A MULHER DO INQUISIDOR

Capítulo 18

Nos próximos dias, Violante se sentiu terrivelmente pecaminosa: ter nada menos que um cardeal em sua casa a fim de lhe dar reprimendas por viver com um homem religioso e ainda por cima ficar por um fio de ir para o degredo... era demais.

Já não se arrumava, não vestia roupas bonitas; Expedito a via de camisola de dia e de noite, ajoelhada na frente do oratório, a rezar e chorar, a fazer jejum, a tremer-se toda de êxtase religioso, com duas olheiras enormes debaixo dos olhos. O inquisidor, embora considerasse aquilo um exagero, achava que a devoção a transformava numa mulher tão linda...! pois ele sempre misturara fé com sofrimento, martírio e desejo sexual. Jamais conhecera outra realidade fora da igreja; nada mais natural portanto.

A fidalga nos primeiros dias negara sexo, com finalidade de penitência; e ele, em vez de teimar, achou aquilo maravilhoso! Ela estava a agir como uma santa, e até mesmo a camisola parecia a alva de uma condenada do Santo Ofício! Jamais a vira tão bela quanto naquele período de martírio.

Um dia, ao chegar em casa e vê-la daquela forma, ajoelhada, a chorar em desespero, disse a ela:

- Minha senhora, quer receber uma penitência para mitigar as suas dores?

Ela aceitou sem titubear. E mais uma vez, Expedito a chicoteou nas costas. Ela, ao contrário do que ocorrera da primeira vez, sequer sentira; as chicotadas até mesmo a faziam sentir mais viva. Sequer se importava com a dor - e tanto ela quando o frei começaram a pensar que aquela resignação era seu corpo se amoldando aos castigos físicos que a Santa Madre Igreja dispunha a eles.

Naquele dia, a tomou para fazer amor - e ela sequer reagiu. Apenas deixou-se tomar, sem dizer "sim" nem "não"; apenas se deixou tomar, pois na verdade qualquer sensação que a tirasse daquela letargia na qual se encontrava era melhor que sentir-se morta em vida.

Após o ato, porém, ela se sentira culpada outra vez.

- Eu me deitei com um sacerdote! Eu tenho me deitado com um sacerdote nos últimos dois anos!

Levantou-se, foi até o oratório e voltou a rezar.

No começo, até que aquilo era aprazível ao inquisidor - justamente por misturar sexo, devoção e dor. Mas depois de algum tempo, sentia que Violante ia entrando cada vez mais numa sandice da qual não a conseguia tirar. A mulher nem se vestia mais: era aquela camisola o dia inteiro, os cabelos desgrenhados o dia inteiro.

Então passou a vesti-la outra vez, e a admoestar Teresa a penteá-la. Mas nem isso adiantava. Por fora ela estava arrumada; por dentro, cada vez mais sua alma ia caindo num limbo sem fim.

Expedito começou a se enervar e disse afinal:

- Anda, não te morreu ninguém! Chega disso!

- Eu sou uma pecadora...!

- Todos somos. Anda, chega!

- Eu sou mais...

- Não é, vamos! Há tantas piores!

- Sou...! Fiz tanta coisa errada em minha vida! Mandei violentar Eugênia...

- Mandou nada, quem o fez foi padre Eurico! Ele confessou, lembra?

- Não, foi o capitão-mor a meu mando que a violentou usando uma batina dele!

- Não foi!

- Foi sim!

- Ora, cale-se! Quantos anos já lá vão desde que isto ocorreu!

- Eu mandei violentar a minha madrasta...!

- Tua madrasta era uma libertina! Ser amante do próprio enteado?

- Eu sou amante de um sacerdote...! Eu me apaixonei por si assim que o conheci! Deus meu, que pecado! O cardeal quase me mandou ao degredo por isso!

- Chega, já passou.

- Eu não serei mandada ao degredo?

- Enquanto estiver sob minha proteção, não.

- Não vai se cansar de mim? Hein, não vai me largar numa viela sozinha, com nosso filho?

- Não.

- Diga que sou seu amor...!

Impaciente, Expedito a abraçava e dizia que era, só para ver se aquela dor se curava afinal.

- É, sim. Agora tem de parar com isso.

- Passe-me outra penitência, senhor!

- Basta de penitências.

- Mas eu quero...! Eu preciso, senão meu coração não vai aguentar!

Cansado daquela ladainha, Expedito lhe passava "penitências" físicas, a fim de bater nela com um motivo. Mas estranhava: Violante já não sentia nada, nem dor. Apenas se deixava levar, como que amortecida.

"Ela vai enlouquecer desta forma", pensava ele. E ainda achava que uma louca completa não lhe seria nada útil: teria de mandá-la de fato ao hospício, e isto em nada lhe agradava.

Após alguns meses, no entanto, ela sossegou. Marta era de fato criada mais circunspecta que Ana, e as demais, após o auto de fé onde Ana morrera, não ousavam sequer ter alguma conversa mais longa com a patroa, com medo de poderem ter o mesmo destino da antiga cozinheira. Violante então tinha relacionamento somente com Expedito: não conversava mais com as criadas, nem com a ama de leite. Com o tempo, Expedito decidira desmamar o menino e Violante protestou, pois ainda queria amamentar; mas ele não deixou mais.

Conforme o filho foi crescendo, porém, Violante tinha como se distrair: ensinara a ele as primeiras palavras, depois as primeiras rezas. Brincava com ele, o via engatinhar, depois com o tempo a dar os primeiros passos. Isso mitigou a dor de seu coração, e então parte de toda aquela melancolia se dissipou.

Expedito via aquilo e ficava completamente enciumado. Por mais que fosse seu filho, era outro homem. E disputava a sua atenção com a fidalga. Para descontar aquilo, mandava e desmandava no menino, mesmo ele sendo ainda pequeno e mal sabendo falar. Apenas não batia - ainda. Mas não dava a menor indulgência a ele. Josefa, que antes era ama de leite, se tornara como uma ama seca; e o frei, quando estava em casa, não queria Violante com o filho; ela tinha que se dedicar completamente a si. Entregava-o então à ama.

- Esse menino anda muito mimado, com esse monte de saias em volta dele.

- Meu senhor, ele é pouco mais que um bebê!

- Que seja. Começou a andar, já pode enfrentar o mundo. Mimos nunca formaram um bom caráter, muito menos a um homem.

- Ele ainda terá muito tempo para se tornar um homem!

- É de pequeno que se torce o pepino.

E não permitia nenhum carinho ao filho; se via Violante com ele no colo, já mandava ele ir com Josefa. Timóteo chorava, mas ele não se demovia nem um pouco. A fidalga se exasperava:

- Meu senhor, é só uma criança! Ele quer a mãe!

- Não é bom que ele saiba que vossa mercê é mãe dele.

- Pois ele saberá! Ele saberá, não é possível que até isso eu terei de esconder de meu filho!

- Ora vamos! Lembre da visita que o cardeal nos fez! Se Timóteo sair por aí dizendo que é nosso filho, pode ser que sim, vossa mercê seja degredada!

Violante nessas horas sentia o pânico voltar a tomar conta de si. Mas de qualquer modo, pensava que se tirassem de si o direito de ser mãe de Timóteo, ela não ficaria bem.

Não, não ficaria bem. Pois todos os carinhos de Expedito (intercalados com agressões e penitências muito violentas, mas enfim) faziam com que ela se sentisse mais mal do que bem. Estava amortecida para aquilo: não conseguia mais se encantar com ele. Vivia consigo mais por uma necessidade que por outra coisa - e por pensar que é dever da mulher viver com o homem que é pai de seus filhos.

O frei passou a reparar que a atenção dada a Timóteo era muito melhor e ainda mais pungente que a atenção dada a si. O menino crescia a olhos vistos, sorria a Violante e a chamava "mamã", com suas mãozinhas gordinhas tomava os cabelos dela e a acariciava no rosto. Era seu filho, mas não deixava de ser um intruso.

Porém, ele sabia que não devia ser impulsivo. Devia, sim, esperar a hora certa de agir. E assim o faria: esperou ainda mais alguns anos. Ele ainda era muito pequenininho, ainda mal andava e engrolava algumas frases. Quando ele crescesse afinal, falando frases mais concretas e simbolizasse um perigo de fato, faria o que almejava.

Tentava voltar aos tempos em que enchia a Violante de carinhos, de presentes e mesmo de prazer sexual, mas tudo aquilo já não a enlevava mais. Como mulher que fora criada para constituir família, ela pensava que era mais direito dar atenção ao filho que a ele. E além do mais, não ficava bem a uma mulher recatada ficar a dar tanta importância a sexo que ao rebento por criar.

Os anos seguintes se passaram de maneira relativamente tranquila. Não tiveram mais nenhum entrevero com criadas, todas muito quietas e funcionais, mas sem ousar ter mais que uma relação superficial com Violante; o frei por sua vez alternava carinhos com agressões e "penitências" violentas e sem grande razão de ser. Também a levava à igreja e deixava que frequentasse a casa de dona Amália e de outras beatas, desde que soubesse a procedência delas e pudesse levar e buscar. Curiosamente, por alguma razão que desconheciam, Violante não engravidara outra vez; mas de qualquer forma nenhum dos dois esperava um filho tão cedo: ela por não querer passar de novo pela gravidez e pelo parto, e Expedito por já estar feliz de seu primogênito ser um filho homem.

Maria da Graça também parara de trabalhar, bem como sua neta se casara, como o inquisidor prometera. No lugar dela, como arrumadeira, Expedito colocou uma criada mais nova, porém também já viúva, a qual era conhecida por circunspecção - o que ele precisava mais do que chão limpo, certamente.

Com o tempo, o menino já grandinho, com cerca de quatro anos de idade, a andar e mesmo a rezar do lado da fidalga no oratório, já falando frases completas, Expedito decidiu dispensar Josefa; não mais seria sua ama seca, embora por ter sido criada leal por aqueles anos ganhasse recomendação de sua parte para trabalhar em outras casas de família. Os que lhe eram leais ganhavam alguma recompensa sempre, pois após o deslize de Ana no auto de fé, o inquisidor sentira ainda mais necessidade de prender seus aliados a si através de favores.

Num dia, já sem Josefa, Expedito tomara ao menino e o levara pela mão. Na volta, viera sem ele. Violante reparou e seu coração de mãe pulou no peito: sabia em seu íntimo que o homem havia feito algo com ele.

- Onde está Timóteo?

Sem sequer olhar nos olhos dela, tomando assento na sala como se aquele fosse um serão comum, o frei simplesmente declarou:

- Coloquei no colégio interno.

To be continued

OoOoOoOoOoOoO

Pois é. Sociopatas não amam os filhos, somente os tem como troféus e para inflar egos, jamais sentem empatia ou coisas positivas. São até capazes de dar coisas boas a eles, mas pelas razões erradas. Expedito, por exemplo, colocou o filho num bom colégio, mas a finalidade dele nem era dar ao menino uma boa educação, mas se livrar de um "estorvo" que na verdade estava a atrapalhar o "projeto" dele de fazer de Violante uma "extensão de si".

No próximo capítulo: a reação dela em face ao que o frade fez - e o castigo que receberá a partir daí...

Abraços a todos que lerem!