A MULHER DO INQUISIDOR

Capítulo 17

Àquela noite, a fidalga não dormiu bem. Quando era solteira, e até mesmo um período depois de ter-se unido a Expedito, ela gostava de se sentir melhor do que os outros; de sentir que era mais direita, mais "santa", melhor. Mas desde que começara a apanhar, já não sabia assim se era tão merecedora desses títulos: ora, ele dizia que a amava, mas a tratava mal. Batia, falava impropérios, e de forma quase involuntária ela se pegara pensando que talvez o problema estivesse com ele; e em seu passado, quando se sentia frustrada e incapaz de ser amada, nela mesma.

Será que estava? Será que na verdade, com todos aqueles estratagemas para destruir a vida dos outros, ela tão-somente não atraíra desgraça a si própria.

Tais pensamentos, no entanto, não duravam justamente porque ela ainda tentava se enganar: pensava que ele era bom, que apenas precisava ter paciência consigo, que Ana era realmente culpada do destino que lhe atingia.

Então, no dia seguinte, quando enfim foram ao auto de fé, na frente da casa havia não só uma diligência, mas três. Uma delas para ele e Violante, outra para as criadas e outra para os soldados que de lá já rumariam para o local com o cortejo. Naquele dia, o inquisidor exigiu que Violante se vestisse toda de preto, com o crucifixo no pescoço; além de aquilo lhe lembrar Teodora, queria levá-la bastante austera para aquele evento, como no tempo em que usualmente se vestia como uma beata. Timóteo iria com Josefa no carro das criadas, para que pudesse mamar caso quisesse.

A partir daquele momento, quando entrara na diligência, Violante se sentia quase como morta; não sabia explicar, mas era como se não estivesse ali.

Quando chegaram ao local, o mesmo estava cheio; havia pelo menos umas dez pessoas a serem condenadas, ao passo que os "expectadores" eram centenas. Praticamente toda a corte se encontrava presente; aquela não seria uma execução comum, e sim um auto de fé com bastante gente, um espetáculo público, o qual seria seguido de uma missa pública; os nobres, a corte e o próprio rei estavam presentes em peso; de longe, até mesmo João Fernandes viu a Violante de longe, mas nada disse, nem a ela se dirigiu.

A fidalga então, se em outros tempos faria de tudo para ver a João Fernandes de perto, nessa ocasião sequer pensava nele; apenas se sentia ainda ausente, era muito estranho estar ali e se sentir como se não estivesse. Ela não ia a uma execução desde que saíra do Brasil, há mais de três anos; estava ela menos acostumada a lidar com pessoas, quiçá em eventos tão cheios de gente como aquele.

Expedito a deixara com as criadas bem em frente à estaca na qual Ana seria queimada; ela serviria de exemplo às demais. Quanto a ele próprio, fora se reunir com os demais eclesiásticos. O pálio dos inquisidores era mais alto ainda que o do rei e de seus familiares. Infelizmente, para eles, a igreja não tinha mais tanto poder quanto alguns séculos antes, quando os autos de fé eram ainda mais suntuosos e escandalosos... porém, ainda tinham influência forte e aqueles eventos eram a prova de que podiam ainda mandar e fazer o que desejavam.

Após algum tempo, a procissão de condenados foi conduzida por vários soldados, todos preparados para reagir caso um ou vários se amotinassem e tentassem fugir. Todos estavam vestidos com roupas brancas e chapéis cônicos, nos quais estavam escritos os seus pecados. Logo as criadas e a fidalga avistaram a Ana, a sua irmã e seu cunhado; os filhos da irmã dela não seriam condenados, porém teriam bastante sanções: não poderiam jamais se casar e as meninas seriam enviadas a um convento, no qual deveriam viver por toda a vida.

Havia outros condenados; uns por judaísmo, outros por sodomia, outros por bigamia. Alguns sequer sabiam pelo que haviam sido condenados; confessaram crimes que nem sabiam pelo que estavam a ser condenados, apenas para se livrar da tortura e ir diretamente à morte, pois seria menos cruel.

Após terem sido colocados em fileira, os condenados esperaram os inquisidores virem para lhes fazerem as perguntas derradeiras: se se arrependiam, seriam estrangulados antes de ser queimados. Se não se arrependiam, iriam ainda vivos para as fogueiras.

A irmã e o cunhado de Ana, coitados! Sequer sabiam porque os haviam acusado de protestantismo. Apenas pensavam que precisavam morrer, mas nem sabiam da serventia daquilo. Sempre foram católicos e seguiram os mandamentos da igreja; a irmã de Ana estranhara quando o inquisidor Expedito lhe mandara uma oração para que se arrependesse de querer "prevenir gravidez"; tivera seis filhos em oito anos de casada, sequer sabia como podia ser encarada como uma mulher que queria prevenir filhos.

Mas aquele inquérito de ser considerada herege...! Jamais entenderia. Mas como era pobre, como não tinha influência, nada podia fazer.

Os inquisidores foram passando, enquanto os soldados iam atando os condenados aos postes onde seriam queimados. Um por um, eles os iam inquirindo:

- Arrepende-te de teus pecados?

A maioria se arrependia; portanto, logo em seguida os soldados tomavam ao garrote e estrangulavam os que se arrependiam. Em seguida, imediatamente, os corpos eram atados às estacas e as piras eram acesas.

Quando chegou, no entanto, na vez de Ana, o próprio Expedito a inquiriria; fora ele quem a interrogara, pobre menina! Fora colocada nua numa mesa de tortura, enquanto o inquisidor percorria as mãos pelo corpo dela ainda em busca de uma marca de nascença que significasse pecado; a seguir, ele, mesmo sabendo que ela era ainda virgem, a deflorara não com suas mãos ou com seu membro, mas com instrumentos de tortura os quais alargavam os orifícios dos "hereges" e "pecadores da luxúria", ao passo que a interrogava: és herege? És protestante? És contra os mandamentos da Santa Madre Igreja?

A deixara semi-morta para o auto de fé do dia seguinte; deliciara-se com o medo em seus olhos e a certeza de que ela entendia do porquê de ser inquirida; que não era caso de heresia, mas sim de ter dito mal dele a Violante! De ter se intrometido em sua vida privada! De querer perverter sua mulher para que o odiasse! Quem ela pensava que era? E daquela forma a colocava em seu lugar, bem como à sua irmã e cunhado; não que desejasse fazer mal a eles, mas e se tentassem se vingar? Era melhor que sequer sobrasse alguém para fazê-lo.

Quanto aos pais, seriam enviados para degredo; já eram mais velhos, e embora a inquisição também punisse pessoas de mais idade, a morte da irmã e do cunhado de Ana já seriam suficientes como exemplo.

Quando passou por ela, disse enfim:

- Arrepende-te de teus pecados? Abjuras de tuas heresias?

Naquela hora, ao lembrar de tudo que sofrera na câmara de tortura, das marcas de surra que Violante trazia no corpo e que não perdia nada pois ia morrer de qualquer modo, resolveu aproveitar a última oportunidade que tinha. Ousada como era, cuspiu na cara do inquisidor e gritou:

- Monstro!

Um "Ah!" de assombro tomou a todos os presentes, inclusive e principalmente os nobres. Que atrevida! Nunca antes houvera uma condenada tão ousada, ainda mais por estar extenuada das torturas do dia anterior!

- Monstro! - continuou ela - Não és ninguém para condenar a quem quer que seja! Monstro ávido de sangue, bate na mulher todos os dias! Pois todos aqui saberão: Violante é mulher dele, clandestina; o menino que Josefa carrega é filho dele!

Outro "Ah!" perpassou por todos. Expedito não escondia a raiva que sentia.

- Prendam essa louca na estaca! Está a delirar! Será queimada viva!

Enquanto os guardas a arrastavam, ela continuava a gritar:

- Vá embora daquela casa, senhora Violante! Vá embora enquanto ainda pode! Ele vai matá-la! Ele vai matá-la, vá embora! Deixe que eu seja a última a morrer!

Enquanto os soldados acendiam a pira e aos poucos as chamas se erguiam, a fumaça aos poucos asfixiando a moça e enfim ela se calou; não muito depois, o corpo dela foi extinto nas chamas também, e após alguns minutos aquele corpo que berrava impropérios contra Expedito agora não era mais do que cinzas.

Ainda com muita raiva, Expedito disse aos outros inquisidores - e Violante, bem como as demais criadas, ouviram:

- Devìamos ter feito como fizeram com Giordano Bruno: colocar uma trave na boca dela para que nada falasse no momento da execução!

Violante apenas olhava: ainda se sentia como morta, um nó na garganta. Jamais se sentira assim durante uma condenação: antes mal ligava, pensava que condenados não mereciam compaixão. Mas com Ana tivera alguma ligação, alguma empatia naqueles dois anos; e isso fazia com que ela se sentisse mal.

Teve medo de chorar, pois se Expedito ou as criadas vissem, podia dar num problema muito sério.

Já a irmã e o cunhado de Ana, ao contrário da mesma, se demonstraram arrependidos e foram estrangulados antes de serem queimados.

Ainda houve após isso uma missa e uma celebração; era uma diversão para os pobres, no entanto para os ricos era motivo de ostentar roupas bonitas, penteados e joias.

Quando todos voltaram, Violante estava quieta; dentro da carruagem, nada dizia. Estava quente de nervoso, estranhando aquilo tudo. Expedito, reparando aquilo, quis chamar a atenção dela:

- Viu o que disse ela? Era uma filha do demônio dentro de nossa casa; não merecia menos do que recebeu.

Violante nada disse; continuou em silêncio, ainda se sentindo como se não estivesse ali.

Quando chegaram em casa, as criadas foram embora e Josefa ficou a cuidar de Timóteo. Então, com todo o tesão que lhe acometia em dias de auto de fé, Expedito a tomou nos braços e a amou de forma ardorosa, dessa vez pensando na dor de Ana principalmente. E Violante, embora não estivesse propensa ao sexo, se entregou a ele plenamente, pois queria fugir daquela realidade nefasta; o único lugar para onde podia fugir de fato era para o prazer sexual, pois se não o fizesse certamente enlouqueceria.

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- Não, meu senhor! São mentiras terríveis. Veja, pode ver como vivemos na mais plena santidade nesta casa.

Com os gritos da condenada, um dos cardeais superiores de Expedito resolvera visitar a sua casa. Todos falavam que aquela mulher era de fato concubina dele, mas ninguém nunca fizera nada a respeito; inclusive ao dizer aquilo em público, expunha a todos e aquela vergonha não podia continuar.

- Por que ela, a senhora dona Violante, vive aqui consigo?

- A história dela é bastante complicada; é uma mulher bastante sozinha. Seu irmão mais velho matou o próprio pai. O mais novo, fruto do segundo matrimônio de seu pai, fora morto numa emboscada. Os demais que sobraram tentaram colocá-la num hospício! Veja, pode conversar com ela. Não é louca de forma alguma, veja.

O cardeal conversou com ela, a qual vestira novamente a sua roupa negra de beata. Ela se comportara de maneira bastante polida. Ele gostou dos modos dela; cheirava às velas que queimavam na igreja, tinha muito recato, não parecia com uma barregã de forma alguma.

- Ela veio para Portugal a fim de se casar?

Expedito tomou a palavra novamente:

- Sim, casou-se com João Fernandes, o antigo contratador de diamantes nas Gerais, no Brasil. Mas ele a trancou numa torre após o matrimônio, de maneira vergonhosa. Como o casamento não foi consumado, e eu sabia que ela era mulher virtuosa no Brasil pois me ajudou muito contra os hereges no Arraial do Tijuco, pleiteei a anulação de seu casamento. Ela não tinha com quem ficar; não confiaria em deixá-la com os irmãos no Brasil, os quais de resto já são casados.

- Diz que não tem relações com ela?

- Meu senhor, verifique meu histórico! Fui ordenado há quase catorze anos; pergunte se já me viram em farras! Pergunte a todas as minhas confessas na corte se alguma vez já passei dos limites com elas! Pergunte se já me viram com as cortesãs! Minha conduta é irrepreensível, senhor!

O cardeal mirava a Expedito, a Violante e depois às criadas. Perguntou a elas:

- Eles não tem nada?

Com o exemplo nefasto de Ana, elas obviamente negaram tudo. Josefa se assumiu como mãe da criança, junto com o marido.

- Bem, se o casamento dela não foi consumado, e ela vive aqui como sua governanta em santidade, significa que é virgem.

Violante baixou os olhos. Nunca, nos anos anteriores no qual fora casta contra a vontade, pensara que uma vez não sendo mais pura, ansiaria por parecer pura alguma outra vez. Mas temia; e se cismassem em lhe fazer exame de virgindade? Descobririam a verdade... e aí que seria dela?

- Com um simples exame, descobriremos se ela é virgem ou não.

- Meu senhor, por favor. A moça é donzela, como vão a fazer isto com ela? Nunca viu ela um homem nu na vida... evitava até mesmo beijos! Como a exporão a isso, a um exame vexatório desses?

O cardeal observou o semblante de Expedito, e nele leu a verdade. Chamou-o portanto de lado: se fecharam no quarto de hóspedes, sendo que Josefa ia com a criança para a sala.

- Expedito, vossa mercê tem essa mulher como sua, não?

- Por que continua a me questionar?

- Por que não autoriza fazer o exame nela?

O exame que ele próprio fizera momentos antes de deflorá-la.

- Porque isso feriria seu pudor! Ela é uma mulher guardada, pudica, veja como se veste...

- Escute. Como vossa mercê é o melhor inquisidor que temos, não farei nada consigo. Se a tiver como sua mulher, como muitos comentam, faça com que suas criadas sejam mais discretas e não façam o que esta condenada herege fez. Faça com que elas sejam fiéis a si. Não falarei nada, pois de fato essa senhora me parece muito decente; há de fato sacerdotes vivendo com cada barregã que dá até vergonha... mas ela parece uma santa, uma mulher beata de fato. Mesmo que for sua mulher, o perdoaremos caso não tenham mais criadas a fazer um escândalo desses que foi feito no último auto de fé.

Expedito baixou os olhos e nada disse. O cardeal, portanto, saiu do quarto, cumprimentou Violante e saiu. Enfim todos puderam respirar outra vez.

- Meu senhor...!

- Vê o que aquela danada do inferno quase nos fez?

- E se ele me denunciasse?

- Iria ao degredo, minha senhora. Eu seria afastado do cargo de inquisidor e provavelmente transferido de posto. Ele disse que apenas não me denunciou por eu ser o inquisidor mais dedicado ao Santo Ofício em Portugal na atualidade.

- Ah, meu deus...! E vocês, suas mocorongas! Se ousarem fazer o que Ana fez, eu mesma as mato!

As criadas, com medo de ver a cólera da patroa, se retiraram e voltaram às suas funções. Mas o pânico de Violante ainda era quase palpável.

- Meu senhor, se ele falou daquela forma, significa que é pecado!

- Não é, minha senhora. Ele mesmo me falou de outros que vivem com barregãs libertinas... apenas me pediu que não fizesse escândalo.

- Ah, meu Deus...! Perdoe-me, vou rezar o terço! Estou a me sentir tão mal!

Com o medo a girar nas veias, Violante foi rezar; e Expedito, atônito, acostumado a mandar e desmandar como inquisidor que era, apenas não contava que superiores da própria igreja poderiam lhe tolher o poder. Portanto, devia ficar esperto. Uma criada quase fizera com que ele fora deposto do cargo e a moça, deportada. Que tragédia seria! Timóteo seria então enviado a um seminário e nunca mais veria os pais! Tinha de tomar cuidado, pois assim como pequenas formigas podiam roer a uma árvore bem plantada e rija, aquelas pessoas que ele considerava insignificantes poderiam destrui-lo caso saíssem do controle. E ele odiava sentir-se fora de controle.

- Ainda bem que a matei a tempo - pensou ele, enfim tentando sossegar os pensamentos.

To be continued

OoOoOoOoOoOoO

Pois é. Expedito que se cuide, pois não é todo-poderoso como pensa.

Sobre o auto de fé: os sacerdotes não executavam as penas e deixavam para o braço secular fazê-lo, por isso os soldados exerciam as penas e os sacerdotes apenas perguntavam e inquiriam.

No próximo capítulo, o foco da fic volta pra Violante.

Abraços a todos que lerem!