A MULHER DO INQUISIDOR
Capítulo 21
- Senhora Violante, mas que oratório mais lindo! Um primor!
A fidalga sorria a Conceição, a filha mais velha de dona Amália. Tanto ela quanto a irmã, bem como dona Amália mesmo e o filhinho da moça, que agora já contava com quase cinco anos de idade e já sabia rezas de cor, foram visitar a casa do inquisidor assim que Violante obteve dele a tal cópia da chave. Afinal, ficava bem para todos saberem que elas tinham boas relações com ele; assim já ficavam de fora das listas dos possíveis hereges.
- É um oratório muito bonito, de fato.
- Dessa forma nem se faz assim tão necessário ir à igreja.
- Ah, mas é necessário sim, senhora dona Amália! Afinal de contas, a igreja sempre é a casa de Deus!
- Verdade, verdade!
Maravilhadas, todas as mulheres pediram para rezar na frente do oratório. O mesmo oratório que tantas vezes vira o suplício e o sangue de Violante - e elas sequer sonhavam com isso. Rezaram todas o terço, e após isso tomaram chá e comeram alguma coisinha. A cozinheira, Marta, de fato era bem mais circunspecta que Ana; naqueles três anos, mal falava com a fidalga sobre algo que não fosse o preparo das refeições. Era desse tipo de criada que Expedito gostava.
A filha mais nova de dona Amália, Beatriz, finalmente estava com o casamento marcado. Já estava com vinte e três anos e o maior susto de nunca conseguir se casar. Mas a proposta viera e ela, enfim, tomaria esposo!
Violante a chamou de lado e lhe deu conselhos:
- Beatriz, agora que pertencerá a um homem, deve se dedicar a ele com toda a sua alma. Não negue nada a ele; nada mesmo! Somente o que ferir a sua honra, mas um bom homem jamais pedirá algo assim a si. Ele vai gostar de guardá-la e de tê-la somente para ele. E é assim que deve ser: deve ficar em casa, a rezar, a costurar. Nada de cair nas tentações dos bailes, dos passeios sozinha... isto faz a mulher cair na perdição.
Beatriz ouvia tudo, compenetrada. Agora todos sabiam que Violante era a mulher de Expedito, mas ninguém ousava tratá-la como concubina; e como tratá-la dessa maneira, sendo que a casa dela tinha exatamente o mesmo rico cheirinho da igreja? Por certo que a senhora não ficava um único dia sem rezar o terço ou acender velas aos santos.
Ao saírem de lá, já foram comentando:
- Viram só a aliança no dedo anelar dela?
- Que aliança?
- Aquele anel enorme, com uns brilhantes por cima!
- Aquilo é uma aliança?
- Pois só pode ser! Que mais seria?
- Mas a senhora dona Violante não é casada com o senhor frade!
- A não ser que...
- O que?
- Que ele tenha conseguido licença especial para casar-se com ela!
- Como assim?
- Antigamente os religiosos podiam casar. Ouvi falar que uma vez o cardeal veio aí vê-los; se viesse por causa de pecado, certamente não estariam aí como estão, ainda vivendo dessa maneira; nem Expedito seria ainda inquisidor! E não havia morrido ninguém na casa para ser velório. Isso só quer dizer que...
-...que o cardeal veio aí para casá-los!
- Céus, um frade casado! Nunca se viu disso!
- Mas se o próprio cardeal os casou... quem seríamos nós para contestar? E de mais a mais, como esta senhora, que nunca põe um decote, nem um pó de arroz no rosto, que só anda com crucifixos pendurados no pescoço... como esta senhora, que deu tanto conselho bom a Beatriz por estar prestes a se casar... essa mulher que nunca sai sem mantilha nas ruas... como que essa mulher, e juntamente com ela um inquisidor do Santo Ofício, se animariam a viver em pecado? Numa casa que cheira às velas da igreja? Como?! Com todos sabendo? É certo que se casaram.
Foram as três, abismadas, pensando neste assunto até chegarem em casa. O menino de Conceição, esse era o único que ia totalmente na inocência. Apenas pensava nos próximos folguedos e no que ia comer nas próximas horas.
OoOoOoOoOoOoO
- Vieram aqui?
- Sim, meu senhor.
- E que acharam?
- Amaram meu oratório! Até quiseram rezar o terço nele!
- Elas entraram em nosso quarto...?
- Ah, meu senhor... não podia dispensá-las sem mostrar-lhes o oratório!
- Mas, minha senhora... elas viram a cama de casados!
-...foi uma imprudência de minha parte, pois sim?
- Deixe estar. Se ficaram tão encantadas com o oratório, sequer devem ter reparado na cama. Mas, senhora dona Violante, há um assunto que gostaria de tratar com vossa mercê.
- Qual?
- Timóteo já está com quatro anos; eu já vejo a casa dos quarenta se aproximar de mim, e vossa mercê já está com trinta e três. Não acha que está na hora de me dar mais um filho?
- Bem... creio que sim! Mas o filho simplesmente não veio...
- Pois reze. Reze, que Deus vai mandar. Quero pelo menos mais um; um bom cristão não deve ter um filho só.
- Verdade. Rezarei então para que a graça de Deus nos contemple com mais um filho.
E assim Violante passou a fazer novenas especialmente para aquela finalidade: a de ter um novo rebento. De fato, após quatro anos se sentia pronta para ter outro filho. E de mais a mais, sentia falta de ter umas mãozinhas de bebê para acariciar, um serzinho que dependesse de si... sim, ela queria outro filho e era a hora de pedir por ele.
Quanto a Expedito, ficara um pouco apreensivo com o fato de as beatas terem visto a sua cama de casal em casa; de fato, somente abrira a sua casa às amigas de Violante porque a mulher precisava sentir que sua união se parecia com algo legítimo. E de certa forma, porque queria ver até onde seu plano já havia dado certo.
Ora, começara a treinar Violante a ser uma extensão de si há cinco anos. No começo, ela de fato poderia ser voluntariosa e expressar sentimentos diferentes. Mas após cinco anos, caso o trabalho não houvesse dado certo, provavelmente não daria mais.
E se houvesse dado certo... deveria já dar sinais de que dera. E como saber se havia sinais, senão lhe dando algo que parecesse com liberdade e independência? Na verdade, seu controle era ainda tão ou mais cerrado do que antes; perguntava às criadas como Violante estava a agir, ia espionar sem que ela soubesse nos horários em que saía sorrateiramente do Santo Ofício... tudo isso pra ver se ela estava a se comportar como ele previa.
E estava. Felizmente estava. Sorriu consigo próprio ao constatar isso.
Qual não foi sua surpresa, no entanto, ao perceber que o "boato" ia a seu favor. As beatas logo trataram de espalhar aquilo de ele ser oficialmente casado com Violante, e em breve alguns até mesmo o felicitavam. Ele não entendia, mas quando enfim entendeu, sorriu. Se todos o tivessem nesta conta, poderia andar com ela na rua, a chamá-la "sua mulher", como todos os outros! Mas era melhor tomar cuidado. Se os eclesiásticos, os quais sabiam a verdade sobre as leis canônicas, interpretassem aquilo como alguma espécie de heresia, ele poderia inclusive, além de perder o cargo, ser processado pelo próprio Santo Ofício que ele mesmo dirigira por anos a fio!
Por isso, agiu com cautela. Mas após alguns sacerdotes se rirem daquela "anedota" e nada mais fazerem além de gracejar, ele se sentiu mais seguro.
Por incrível que parecesse, naquele período mesmo, num dia em que estava deitado na cama com Violante, ela dissera a ele:
- Meu senhor, será que eu poderia chamá-lo de "senhor meu marido"? Seria tão bom...
E ele, ao perceber que tudo conspirava a seu favor, sorriu e disse:
- Mas é claro, minha senhora. Sempre considerei que nossa relação era como um casamento legítimo; pois se acha que eu a considerasse de outra forma, proporia para ficarmos juntos? Jamais; sempre nos considerei casados e penso que Deus também assim nos encara desde sempre.
- Então está bem... senhor meu marido!
Ambos sorriram, e Expedito ainda mais; se conseguisse convencer a sociedade de que era de fato casado com ela, somente teria a ganhar - da sociedade e dela também.
OoOoOoOoOoOoO
Certo dia, o inquisidor chegou em casa e viu Violante a se abanar. Dispensou as criadas e só então sentou-se com ela para saber o que era aquilo.
- Que tem, minha senhora?
- Ah... meu senhor, creio que preciso me confessar!
- Pois diga. Estamos a sós aqui dentro.
- Meu senhor... eu tenho até vergonha de falar, mas a verdade é que não estou a ter conduta digna de uma mulher decente!
- E por que?
- É que fico cá dentro dessa casa... somente pensando em si!
Expedito sorriu.
- Pois se é a pensar em mim, que mal há?
- É mal porque... ah, eu só fico pensando em quando vai voltar e... - antes de dizer ela fez o sinal-da-cruz - e me possuir! Ah, fico passando vontade o dia inteiro!
O frei sorriu outra vez.
- Mas, minha senhora, isso é normal!
- Normal? Normal para uma mulher ficar a desejar homem o dia inteiro, mesmo que esse homem seja o seu? Ah não, meu senhor... estou a adoecer!
- Pois não, meu amor. É natural! E sabe por que? No fundo, somente tem essas vontades porque sua natureza de mulher a impele a ter outro filho meu!
- Ah... sério?
- Pois é claro! Quer um filho, e como ter o filho senão desta forma? Ande; se é para cumprir a seu dever de mulher e de mãe, não é pecado.
- Mas... senhor, então não mereço penitência?
Expedito continuava a sorrir. Se fosse em outros tempos, lhe daria uma surra como penitência. Mas como toda a questão com o chicote e a quase-morte dela era ainda recente, decidiu-se por adiar.
- Apenas reze bastante após os deveres conjugais, para que Deus mande a criança o mais rápido possível.
- Pois então se for pra criança vir, não é pecado sentir assim tanto desejo?
- Não.
Dessa forma, loucos de vontade um do outro, entregaram-se aos atos lúbricos e pensaram em tudo, menos na criança que poderia vir.
- Como pode ser pecado, se é tão bom...? - sussurrava ela, extasiada, após o fim do ato. Mas então lembrou-se que tinha de rezar.
- Meu senhor... vou vestir a camisola e rezar!
- Ainda não... fique mais um pouco.
- Mas...
- Fique. Terá tempo ainda para fazê-lo.
E ficava a passar a mão nela toda, a sentir seu cheiro, e então sentia vontade de tomá-la outra vez. E a tomava, para deleite de ambos.
Após isso, banhavam-se e ela, ainda encantada com ele, não o largava de maneira alguma.
- Meu senhor, mesmo após o ato, não consigo deixar de querê-lo perto de mim!
O inquisidor sorria outra vez. Era mais um bom sinal aquele. Um sinal de que as coisas estavam saindo como desejava.
Após o banho, ela colocava uma camisola e ia rezar incessantemente para já estar grávida. E ele ia dormir, pois precisava acordar bastante cedo no dia seguinte.
Os dias que se sucederam foram todos assim: Violante a rezar e a pedir o filho, enquanto desejava ao homem durante todo o dia. Expedito lhe dizia que aquilo era até bíblico, pois no Gênesis estava escrito que a mulher teria desejo ardente de seu marido, e ele a dominaria... e assim Violante rezava e o esperava, querendo logo que os sinais da gravidez aparecessem.
Num desses dias, no entanto, à tarde, quando seu homem se encontrava no Santo Ofício, a criada a interpelou. Ermínia era uma mulher de meia-idade a qual substituíra a Maria da Graça quando esta parara de trabalhar. Geralmente trabalhava calada, mas com as visitas a Violante nos últimos tempos ela avisava à senhora quando havia alguma. E naquele dia havia.
- Minha senhora, há um homem na porta. Ele deseja lhe falar.
- Homem? Tem certeza de que é para mim? O senhor Expedito não me permite visitas de homem!
- Ele diz que é com vossa mercê.
- Ora... diga a ele que o inquisidor se encontra na sede do Santo Ofício e que caso deseje, pode se dirigir a ele, sim?
A criada assentiu e saiu a levar o recado. Violante voltou a rezar, cismando com aquela declaração. "Que homem seria esse que vinha visitá-la durante o dia, sem Expedito em casa? Mas que despropósito!", pensava enquanto os dedos passavam pelo rosário.
Ermínia, no entanto, logo veio a ela outra vez.
- Senhora, perdoe-me interromper outra vez. Mas... o homem insiste e diz que é com vossa mercê mesmo que quer falar.
- Que? Por um acaso ele disse quem é?
Violante já pensava que talvez um de seus irmãos estivesse de passagem por Portugal e a houvesse vindo visitar. Se fosse seu irmão e ela o recebesse, provavelmente Expedito não acharia ruim. Mas então a criada veio com a informação que fez seus cabelos se arrepiarem:
- Ele diz ser João Fernandes de Oliveira.
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
Iiiiihhhh, agora lascou! Que é que o João Fernandes, homem por quem Violante lutou por anos a fio só pra depois ser abandonada na torre, foi fazer na casa dela sem o Morcego por perto?!
Suspense chato esse... rssssssss!
Abraços a todos os que lerem!
