fic já começa a ter sintomas do "estresse pós traumático", ou seja, uma condição na qual se fica após sofrer abusos severos. É semelhante a quem passou por uma guerra. Por isso os carinhos não fazem mais efeito: ela já está muito exaurida pra se deixar levar por eles.
Apesar disso, por apenas ver ao frade todos os dias, ela ainda quer defendê-lo mesmo perante as criadas e deseja pensar que é feliz, mesmo diante de todas as violências. A síndrome de Estocolmo e o transtorno do estresse pós traumático se mesclam e ela tem comportamentos dúbios. Aí tem gente que se aproveita e diz que a pessoa nessa condição está "louca". Fácil acusar, né?
