A MULHER DO INQUISIDOR
Capítulo 16
Nos dias que se seguiram, curiosamente, Expedito não fez mal a Violante; foi terno e carinhoso como no começo, amando-a como se todos aqueles dias de tapas e socos não houvessem passado de um sonho ruim. A fidalga agradecia nas preces por ele ter tornado a ficar dessa forma que tanto lhe agradava, porém... mal sabia ela a verdadeira razão daquilo ocorrer.
No último dia no qual conseguiu deliberar algo com Ana, Violante lhe disse que era melhor pararem com aquelas conversas.
- Ana, Expedito pode um dia saber do que falamos aqui.
- Tem medo do que ele possa fazer caso saiba?
- Não por mim. É mais por ti, que o critica de maneira tão desabrida. Menina, o homem paga teu soldo!
- Ele me paga, mas às vezes me arrependo de ter vindo trabalhar aqui. De qualquer forma, talvez eu saia, mesmo que para ganhar menos.
- E seria de fato melhor a ti. Ou guardar a lealdade a ele, ou aos patrões que possa vir a ter no futuro.
Maria da Graça, embora já estivesse avisada de que a cozinheira poderia vir a sofrer alguma punição, também não se eximiu de lhe falar.
- Ana, a inquisição condena pessoas somente por limparem a casa às sextas-feiras. Ou mesmo por não comerem certos tipos de peixe! Que pensa que pode te acontecer caso o inquisidor cisme contigo?
- Se ninguém abrir a boca, nada vai acontecer.
- Pois e a patroa?! Pensa que ela vai te acobertar pro resto da vida?
- Ela sofre nas mãos dele e me entregaria?
- Violante pode sofrer nas mãos dele, mas é leal ao frei. É tão leal que nunca, num único dia, disse ser infeliz com ele. Ela o ama em demasia. Sempre diz que é feliz...
- Ela mente a si própria. Não tendo arrumado marido decente antes dele, agora que o tem precisa mentir para se crer feliz.
- Mentira ou não-mentira, isso não faz de Violante menos leal a ele. Ela o é, e não titubeará em fazer o que ele deseja. De mais a mais, as pessoas costumam ser leais aos que lhe dão o pão... e não aos menos favorecidos.
Com esta última frase, Maria da Graça na verdade falava sobre si própria ter sido fiel ao inquisidor e não à companheira de trabalho; mas nada mais revelou à outra.
Um dia de manhã, quando as criadas iam entrando e a ama de leite saía para voltar à sua casa, Expedito parou Ana na porta.
- Ana, venha cá. Preciso ter uma palavrinha em particular contigo.
A moça sentiu o coração acelerar. Será que alguém a havia delatado?
De propósito, ele deixara Violante dormindo na cama até mais tarde, com Timóteo também a dormir a seu lado, sem acordá-la e não precisar ver àquela cena. Em seguida, trancando a casa e deixando Maria da Graça e Teresa lá dentro, o frade levou Ana para fora. Havia já uma diligência esperando por eles - a mesma guarnecida por cinco guardas, para contê-la caso tentasse fugir.
- Perdoe-me, senhor, mas... que é isso?
- Não te cabe questionar neste momento, Ana; apenas obedecer. Suba à diligência e eu, mas tarde, te farei as devidas perguntas.
Ela engoliu em seco. Mas nada lhe restava senão subir.
Mais tarde, quando o filho chorou e pediu colo, Violante acordou. Percebeu que o homem não a acordara como sempre, nem a vestira; pediu portanto auxílio de Teresa para fazê-lo. Ela, aliás, era a criada mais quieta; não se metia nem pro bem e nem pro mal naquela coisa toda. Claro que sabia do segredo da concubinagem e do filho deles, assim como também tinha ideia de que Violante apanhava; mas isso não era negócio dela, pensava que "em briga de marido e mulher ninguém mete a colher"; ainda mais o patrão sendo inquisidor influente, podendo esmagar a qualquer uma delas, criadas, com um simples gesto.
Durante aquele dia, Violante não sentiu falta da cozinheira; tudo já estava pronto desde o dia anterior, pois Expedito assim ordenara de propósito, já a saber que tudo ocorreria dessa forma, para que nem Violante, nem as criadas ficassem sem o que comer no dia que se seguiria.
A fidalga estava num momento mais tranquilo; o frei fazia já algum tempo não batia nela; a elogiava outra vez, dizia que a maternidade a deixara ainda mais linda; e novamente falava bem de seus cabelos, de seu porte, de como Timóteo era belo como ela, que era o fruto do amor deles; que se Deus a deixara conceber e dar à luz era que afirmava dessa forma que a união deles era completamente lícita. Então a moça se sentia bem, enlevada, realizada, e rezava para que ele nunca mais batesse, nunca mais fosse rude ou mau consigo. Por isso sequer pensou nas conversas que vinha tendo com Ana, e nem na cozinheira propriamente dita, durante todo aquele dia.
À noite, após entregar o bebê para Josefa cuidar e poder então se dedicar aos momentos a sós com seu homem, ele se sentou com ela na beira da cama, tomou suas mãos, as beijou com suavidade e disse, olhando em seus olhos:
- Minha querida senhora, como tem estado ultimamente?
- Muito feliz! Oro muito por nós dois, por Timóteo, por tudo!
- De verdade? Não há nada que a incomoda?
- Bem... eu lhe confessarei, meu senhor, que me incomodava quando me batia. Mas já que está já há algum tempo sem fazê-lo, não me sinto mais assim tão "incomodada"... me sinto feliz!
- Também estou muito feliz de tê-la, minha senhora. A mulher que sempre desejei... a mulher que sempre imaginei ser minha, vossa mercê é a resposta para tudo que um dia eu pedi a Deus!
- Pois vossa mercê também o é para mim... meu amor!
Ambos se beijaram na boca, Violante sentindo-se tomada por aquele sentimento doce que tinha no começo da relação; aquilo que lhe torcia os pensamentos, que lhe fazia pensar que tal sentimento não era deste mundo. Ela ficou feliz, quase chorou de emoção. Expedito a deixou assim de propósito, pois logo em seguida disse:
- Minha senhora, lembra que no começo eu lhe disse que não poderia se confessar com nenhum outro sacerdote além de mim?
-...sim? Mas jamais me confessei com outro, aliás eu sequer falo com os padres da igreja...
- Não falo dos padres somente, mas também de outras pessoas.
Na mesma hora lhe veio o pensamento das conversas que tivera com Ana.
- Vossa mercê... soube?
- Sim, soube. Andou a contar de nossa vida particular para Ana, não é?
- Contei... mas pensei não fazer mal! Até porque eu o defendi, eu falei que era bom, eu falei que-
- De tudo isso eu sei. Tenho fontes fidedignas; tenho como saber de tudo que se passa quando estou ausente. Sim, eu tenho, não se surpreenda. Pode ter certeza de que se houvesse prevaricado de forma séria para com relação à nossa união; se tivesse ousado macular essa união santa com algum impropério contra minha pessoa, eu saberia; e seu castigo seria muito rigoroso.
Uma onda de pânico tomou o coração da fidalga - o mesmo coração que segundos antes se enchera de ternura ao pensar na família que tinha, no filhinho de ambos e em como aquilo a deixava feliz.
O frei continuou:
- Minha senhora, como vossa mercê defendeu a minha reputação, bem como a legitimidade de nossa união, dizendo inclusive que temos uma vida santa aqui dentro, não lhe darei punição alguma. Apenas a admoestarei que não desejo mais que isto ocorra, sim? Pessoas de fora, principalmente criadas, não são bem educadas; vivem espolinhando por aí, muitas não casam donzelas, algumas sequer casam! Vivem no pecado e na prevaricação com vários homens. Que é que sabe uma criada sobre viver dignamente uma relação decente? Nada, portanto não se deixe contaminar por ideias mundanas. Meu dever é guardá-la destas porcarias que lá vão no mundo, minha senhora. Eu jamais me perdoaria caso viesse a pecar por conta destas pessoas. Portanto, apenas a aconselho: não quero que isto se repita. Sempre que precisar de aconselhamento, de confissão, conte tudo a mim; eu saberei como curar as feridas que por ventura vierem a afligir seu coração.
- Perdoe-me; não vai se repetir.
- Assim espero.
Tendo dito isto, Expedito a beijou e em seguida deitou-se com ela, chamando-a de nomes belos e a fazendo esquecer que um dia ele parecera um monstro ávido de sangue e dor - ao menos temporariamente.
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Logo no dia seguinte, novamente com Maria da Graça e Teresa a entrar na casa e Josefa voltar para sua residência, o inquisidor trouxe uma nova criada para dentro e a apresentou às demais, inclusive a Violante:
- Esta é Marta, a nova cozinheira.
Passou a ela as regras da casa; em breve, sem estar às vistas dos patrões, as outras duas passaram a ela as informações sobre o absoluto sigilo que exigia a condição de concubina de Violante, bem como a do filho deles; que embora todos comentassem nas ruas, ela deveria ser discreta e nunca jamais comentar sobre aquilo abertamente fora da casa. Inclusive diziam que a antiga cozinheira não mais estava lá por ter falado demais...
Marta assentiu. Ela era mais velha e mais experiente que Ana, por isso já sabia como conduzir aquele tipo de situação.
Já Violante, naquele dia mesmo, antes de Expedito partir, lhe chamou a um canto:
- Meu senhor, por que cozinheira nova?
O frei tomou a um semblante desapontado e disse afinal:
- Ah, minha senhora...! Se soubesse como me desgosta! Mas Ana foi denunciada como herege.
Novamente o sangue da fidalga gelou.
- E-ela?
- Sim. Não se lembra quando vinha com aquelas conversas de prevenir gravidez? Já era um sinal. Como ela era reincidente, e ainda por cima ousou profanar a nossa união, não pude acobertá-la. Pelo bem da alma dela, será melhor assim.
O pânico era visível no olhar da fidalga.
- Que acontecerá a ela?
- Foi interrogada ontem, eu fiz questão de fazê-lo. Confessou ser protestante, veja! Ela e toda a família dela. Serão, portanto, queimados em praça pública no próximo auto de fé.
- N-não existe uma punição menos severa?
- Por que está a defendê-las? Acaso é cúmplice das heresias dela?
- Claro que não!
- Então contente-se em vê-los ter esse castigo, que de mais a mais é o que melhor lhes servirá para aproximá-los de Deus.
Vendo que a mulher continuava com medo, Expedito a tomou pelo braço com firmeza.
- Espero, de verdade, que Marta não precise ter o mesmo destino...
- E por que ela teria?
- Por que será?
O olhar dele era tão terrível, que Violante teve ganas de correr. Mas ele continuava a segurá-la no braço, sem largar ou a deixar ir.
- Que tem, minha senhora?
A fidalga pôs a mão livre em frente à boca, e Expedito entendeu que ela tinha ânsia de vômito. Só por isso, por não querer se sujar com o que ela expelisse, que a largou. Imediatamente ela foi até um balde próximo e vomitou. Maria da Graça a atendeu prontamente.
- Que há, minha senhora?
- Nada... nada, já vai passar.
- Descanse um pouco. Pode ser nova barriga, quem sabe?
Violante sabia que não era gravidez. Era o pânico, que subira tão depressa que a fizera vomitar tudo que tinha no estômago.
Assim que Maria da Graça a deixou a descansar, Expedito veio por trás e pousou a mão no ombro da fidalga:
- Que tem, minha senhora?
O pânico e a vontade de vomitar voltaram na mesma hora, mas o estômago estava vazio; portanto, ela nada expeliu dessa vez.
- Nada... apenas fiquei chocada de saber que a moça que cozinhou para nós por dois anos é uma herege confessa; isso me deixa... exasperada!
- É verdade... eu também me sinto muito mal, senhora. Isso tudo me faz mal... mas, que fazer? Paciência.
Satisfeito, com um sorriso no rosto por vê-la dominada outra vez, Expedito teve certeza que o vômito se dava por Violante ter medo de também sofrer um revés parecido com o da cozinheira. E novamente a sentiu completamente em suas mãos.
Antes, porém, de sair, foi até a mão de Violante, a beijou suavemente como costumava fazer e, ainda a olhar com o semblante sinistro, declarou:
- Amanhã será o auto de fé. Levarei a si e às criadas para verem enfim a execução de Ana e de toda sua família.
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
Deu medo até de escrever essa cena. Viola a cada dia mais enfiada nesse negócio, como fazer agora?
Sobre ele de vez em quando ficar carinhoso: em relações abusivas há ciclos de carinho, tensão e agressão. Quando não há o ciclo de idealização, desvalorização e descarte. Mas essa é outra história e falarei desse outro ciclo em outro capítulo.
No próximo, o auto de fé.
Abraços a todos os que lerem!
