A MULHER DO INQUISIDOR
Capítulo 19
Por alguns segundos, Violante se tranquilizara. Afinal, ele fizera algo bom pelo menino. Mas no momento seguinte, pensara que não ia mais conviver com o filho, nem tê-lo mais a rezar consigo no altar.
- Mas ele é tão novo!
- É novo, mas já lhe disse que é de cedo que se torce o pepino.
- Não vou poder mais vê-lo?
- Uma vez na semana.
- Só uma vez na semana?! É muito pouco! Céus, o que ficarei a fazer nesta casa sem ele?
- Ora, o que fazia antes de ele nascer: costurar, cuidar das criadas...
- Mas justo agora que ele começava a falar melhor! Era um gosto lhe ensinar as coisas!
- Minha senhora, justamente por já falar mais corretamente é que Timóteo precisa ir ao colégio interno. Já a chamava de "mamã", em breve poderia soltar a língua aí fora... o que pensa que poderia ocorrer caso ele começasse a falar que é mãe dele? Eu por exemplo nunca deixei que ele me chamasse de pai...
- Também só o chama pelo nome, jamais de seu filho.
- É para não criar o hábito.
- Eu era tão feliz a criar essa criança...
- Vamos, o menino não te morreu! De qualquer forma, creio já estar na hora de vossa mercê me dar outro filho, não? Timóteo já está com quatro anos, assim pode criar a um novo rebento.
- Um jamais substituiria outro!
- De qualquer forma, um bebê novo não sairia por aí a falar que é nosso filho.
Dentro do coração de Violante crescia uma revolta que ela não sabia de onde vinha. Mas era o acúmulo de todas as coisas que passara até então. De repente, não quis mais ser submissa.
- Vossa mercê nem me consultou para saber se eu queria que ele fosse enviado para um colégio interno tão-já.
- Duvida das minhas decisões, minha senhora?
- Por que deveria aceitá-las sem colocar o que penso?
Expedito fechou o semblante.
- Sempre lhe deixei claro que a última palavra, nesta casa, quem daria seria eu.
- Sim, meu senhor. Na casa, não em meu filho.
- É meu filho também, e eu é que devo direcionar o que ele deve fazer de seu futuro.
- Ele era a minha razão de viver!
E então a fidalga explodiu em choro. Ultimamente, nem o sexo direito aproveitava com o homem: somente o amor de seu filho fazia com que sua vida fizesse sentido. E de repente se via sem ele. A revolta continuou a ferver em seu coração:
- Se eu tiver outro filho, será como? Hein, será como? Também o criarei, amamentarei, apenas para me ser tirado quando começar a falar melhor? Sou apenas uma reprodutora?
- Ninguém disse isso-
- Por quanto tempo ficarei assim? Sem poder chamar a meu filho de "filho"? Sem poder chamar a meu homem de "esposo" diante de todos? A ser tratada como uma governanta e não como uma mulher legítima!
- Pois vossa mercê desde o começo sempre soube que seria assim.
- Soube. Mas como! Como poderia escolher? Vossa mercê já havia armado tudo com João Fernandes!
- E preferia ficar naquela torre? Sozinha, sem ninguém, sem ganhar um beijo, eternamente seca?
- E sem apanhar também!
- Ora, essa conversa de novo...
- Sim! Pois além de tudo não mereço apanhar! E meu filho, que será dele?
- Já te disse que não morreu. É melhor assim. Tenho ainda muitos dos diamantes que Xica me deu, parte deles serão para o futuro de Timóteo. Ele foi a um colégio de padres, pode ser que também queira ser eclesiástico. Se não quiser, terá como casar-se com uma mulher de boa estirpe. Pronto! Simples: ele não te morreu, já disse.
- Mas, meu senhor...! E o meu futuro? Até a velhice terei de dizer a todos que meus filhos não são meus? Que meu homem não é meu? Até o fim da vida com medo da ameaça da denúncia e do degredo?
- Ora, minha senhora, há quanto tempo não nos ameaçam mais com isso!
- Mas a ameaça sempre virá a pairar! Céus, estou condenada! Senhor Expedito...! Se ao menos tivesse me dado escolha! Já havia tratado tudo com João Fernandes e mesmo que não me forçasse a ser sua na cama, não ia me permitir ser de outro homem, praticamente me obrigando a escolher entre si ou nada!
- Pare de reclamar da sorte! Pois se nenhum homem a quis antes de mim... andava que nem uma demente atrás do imbecil do João Fernandes!
A raiva ainda pulsava dentro dela. Por isso, Violante continuou:
- Tive sim homens que me quiseram! O senhor Antônio Carlos me pediu em casamento - e ainda tive de apanhar por um ato que sequer pratiquei!
- Pois preferia estar com ele agora?
- Preferia! Preferia estar com um homem que me desse o braço nas ruas e me chamasse de "esposa"! Não aguento mais essa relação clandestina, e agora perdi meu filho!
- Como ousa?!
O semblante de Expedito era tão pesado, que a fidalga por um segundo vislumbrou nele novamente o monstro ávido de sangue.
- E vossa mercê? Nunca sequer cogitou largar o título de religioso pra se casar comigo! Só pensa em si! Vai de dia fazer o que mais lhe dá prazer, que é condenar os hereges, e depois ainda volta para casa à noite para possuir a mim na cama! É boa! Uma fidalga, que era pra ter se casado na igreja, com tudo nos conformes...
- Uma fidalga que sequer conseguiu fazer com que seu legítimo marido se deitasse consigo!
- Poderia a essa hora estar com outro, um que usasse calças em vez de saias! Um que me deixasse criar meu filho sem medo de denúncias! Um que me deixasse enfim ser mulher! Um que não fosse covarde ao ponto de vir a me bater!
Mal Violante proferira estas palavras, Expedito lhe bateu com tanta força na face que um filete de sangue saiu de sua boca.
- Cale-se, atrevida! Eu disse que se um dia prevaricasse de forma séria contra nossa união, seria duramente castigada!
- Pois castigue! Ande, bata! Bata! Já apanhei tanto nestes cinco anos que nem sei mais se ainda me afeto!
- Ah, não sabe?
Sem mais cerimônias, o frei a arrastou pelos cabelos até o quarto, a pôs ajoelhada no oratório e lhe bateu tanto, que dessa vez não se importou de seu rosto ficar marcado, o nariz a deitar sangue. Dessa vez, não se conteve ou usou de método: seu sangue fervia de raiva. Nunca, naqueles cinco anos, a fidalga ousara dizer que preferia estar com outro homem! E aquilo ele não ia tolerar!
Após a surra, despira a parte de cima de seu vestido e a chicoteou várias vezes, até deixá-la quase em carne viva. Era uma dor bastante excruciante, e tal dor finalmente a fez calar.
- Nunca mais - nunca mais! - diga que prefere outro homem!
Estava furioso. Chegou a um ponto em que quis de fato matá-la. Mas se conteve. Quando viu que a mulher mal se distinguia de uma massa de sangue que ainda palpitava, decidiu parar.
- Agora vai ficar aí. De jejum, até amanhã. Veremos se amanhã eu lhe darei outra penitência!
Sem mais nada dizer, Expedito saiu do quarto e a trancou lá dentro. Quanto a Violante, estava com o pensamento tão turvo, que não conseguiria rezar ou fazer algo semelhante; até a dor não sentia mais. Estava como morta na alma, e isso não era de então; acontecia faz tempo já, mas com aquela surra ela percebera o quão mal estava.
Apenas sentia vontade de ir embora... de ir embora daquela casa, daquela vida. De ir embora.
Fechou os olhos. Naquele momento, não sentia nada além da vontade de fugir e do sangue que escorria das feridas, formando uma poça de sangue em torno de si.
Pensou em Timóteo - e em seguida caiu desacordada.
OoOoOoOoOoOoO
Acordou na banheira. Nos primeiros instantes, não sabia onde estava; sequer lembrava da surra de Expedito ou ainda do filho que fora internado no colégio de padres. De repente, sentiu uma mão a lhe esfregar os ombros.
- Hã?
- Acordou?
Era a voz de Expedito. No semblante dele, sempre tão fechado, vira o alívio.
- Meu senhor...
- Shhhhh, fique em silêncio. Não gaste energia à toa.
- Meu senhor, o que aconteceu?
- Acalme-se. Em breve saberá. Apenas descanse.
A água estava tinta de sangue. Ela respirou algumas vezes, com dificuldade, e cuspiu sangue.
- Que é isso?
- Não pergunte; depois falaremos.
Com os pensamentos ainda turvos, a fidalga desistiu de pensar. Já o frei, sentira que havia algo de estranho quando a deixara sozinha no quarto; afinal de contas, batera nela mais do que nunca antes. Exasperado, abriu a porta do quarto apenas para ver se ela estava bem... e a vira cheia de sangue, desacordada em frente ao oratório.
Ficou preocupado, pois se ela morresse em suas mãos seria algo extremamente danoso para a sua imagem pública. Se a quisesse vê-la morta, devia fazê-lo de maneira lícita, como matara Damásio ou Ana e sua família. Dentro do Santo Ofício. Mas ali, no oratório, não podia matar Violante. E além do mais, ainda não planejava matá-la. Ainda não. Devia aplicar um teste nela antes de decidir o que fazer.
Cuidou dos ferimentos e a deixou deitada no quarto. Ela não pegava no sono, e ele a velou por toda a noite; não podia deixar que morresse. Não em suas mãos. Após algum tempo, ela enfim falou:
- Que sangue era aquele?
- Foi uma penitência que apliquei em si.
De uma vez, num lampejo, ela lembrara tudo. O filho no colégio interno, os impropérios que ela dirigira a ele como nunca antes, a surra, as chicotadas. A vontade de ir embora e depois o desfalecimento. Ir embora... como o faria? Não tinha parentes em Portugal. Seu dote estava em poder de Expedito. Tudo conspirava para que ela ficasse ali, com Expedito, pro resto da vida - ou até quando ele quisesse.
Enquanto pensava nestas coisas, ele tomou sua mão e beijou.
- Perdoe-me, senhora.
- Por que?
- Exorbitei na penitência.
- Exorbitou?
- Sim, senhora. A penitência deve ser dada com método, com limites e controle, não com raiva e de maneira desmedida como eu fiz. Não tenho o direito de feri-la dessa forma.
Lágrimas toldaram os olhos dela. Ele a abraçou, beijando-a no rosto. Não a amava, era verdade; mas tinha de manter as aparências.
- Meu senhor...! Que está a acontecer conosco?
- Creio que não é hora de falarmos disto. Vossa mercê precisa dormir e descansar. Depois disso, poderemos conversar.
Violante silenciou. Estava assustada; o filho fora afastado de si, o homem quase a matara; era muito para sua cabeça processar. Então descansou, ao passo que o frei deitou-se ao lado dela, mas sem dormir. Se ela morresse em suas mãos daquela forma... seria o seu fim.
Ela dormiu e ele ficou a cismar, a pensar que de fato não era igual aos outros. Mesmo que tentasse, mesmo que quisesse, não conseguiria amar.
E por isso mesmo não queria.
OoOoOoOoOoOoO
Nos dias que se seguiram, ambos permaneceram em silêncio. Mal falavam, e como Violante ainda se recuperava das chicotadas e feridas, também não fizeram sexo. Aquele silêncio exasperava a Violante, pois quando o homem brigava consigo, ou mesmo quando batia nela, ela sabia o que esperar. Mas no silêncio tudo era muito vago, muito incerto.
Cinco dias após a penitência que quase a matara, Expedito a chamou para que enfim conversassem.
- Minha senhora, creio que agora já está melhor para falarmos. Vossa mercê disse, àquele dia, que estava cansada de não poder chamar-me de "seu marido", não?
- Sim, eu disse, mas foi só-
- Não tente atenuar as coisas. É assim que de fato se sente. Sempre pensei que um dia ia querer uma relação que pudesse exibir. Porém, minha senhora... jamais pensei que diria com tanta veemência que preferia até mesmo o senhor Antônio Carlos a mim.
- Eu não disse isso, eu-
- Disse, com todas as letras. Como pensa que me sinto? O homem que cuidou de si, lhe deu casa, criadas, o pai de seu filho... como pensa que me sinto?
- Senhor, eu na verdade quis dizer que desejava ser casada! Desejava sair com meu homem de braço dado na rua, como todas as outras damas! Mas eu não prefiro outros a si, eu-
- Pois muito que bem. Se precisa tanto assim de um casamento legítimo - algo que não posso lhe dar, embora tenha dado todo o resto, muito mais que alguns maridos aí fora dão às suas esposas - ainda está em tempo. Pode ir embora.
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
Iiiiiih, e agora? Que vai acontecer? Ele finalmente a dispensou! E ela, que fará?
Sobre a "penitência", se deixar a violência física leva à morte de fato. Não pensem que: ah, comigo ele não faz. Porque faz sim! Assassinos são "como todo mundo", não precisa parecer muito diferente não. Quem bate, mata. Escalona de tal forma, que muitas vezes acaba em morte.
Reparem que essa foi a primeira discussão deles, ou seja, ela finalmente tentou se impor e quase morreu. Das outras vezes, ela apanhava só porque algo não saía conforme ele queria - ou pior ainda, sem razão alguma, só porque ele tava a fim de bater.
No próximo capítulo, veremos se ela irá embora ou não.
Abraços a todos que lerem!
