A MULHER DO INQUISIDOR
Capítulo 15
Quando já era de manhã, a fidalga sentiu que alguém a sacudia pelo ombro. Então percebeu que havia dormido sobre a mesa da cozinha.
- Minha senhora, por que dormiu aqui?
- Hã?
- Dormiu aqui, na mesa da cozinha! Daqui há pouco chegam as criadas; e se a vissem assim?
Violante viu o frei a mirá-la e nada disse. Sentira uma angústia muito grande pela noite, pois havia apanhado outra vez. Mas não ousava contestá-lo. Ao menos naquela hora não.
- Perdoe-me. Vim buscar um copo d'água e acabei pegando no sono.
- Pois vamos. Tenho de vesti-la e ir embora.
Como em todos os dias, Expedito a compôs e depois pegou a diligência. Mas após quase dois anos de relação, ele passou a reparar que ela não tinha mais o mesmo "ânimo". Talvez por apanhar e não gostar. Talvez por ter uma relação clandestina. Então aquela mordaz hipótese lhe vinha à mente: e se ela resolvesse se casar com outro? De todo modo podia se passar por viúva e casar; quem a impediria?
E em seu íntimo a odiava ainda mais, não só por ser mulher, mas por ser mais livre que ele. Sim, a mulher que todos os dias ele trancava dentro de casa era mais livre, pois caso assim quisesse podia casar legitimamente. Ele não. E mesmo que a tivesse mais dominada, ao mesmo tempo via-a a chorar, a não corresponder mais com o mesmo entusiasmo.
Tal pensamento se evidenciou ao vê-la dormir na cozinha. Como a Violante carente de outrora preferiria dormir na cozinha em vez de fazê-lo em seus braços na cama? Era hora de agir, caso contrário perderia o controle sobre ela.
Tudo ficou ainda pior quando Maria da Graça chamou a ele num canto, num dia, e disse afinal:
- Tome cuidado. A menina Ana anda a falar mal de sua pessoa para a senhora dona Violante.
- Como assim?
- Diz que jamais passaria pela mesma rua que o senhor caso não precisasse do dinheiro que paga.
- Ora, mas não está má! Não sirvo para passar pela mesma rua que ela, mas o dinheiro que lhe dou é útil! É boa! E minha mulher, o que diz?
- Ela o defende. Diz que é pessoa boa, e manda a menina de volta pra cozinha.
- Sei. É bom saber, muito bom saber. Maria da Graça, em que hora ambas estão a ter este tipo de conversa?
- Quando a senhora vai a dar de mamar ao bebê, por volta das duas da tarde.
- Sei. Escute, se continuar a me ser leal, eu a recompensarei muito bem. Agradeço-lhe muito.
- Nada mais faço do que minha obrigação.
Com uma reverência simples, a arrumadeira matrona voltou ao serviço. Expedito não confiava em ninguém; aquilo podia ser mera intriga de criadas, uma a tentar desbancar a outra. Portanto, tinha de ver com os próprios olhos.
Num dia em que as coisas andavam mais tranquilas no Santo Ofício, pediu dispensa por apenas uma hora. Como era muito aplicado e nunca as pedia, a licença foi deferida. E lá foi ele espreitar: ficou debaixo da janela de sua casa, apenas escutando para ver se ouvia algo.
Foi quando tudo começou... Ana iniciou enfim o diálogo que ele tanto esperava ouvir:
- Minha senhora, está bem hoje?
- Sim, estou.
- Não me respondeu a pergunta que fiz outro dia. O frei bate em si?
- E por que quer saber?
- Porque uma vez vi um lençol para lavar e ele tinha sangue...
- Ora! Mulheres não tem regras afinal?
- Tem, mas aquilo era sangue em maior quantidade que nas regras.
- E se bater? Hein, e se bater? Toda mulher apanha, aposto. A minha madrasta apanhava também, aposto que sua mãe e sua irmã apanham.
- Minha irmã não apanha. Ela e meu cunhado são pobres. Não são loucamente enamorados um pelo outro, discutem bastante até. Mas ela nunca apanhou.
- Que seja. Que seja! Não tem nada que ver com a minha vida, ouviu?
- Mas apanha, não?
Violante silenciou. Com aquele silêncio, ficou óbvio que apanhava. Então Ana replicou:
- Como pode um homem daquele tamanho bater numa mulher como vossa mercê?
- As mães não batem nos filhos?
- Vossa mercê não é filha dele.
- Mas sou a mulher dele!
- Expedito é mau. Chega aqui com olhos de que mal pode se segurar para lhe dar uma surra...
- Basta. Basta! Vá para a cozinha, vá! E nada de falar mal dele na minha frente!
Apesar de atrevida, Ana sabia a hora de parar. Fez uma breve reverência à fidalga e saiu. Mas assim que o fez, Violante começou a chorar - como fazia com frequência pelo período da tarde.
E Expedito pôde confirmar que Maria da Graça falava a verdade.
"Pois muito bem. Ainda não é hora de agir. Falarei com Ana na hora certa, da maneira certa. De qualquer modo, fico muito satisfeito em perceber que Violante me defende".
E voltou para seus afazeres no Santo Ofício, como se nada houvesse se passado.
No dia seguinte, Maria da Graça lhe deu novo relatório. Ele fingiu que não havia espionado, a fim de saber se o que a arrumadeira lhe contaria tinha verossimilhança com o que presenciara.
- Meu senhor, Ana perguntou a sua mulher se apanhava. Falou que viu lençóis cheios de sangue... mas se nem é ela que lava, essa futriqueira!
- E Violante, que disse?
- Ela o defendeu e mandou Ana pra cozinha, que é o lugar dela.
- Muito bem. Esperarei mais um pouco antes de agir. De qualquer forma, a agradeço mais uma vez.
No dia seguinte, com efeito, o inquisidor pedira dispensa outra vez, alegando precisar cuidar de algumas coisas acerca do afilhado, e saíra mais uma vez. As coisas começavam a ficar urgentes...
Dessa vez, Violante lhe confessou que ele batia nela quase sempre.
- Ele me bate quase todos os dias, Ana. Há períodos em que ele não bate, não sei por que; mas há períodos em que me deixa toda roxa. Veja!
A fidalga então mostrou as marcas à outra, que soltou um "oh!" de assombro.
- Esse homem é um monstro!
- Mas ele diz que faz isso por não resistir à minha beleza...
- Se toda mulher bonita apanhasse assim, não sobrava uma no reino para contar história! Minha senhora, ele não só bate: ele a espanca! Ele está a acabar consigo! Um dia desses a mata!
- Não. Expedito é bom. Ele bate em mim apenas porque... é diferente dos outros homens! Eu sempre soube, desde que nos conhecemos no Brasil, que ele era diferente dos demais. Se ele precisa bater, eu vou apanhar.
- Mas é um despropósito! É por isso que vive chorando pelos cantos!
- Cale-se! Eu o amo, eu amo loucamente esse homem! Ele é o único que me amou até hoje!
- Um homem que bate assim não ama!
- Ama sim! É o pai de meu filho, é o homem que me tirou do cárcere no qual João Fernandes me colocou! Ele me beija todas as noites, diz me amar!
- Mas não ama! Ele a tirou de um cárcere e a colocou em outro!
- Cale-se ou quem apanhará será tu!
Assustada, Ana foi novamente para a cozinha. Expedito, por sua vez, ficou exasperado em ver como Violante tivera confiança em mostrar suas feridas a ela; mas por outro lado, não precisaria puni-la rigorosamente, pois o defendera afinal. Apenas Ana estava a se tornar um estorvo maior do que ele previra...
Com efeito, Maria da Graça continuou leal: disse a ele que Ana o chamara de monstro, ao passo que a senhora o defendera. De fato, os relatos da matrona eram condizentes com o que vira. Ele ficara satisfeito com ela.
- Muito bem, Maria da Graça. Tens uma neta em idade de casar?
- Sim. Uma neta que completa quinze anos em breve.
- Já tem noivo em vista para ela?
- Ahn... não.
- Pois fique sossegada. Eu darei dote a ela, bem como arranjarei casamento a si no máximo até ano que vem. Arrumarei um noivo de classe superior à dela, talvez o filho de um comerciante. É moça-donzela?
- Sim meu senhor, que somos muito escrupulosos com relação a isso, embora sejamos pobres!
- Que bom. Ela casará e bem, muito em breve. Agora fique aqui, pois buscarei a si uma gratificação, além do dote e do casamento da pequena, para ajudar no pão de sua velhice. A partir do ano que vem, não precisará mais trabalhar. Cuidará dos netos e dos bisnetos que certamente essa união lhe dará, bem como descansará dos anos que trabalhou.
- Oh, senhor...! Não sei nem como agradecer! - disse ela, comovida.
- Recompenso os que me são leais. E lembre-se que mesmo quando não trabalhar mais aqui, será bem vinda em minha casa, e sempre a recomendarei como senhora de muito boa reputação a todos.
- Agradeço mais uma vez, senhor inquisidor!
Foi com lágrimas nos olhos que Maria da Graça recebeu aquela gratificação. Era mais dinheiro do que ela recebia em muitos meses de trabalho. Levou e guardou seguramente, e já olhava à neta como menina encaminhada! Ah, que felicidade a uma mulher que sempre fora pobre e precisara ganhar a vida com o suor do rosto!
Para Expedito, aquela quantia era irrisória; eram migalhas que ele jogava para que as pessoas inferiores continuassem a servi-lo. E com mulheres como Maria da Graça funcionava muito bem. Já Ana... pobre moça! Se houvesse sido fiel, ele também lhe teria dado dote. Ele também lhe faria um casamento decente. Mas não fora... pois bem! Merecia então sua vingança.
Quanto a Violante, embora não fosse severamente castigada, justamente por tê-lo defendido, merecia um susto por ter revelado seu segredo a uma reles criada. Ao chegar de noite naquele dia, demonstrou-se carinhoso; dera-lhe muitos beijos, a amara como se fosse nos primeiros tempos da relação e após isso, quando já se encontravam quase a dormir, falou como se fosse algo casual:
- Meu amor, sabia que hoje condenamos a uma determinada mulher ao degredo?
- E por que?
- Porque ela era concubina de padre.
O coração de Violante acelerou na hora.
- Mas... se vossa mercê diz que não é pecado...
- Ah, mas o caso dela era bem diferente. Era uma mulher que tinha vários amantes além dele, tinha filhos de outros homens... enfim, libertina na mais plena acepção da palavra. Era muito diferente do que vivemos aqui, eu e vossa mercê. Mas sabe o que a motivou a ser degredada?
- O que?
- Quis ela se separar dele e ficar com outro. Daí o padre se enervou a e denunciou. Bem, as mulheres de sacerdotes podem ser degredadas, mas os sacerdotes o máximo que lhes acontece é serem transferidos de local de atuação.
- Desculpe perguntar, mas... eu poderia ter um destino desses?
- Ah, não. Só se incomodasse alguém que se sentisse propenso a denunciar, ou se fizéssemos escândalo - o que estamos longe de fazer; pelo menos metade da nobreza está no escândalo dez vezes mais do que nós dois. Não sou um simples padre: sou um inquisidor, confessor que sabe de quase todos os podres da corte; se eu abrisse a boca, poderia destruir a reputação de muitos deles, as pessoas não mexem comigo pois muitos dependem de mim; então ninguém a delataria a não ser que fosse de fato incômoda a alguém. Ou então...
- Então?
- Se um dia eu resolvesse deixá-la. Se um dia me aborrecesse a ponto de querer me livrar de si. Mas... felizmente, vossa mercê é uma mulher muito boa, não me faz nenhum mal; ainda é tudo que sempre sonhei em uma mulher. Portanto... fique sossegada!
Expedito deu-lhe um beijo de boa-noite e em seguida a abraçou para dormirem... mas ela teve tudo, menos sossego. Céus, se ele um dia cismasse de largá-la! Seria degredada, ela! E já prestes a completar trinta anos, com um filho no colo! Que seria dela? Teria de ser uma prostituta? Uma pedinte? Que inferno lhe estaria reservado caso algum dia Expedito planejasse deixá-la?
Foi com esse pensamento nefasto que ela sequer ousou ir até a cozinha pegar água, ou mesmo se levantar; temia que somente em respirar diferente, poderia aborrecer o homem e ele a enviaria a um destino cruel daqueles.
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
Agora ferrou. Qual será o castigo que Expedito dará a Ana? E a Violouca, vai surtar mais um pouco? Gente, o homem tá deixando ela literalmente louca aos poucos: com todo esse gaslighting, com ameaça de abandono, e pior que uma mulher nesse estado e época literalmente estava nas mãos do cara.
Abraços a todos que lerem!
