A MULHER DO INQUISIDOR

Capítulo 20

Por alguns instantes, Violante piscara sem acreditar. Ir embora? Então ele a liberava? No dia anterior, somente pensava em ir-se; não sabia como, mas queria ir. No entanto, ao ouvir as palavras de Expedito a mandá-la embora, a coisa toda se tornava mais real.

- Meu senhor... está a me mandar embora?

- Vossa mercê não deseja um casamento legítimo? É algo que não posso dar. Portanto, minha senhora... pode ir caso assim deseje.

- Não tenho dinheiro nem parentes em Portugal. Que faria eu?

A fidalga esperava que o frei respondesse algo como "faça como desejar" ou "isso já não é problema meu", mas não foi o que ele disse. O que Expedito fez em seguida foi a última coisa que ela esperava.

- Minha senhora, tenho algo a lhe revelar. Algo que nunca revelei, mas necessito fazê-lo agora.

- O que?

Violante temeu um adultério, um filho bastardo da parte dele com outra mulher. Curiosamente, ainda se apegava nele a ponto de temer estas coisas. Mas não era nada daquilo.

- Vosso dote nunca esteve em meu poder. Sempre foi seu. Portanto, tem total cabedal e meios próprios para viver sozinha - até mesmo mentir dizendo que é uma viúva e poder casar-se de maneira legítima. É certo que já passou dos trinta anos, mas uma viúva dessa idade, e ainda por cima fidalga, ainda pode gerar um ou dois filhos e pode até mesmo "comprar" um marido pobre. Não faltarão pretendentes portanto.

- M-meu dote está em meu poder? Mas o senhor João Fernandes, ele não-

- Minha senhora, apenas lhe disse àqueles tempos que todo o seu quinhão estava comigo para que não caísse na tentação de arrumar um marido legítimo. Ou pior ainda: voltar a atormentar o senhor João Fernandes. Eu havia prometido a ele que a manteria afastada dele, e precisava fazer com que se cresse sem meios de ir atrás dele. Esse, aliás, era um dos medos dele: ao consentir com a anulação do casamento, automaticamente passaria o dote a si própria. Vossa mercê foi muito inteligente: lembro que sugeriu que o dote deveria ser passado à sua pessoa, pois já era maior de idade. Eu não sou seu parente; perante a lei dos homens não sou seu marido. Não tenho poder algum de ter, portanto, o dote de uma mulher solteira em minhas mãos. A não ser que fosse uma afilhada minha, o que nunca foi o caso.

- Mas meu senhor...

- Ademais, um frade quando se ordena faz três votos: pobreza, castidade e obediência. Nada posso ter em meu nome, senhora; a herança que minha família me passou foi para a igreja, e quando eu morrer continuará a ser toda dela. Por isso guardo parte dos diamantes de Xica para o futuro de Timóteo; eu como pai nada poderei deixar a ele de legado. Portanto, não poderia ter seu dote em mãos; apenas poderia administrá-lo se fosse uma afilhada ou sobrinha, algo assim. Não é o caso. Até esta casa, senhora... eu a comprei mas ela é da Santa Madre Igreja. Comprei com os diamantes que foram dados por Xica como doação - para a igreja, não para mim pessoalmente. É uma casa paroquial; caso um dia eu venha a falecer, passará a ser residência de outro sacerdote. Tudo que um homem religioso possui, na verdade, é da igreja; justamente por causa dos votos que profere.

A fidalga respirou fundo mais algumas vezes; era muito para ela processar em sua mente de uma só vez.

- E-então...

- Sim. É totalmente livre, minha senhora. Vá embora caso queira, pela graça de Deus.

Ao ver a total falta de resistência de seu homem; o homem com quem dormira por cinco anos; o homem que a fizera mulher; o homem que por tanto tempo fora a única relação significativa que tivera naquele tempo, uma vez que não tinha sequer parentes em Portugal e as amizades eram bastante escassas e superficiais, como dona Amália e outras beatas da igreja; ao lembrar dos momentos com ele, pensava nele não como o monstro ávido por sangue e dor, mas como o homem que a abraçava no começo da relação e dizia: nunca mais acordará sozinha. Nunca mais sentirá que foi abandonada. Ela dizia, feliz como era no começo, que temia acordar e perceber que ainda estava na torre onde João Fernandes a cerrara; e Expedito, beijando suas mãos, seu colo, seu rosto, seus lábios, dizia:

- Quando acordar assustada, a pensar que tudo que ocorreu entre nós não passou de um sonho; que eu não estou aqui; que ainda está trancada naquela torre sozinha, sem amor, sem um beijo; eu estarei aqui, e a abraçarei, e darei não um, mas vários beijos enamorados em si; quantos quiser receber. E demonstrarei que nunca mais, minha adorada senhora; nunca mais enquanto eu viver vossa mercê se sentirá sozinha outra vez.

Ela naquele tempo chegava quase a ponto de chorar emocionada ao ouvir estas coisas. As coisas que sempre desejara ouvir de um homem. E agora as lágrimas irrompiam outra vez, pois aquele mesmo homem que prometera nunca lhe deixar sozinha estava a dizer que podia ir embora.

- Vossa mercê quer que eu vá?

- Não quero. Mas se é sua vontade...

- Se não quer que eu vá, por que me manda embora?

- Porque vossa mercê quer um marido legítimo, pra andar nas ruas e chamar de seu. Não é?

As lágrimas caíam sem parar dos olhos dela, sem que pudesse conter.

- Não!

E então ela se jogou nos braços de Expedito, toda a tremer; o choro se tornou convulsivo, cheio de soluços, ela a afundar o rosto no peito de seu homem; ele, enquanto ela não via, simplesmente sorriu... tudo estava a sair como ele planejara.

- Que tem, minha senhora?

- Que tenho? Que tenho?! Acha mesmo que gostaria de ser uma mulher separada? Já não bastaram os dois noivos que me abandonaram? E Timóteo, como ficaria ao saber que os pais se separaram? Céus, que vergonha! Nunca antes em minha família uma mulher se separou após viver maritalmente com um homem!

- Então prefere ficar?

- Vossa mercê... ainda me aceita?

Expedito sorriu. Céus, ela quase morria em suas mãos e ainda pedia pra ficar! Estava a ser melhor do que ele pensava que ia ser.

- Claro que sim, meu amor. Eu a quero bem, como sempre quis.

E em seguida ele a apertou forte contra si. Violante continuou a chorar e escondeu o rosto no ombro dele, e mais uma vez o frei sorriu de maneira maliciosa, um prazer enorme ao vê-la rendida a si - mas ela não viu.

- Minha senhora, se for mesmo ficar, precisamos conversar sobre algumas coisas.

- Eu fico. Eu fico! Céus, senhor Expedito, não sei viver sem vossa mercê!

Nos olhos dela brilhava a chispa de quem via o outro como a única fonte de afeto, abrigo e alimento possível; mesmo que essa fonte a ferisse gravemente vez por outra.

- Então sentemo-nos aqui, sim?

Eles se sentaram no leito. O frei tinha de tomar cuidado; aquela hora era crucial. Por enquanto ela passara no teste que ele lhe aplicara, mas precisava ainda de mais provas que ela lhe seria fiel. Tomou as mãos dela e olhou em seus olhos.

- Senhora dona Violante, sei que ficou aborrecida com o fato de Timóteo ir para o colégio interno. Portanto, eu me comprometo a levá-la todas as semanas lá para que o veja. Também quero que uma vez por mês ele passe um tempo aqui. Sim, poderá continuar criando a seu filho. Mas também eu não podia tê-la agredido daquela forma como fiz. Então, farei a si uma nova promessa.

Calculadamente, Expedito beijou a ambas as mãos da fidalga. Com carinho, com ternura. Continuou a falar:

- Minha senhora, já que a incomoda tanto, não baterei mais em si. Juro por Deus, pelos anjos, santos e a própria Virgem, que nunca mais baterei em si.

- Oh... sério?

- Sim. Sempre pensei que era um bom método de disciplina, mas quando a vi caída ontem no chão, temi perdê-la para sempre. E também não sabe, minha senhora, que me fez sofrer grandemente ao dizer que preferia outro homem, pois apenas bati tanto em si e com tamanho descontrole, porque temia perdê-la? Eu não quero perdê-la; nunca. Portanto, não vou mais bater. Apenas com uma exceção.

- Qual?

- Em dias de penitência. Quaresma, dias santos, esses períodos. Mas então a penitência será previamente calculada e aplicada com limites, para que nunca mais passemos por um susto como aquele. Está bem assim?

- Sim, está.

- Sendo assim, quero que me prometa algo também.

- Diga.

- Quero que nunca mais diga que prefere outro homem. Já me foi tão duro deixá-la partir para se casar com João Fernandes àquela ocasião; imagine se tiver de ouvir mais uma vez que posso perdê-la. Não posso lidar com isso, meu amor. Não posso. Não peça para que eu faça o impossível outra vez; pois se já me foi tão doloroso deixá-la se casar com outro, quando sabia que vossa mercê já era enamorada de mim e só não se entregava ao nosso amor por meu ofício religioso; que o fato de ficar um ano abandonada na torre sem sequer ter pertencido de fato a seu marido fora um grande sinal de Deus, o qual eu agradeci diariamente por muito tempo pois assim vossa mercê poderia ser finalmente minha; se após ser minha de fato, ter um filho consigo, tê-la em meus braços e em nosso santo e imaculado leito por cinco anos; se após isso, eu tivesse de perdê-la outra vez, não sei se suportaria continuar vivendo. Talvez o Senhor me chamasse mais cedo!

- Oh, meu senhor!

- Portanto, por favor, nunca mais sequer pense em dizer que prefere outro homem. Em nome de Deus, de nosso amor, de nosso filho querido e de tudo que há de mais sagrado, nunca mais venha a prevaricar contra essa união que Deus permitiu que existisse até agora. Promete?

- Prometo! - exclamou ela, as lágrimas de emoção enchendo seus olhos - Prometo, meu senhor! Nunca mais tocarei no nome de outro homem na vida, a não ser no de meu filho Timóteo!

- Está bem. Também lhe darei outro voto de confiança maior ainda: farei a si uma cópia da chave da porta de casa.

- Sério? Mas não me queria aqui dentro, sem sair para fora?

- E ainda quero. As regras permanecem as mesmas: não pode sair sem mim de casa, sequer com a companhia de uma aia ou de uma das criadas. Porém, pode receber a chave para ter lá as suas amigas dentro de casa vez por outra.

- Mesmo? Confiará em mim a esse ponto?

- Sim. Lembre-se, porém, que tenho como saber as coisas que ocorrem aqui dentro. Caso vossa mercê não seja digna de confiança, tiro a chave. Mas caso se comporte como mulher direita e traga somente as senhoras da igreja aqui para um chá de tarde... não haverá problema algum.

Ela sorriu, abraçando-o logo em seguida. Esquecera do Expedito que quase a matara e somente se lembrava do Expedito que lhe dizia palavras doces. Então eles se deitaram e fizeram amor, o frei sendo carinhoso com ela outra vez, dizendo-lhe que iam sempre se amar e ser felizes dali por diante. Violante, mais uma vez, a se sentir como no começo da relação: com uma paixão avassaladora por ele, algo que não parecia ser deste mundo; a ideia de ir embora sequer lhe passava pela cabeça outra vez, sua mente correspondia com completa devoção àquele homem que dias antes quase a matara e a deixara desfalecida numa poça de sangue.

Estava dopada mais uma vez, e por isso Expedito sorrira; e quando ela dormiu enfim sussurrou baixo em seu ouvido:

- Sim... é mais que uma esposa. Finalmente está a agir como uma extensão de mim.

To be continued

OoOoOoOoOoOoO

E ela ficou, galereeeeeeeee! Faz o que com essa mulher?

Tem muita gente que acha que pessoas assim gostam de sofrer; mas não, após cinco anos de uma vida que mais se parece com um cativeiro, Violouca está quase completamente domada pela Síndrome de Estocolmo. A dependência emocional chegou a um ponto que sem ajuda externa ela não conseguiria abandoná-lo, mesmo tendo dinheiro para viver lá fora.

"Eu trocaria o Céu por um beijo de amor" inclui isso também, pelo visto.

No próximo capítulo: Violante permanecerá servindo de cobaia, pois Expedito ainda não desistiu de testá-la sobre o fato de ter-se transformado de fato em uma "extensão de si". A partir daqui, a fic entra em sua reta final.

Abraços a todos que lerem!